Archive | agosto, 2008

Sob o céu de Berlim

Os cinéfilos hão de se lembrar: o título acima foi roubado de um filme de Wim Wenders, dos anos 80. Era um filme “cabeça”, cheio de mensagens cifradas, entediantes para quem, como eu, não é lá muito fã do cinema alemão. Passou no Brasil com o título de “Asas do Desejo”, mas o título original “O Céu sobre Berlim” é muito mais sugestivo.

Vendo agora este céu mais do que azul, nesta tarde de domingo em Berlim, lembrei-me do filme, em que dois anjos descem à cidade, em preto-e-branco, e quando encontram humanos a tela se enche de cores. Não conheci Berlim antes da queda do muro, mas conversando aqui com pessoas que viveram aquela época dá para fazer uma idéia. O que aconteceu na cidade nos últimos 20 anos (o Muro de Berlim foi derrubado em 1989) é um verdadeiro milagre do gênio humano. Que veio para corrigir os males da estupidez humana, cometidos na época do nazismo (1933-1945) e, depois, no comunismo (1945-1989). 

Andando pelas ruas, ainda pode-se ver marcas de destruição. A mais chocante delas é a da Igreja de São Guilherme (foto), que foi parcialmente destruída durante um ataque dos aliados na 2a. Guerra. Ficou como símbolo: os alemães não a restauraram nem demoliram, deixaram ali, no mesmo lugar e com os sinais das bombas; a seu lado, construíram uma igreja nova, que é usada pelos fiéis. Mas todo mundo para diante da antiga. Vejam que a cúpula está faltando um pedaço e as paredes estão queimadas.

O milagre de Berlim, além de ter sobrevivido aos bombardeios, é ter se transformado – de uma cidade dividida e semi-destruída, numa capital moderna, vibrante, com uma arquitetura inovadora, mas que respeita a História. Construções seculares convivem harmoniosamente com obras de arte criadas pelos arquitetos nas últimas duas décadas. É também uma cidade cosmopolita (ao contrário da maioria das cidades alemãs), repleta de nacionalidades.

Se fossem escolher uma capital para a Europa, Berlim seria uma candidata imbatível.

Mais brigas de números

Uma das boas polêmicas desta IFA 2008 é a questão do processamento de imagem nos novos televisores. Sony e Samsung entraram numa curiosa disputa. A Sony espalhou pelas ruas de Berlim outdoors com a chamada: “Venha conhecer o primeiro TV de 200Hz do mundo”. Pois bem, quando abriram-se as portas da IFA lá estava a Samsung também com seu TV de 200Hz. Para não ficar atrás, a LG não deixou por menos: um de seus TVs teria 600Hz!!!

Vejam só, mais uma inútil briga de números que não leva a nada. Os sites especializados internacionais estão fazendo piada com as três empresas. E agora? Na verdade, os TVs mais avançados que já estão no mercado fazem a leitura do sinal na velocidade de 120Hz, que é considerada excelente; a maioria o faz em 50Hz; e há também alguns que trabalham com 100Hz. Na passagem dos 50 para os 100, realmente foi possível notar uma boa diferença: basta comparar um TV de, digamos, cinco anos atrás com um atual. Agora, de 100 para 120 e mesmo para 200, confesso que não consigo ver o que muda. Perguntei para alguns colegas estrangeiros aqui na IFA e eles também não conseguiram.

O mais interessante é que o público não deve estar nem aí para essa questão. Responda: se você for comprar um TV, vai se decidir com base nos tais hertz? Melhor ignorar esse tipo de especificação.

A polícia chegou!!!

Aconteceu depois que saí, portanto não pude ver. Só fiquei sabendo hoje cedo: a polícia alemã invadiu o pavilhão de exposições da IFA, em Berlim, e simplesmente apreendeu dezenas de equipamentos no estande da fábrica coreana Hyundai, diante de inúmeros visitantes. A alegação é que a empresa não havia pago as devidas licenças sobre patentes de produtos trazidos à Alemanha e exibidos publicamente – infração grave aqui. Segundo a agência Reuters, foram 170 televisores, 140 players MP3, 21 celulares e 57 gravadores de DVD. Parece que não foram só da Hyundai, marca que é muito forte na Coréia, mas a polícia não quis informar quais teriam sido as outras marcas.

