Archive | dezembro, 2008

Ano velho, ano novo

Este blog vai dar uma parada a partir de amanhã, para retornar em janeiro, se possível com as baterias recarregadas. Nas próximas duas semanas, não haverá atualizações aqui, e espero sinceramente que os leitores compreendam.

Estaremos de volta no dia 5 de janeiro, já com a cobertura da Consumer Electronics Show, em Las Vegas, quando iremos comemorar o primeiro aniversário do blog.

Que todos tenham um ótimo Natal e que o ano de 2009 seja pródigo em saúde, paz e sucesso para todos. Agradeço a paciência e o apoio durante este ano, e espero continuar contando com suas leituras, comentários, críticas etc. Afinal, é disso que se (re)alimenta um blog.

O “empresário” Lula

Sempre fui contra aquele tipo de empresário que vive pedindo favores ao governo. Durante anos, essa foi uma verdadeira praga no País, algo que só diminuiu depois da abertura das importações, na década de 90 (não tem jeito: vamos ter que agradecer isso eternamente ao governo Collor… Fazer o quê?)

Durante o governo FHC, houve uma tentativa de moralização dessa prática, com regras mais rígidas, mas ainda assim surgiram várias denúncias de favorecimento a “amigos do poder”. No governo atual, o que vemos é uma infeliz mistura desse mau hábito com um outro, o da politização das verbas públicas, com o tráfico de influências sendo transformado em moeda de troca para os mais variados negócios. Sem querer ser repetitivo – e já sendo – não dá para deixar de mencionar o caso “BrOi” como o mais emblemático.

Agora, quando muitas empresas ameaçam cortar empregos por força da crise que se aproxima, vem o presidente Lula dizer – como está hoje em todos os jornais – que “nenhum empresário tem motivo para mandar trabalhador embora”. Ora, quantas empresas o sr. Lula já adiministrou na vida? É curiosa essa inversão de papéis. Quando as empresas estão faturando alto, o governo diz que é por causa de sua política econômica; quando alegam prejuízo, o problema é dos empresários?

Não acho que o governo tenha que ajudar empresas em dificuldades. Bastaria tomar algumas medidas de país civilizado, como baixar a carga tributária e acabar com essa mania de criar “proteção” aos trabalhadores, quando, na verdade, o que se cria é mais estímulo à falta de emprego e à informalidade. É fácil fazer caridade com o dinheiro dos outros – no caso, o dinheiro de todos nós, contribuintes.

Net reage crescendo

Ainda no capítulo TV por assinatura, vale ressaltar o crescimento da NET, que agora chega a 50% de participação nesse mercado. A operadora controlada pela Globo adquiriu o controle da BigTV, que atua em cidades onde até agora a NET não havia entrado: Guarulhos, Valinhos, Botucatu, Jaú, Marilia e Sertãozinho (em São Paulo); Cascaval, Ponta Grossa, Cianorte e Guarapuava (Paraná); Maceió (AL) e João Pessoa (PB). Com isso, aumenta em cerca de 100 mil o número de assinantes, chegando a 3 milhões somente em TV (mais 2,1 milhões de clientes de internet banda larga).

A aquisição de pequenas operadoras regionais foi a estratégia adotada pela NET para crescer em prazo mais curto, já que a implantação de uma rede de cabo leva tempo (e provavelmente sai mais caro do que simplesmente comprar um possível concorrente).

Varejo americano em crise

A coisa anda cada vez mais feia para os varejistas americanos especializados em eletrônicos. Após a quebra da Circuit City, outra rede importante – a Tweeter – pediu concordata. Agora, a BestBuy, a maior delas e até então acima de riscos, anuncia seu balanço do trimestre fiscal encerrado em novembro, com uma queda de 77% na rentabilidade: de um lucro em torno de US$ 228 milhões em 2007, a rede caiu para US$ 52 milhões este ano. Esses números são públicos, porque a BestBuy tem ações na Bolsa, cujo valor deve cair nas próximas semanas.

