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Internet: não dá para fugir

Mais de metade dos produtos lançados na última CES, duas semanas atrás, trazia algum tipo de conexão com a internet. É o que diz pesquisa da GSMA, associação internacional que representa as operadoras de comunicação móvel. Seus dados são incontestáveis: 90% dos TVs que vimos em Las Vegas, 30% das câmeras, 44% dos aparelhos usados em cuidados com a saúde e 70% dos recursos introduzidos em automóveis tinham ligação com o uso da internet.

Traduzindo: não há como escapar. Cada vez mais estaremos conectados, e os chamados Smart TVs – que permitem acesso direto à web, sem computador – são apenas a parte mais visível desse iceberg. O levantamento inclui todo tipo de gadget usado para os mais diversos passatempos, e ainda vai até a cozinha: o setor de eletrodomésticos pela primeira vez marcou presença na CES este ano, com refrigeradores e máquinas de lavar que também se conectam à internet!

Outros exemplos na mesma linha: cortina motorizada que pode ser aberta (ou fechada) remotamente, através de um aplicativo; aspirador de pó que você pode comandar também à distância, acompanhando seus movimentos pela tela do celular; tablets para uso debaixo d’agua, sem perder o contato com sua rede; e por aí vai. E há, claro, os automóveis. Segundo a GSMA, existem hoje rodando pelas ruas e estradas do mundo cerca de 1,8 bilhão de veículos, dos quais apenas 1% conseguem se conectar à internet (dados de 2011). Para 2020, a previsão é de que esse percentual subirá para 14%. Considerando que a frota mundial só tende a crescer, pode-se imaginar o tamanho desse mercado.

É o que alguns especialistas estão chamando, vagamente, de “internet das coisas”. De todas as coisas, enfim. Mais detalhes sobre o estudo, aqui.

Todo mundo com antivírus!!!

Boa iniciativa da colega Elis Monteiro e seu site TechTudo: uma campanha nacional (no caso, podemos dizer “viral”, sem trocadilho) para que todo mundo que usa a internet (e quem não usa?) mantenha seus antivírus atualizados. A ação está sendo encampada pelo Comitê para Democratização da Informática (CDI) e já conta até com um site de apoio, o Brasil sem Virus. Claro, o objetivo é combater essa praga virtual e, de quebra, ajudar a reduzir os crimes virtuais, modalidade em que nosso país, infelizmente, é um dos líderes mundiais. O movimento vai distribuir cerca de 2,5 milhões de antivírus. É pouco, diante da quantidade de computadores existentes, mas espera-se – é o mínimo – que cada usuário faça a sua parte, atualizando seus programas de proteção.

Ainda não se convenceu? Que tal esta informação: a cada 30 segundos, um hacker ataca um computador. Neste exato momento, pode ser o seu!

Obsoleto ou não: eis a questão!

Reportagem de Tatiana de Mello Dias, no Estadão desta segunda-feira, aborda o documentario franco-espanhol The Light Bulb Conspiracy (“A Conspiração da Lâmpada”), ainda inédito no Brasil, mas que pode ser visto aqui (duvido que seja lançado comercialmente). É uma bela aula sobre a industria da tecnologia, ou – como querem os críticos mais azedos do consumo – um “golpe no capitalismo ocidental”. Basicamente, o filme defende a tese de que a industria lança produtos descartaveis para obrigar as pessoas a continuarem comprando, indefinidamente, e assim perpetuar a roda-viva do consumo.

Já li e ouvi esse conceito algumas vezes e, realmente, merece uma ótima polêmica. Todo mundo um dia já teve um produto que parou de funcionar, não interessa o motivo, e na ocasião deve ter considerado a hipótese levantada pelo filme. O raciocinio é tão automático que chega a parecer primario: se meu TV deu defeito com apenas algumas semanas de uso, é porque o fabricante descuidou da qualidade ou, pior, fez de propósito para que eu trocasse por um novo. Nada mais sedutor do que descarregar toda a raiva daquele momento sobre a marca. E isso é feito rotineiramente, não só no Brasil, mas na maioria dos países – e quanto mais desenvolvido um povo, mais alto é o seu nivel de conscientização a respeito.

