Archive | fevereiro, 2010

O que é um país em crise

Um leitor outro dia lembrou que a Espanha está em crise e que, por isso, nós brasileiros não temos por que sentir inveja deles. Acabo de retornar de lá e, de fato, diz o noticiário econômico que a Espanha detém uma das mais altas taxas de desemprego da Europa. Mas isso não começou agora, com a crise de 2008; vem de muito antes, e – embora muitos não aceitem essa explicação – tem a ver com o altíssimo índice de desenvolvimento do país nos útimos 30 anos. Sim, a Espanha saiu semi-destruía da ditadura Franco, que foi derrubada em 1975, e graçs a um grande esforço nacional (governo, empresários e população) tornou-se um dos maiores fenômenos de crescimento e estabilidade da História das democracias.

Com a recuperação econômica do país, a população passou a viver melhor, e por mais tempo, enquanto os casais, mais instruídos, decidiram ter menos filhos. A boa situação do país fez também com que muitos jovens pudessem começar a trabalhar mais tarde, com seus pais bancando a faculdade. Resultado: muitos aposentados e menos gente trabalhando. E um tremendo déficit da previdência – que lá funciona, embora os exigentes espanhóis sempre achem que podia funcionar melhor (eles não conhecem a previdência brasileira).

A crise atual da Espanha tem muito a ver, também, com um problema que o Brasil não enfrenta: a invasão de imigrantes. São milhares, talvez milhões, de africanos, asiáticos, árabes e latinos tentando entrar no país todos os dias. Há ainda os refugiados da Europa Oriental, especialmente da região do Kosovo. Barcelona, por exemplo, abriga muitos albaneses, sérvios e macedônios, incluindo milhares de ciganos, facilmente identificáveis nas ruas. Toda essa gente entra sem permissão no país e acaba roubando postos de trabalho de espanhóis. Esses movimentos migratórios também alimentam os grupos separatistas, como na Catalunha (cuja capital é Barcelona) e no País Basco, palco de contínua violência.

Enfim, esse é o caldo que esquenta a situação política e econômica espanhola. Muito mais complexo, como se vê, do que a simples crise do dinheiro. Ainda assim, é um país fascinante e que pode dar ao Brasil – o país da marolinha – muitas aulas de civilidade e patriotismo sincero.

As pesquisas não mentem jamais…

Terminou o evento organizado pela Philips aqui em Barcelona, onde estiveram mais de 200 jornalistas de diversos países (quatro deles brasileiros). A importância dos chamados mercados emergentes foi ressaltada por todos os executivos da empresa, com Brasil e China à frente (havia também muitos russos e ucranianos). Como disse Wiebo Vaartjies, diretor da área de aparelhos de consumo, o grupo se reestruturou nos últimos anos, reduzindo suas diversas divisões para apenas três (as outras duas são as de iluminação e de equipamentos médicos). No caso dos consumer eletronics, a ênfase maior é mesmo nos TVs mais avançados, que já comentei aqui anteontem. Mas a Philips insiste num ponto: investe milhões em pesquisas para descobrir o que exatamete quer o consumidor; e a partir desses dados desenvolve produtos inovadores. Que podem não vender tanto quanto um iPhone, mas contribuem para fixar a imagem de uma empresa que detém alta tecnologia.

Foi assim que surgiu, por exemplo, o recurso Ambilight, deixado meio de lado nas últimas linhas de TVs, mas que agora em 2010 volta com força total e um avanço: um sensor que identifica a cor da parede e manipula os leds luminosos por trás do painel, para obter a combinação mais agradável na sala (foto acima). Alguns podem até achar que isso é “perfumaria”, como se diz no jargão da indústria, mas a Philips diz ter pesquisas indicando que o consumidor adora (o índice de satisfação dos usuários desse tipo de TV é de 80%, segundo a empresa).

Além do já comentado 3D, outra aposta da Philips para o segmento de televisores é o acesso direto à internet. “O TV está se transformando numa espécie de tótem dentro da sala”, comparou Vaartjies, referindo-se à possibilidade de conectar ao TV uma infinidade de fontes de sinal. Alguns dos modelos que a empresa irá lançar este ano, demonstrados no evento, já incorporam conexão DLNA (permite reproduzir arquivos de um notebook, por exemplo) e o polêmico HDMI 1.4 (para trafegar maior quantidade de dados).