Ao mesmo tempo, a Circuit City está numa situação tão grave que não consegue nem passar à frente seus pontos. Estão sendo fechadas nada menos do que 154 lojas da rede (outras 150 já baixaram as portas), mas não aparecem interessados em pelo menos ficar com os prédios para abrir outro negócio. O grupo contava com isso para abater parte de sua monstruosa dívida, mas nem assim.

Oi também com satélite?

O colunista Ricardo Feltrin, da Folha Online, dá um furo hoje ao anunciar que a BrOi – nova operadora que resultará da fusão entre a Oi e a BrasilTelecom, aprovada ontem pela Anatel – irá lançar seu serviço de TV via satélite já no primeiro semestre de 2009. Se for verdade, confirma o que comentei aqui esta semana, a respeito da crescente disputa no mercado de TV por assinatura. A Oi informa já ter obtido licença da Anatel para operar o sistema DTH (Direct-to-Home), o mesmo da Sky e da antiga DirecTV. A Embratel anuncia o mesmo. Então, devemos ter um ano agitado nessa área.

Sobre a Oi, apenas uma correção no comentário que fiz ontem: na verdade, a fusão com a BrT soma cerca de R$ 13 bilhões, mas nem todo esse dinheiro está vindo dos cofres públicos. Banco do Brasil e BNDES estão entrando com “apenas” R$ 6,8 bilhões. O restante virá dos fundos de pensão que são sócios da Oi: Previ, que abriga funcionários do BB; Petros, ligado à Petrobrás: e Funcef, da Caixa Econômica Federal.

Pensando bem, é tudo dinheiro público mesmo.

O que é empresa nacional?

Tenho grande admiração por empreendedores brasileiros que conseguem, com seu talento e muito esforço, competir de igual para igual com concorrentes multinacionais que, por definição, têm muito maior poder econômico. Há inúmeros casos no País, inclusive dentro do setor de tecnologia.

Mas isso é bem diferente do que defende o atual governo no campo das telecomunicações: a chamada BrOi (fusão da Oi com a Brasil Telecom), que acaba de ser aprovada pela Anatel, nasce com o propósito declarado de tornar-se a maior empresa brasileira do setor, em condições de concorrer com as mexicanas America Movil (Claro) e Telmex (Embratel), com a espanhola Telefonica e com a italiana TIM. Seria ótimo, se o governo (via BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) não estivesse colocando mais de R$ 12 bilhões de dinheiro público nesse negócio. Como se a Oi, de propriedade dos grupos Jereissati e Andrade Gutierrez, fosse uma pequena empresa precisando de capital.

Sou da opinião de que antes de tudo está o interesse do consumidor, que não por acaso vem a ser também o contribuinte que paga seus impostos em dia. E esse interesse não está sendo respeitado. Não há, no acordo de fusão, qualquer garantia sobre a qualidade dos serviços a serem prestados pela nova operadora. Ao analisar o caso, a Anatel (que deveria ser uma agência independente) diz apenas que quer garantias de que a BrOi não venha, no futuro, a ser vendida para um grupo estrangeiro. Quanto à prestação de serviço, só lembro que a Oi – há menos de três meses operando no mercado paulista – já vem batendo recordes de reclamações no Procon, inclusive por propaganda enganosa.

Para o usuário, não faz a menor diferença se a empresa é brasileira, espanhola, japonesa ou americana: o que importa é o serviço prestado e o custo desse serviço – que, no caso brasileiro, é um dos mais altos do mundo. Mas, espere: eu disse “usuário”? Entre os poderosos e seus amigos, o raciocínio deve ser este: que se lixe o usuário. Ele está aí mesmo só para pagar a conta.

Como queríamos demonstrar

Acabou de sair a decisão da Anatel, favorável à fusão da Oi com a Brasil Telecom. Se não saísse até 2a. feira, a Oi teria que pagar à BrT uma multa de mais de R$ 400 milhões. Nas últimas 48 horas, foi um corre-corre em Brasilia porque o Tribunal de Contas da União achou que a Anatel não poderia dar uma decisão a respeito sem fornecer vários dados importantes sobre o negócio. Somente na tarde de hoje (5a. feira) o TCU aceitou os “argumentos” da Anatel, após fortes pressões do ministro Helio Costa e de assessores do próprio presidente Lula.