No filme, é citado como exemplo o caso da Apple, que já gastou fortunas em indenizações a consumidores cujos iPods deixaram de funcionar poucos meses após a compra. O documentario trata esse e outros como casos de “obsolescência programada” (planned obsolescence), acusando a Apple de ter produzido seu aparelho mais vendido até hoje “intencionalmente” para forçar a troca contínua.

O espaço aqui é curto (estou escrevendo um artigo a respeito), mas não quis deixar passar a oportunidade de chamar a atenção dos leitores para que, se puderem, assistam ao filme. Eis aí um tema que é importante discutir, com boas informações à mão, em vez de simplesmente sair xingando esta ou aquela empresa. Lembro que, anos atrás, cheguei a debater a questão com um executivo inglês. Segundo ele, acusar uma empresa de propositadamente prejudicar seus consumidores implica em achar que ela é comandada por imbecis. “Por que uma companhia gastaria milhões em marketing, telemarketing e cuidados com a sua imagem, se tudo isso pode ser simplesmente incinerado ao lançar um produto ruim?”

Sim, há abusos, e muitos, acrescento, especialmente num país como o Brasil, onde as leis de defesa do consumidor são desrespeitadas a todo momento, quando não ignoradas pelos principais interessados (os consumidores). Mas, daí a pensar em conspiração vai uma longa distância.

Bem, assistam ao documentario e reflitam. Voltaremos a comentar o assunto aqui em breve.

Discos para viagem

A propósito do comentario de anteontem sobre o fim dos CDs, lembrei que uma das novidades mostradas na CES foi um recurso chamado “Disc to Digital”, incluído nos novos players Blu-ray da Samsung. Funciona desta forma: você coloca um disco e, acionando uma tecla, o aparelho faz uma copia digital daquele conteúdo. Pode ser só audio ou audio + video, não importa. Tudo é transformado num arquivo digital que você pode transportar para outro aparelho. Claro, a copia será codificada e terá de ser “autenticada” para permitir reprodução – esta, somente em produtos da mesma marca. Mas a ideia é que o usuario seja “dono” do material, para poder usá-lo em qualquer lugar, utilizando aparelhos portateis como smartphones, tablets e notebooks.

De certa forma, é o que já se faz hoje na plataforma iTunes, usando aparelhos da Apple. Será que outros fabricantes vão seguir a mesma linha?

TV paga: 12,7 milhões de assinantes

Como se previa, passou dos 30% a expansão da TV por assinatura no Brasil em 2011. A Anatel divulgou os dados oficiais na última sexta-feira, revelando que quase 3 milhões de assinantes foram incorporados ao mercado nos últimos doze meses (precisamente, 2.975.032). O número praticamente repetiu o crescimento do ano anterior, só que agora sobre uma base mais alta. Impressionante a quantidade de familias que aderiram ao serviço somente no mês de dezembro: 301.730. Com tudo isso, as operadoras atingiram um total de 12.744.025 assinaturas, confirmando que esse é, de fato, um dos principais objetos de desejo do consumidor brasileiro. Vejam a tabela abaixo:

ANO

2006

2007

2008

2009

2010

2011

CRESCIMENTO     9,7%    16,7%    18,1%    18,2%    30,7%    30,4%

Mais notavel ainda foi a expansão da TV via satélite (DTH): dos 301 mil novos assinantes registrados no mês passado, nada menos do que 251 mil optaram por esse serviço, que já soma 6,984 milhões de domicilios, contra 5,518 milhões da TV a cabo. Entre os estados, os cinco que mais cresceram em 2011 foram, pela ordem, Piaui, Pará, Tocantins, Bahia e Pernambuco; o que teve menor crescimento (apenas 20,37%) foi o Paraná.

Clique aqui para ver os dados completos.

Tecnologia muda tudo

De outro amigo, José Roberto Muratori, recebo um link mais curioso. Do escritor Erik Qualman, autor de “Digital Leaders”, uma lista de 48 itens que, segundo ele, a tecnologia irá aposentar até o final desta década. Vale a pena analisar cada um deles, embora alguns sejam óbvios: o livro impresso, o jornal, o DVD, a agência de viagens, o talão de cheques, o despertador, o operador de pedagio, o mouse… Outros, porém, são menos evidentes.