Livros, cerveja e bicicleta

Já tinha estado em Berlim duas vezes, mas agora, ficando num hotel mais afastado do centro histórico, estou conhecendo uma outra cara da cidade. É aquele tipo de lugar em que qualquer um gostaria de morar. Trânsito tranqüilo, muitas árvores, parques imensos para passear, as pessoas conversando alegremente na calçada, bares animados (mas sem exageros).

Um detalhe que me chama atenção: deve ser a cidade com maior quantidade de livrarias por metro quadrado! Só não tem mais livraria do que cervejaria, mas aí também seria querer demais dos alemães, que por sinal nada têm a ver com aquela imagem mal-humorada e raivosa que muitos fazem deles. Claro, a Berlim que estou vendo é a dos bares, restaurantes, hotéis, taxis, lojas, gente que ganha a vida servindo as pessoas. Não sei como são as famílias dentro de suas casas, e já li muita coisa sobre o preconceito dos alemães contra imigrantes em geral.

Mas, voltando à cidade, parece que o pessoal aqui passa o tempo todo fazendo só três coisas: ler, beber cerveja e andar de bicicleta (claro, não tudo isso ao mesmo tempo). Depois, comento o centro histórico de Berlim e seu passado tenebroso, que pode ser (re)descoberto nas ruas.

Vida longa ao plasma

Ontem, sábado, dei mais uma passada no estande da Panasonic para conferir o novo plasma NeoPDP, nome escolhido pela empresa para definir os plasmas de última geração (veja o vídeo). Como se pode ver, o display é finíssimo. Bem, não é novidade que o plasma ainda supera o LCD em aspectos como contraste e resolução, que são essenciais na reprodução de filmes. E a Panasonic faz um esforço enorme para aprimorar essa tecnologia, na qual já investiu bilhões. Não vemos por aqui outras empresas dando tanto destaque aos plasmas; para a maioria, só interessa o LCD.

Isso, porém, está longe de significar o fim do plasma. Ao contrário, com esses novos displays finos pode ser que a Panasonic consiga recuperar mercado. O LCD continua apresentando um problema sério de excesso de pixelização. A imagem parece menos real, chegando a lembrar alguns videogames de alta resolução. Se você olhar bem de perto, principalmente rostos e cabelos perdem naturalidade.

Mas, e daí? perguntará o leitor que é fã do LCD. Sim, e daí? Ninguém assiste televisão tão de perto assim. E mais: o LCD nasceu para o uso em monitores de computador, e as novas gerações estão acostumadas a isso; portanto, para esse tipo de usuário a imagem do LCD é mais natural. Alguém discorda?

Ah! Esqueci de um detalhe: a demonstração do plasma Panasonic NeoPDP acessando o YouTube foi genial. Em termos de marketing, um golaço!

Esqueça o que você leu (de novo)

Outro assunto que mexe com a mídia em geral, mas está longe de se tornar realidade, é a chamada resolução Ultra-HD. Em praticamente todos os últimos eventos que cobri, havia algum fabricante exibindo a “novidade”. Aqui em Berlim foi a Samsung.

Pessoal, a resolução 4K – que vem a ser a mesma coisa – foi lançada pela Sony há uns três anos e simplesmente não pegou. Ou melhor, pegou sim, mas para o segmento de cinemas digitais, onde as exigências são bem diferentes de um ambiente doméstico. A Sony e outros fabricantes lançaram os projetores 4K, que produzem resolução quatro vezes mais alta que o Full-HD. Mas a própria Sony aposentou os TVs da linha Qualia, que ofereciam essa mesma resolução, por falta de mercado.