Na área de áudio, as pesquisas da Philips indicam que o consumidor quer aparelhos mais simples e práticos de usar. A empresa demonstrou em Barcelona um novo tipo de processamento que chama de “Full Sound”, que consegue nivelar o som de um MP3 ao de um CD (como pediram os consumidores nas pesquisas). Na demonstração, tudo bem; vamos ver quando o produto chegar de fato ao mercado, e aí poderemos fazer nossos próprios testes. Tem ainda um sistema compacto para home theater que traz o que a Philips chama de “360 Sound”, usando minúsculas caixas acústicas traseiras em configuração dipolar.

Mas o produto mais inovador da Philips neste evento veio de outra área: a de “personal care”, que inclui barbeadores, escovas de dente elétricas e – acreditem – um massageador sensual. Tomando todo o cuidado para não ser confundido com um vendedor de produtos eróticos, um executivo da empresa fez a, digamos, demonstração do aparelho (foto ao lado), que tem versões para homem, mulher e casal (para os interessados, recomendo este vídeo, feito por minha colega Ana Freitas, do Caderno Link, do Estadão; e para os mais interessados ainda, uma informação: a versão básica vai custar na Europa 69 euros). Basta apertar um botão e… click: o corpo relaxa e os parceiros sentem-se mais à vontade. Pelo menos, é o que dizem as pesquisas.

O que queremos para o Brasil

Conversando com os colegas jornalistas que vieram a Barcelona, convidados pela Philips, e também com alguns espanhóis, notamos todos como a cidade – que tem mais de 2 mil anos de existência – parece moderna e avançada. O hotel onde estamos hospedados encaixa-se na categoria dos chamados “edifícios inteligentes”, com elevadores programados para atender aos chamados pela ordem, economizando assim energia. Claro, este é um detalhe secundário. Mas Barcelona, que tem uma vasta área sendo restaurada, possui um metrô considerado dos mais eficientes do mundo, embora tenha sido construído há menos de trinta anos, e – segundo me contaram – alguns dos projetos urbanísticos mais avançados da Europa.

Essa modernização aconteceu, em grande parte, em função da Olimpíada de 1992, quando a cidade literalmente se transformou para receber milhares de turistas. De lá para cá, Barcelona tornou-se polo de atração para eventos (com um enorme centro de exposições) e uma das capitais culturais do mundo, com museus, teatros, salas de concerto e galerias de arte de fazer inveja a Paris, Londres ou Nova York. Entre os brasileiros que aqui estão, comentávamos em tom de brincadeira: Barcelona é, hoje, como será o Rio de Janeiro daqui a seis ou sete anos… Quem fez a piada percebeu que, depois dos risos iniciais, surgiu no ar um misto de raiva e frustração. É triste, mas todos sabemos que não será assim.

Relendo o artigo de Ethevaldo Siqueira sobre o papel das universidades brasileiras no avanço tecnológico, juntei as duas coisas. Por que uma única cidade (no caso é Barcelona, mas poderia citar também Las Vegas, Berlim ou várias outras) recebe anualmente mais turistas do que o Brasil inteiro? E por que países sem grande expressão na economia mundial (como Noruega, Taiwan ou Austrália) conseguem formar todos os anos uma quantidade muito maior de grandes cientistas, com prêmios e artigos publicados pelo mundo afora, do que o Brasil com todo o seu potencial? O artigo de Ethevaldo ajuda a encontrar algumas respostas. Nossas universidades são fechadas e morrem de medo de inovações como o código aberto (open source), que é uma das bases do avanço tecnológico atual. E, quando questionadas, apelam para o velho corporativismo que manda premiar todo mundo por igual, independente de seu mérito individual. Falo, é claro, das universidades públicas – das particulares, nem dá para falar quando se pensa em educação e cultura.

Sugiro a todos uma boa reflexão a respeito, de preferência sem misturar esse assunto com política, como alguns insistem em fazer. No fundo, essa discussão tem a ver com a pergunta: qual é o futuro que desejamos para o País? Você aí, sabe a sua resposta?

Saiu o primeiro TV 3D

O mais do que atento blog de tecnologia Engadget deu a dica. Fui conferir e está lá mesmo, no site da Amazon: TV Samsung LED 1080p 240Hz, modelo UN55C7000, de 55″, por US$ 3.299,99. Oficialmente, é o primeiro modelo compatível com imagens 3D que chega ao mercado americano de massa. Curioso que nem a própria Amazon explora esse “pequeno detalhe”. A informação de que trata-se de um televisor 3D-Ready, isto é, preparado para reproduzir imagens tridimensionais, está escondida lá no meio das características técnicas (veja aqui); aliás, características creditadas ao fabricante. Quer dizer, nem a Samsung está dando muito peso à novidade. 