Qualman já nota, por exemplo, que a moçada já não gosta de usar relogio de pulso, substituído – com vantagens – pelo celular. Ninguém mais usa também enviar um currículo impresso a um possivel empregador; é cada vez mais comum replicar o proprio perfil no Facebook ou, melhor ainda, no LinkedIn, que é uma rede social voltada justamente para atividades profissionais. O proprio cartão de crédito tende a desaparecer, com a popularização da tecnologia NFC (Near-field Communication), pela qual já é possivel pagar contas com o celular. Mas as mudanças vão muito além, diz Qualman, com base nas pesquisas que realizou para seu livro, que analisa como devem ser os novos líderes das empresas nesta era digital.

A educação é um dos setores que sentirá maior impacto com a introdução de recursos tecnológicos. Qualman acha até que a sala de aula irá acabar: os estudantes poderão ficar em casa, assistindo a videos didáticos pelo YouTube (ou algum site do gênero) e trocando informações entre si, e com seus professores, via redes sociais. As eleições tendem a se tornar digitais, diminuindo as abstenções e permitindo a contagem dos votos em tempo real. Instituições como os correios e as lojas de departamento também estão condenadas. De fato, as maiores redes de varejo do mundo estão fechando filiais, e cada vez mais as pessoas trocam correspondências online. E é de se esperar que acabem também os postos de combustivel, surgindo em seu lugar pequenas estações de energia elétrica onde o proprio motorista pode plugar um cabo para realimentar seu carro!

Mas tudo isso tem um preço, ressalva Qualman. Ao se encontrar com uma garota, por exemplo, você já terá tantas informações sobre ela (e vice-versa) – afinal, ambos terão seus perfis no Facebook – que aquele friozinho na barriga tão romântico deixará de existir. Isso mesmo: ninguém mais terá vida privada, pois tudo que você fizer estará na rede. “Mas cada um de nós terá direito a seus 15 minutos de privacidade”, diz ele.

Belo consolo!

Será o fim dos CDs?

O amigo João Carlos Jansen Wambier me envia o link para uma das noticias mais tristes das últimas semanas: as principais gravadoras estão preparando o fim da distribuição de CDs, talvez ainda este ano. Saiu no site inglês side-line.com, especializado no mercado de música, e foi confirmado por fontes (não oficiais) das empresas. O plano seria manter a produção de CDs apenas para edições especiais; discos “normais” seriam vendidos só por sites como Amazon.com e, claro, abandonando totalmente o conceito de “álbum” – o proprio usuario monta sua coleção de músicas de acordo com a sua conveniência.

Para quem é mais jovem, deve parecer que estou escrevendo a partir de outro planeta! De fato, hoje os downloads se tornaram tão comuns (“ubiquos”, como dizem os americanos) que a mera ideia de comprar um CD ficou fora de moda. Nem vou falar de pirataria: os sites de venda legal de música são cada vez mais acessados, inclusive aqui no Brasil, onde a loja iTunes estreou no final do ano passado. Com o tempo, deve acontecer com os CDs o mesmo que hoje vemos com os LPs, revigorados num segmento de nicho.

Já os veteranos como eu provavelmente se sintam desolados com a noticia. Sim, também baixo músicas na internet, onde aliás encontrei dezenas de canções que simplesmente haviam desaparecido do mercado de discos. Mas, como diz o João Carlos, a facilidade do download tira muito do prazer de se buscar um disco desejado. De certa forma, banaliza o ato de consumir música, roubando do usuario a noção de valor que deveria acompanhar uma boa obra musical. Pensando bem, talvez isso até tenha a ver com a má qualidade geral da música de hoje, em que qualquer rostinho bonito ou figura exótica é alçado à condição de “artista”.

Bem, mais um pouco nostalgia. Acabaram de chegar aqui em casa dois CDs que encomendei ainda antes do Natal e estou ansioso para ouvir: “Black Coffee”, de Peggy Lee, gravação do selo Decca em 1956, remasterizado em alta resolução (96kHz, 24-bit) e relançado pela Verve; e a edição de 50° aniversario de “Time Out”, com o quarteto de Dave Brubeck, em dois CDs que além do álbum original (incluindo a versão clássica de Take Five) trazem faixas gravadas no Festival de Jazz de Newport, nos anos 60, mais um DVD com trechos de shows, bastidores da gravação de “Time Out” (que durante anos manteve-se como o disco de jazz mais vendido da Historia) e um depoimento exclusivo de Brubeck – por sinal ainda ativo, aos 91 anos de idade, com o quarteto de cuja formação original ele é o único sobrevivente.