Estava mais ou menos escrito que seria assim. Bem que o TCU tentou cumprir seu papel de fiscalizador do dinheiro público. Mas o fato é que a Anatel há muito tempo deixou de ser uma agência reguladora, com a independência que esse tipo de autarquia precisa ter, para se tornar um braço político de alguns setores do governo e do empresariado. Nunca antes neste país, uma decisão de tamanha relevância foi tomada em prazo tão rápido (menos de dois meses). Aqueles R$ 400 mil devem sair por bem menos agora!

Pen-drives no lugar de CDs

Os fãs de Michael Jackson já têm uma nova forma de gastar seu dinheiro: a gravadora Sony Music acaba de lançar no mercado americano a edição especial de 25o. aniversário do álbum “Thriller”, de 1983, em… pen-drive. Isso mesmo: você não precisa de um CD. Basta colocar o pequeno acessório no seu computador, ou em qualquer system com entrada USB, para ouvir o disco na íntegra. Preço do brinquedinho: US$ 19,99. Pagando mais 10 dólares, você pode levar filmes como “Homens de Preto” e “Código DaVinci” no mesmo formato.

Será que a moda pega? No caso dos filmes, ainda dá para entender: afinal, baixar filmes na internet ainda é demorado, dependendo da conexão. Mas música? Numa época em que todo mundo baixa o que quer? Imagine alguém fazendo uma coleção de pen-drives: como será na hora de encontrar “aquele” disco que você não ouve há tanto tempo?

Tudo bem, não precisamos voltar aos bons tempos do vinil. Mas música em pen-drive? Aí já é demais…

A avaliação do PVR

Como prometi, trago aqui minha avaliação pessoal do gravador digital da marca coreana Topfield, que está sendo lançado no mercado este mês. Como afirmei semanas atrás, trata-se do primeiro PVR lançado no Brasil, um conceito vitorioso nos EUA e com forte apelo junto ao consumidor que gosta (mesmo) de televisão. O melhor exemplo de PVR (Personal Video Recorder) é o TiVo, campeão de vendas nos EUA. A diferença é que exige assinatura mensal, dando direito a várias formas de streaming.

O Topfield é um aparelho independente, ou seja, desvinculado das operadoras de TV paga e projetado para uso com sinal digital de TV aberta. Você não precisar assinar nada, basta comprar o aparelho, instalar e usar. Entre as vantagens, além da evidente qualidade do sinal de alta definição, está o acesso remoto pela internet. De qualquer lugar, você pode acessar o que está gravado no aparelho, bastando para isso dispor de um bom computador e conexão veloz. A idéia é facilitar a vida de quem gosta de gravar seus programas e tem pouco tempo para assisti-los. Você armazena os conteúdos no disco rígido do gravador e assiste quando e onde quiser.

Vendo programas ao vivo, pode-se dar pausa e continuar depois; ou gravar dois canais ao mesmo tempo, enquanto se assiste a um terceiro. Outra comodidade: você coloca seu pen-drive e reproduz o conteúdo através do PVR – que, dessa forma, substitui o computador. Simples, não?

Os números não mentem

Os principais fabricantes japoneses de eletrônicos divulgaram seus números parciais referentes ao ano de 2008. E, pelo jeito, quase ninguém está se salvando da crise mundial. A Panasonic informa queda de 4% nas vendas globais no terceiro trimestre do ano, enquanto a Toshiba relata que vendeu menos 7%. Pior é a situação da Pioneer, com 17% a menos, o que acabou resultando na demissão de seu presidente, Tamihiko Sudo. A Sony, como se sabe, anunciou dias atrás o corte de 16.000 empregos para se acomodar às vendas decrescentes. A Sharp, graças aos TVs LCD, é a única que comemora um aumento (12%).