E é fácil entender. Ao longo da História, a tecnologia evolui passo a passo, não há como atropelar esse processo. Depois da resolução standard (480 linhas), veio o que se convencionou chamar de “HD-ready” (720 pixels, já no domínio digital); depois, o Full-HD (1080p), que ainda é bem recente. Mal deu tempo das pessoas se acostumarem com esse número, e já querem aposentá-lo? Não tem cabimento, e a indústria sabe disso.

O consumidor comum ainda tem um longo caminho a percorrer antes de esgotar as possibilidades do 1080p? Para os interessados, uma sugestão de link interessante sobre esse assunto.

Esqueça o que você leu

Uma das coisas mais irritantes da cobertura que se faz do setor de tecnologia na mídia, principalmente na imprensa brasileira, é quando se lê: “Esqueça o que você tem em casa, acaba de surgir uma nova tecnologia que vai revolucionar tudo”. Leio isso a toda hora, principalmente quando acontecem grandes eventos como a IFA. O pessoal parece que se deslumbra fácil com o que vê, sem pensar na – desculpem a palavra hororrosa, mas não encontrei outra – contextualização.

Pois é, agora se fala em TV 3D como se fosse um nirvana, algo que vai aposentar tudo que existe por aí. Ora, claro que não vai. Temos aqui na IFA vários exemplos: Philips, LG, Samsung, várias empresas exibem soluções 3D, mas todos sabemos que essa tecnologia ainda é embrionária. Mais do que isso: depende fundamentalmente da existência de conteúdos 3D para serem exibidos nos TVs, sem o que estes tornam-se displays comuns. Quem vai produzir imagens em 3D? Isso custa muito caro, poucas produtoras no mundo dominam essa técnica. E os tais óculos especiais, quem vai querer usá-los na frente do seu televisor?

Sugiro a leitura deste artigo, que esclarece a maior parte das questões a respeito.

Mitsubishi, o mistério

Conforme combinado, fui me encontrar hoje com Joe Fusco, dono da SAS (South American Sales), distribuidor oficial das marcas do grupo Harman para a América Latina. São marcas que todo mundo conhece: JBL, Harman Kardon, Infinity, Mark Levinson, Revel e por aí vai. Fusco também detém a representação da japonesa Mitsubishi para as Américas. Curiosamente, na geografia da Mitsubishi o Brasil não deve fazer parte do continente: a SAS pode vender essa marca em toda a América Latina, menos no Brasil.

No Rio de Janeiro, vim a descobrir, funciona a sede de uma empresa chamada Melco, que nada mais é do que a abreviatura de Mitsubishi Electric Company. Essa empresa representa os interesses de todo o grupo Mitsubishi (que é enorme) no País, e aí é que está o problema. Por algum motivo que não consegui decifrar, a Mitsubishi não quer passar as vendas no Brasil para um distribuidor independente.

Bem, mas isso é entre eles. O que eu queria saber mesmo é sobre a tão falada e prometida TV a Laser, que a Mitsubishi vem anunciando desde o começo do ano. Mistério. Não há previsão nem mesmo para o mercado japonês. Semana que vem, na CEDIA Expo, vamos tentar descobrir mais detalhes. Vamos (eu e os leitores) precisar de mais paciência.

Blu-ray vs. DVD 2.0?

Alguns leitores perguntam o que achei do novo DVD Toshiba, aquele que veio para derrubar o Blu-ray e que alguns estão chamando, maldosamente, de “DVD 2.0″ (como se estivessem para surgir as versões 3.0, 4.0 e assim por diante). Bem, como disse na nota anterior, a demonstração na IFA estava excelente, como costuma acontecer em feiras. Mas não havia nenhum Blu-ray por perto para se fazer uma comparação criteriosa, e seria injusto julgar nessas condições.