Onde encontrar essas preciosidades para download? E, encontrando, não seria um sacrilegio baixá-las para ouvir em MP3?

Quais foram os melhores TVs da CES

Ia mesmo escrever a respeito dos produtos que mais me chamaram a atenção na CES quando um amigo me veio com a pergunta: “Qual foi o melhor TV que você viu?” Dificil escolher um só. Se fosse para comprar (ou indicar) um, teria que considerar varios aspectos, e certamente seria necessario reavaliar cada um dos modelos lá exibidos (alguns, aliás, já estão à venda no Brasil). Os atuais plasmas Panasonic e Samsung, assim como os LED-LCDs Sony, Samsung e LG não ficam muito atrás dos que vimos em Las Vegas. Para ser justo, portanto, tenho que pesar o que os aparelhos mostrados nos estandes trazem de inovação e potencial para o futuro. Vamos lá:

1. OLED – Samsung e LG largaram juntas nessa corrida, e dificilmente serão alcançadas. Os dois modelos apresentados, ambos de 55 polegadas, são belíssimos no design. E exibiram imagens muito superiores às que estamos acostumados. Resolução, nivel de preto, profundidade, saturação… tudo excepcional. Quem puder já deve ir fazendo sua poupança para comprar um.

2. 4K – Chega a ser covardia, considerando que não existe (ainda) conteúdo desse padrão para usarmos em casa. De qualquer forma, as imagens que vimos nos TVs Panasonic, Samsung, LG, Sony, Sharp e Toshiba são insuperaveis. O raciocinio é lógico: se conseguem reproduzir tão bem essa resolução (que equivale a quatro vezes a de um Full-HD), é evidente são TVs acima de qualquer concorrência.

3. Plasma Panasonic – A nova serie VT50, com modelos de 55″ e 65″, deve manter a dinastia da marca. Com certificação THX, o fabricante desenvolveu uma nova geração de processadores que melhorou ainda mais a resposta nas cenas rápidas, aprofundou o preto e aumentou a gradação de cores. Foram as melhores imagens 3D que vimos na CES. Em tempo: a empresa também exibiu plasmas de 85″ e 103″, mas estes não estarão à venda tão cedo.

4. LED-LCD Sharp - Para desgosto daqueles que se sentem lesados pela empresa no passado, a Sharp continua na linha de frente quando se trata de LCD. Um de seus modelos faz a conversão do sinal de TV (1080i) para 4K com impressionante eficiência.

5. 3D sem óculos – Aqui, a primazia foi da Sony, com seu modelo de 46″. Confesso que não fico muito à vontade com imagens tridimensionais, mas talvez seja efeito dos óculos (ainda mais porque já uso óculos normalmente). O TV autoestereoscópico – aliás, vão ter que encontrar outro nome – pareceu exibir imagens mais agradaveis que os 3D convencionais, reduzindo o cansaço visual.

6. Sharp LCD 8K – Com 85″, este TV foi o que mais se aproximou do que vimos, anos atrás, na sede da NHK, emissora estatal japonesa, em Toquio. Foi a NHK que forneceu à Sharp as imagens exibidas na CES. Para espanto dos visitantes, as imagens 2D têm tal profundidade que às vezes pensamos estar diante de 3D.

7. Sony Crystal LED – O segredo deste TV de 55″ está num tipo diferente de leds usados no painel de backlight. São dispositivos minúsculos, quase equivalentes ao tamanho de um pixel. Segundo a Sony, são usados 6 milhões deles (2 milhões para cada cor primaria). Por ser apenas um protótipo, não dá para falar muito. Mas foi uma das imagens mais impactantes que vimos.

8. Toshiba 3D Dual-Core – Embora tenha deixado a desejar na questão do 3D sem óculos, a empresa japonesa saiu-se bem com esta solução: um processador de nucleo duplo, de 1GHz, dedicado às imagens do modelo L7200, fez enorme diferença. Foi a melhor conversão 2D-3D a que pudemos assistir na CES. Detalhe: com óculos passivo.