A crise está forçando um reposicionamento das empresas japonesas, diz o jornal norte-americano Twice. Ninguém fala abertamente, mas o fato é que fusões e/ou aquisições estão no cardápio de todo mundo. A Panasonic deu o primeiro passo ao adquirir o controle da Sanyo, mas a Sharp já havia acertado ficar com a maior parte da Pioneer (aquela que inclui drives Blu-ray e memórias sólidas); ao mesmo tempo, Sony e Toshiba trabalham em conjunto no desenvolvimento dos TVs de led, que podem ser a grande saída para a indústria em 2009, já que seu custo de fabricação é menor.

O fato é que, depois dessa crise, ninguém mais será o mesmo.

Nas ondas do satélite

A briga deve esquentar no setor de TV paga, com a entrada em cena da Embratel. A operadora controlada pelos mexicanos da Telmex, que também tem participação na Net, vai disputar de frente com a Sky, usando para isso seu satélite StarOne C2. A idéia é levar o sinal a pelo menos 90% do território brasileiro até o ano que vem, o que, com a tecnologia de satélites, é perfeitamente factível.

A estratégia da Embratel parece ser bem agressiva: a assinatura mensal, com 20 canais (incluindo os melhores da Globosat), vai sair por R$ 59,90, contra R$ 109,90 do pacote básico da Sky, que tem 100 canais. Alguém pode querer fazer o cálculo do “custo por canal” e chegará ao valor de R$ 1,09 para a Sky contra R$ 2,99 da Embratel. Só que não é essa a conta a ser feita. Ninguém assiste a 100 canais, certo? O truque de todas as operadoras de TV paga, sem exceção, está exatamente em empurrar canais sem atrativo nos pacotes que os assinantes são obrigados a aceitar para ter os melhores canais. Se os 20 canais da Embratel forem bons, aposto que muita gente vai querer trocar.

Vamos ver se o serviço prestado pela Embratel será melhor do que as demais operadoras, campeãs – ao lado das telefônicas – de reclamações no Procon.

Destravando players Blu-ray

Parece que estamos voltando dez anos no tempo! Meu amigo Vinicius Barbosa Lima me envia o link para um site onde se pode baixar “kits de destravamento” de players Blu-ray. Sim, se você adquiriu o aparelho no Exterior e não está conseguindo assistir a discos lançados no Brasil, este é o único caminho (que eu saiba). Incrível que, em plena era da internet, alguém ainda se iluda achando que seria possível travar um aparelho desses. A internet e os hackers estão aí para não deixar dúvidas.

Em tempo: este é o link – http://www.bluraymods.com/ourproducts.asp

HD nas parabólicas

O leitor Roberto Silva pergunta se já existe um decodificador que permita assistir, via antena parabólica, tanto a programação de satélite como a convencional (via terrestre). Se é que entendi bem a pergunta, o problema não está no decodificador, que poderia perfeitamente ser programado para captar os dois tipos de sinal. A questão é política e mercadológica. Há, no momento, um intenso debate a respeito entre as emissoras. Duas das maiores redes do País (Band e RedeTV) tomaram a iniciativa de enviar seu sinal digital para ser captado em antenas parabólicas espalhadas pelo País, sem codificação. Globo, Record e as demais querem que a Anatel proíba esse procedimento, que gera uma concorrência direta com suas retransmissoras no interior.

O problema é “apenas” esse: briga pelas verbas publicitárias. Tecnicamente, seria viável.

Direitos difusos (de quem?)

Você já ouviu falar do CFDD: Conselho Federal dos Direitos Difusos? Pois é, eu também não. Mas é para lá que vai o dinheiro (ou parte dele) arrecadado com multas sobre crimes ambientais ou contra o consumidor. Pelo menos, é o que diz o site do Ministério da Justiça, a quem o tal conselho é subordinado. Se você quiser saber mais, acesse www.mj.gov.br/cfdd.

Mas, por que estou falando disso aqui? É que o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) finalmente se pronunciou sobre a fusão entre a Oi e a Brasil Telecom. Foi autorizada a polêmica união entre as duas operadoras, desde que respeitadas algumas regras. Quem não respeitar, deverá pagar multa e o dinheiro será transferido para o tal CFDD. Que, teoricamente, ajuda a financiar projetos sociais e de proteção do meio ambiente.