À primeira vista, me pareceu que o Blu-ray ainda é superior. O problema – que só conseguiremos resolver mais à frente, quando o produto estiver efetivamente no mercado – é o tamanho dessa superioridade. Me inclino a concordar com a Toshiba quando afirma que a maioria das pessoas está satisfeita com seu DVD e só irá trocá-lo por algo infinitamente melhor, ou cuja diferença de preço não seja tão gritante. Ainda não me convenci de que precisamos ter resolução 1080p em telas de 40 ou até 50 polegadas. A distância que normalmente mantemos em relação ao display (3 ou 4 metros) admite perfeitamente a resolução 720p e, em alguns casos, até 480p. Já para projetores e para o plasma de 150” da Panasonic, que estamos vendo de novo aqui em Berlim, é outra história.

Mas, como disse, teremos que esperar para ver (e bem de perto) os dois aparelhos lado a lado. Alguém se arrisca a dar um veredito taxativo nessa história?

LCD, LED, OLED…

Conversando hoje com o vice-presidente da Samsung para a área de displays, o simpático sr. Shin, ouvi uma afirmação taxativa: a tecnologia OLED não vinga antes dos próximos cinco anos. Diante da minha surpresa, mr. Shin foi mais longe: a Sony é que estaria tentando forçar as vendas desse produto, que ainda não está suficientemente maduro para ser colocado no mercado.

Pois é, só estando num evento como a IFA (e conversando com as pessoas certas) para saber dessas coisas. Estamos vendo aqui todo tipo de tela fina, e olhando-as lado a lado, com demonstrações tão perfeitas (veja na foto), é impossível afirmar: esta ou aquela é melhor. Quem sabe a resposta é quem está do lado de lá do balcão, isto é, por dentro dos laboratórios, testando e fuçando nos equipamentos. Nós, que vemos só a parte da frente, podemos nos iludir com uma demonstração bem feita. E confesso que, após tantos anos visitando feiras, não me iludo com mais nada.

O que sei, e esta IFA está provando, é que os TVs estão ficando cada vez mais finos, como já comentei aqui. Mas, cá entre nós, que diferença faz se o seu TV tem 1, 2, 3 ou 5 centímetros de espessura? Vai mudar alguma coisa na decoração da sua sala? O próprio mr. Shin riu maliciosamente quando toquei nesse assunto. Ele acha, por exemplo, que antes do OLED chegar a um preço competitivo o LCD ainda vai melhorar muito, e se tornar mais fino, graças aos backlights de LED, que entre outras vantagens são mais duráveis do que as lâmpadas dos LCDs e não emitem material poluente. Acrescento: os painéis de LED são mais baratos, uma vantagem que a indústria não pode desprezar.

Então, ficamos combinados: vamos de LCD por mais alguns anos, até que apareça algo melhor? Aliás, este link tem uma boa explicação a respeito.

Cadê o TV a laser?

Hoje de manhã, primeiro dia oficial da IFA, fomos direto ao estande da Mitsubishi, à procura do tão aguardado TV a laser. Na CES, em janeiro, esse bichinho nos deu uma canseira danada. Procuramos, procuramos, e só muito tarde viemos a saber que estava escondido num pequeno hotel próximo ao Centro de Convenções. Sem nenhum alarde.

Bem, agora a notícia chegou bem antes, no final de julho. A Mitsubishi iria lançar a LaserVue em setembro nos mercados japonês e americano. Claro, tinha que estar na IFA. Claro, nada. Nem a recepcionista do estande da Mitsubishi sabia informar. Aliás, ela também se disse “muito ansiosa” para ver o produto. “Sorry, na Europa não chega tão cedo. Talvez nos EUA”. “Bem, então poderemos vê-lo semana que vem na CEDIA Expo, em Denver. “Expo what”?

Pois é, está muito estranha essa história de TV a laser. Na Itália, conversando com Giorgio Corazza, fundador da SIM2, ardorosa defensora do DLP, ouvi que a tecnologia de projeção a laser não tem futuro: os painéis esquentam demais, e não há cooler que compense o problema, tornando o produto inviável comercialmente. “Tão cedo não teremos um display a laser no mercado”, me garantiu Giorgio. Descontando o fato de que o laser pode (ou poderia) ser um concorrente do DLP, tenho que concordar com ele. Se há problemas técnicos, talvez seja por isso que a Mitsubishi demore tanto a revelar essa preciosidade.