Sempre é bom lembrar que tudo isso foi exibido numa feira de tecnologia, onde acontecem duas coisas: os aparelhos são exaustivamente preparados (às vezes manipulados) pelos fabricantes, sem que o espectador possa perceber eventuais truques de demonstração; e a quantidade de informação a que somos submetidos acaba, por vezes, deturpando um pouco o julgamento. A boa noticia é que, com exceção do Crystal LED da Sony, todos os produtos que comentamos devem chegar ao mercado, talvez ainda este ano. Vamos ver se os fabricantes conseguem, em suas linhas de produção, manter o desempenho mostrado em Las Vegas.

Quem tiver paciência verá.

 

 

Morte mais do que anunciada

Nesta quinta-feira, consumou-se num tribunal de Manhattan a concordata da Kodak Eastman Co., uma das marcas mais antigas do planeta. Comemorando 131 anos de existência, a corporação que ensinou tanta gente da fotografar caiu no famoso Capítulo 11, que é o item da legislação americana referente à quebra de empresas. Já tínhamos comentado aqui a situação da Kodak, que no início do ano passado havia acumulado prejuízos da ordem de US$ 7 bilhões em seis anos. Sabia-se que o resultado era fruto da inercia de seus executivos diante da transição do mundo analógico (onde se destacava o filme Kodachrome) para o digital. Quando se deu conta, a Kodak não tinha mais como escapar do buraco.

Agora, segundo The Wall Street Journal, a empresa aceita a derrota, mas sai atirando. Além de seus erros de gestão, coloca parte da culpa em “parceiros” que, na hora H, a abandonaram. Antoinette McCorvey, diretora financeira a quem coube carregar esse abacaxi, citou nominalmente Apple, HTC e RIM (Blackberry) como empresas que compraram patentes suas, não pagaram o que fora combinado e depois passaram a usar outras patentes sem autorização (as três respondem a processos desse tipo). Desde que o mundo se tornou digital, a receita relativa a patentes era o que vinha mantendo a Kodak de pé. Agora, nem isso.

O fundador George Eastman (na foto ao lado de Thomas Edison) deve estar se remoendo no túmulo.

 

 

 

 

 

 

Ginga pra cá, Ginga pra lá

Há cerca de dois anos, começaram a ser lançados no Brasil os TVs com conversor digital embutido (o chamado set-top box). Não foram propriamente um sucesso, mas com certeza ajudaram a vender mais aparelhos. Com um TV desses e uma antena apropriada, o usuário pode sintonizar o sinal das emissoras digitais (SBTVD) e ter acesso a todos os serviços que, pelo cronograma previsto, seriam incorporados ao padrão de TV brasileiro. Entre esses serviços, um dos mais interessantes era a interatividade, ou a possibilidade de “conversar” com a emissora através de recursos interativos. Lembro até hoje de um discurso do ex-ministro Helio Costa anunciando o famoso Ginga, que o Brasil implantaria até mesmo antes dos países desenvolvidos!

Pois bem, já se passaram quatro anos do lançamento do SBTVD e, embora varios fabricantes tenham lançado TVs com interatividade, pouca gente sabe sequer que isso existe. Com exceção de Globo e SBT, mesmo assim em horarios bem restritos, nenhuma emissora investiu nisso. E têm elas um excelente motivo: é um investimento que não se paga. Para ser atrativa, a interatividade exige desenvolver software proprio, com visual agradavel. As emissoras só irão fazê-lo se tiverem quem pague a conta, ou seja, anunciantes. Estes, por seu lado, só investirão se acreditarem que o público aceitará a inovação e participará, aumentando (ou pelo menos qualificando) a audiência.

E, no entanto, o governo agora quer obrigar os fabricantes de TVs a adotarem, por decreto, a interatividade. Segundo o site Convergência Digital, será imposto um calendario para isso, obrigando que pelo menos 30% dos TVs produzidos no país este ano venham com set-top box; para 2013, seria exigido percentual de 60%; e para 2014, 90%. Hoje, o total gira em torno de 10%. Diz ainda o site que a decisão foi tomada após longas e infrutíferas negociações com a industria e devido ao “desespero” dos desenvolvedores de software, que até agora só tiveram prejuízos.

Vejam como é facil inverter as coisas. Quem hoje compra um TV com interatividade (Sony e Philips informam que todos os seus modelos possuem) não tem o que assistir. O problema, portanto, não está nos aparelhos, mas nas emissoras, que deveriam colocar esses conteúdos no ar. E o governo, seja por incompetência ou por não saber como pressionar as emissoras, vai em cima da industria.