Tudo muito bonito. Mas cabe a pergunta: quem vai fiscalizar? E como? O acordo estabelecido pelo Cade diz que a nova operadora só poderá adquirir futuras licenças com autorização especial. Diz ainda que deverão ser mantidos os atuais provedores de banda larga das duas operadoras, sem custo para o assinante, e que esses serviços terão que funcionar de modo independente entre si. Se o Cade demorar o tempo que normalmente leva para tomar uma decisão, o assinante pode ficar esperando sentado…

Aliás, nesta 5a. feira as operadoras de celular decidiram aceitar as condições da Anatel para financiar suas dívidas com a compra das licenças 3G. Poderão pagar em até 5 anos, com juros camaradas (em relação ao que os bancos normalmente praticam). Ou seja, nós, contribuintes, continuaremos pagando essa conta. E recebendo um dos piores serviços do mundo, segundo o Procon.

Tempos modernos

Acabo de ler artigo de meu amigo Sami Douek sobre a degradação da qualidade sonora nas gravações musicais, um problema que surgiu quando se descobriu a compressão digital. Sami cita inclusive artigo de Robert Levine, na Rolling Stone americana, sobre os males que a compressão causa à música – qualquer música. É um tema interessante para discussão, sem dúvida. Lembro que quando visitei a B&W, na Inglaterra, John Dibb, engenheiro-chefe da empresa, me dizia que acha inútil a discussão sobre se o CD é melhor que o vinil, ou vice-versa. “O vinil também tem compressão”, lembrava ele.

Talvez possamos ressalvar que existem compressões e compressões. Assim como há gravações bem feitas e outras péssimas. Como também há ótimos músicos e outros… bem, nem tanto. Mas é fato que a digitalização, que torna a música mais acessível, elimina um dos principais fatores que determinam os bons hábitos musicais, que é a capacidade de discernimento. Tudo se equaliza por baixo, inclusive os ouvidos, e quem não está acostumado a ouvir música boa acaba tomando o baixo nível como referência. Infelizmente.

A propósito, acabo de ler também a notícia de que a Sound Advice, uma das melhores lojas de áudio e vídeo dos EUA, está fechando suas portas. Conheci a sede, em Miami, mas a rede toda tem 22 lojas, e durante um bom tempo foi sinônimo de alto padrão em produtos e serviços. Não suportou a crise, levada pela falência do grupo Tweeter, que havia adquirido a rede em 2001. Seguiu assim o exemplo da Tower Records, maior rede de lojas de discos do mundo, que ruiu no ano passado.

São notícias assim que deixam mais tristes os que apreciam a música de boa qualidade, reproduzida em equipamentos idem.

E os cortes continuam…

Pois é, falávamos ontem aqui sobre as demissões entre as empresas de tecnologia americanas, e eis que da Ásia também chegam notícias bem ruins. Sony, Panasonic, Samsung e LG revelaram prejuízos no terceiro trimestre do ano e refizeram suas previsões de faturamento para o ano fiscal que termina em março. A Sony foi a que cortou mais fundo: 8.000 empregos de uma só vez, sendo que os analistas de mercado em Tóquio dizem, segundo a agência de notícias Reuters, que nem isso será suficiente para reanimar os investidores.

A explicação dos fabricantes, além da crise mundial, é a queda na rentabilidade de produtos como TVs, câmeras digitais e celulares. A queima de preços, que já vem desde o ano passado, está se revelando uma péssima estratégia para esses grandes detentores de tecnologia. Vejam o que disse o vice-presidente da Samsung, Chu Woo Sik: “Estamos nos esforçando para fazer dinheiro com displays LCD, mas a queda de preços fez evaporar nossas margens de lucro”.

Pior: o mesmo problema afeta a divisão de semicondutores da empresa, que é líder mundial em chips. Uma pesquisa da Bloomberg indica que os prejuízos dessa divisão, apenas neste último trimestre do ano, chegam à casa de US$ 73 milhões – há sete anos que os lucros vinham sendo contínuos.