Amanhã, pretendo tirar a dúvida. Vou me encontrar com Joe Fusco, representante da empresa para a América Latina. Vamos ver o que ele tem a dizer.

O novo DVD da Toshiba

Lembra do seu velho DVD player? Pois é, ele vai continuar ativo por alguns anos, pelo menos. É isso o que pensa a Toshiba, para quem o Blu-ray é e continuará sendo um produto de nicho – algo assim como o SuperAudio CD, que acabou restrito aos audiófilos (e mesmo assim com ressalvas).

Ontem, aqui na IFA, a Toshiba apresentou ao mundo sua proposta de solução para o dilema da alta definição. Trata-se do DVD player XD-E500 (foto), prometido para chegar ao mercado europeu ainda em setembro, ao preço sugerido de 149 euros. O aparelho traz um novo tipo de upscaling, diz o fabricante: qualquer sinal de vídeo é automaticamente transformado em Full-HD (1080p), algo que precisaremos conferir na prática.

Não deixa de ser um tapa na cara de toda a indústria, que virou as costas para a Toshiba na briga contra o Blu-ray. A esse valor, duvido que os demais fabricantes não tenham que baixar também os preços dos Blu-ray players, correndo o risco de detonar suas margens de lucro. Se o aparelho da Toshiba der certo, vai ser uma disputa interessante.

Quem tem a tela mais fina?

Essa era a pergunta que nos fazíamos ontem? Estamos assistindo aqui em Berlim a um verdadeiro campeonato de telas finas, com tamanhos incrivelmente enxutos. Vejam só:

Sony OLED, 3mm (essa já não é novidade, mas os europeus a estão conhecendo agora).

Sony LCD LED, 9,9mm (os leds substituem as lâmpadas dos LCDs, permitindo menor espessura, brilho mais intenso e menor consumo de energia).

Panasonic plasma NeoPDP, 2,5cm (pode parecer muito diante de um OLED, mas para um plasma é um avanço significativo; os convencionais têm em torno de 10cm).

Philips Essence, 3,8cm (esta é a nova aposta da Philips, um TV com moldura de alumínio e caixa soundbar acoplada).

Bem, ainda não vi os modelos da LG e da Samsung, mas devem seguir na mesma linha. Conclusão: os TVs “gordinhos” estão mesmo com os dias contados.

Na foto, o OLED de 26″ que a Sony está mostrando na IFA. Outras fotos e vídeos exclusivos de nossa equipe, você encontra neste hot site.

Mergulhando na tecnologia

A IFA só abre oficialmente hoje (6a), mas para nós começou ontem. Uma série de apresentações dos principais expositores ocupou praticamente o dia inteiro. Com a correria, acabei não conseguindo atualizar o blog ontem. Apesar da cabeça tumultuada com o excesso de informações e o sono inconstante, vou tentar aqui resumir o que vimos neste primeiro dia.

Antes, um comentário que pode ser útil a quem pensa vir à IFA no ano que vem: dos que conheço, este é o evento mais difícil de se visitar. A sinalização é complicadíssima, as apresentações acontecem em lugares muito distantes um do outro, e as distâncias são enormes. Outro problema – este, porém, culpa dos expositores – é a insistência em discursos que repetem as mesmas coisas. Assisti ontem a seis apresentações, e em todas ouvimos expressões como “nosso produto tem a melhor qualidade”, “estamos preocupados com o bem-estar do consumidor”, “este lançamento define a nova tendência da tecnologia” e por aí vai.

Claro, os discursos são preparados por assessores e os executivos simplesmente os lêem em monitores discretamente instalados no alto da sala (como na foto abaixo). Mas para quê repetir tudo isso, ano após ano? Alguma empresa por acaso diz que seu produto “não tem a melhor qualidade”? Que tal poupar o tempo de todo mundo e ir direto ao assunto?