Em tempo: segundo a Eletros, que representa a maioria dos fabricantes, um TV com conversor embutido custa, em média, R$ 180 a mais. Alguém perguntou se o consumidor quer pagar essa diferença?

Concessões de TV: novas regras

Decreto assinado pela presidente Dilma Roussef nesta segunda-feira altera as regras para concessões de radio e televisão. A ideia seria acabar com as emissoras registradas em nome de “laranjas” ou de pessoas que não têm condições financeiras de tocar um negocio complicado como esse. Segundo o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, existem pelo menos 100 processos correndo na Advocacia Geral da União para tentar retomar frequências concedidas e cujos concessionarios não pagaram as outorgas. Com as novas regras, quem quiser uma emissora terá que comprovar sua capacidade de mantê-la funcionando e indicar a origem do dinheiro a ser investido; a outorga terá de ser paga à vista, e não mais em duas parcelas, como acontecia até agora.

Para não por o dedo na ferida, o ministro fugiu de explicações sobre o carater político das concessões – como já comentamos aqui, a maioria dos proprietarios de emissoras é formada por parlamentares, prefeitos, governadores e/ou seus amigos e prepostos. Bernardo acha que uma eventual restrição a isso não poderia ser feita através de decreto, mas sim com uma lei específica; esta, é claro, teria de ser debatida e aprovada pelos… isso mesmo, os políticos. Traduzindo: pouca coisa deve mudar no atual tráfico de influência que comanda as concessões.

Mas há um outro ponto do decreto que me parece tão ou mais perigoso. Como revelou a repórter Lu Aiko Otta, do Estadão, serão retomados este ano os antigos leilões para concessões de radio e TV, agora sob novos criterios. Até hoje, para ganhar uma concessão o candidato tinha que se comprometer a colocar a emissora no ar no prazo mais curto; com a mudança, o governo vai querer saber também qual será o conteúdo da programação. Paulo Bernardo indicou que “jornalismo e cultura serão os itens de maior peso”, assim como as produções independentes, e aí é que mora o perigo. Que jornalismo? Que cultura? Quais independentes?

Os varios programas policiais que grassam na televisão brasileira serão considerados “jornalismo”? E os que tratam de fofocas sobre artistas, podem ser classificados como “cultura”? Os produzidos pelas igrejas são ou não independentes? Mais serio ainda: quem irá definir essas classificações? O ministro? Se for levar ao pé da letra esses criterios, Bernardo não terá apenas dificuldades para conceder novas outorgas. Precisará cassar as concessões de muitas emissoras que já estão no ar.

Apps para instaladores

Este link pode ser valioso para projetistas e instaladores de sistemas de audio e video: um guia de aplicativos para smartphone (Apple ou Android). Saiu no excelente site Commercial Integrator. Claro, todos os aplicativos estão em inglês (não sei se algum já tem versão em português). A lista inclui medidor de dB, análise acústica de salas, medidor de SPL, medidor de corrente, equalizador. Tem até um app que transforma o proprio celular em medidor de audio. Melhor, impossivel.

Falando nisso, impressionante a historia do garoto de 15 anos que conseguiu adaptar seu iPhone para entender comandos de voz em português! Saiu no Estadão de ontem. Pedro Franceschi, estudante colegial que mora no Rio de Janeiro, já tinha saído no jornal em março do ano passado, quando conseguiu desbloquear seu iPod Touch. Agora, de posse do iPhone 4S, que vem com o software Siri para reconhecimento de voz, fez a adaptação para nosso idioma usando um aplicativo chamado Dragon Dictation (leia a historia aqui).

Se ainda fosse vivo, Steve Jobs já teria chamado o garoto para trabalhar na Apple.

Eletrônicos: como vai o mercado.

Dias antes da CES, foi divulgado um relatorio da consultoria alemã GfK sobre o estagio atual da industria eletrônica em todo o mundo. Um bom resumo seria: os países emergentes é que estão segurando as vendas. Este ano, 46% delas serão originadas nos BRICs e nas regiões sob sua influência (dois anos atrás, eram 37%). Os dados foram coletados junto a 370 mil pontos de venda em todos os continentes.