Qual é a saída? Aparentemente, rezar. Agora, o estrago está feito.

Uma nova bolha?

As notícias que chegam do Vale do Silício não são nada animadoras. Cortes e mais cortes. Há quem já sinta saudades da explosão da bolha da internet, que no início da década mandou por água abaixo milhares de empresas, algumas inclusive grandes, que haviam nascido e até crescido com base em investimentos “futuros”. Quando os investidores se deram conta, haviam enterrado milhões de dólares em falsas promessas.

Agora, a situação se repete – se bem que ainda em escala bem menor. O problema é a crise financeira mundial, que faz os investidores (e também os consumidores) se retraírem. Nos EUA, a tradição reza que para abrir um negócio basta você ir ao banco e pedir um financiamento a longo prazo, e com juros camaradas. Só para citar alguns exemplos, Microsoft, Apple, Dell e Cisco surgiram assim. Essa tradição tem a ver com o famoso espírito empreendedor que está na base do capitalismo. Os americanos se orgulham de ser a “terra das oportunidades”, mas nos dias atuais está difícil manter essa imagem.

No caso específico das empresas de tecnologia, a maioria delas trabalhando com perspectivas de retorno a médio ou longo prazo, o apoio dos investidores é crucial. São geralmente fundos de investimento que decidem apostar num determinado projeto, os chamados start-ups. Nos tempos DC (Depois da Crise), esses fundos querem garantias, em vez de simples promessas. Não basta ter uma boa idéia, mas demonstrar que ela é viável economicamente. Reportagem recente da revista Exame mostra que acabou aquela mania de montar equipes gigantescas para tocar um projeto; é preciso fazer mais (leia-se: trazer mais resultados) com pouca gente, isto é, aumentar a produtividade individual de cada trabalhador envolvido no processo.

Nada diferente do mundo real. O problema é que muita gente da tecnologia parece ignorar o mundo real.

Quem transmite em HD

Qual a emissora brasileira que transmite atualmente maior quantidade de programas em alta definição? Quem chutou “Globo”, errou feio. A emissora do Jardim Botânico é apenas a 4a. colocada, numa classificação divulgada semana passada pela Folha de S.Paulo. Embora tenha fixado seu carro-chefe, a novela das 9, como conteúdo diário em HD, a Globo transmite pouca coisa mais. A líder, nesse quesito, é a RedeTV, que já tem 89% de seu conteúdo nesse padrão.

Estranho, não? Mas é o que diz o jornal. Como raramente assisto a essa emissora, vou confiar nos números da Folha. A 2a. colocada seria a Band, para mim outra surpresa, com 29%; e a 3a, o SBT, com 10%, pouco a mais que a Globo (9%). A RedeTV se diz empenhada em ser a “emissora mais tecnológica do Brasil”, nas palavras de seu presidente, Amilcare Dallevo, o que quer que signifique essa frase. A alegação para haver tão poucos programas em HD é a falta de demanda, já que também existem poucas casas equipadas para receber esse sinal.

Na prática, sabemos que o problema é outro: o investimento para produzir programas em HD é altíssimo, e as emissoras não podem (ou não querem) correr o risco sem a garantia de retorno publicitário. Este, por sua vez, irá demorar, ainda mais em tempos de contenção de verbas e de questionamento, em todo o mundo, da mídia televisão, a mais cara de todas.

Em tempo: o levantamento foi feito na semana retrasada, e as porcentagens podem sofrer alterações de uma semana para outra.

Traição e decepção

Imaginemos que fosse no Brasil: a maior empresa do País, em dificuldades financeiras, pede ajuda ao governo. Este inicialmente recusa. Em meio às negociações, a empresa lança uma campanha publicitária com este título: “Carta aberta à população”. No texto, a empresa pede desculpas por ter “desapontado e até traído” seus clientes, e confirma que seu fluxo de caixa “aproxima-se perigosamente do fim”.

Quem é a empresa? Simplesmente, a General Motors. De novo: como seria se fosse aqui?