Talvez seja pedir demais. Na verdade, as empresas fazem isso porque sabem que a mídia gosta desse tipo de coisa. As apresentações de ontem na IFA tinham na platéia 200 ou 300 jornalistas de vários países, e horas depois já era possível ler na internet frases como aquelas que mencionei, ditas pelos executivos. E assim o mundo gira. A internet se encarrega de replicar a falta de assunto.

É por isso que a Apple continua dando show de marketing e criatividade. Em seus eventos, ninguém fica enrolando e todo mundo sai aplaudindo os produtos. Bem, mas para isso é preciso ter – mesmo – o que mostrar.

Viagem pela História

Antes de mergulhar na IFA, deixa eu contar um episódio marcante que vivi ontem em Londres. Fui visitar a Abadia de Westminster, lugar sagrado da capital inglesa. E bota sagrado nisso! Já tinha passado em frente, mas nunca havia entrado. Lá, fiquei sabendo que começou a ser construída no ano 965, concluída em 1045, reformada e/ou restaurada duas ou três vezes. E que, por esses séculos afora, sediou os acontecimentos mais importantes do País – no caso dos ingleses, acontecimento importante é, por exemplo, a sagração de um rei ou rainha, ou o casamento de um príncipe.

Pois é, vocês deve ter visto pela televisão. Foi lá que Diana e o Príncipe Charles se casaram, naquela festa suntuosa. Tiveram que caminhar bastante, porque não se trata de uma igreja, mas de várias, conjugadas. Embora a maioria dos ingleses seja protestante, os símbolos católicos estão presentes em Westminster como em nenhum outro local do mundo (pelo menos que eu conheça). Mesmo sendo proibido, não resisti e dei uma de turista brasileiro: fotografei e gravei até um vídeo.

Valeu a pena. Foi um dos momentos mais marcantes desta viagem. Vejam aí nas fotos, por fora e por dentro. E quem quiser ver mais, é só entrar no site: www.westminster-abbey.org.

Agora, a IFA

Chegamos nesta manhã a Berlim, eu e meu colega Eduardo Bonjoch, para cobrir a IFA, que é a principal feira de equipamentos eletrônicos de consumo da Europa (e a segunda do mundo). De Londres para cá foram menos de duas horas. O único problema foi ter que acordar às 4hs da manhã (tinha que estar às 6hs no aeroporto), mas tudo bem, faz parte.

Agora, escrevo da sala de imprensa da IFA, ainda sem o tumulto típico desses eventos. Na verdade, a Feira abre apenas depois de amanhã, mas chegamos antes para acompanhar as entrevistas coletivas dos principais fabricantes, que serão nesta 5a. Que eu saiba, nenhuma outra publicação brasileira irá cobrir o evento. Do hotel onde estamos até o pavilhão Messe Berlin, são apenas três estações de metrô, menos de 10 minutos. Uma beleza, comparando com a CES (lá não tem metrô, apenas um trenzinho que não suporta a quantidade de gente que vem de todo canto). Melhor ainda comparando com o Anhembi, em São Paulo. Pelo menos, aqui não tenho que pagar uma fortuna de estacionamento, nem corro o risco de ser roubado no longo caminho do carro até a entrada do pavilhão .

Berlim é a capital da Alemanha, uma das cidades mais na moda atualmente, mas continua sendo um lugar extremamente agradável, até com certo jeito de interior. Muita gente anda na rua de bicicleta, e o transporte público (ônibus, bondes e metrô) é de altíssima qualidade. Não sou lá muito fã da comida alemã, nem da inglesa, mas quando se vem para um evento como a IFA não dá para pensar nisso – pelo menos, não na hora do almoço; come-se o que tiver por perto. À noite, aí sim, Berlim tem restaurantes excelentes.

Vamos lá, então, já estamos em plena cobertura (você pode acompanhar pelos sites www.hometheater.com.br e www.planetech.com.br). Se metade do que prometeram for realmente exibido, a IFA será um verdadeiro show. Fiquem ligados.