O número mais badalado pela midia foi este: o total a ser gasto pelos consumidores com produtos eletrônicos este ano irá ultrapassar, pela primeira vez, a casa do trilhão. Será de US$ 1.038 bilhões, contra US$ 993 bilhões em 2011. Em 2010, a América Latina já havia sido o grande destaque do setor, com crescimento de 34%; em 2011, caiu para 11%, ficando atrás apenas dos emergentes asitáticos (basicamente China e India), com 17%. Já os EUA cresceram apenas 5%, e a Europa Ocidental, 2%. Para este ano, as previsões são as seguintes:

India e China: 18%

América Latina: 11%

África e Oriente Medio: 11%

Europa Oriental: 9%

América do Norte: 0%

Europa Ocidental: -3%

Japão: -5%

Mundo: 5%

A melhor indicação da reversão desse quadro em favor dos países emergentes está nestes números: em 2008, eles somavam US$ 340 bilhões em vendas de eletrônicos; agora, somam US$ 482 bilhões. Já os países desenvolvidos caíram de US$ 572 para 557 bilhões. Ainda têm 54% do total, mas só por enquanto.

Os detalhes da pesquisa estão aqui.

Abaixo o Xing Ling!

Já esta outra noticia que recebi hoje, via Agência Brasil, não é tão animadora: o governo decidiu criar uma certificação específica para telefones celulares importados, a ser condedida pela Anatel. O motivo seria impedir a concorrência desleal aos fabricantes nacionais. “Esses celulares vêm sendo importados de maneira volumosa e temos muitos problemas de qualidade técnica”, explicou o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, referindo-se – é claro – aos produtos chineses, responsaveis por mais de 30% das vendas no país, de acordo com dados da Abinee.

Segundo ele, hoje são feitas avaliações técnicas dos celulares importados somente depois que entram no país – o que significa dizer que não há avaliação alguma, pois é impossivel analisar milhões de aparelhos que chegam a cada minuto. Agora, o importador só poderá comercializar o produto depois de obter a certificação da Anatel.

Resumo: mais uma vez, o governo transfere às empresas uma responsabilidade que é sua – controlar a importação ilegal. Criar mais um procedimento burocrático não vai garantir nada: os celulares, bons ou ruins, continuarão entrando via Paraguai e pelos demais meios conhecidos. Sem conseguir fechar essas porteiras, nossas autoridades fingem que estão preocupadas. E combate a importação legal com mais burocracia.

HDMI, ainda mais versatil

De volta ao Brasil, recebo convite do amigo Cristiano Mazza para mais um lançamento inovador da sua Discabos, fabricante nacional de cabos e conectores que vem conseguindo competir com grandes marcas internacionais. Seu próximo lançamento é um extensor HDMI para redes IP Full-HD, da linha AV Life. Segundo Cristiano, essa solução permitirá trafegar sinais de audio e video via cabos LAN, integrando até 16 fontes de sinal e 256 displays, ao mesmo tempo.

O lançamento oficial será via internet, no próximo dia 1°, e os participantes poderão tirar suas dúvidas através de um link gratuito.

O sucesso (e o fracasso) da CES

Ainda não saiu o balanço oficial da CES 2012, mas já se sabe que foi a maior de todos os tempos, tanto em número de visitantes (mais de 153 mil) quanto de expositores (mais de 3.100). É o que divulga a CEA (Consumer Electronics Association), organizadora do evento, garantindo que boa parte do espaço para 2013 já está vendida. Não duvido. Embora o gigantismo não seja necessariamente uma vantagem – muitos estandes acabam não sendo vistos, nem devidamente divulgados -, é inegavel que continua sendo o evento mais importante do setor, completando 45 anos de existência.

A meu ver, o anuncio da Microsoft de que não mais participará da CES em nada muda essa realidade. Ao contrario, pode acabar sendo pior para a empresa, que nos últimos anos vem oscilando entre grandes sucessos (como o Kinect) e grandes fracassos (Windows Vista, Windows Mobile, Zune…). A decisão causou impacto porque há anos Bill Gates havia abraçado a CES, investindo muito dinheiro no evento e transformando-o em palco para seus famosos keynotes, os discursos de abertura que provocavam quilométricas filas. Era uma belíssima estrategia de marketing pessoal: as palavras de Gates repicavam pela midia internacional, amplificadas por blogs e sites que tentavam decifrar até as entrelinhas. Com a aposentadoria de Gates, e assumindo seu lugar uma pessoa antipática como Steve Ballmer, o keynote perdeu o charme – embora seja justo reconhecer que o proprio Gates vinha se repetindo exaustivamente nas últimas aparições.

Ballmer deve ter suas razões para sair da CES, e uma delas com certeza é sua infindavel disputa com os acionistas da Microsoft, alguns dos quais já pediram sua cabeça em público. Não participando, ele pode até argumentar que está fazendo economia para a empresa. Mas é uma decisão que pode perfeitamente ser revertida ao longo do ano.

Voltando à CES, mais importante do que os números foi a relevância de alguns produtos exibidos. Pode-se citar, por exemplo, os TVs OLED Samsung e LG, que podem ser lançados já este ano; as várias demonstrações de displays 4K, sem dúvida o futuro da televisão; o aperfeiçoamento das projeções em 3D, inclusive sem óculos; a consolidação da convergência digital, com os conteúdos sendo compartilhados em diversos dispositivos ao mesmo tempo (fenômeno que os especialistas chamam de “segunda tela”); o surgimento dos ultrabooks, resposta da industria à supremacia da Apple; e adesão maciça da industria automobilística ao uso da tecnologia para melhorar o conforto e a segurança nos carros (varias delas participaram do evento).

Neste artigo, analiso um pouco mais a fundo a importância dessa edição da CES, num momento em que o mercado está mesmo precisando se renovar. E, nunca é demais lembrar, vale a pena conferir os diversos conteúdos do hot site que produzimos a partir de Las Vegas.

 

TV para ver a dois (sem briga)

Outra demonstração a que assistimos na CES, e não tive chance de comentar aqui, foi a da empresa TCL, um dos maiores fabricantes de displays da China. Que se saiba, era o único local onde estavam disponíveis todos os tipos de TV 3D para uma comparação lado a lado. Eram, ao todo, quatro telas: 3D com óculos ativo e passivo, 3D sem óculos e uma estranha tela horizontal – semelhante à 21:9 – que exibia duas imagens ao mesmo tempo.

Isso mesmo: imagens sobrepostas que, sem óculos, se misturavam transformando a tela numa salada de cores e movimentos incompreensíveis (vejam a foto). Diante do TV, dois óculos semelhantes (passivos), ou seja, eram imagens para ser vistas por duas pessoas simultaneamente. Colocando o óculos, cada pessoa enxerga uma imagem 3D diferente. Seria uma especie de TV do futuro, em que haverá a privacidade total: um casal pode se sentar ao sofá e os dois assistirem juntos a seus programas preferidos – só que cada um verá uma coisa. Vejam o vídeo que fizemos.

OK, OK, a tecnologia serve para criar coisas fantásticas. O tal casal usaria óculos diferentes, e certamente iria precisar também de fones de ouvido, certo? Mas, se é para separar, por que então não ir cada um para o seu canto? Sai bem mais barato.

O TV que ouve e obedece

Esqueci de comentar na sexta-feira sobre a demonstração que vimos no estande da Samsung, com o TV que tem sensor para reconhecimento de voz. Foi, de fato, uma experiência diferente: dez pessoas reunidas numa sala fechada assistindo a demonstradora “conversar” com o televisor. Todo mundo tinha que ficar em silêncio, para não confundir o aparelho… Este, é claro, só pode reconhecer uma voz de cada vez, devidamente registrada em sua memória (vejam este vídeo).

Os defensores desse tipo de recurso afirmam que nada é mais natural numa conversa do que a voz humana. Portanto, em vez de acionar botões ou colocar os dedos na tela – ou mesmo gesticular freneticamente (vejam este video), como no caso dos dispositivos do tipo Kinect, da Microsoft, e agora também do Magic Motion, da LG – por que não “conversar” com seus aparelhos? O modelo da Samsung funciona com um sensor que também identifica alguns comandos a partir de gestos do usuário. Pela voz, pode-se trocar de canal, aumentar o volume, localizar na memoria um filme que esteja gravado, essas coisas. Não tem (ainda) previsão de chegar ao mercado.

Após entrar mudo e sair calado da demonstração, fiquei pensando como seria usar um aparelho desses no dia-a-dia. Numa família com quatro pessoas, apenas uma teria o “direito” de controlar o TV; os outros teriam que concordar ou sair da sala… Pensando bem, é briga na certa!