Carnaval em agosto

Comentei domingo sobre o Notting Hill Carnival, que não pude ver de perto, mas encontrei no site da BBC a cobertura completa. A foto aí do lado diz tudo. Mas tem muita gente chiando. Os moradores da região, antes tranqüila, no lado Oeste de Londres, não se conformam com a bagunça e a sujeira. Era uma simples festa de bairro e agora virou celebração nacional!

Para piorar, o balanço da polícia é horrível: dezenas de depredações, prejuízos que não sei quem vai pagar, gente passando mal de tanto beber (em dias normais, os ingleses já tomam porres homéricos; que dizer de um “carnaval”).

Desconfio que esses caras não entendem nada de Carnaval.

Corrida debaixo da terra

Como disse outro dia, em Londres você pode – se quiser – andar só de metrô. Dá para ir a qualquer lugar. Exemplo: de Piccadilly Circus, bem no centro da cidade, até o aeroporto de Heathrow, a mais de 40km de distância, em aproximadamente 20 minutos. Dá também para se conectar com as diversas linhas de trem que cortam o País. Em cerca de quatro horas, chega-se a Liverpool, por exemplo, que fica a 400km. Nada mau, certo?

Bem, o metrô de Londres – que aqui eles apelidaram de “tube”, porque várias estações têm corredores em forma de tubo – não é tão limpo quanto o de São Paulo. Trens e estações parecem antigos (e são mesmo), e dentro deles cai por terra aquela noção que fazemos dos ingleses como um povo limpo e educado. Há garrafas e sacolas plásticas jogadas no chão dos vagões, e já vi uns três ou quatro grupos de bêbados. As escadas rolantes são enormes (na foto, uma delas), cheias de publicidade, e muitas vezes falham. Aí, você tem que subir sei lá quantos degraus e chega lá em cima exausto (para os curiosos, este site traz um mapa interativo das linhas).

Mas, circulando pelo metrô de Londres, fiquei pensando: precisa mais? Ninguém entra no metrô para passear, certo? Este é o meio de transporte mais prático que existe. Leva-nos a qualquer lugar numa megalópole como esta. Paga-se relativamente barato (5 libras por um bilhete que dá direito a andar o dia inteiro, entrar e sair das estações e dos trens quantas vezes se quiser) por um serviço eficiente, que cumpre absolutamente a sua finalidade: transportar as pessoas de um lugar a outro.

Quando você tem um compromisso e consegue chegar na hora marcada, indo de metrô, é que percebe o valor desse serviço. Será que ainda verei algo assim no Brasil?

Música dentro da igreja

Ontem à noite realizei um sonho antigo: assistir a um concerto dentro de uma igreja. Na verdade, já tinha vivido essa experiência em Paris, onde eu e minha esposa chegamos às lágrimas ao ver um concerto de música barroca na Santa Capela (aliás, um lugar que não consta em nenhum guia turístico, mas que recomendo a todos que forem a Paris).

Desta vez, em Londres, foi diferente. Embora sozinho, também me emocionei assistindo ao London Concertante, grupo de câmera (nove integrantes) executar “As Quatro Estações”, de Vivaldi, mais peças de Mozart e a sempre cativante “Ária”, de Bach. Quatro violinos, duas violas, dois cellos e um cravo. Igreja lotada, público atencioso, no intervalo uma taça de vinho branco. Tudo isso por 20 libras. Precisa mais?

Sim, precisa. Não era uma igreja qualquer. Estávamos na St. Martin-in-the-Fields, no centro de Londres. À tarde, eu tinha visto parte do ensaio. Foi dessa igreja que saiu a Academy of St. Martin-in-the-Fields, uma das orquestras mais prestigiadas do mundo e cujos discos também já me emocionaram muito. Foi criada em 1958 pelo grande regente Neville Marriner, hoje aposentado. A igreja (foto) deve ser uma das poucas do mundo com acústica desenhada para reproduções musicais. Não há microfones, a não ser para as apresentações iniciais dos músicos. Tudo é analógico e natural, como deve ser a boa música.

Um concerto assim equivale a uma bela oração.