Talvez a explicação seja esta: como costuma fazer sempre, a Amazon deixa claro que o produto ainda não está disponível para entrega. O pedido equivale a uma reserva, a ser confirmada quando o fabricante liberar. O aparelho é esse aí da foto. Logo saberemos quantos americanos se dispõem a encarar.

Apenas como curiosidade, anotei os preços de outros modelos LED-LCD de 55″, com recursos semelhantes, só que convencionais (2D). Vejam:

Samsung UN55B8000 – US$ 2.497

Toshiba Regza 550SV670U – US$ 1.834

Vizio VF-551XVT – US$ 1.899

LG 55LH90 – US$ 1.989

Vejam bem, não estou comparando os produtos, até porque não os testei. É apenas para dar uma idéia de quanto custa, na prática, essa novidade chamada 3D.

Inventor do rádio é brasileiro!

Meu amigo Eduardo Ribeiro, que faz um trabalho admirável de integração entre jornalistas de todo o País (e olha que integrar esse pessoal não é fácil), me envia o link para a campanha de reconhecimento do Padre Landell de Moura. Segundo os idealizadores do movimento, foi esse brasileiro, nascido em Porto Alegre em 1861, quem na verdade inventou o rádio, e não o italiano Guglielmo Marconi, conforme todos aprendemos na escola. E mais: ainda no início do século 20, Moura teria criado os princípios básicos do que viria a ser a televisão, oficialmente “inventada” em 1923 pelo russo Vladimir Zworykin. Ou seja, o padre seria mesmo um gênio não reconhecido. Apesar dessas façanhas, e de ter patenteado dezenas de inventos no Brasil e nos EUA, Moura não conseguiu apoio, chegou a ser chamado de louco e acabou esquecido.

Claro, quem lê deve ter se lembrado de Santos Dumont, que a maioria dos brasileiros considera o “pai da aviação”, enquanto o mundo inteiro diz que quem inventou o avião foram os irmãos americanos Wilbur e Orville Wright. Mas é um caso bem diferente. Para sustentar os méritos de Moura, há uma pilha de livros já publicados, mas sem divulgação (a lista também está no site). Quem quiser apoiar a causa, pode entrar no link e acrescentar seu nome ao abaixo-assinado virtual, que os organizadores pretendem enviar às autoridades, visando o reconhecimento oficial. De qualquer maneira, vale a pena, no mínimo, conhecer um pouco da história do homem.

TV 21:9 no Brasil este ano

Estou em Barcelona, a convite da Philips, para a edição 2010 do Winter Media Event, que a empresa organiza sempre nesta época do ano. Em 2009, vimos em primeira mão o televisor Cinema 21:9, que possui tela mais retangular que o normal, igual à de cinema. Foi um dos produtos mais badalados da Europa e, por enquanto, a Philips é a única que o produz. Hoje, vimos a nova versão, ainda mais avançada, que utiliza backlight de LED. E ficamos sabendo que a empresa decidiu mesmo levar o 21:9 para o mercado brasileiro, embora ainda não esteja decidido se será o LCD-LED ou o modelo convencional. De qualquer forma, sai no segundo semestre.

Como sairá também, promete a Philips, pelo menos um modelo de TV 3D-Ready, ou seja, já preparado para as transmissões tridimensionais das emissoras brasileiras. Quem comprar poderá fazer a atualização pela internet, como parece ser a tendência de todos os fabricantes, já que ninguém sabe ao certo qual será o padrão de transmissão. Dos vários padrões existentes, há três mais prováveis, nos disse Danny Tack, especialista da Philips na área: FS (Frame Sequencial), o mesmo já oficializado para os discos Blu-ray; Side-by-Side, que utiliza apenas metade da resolução Full-HD para cada quadro da imagem (os quadros são sobrepostos para formar a ilusão do 3D); e o chamado Checker-Board, que trabalha com uma resolução intermediária. Num dos próximos posts, explicaremos melhor essas diferenças.

Voltando à Philips, outra novidade é que a empresa fez mesmo a opção pelos LCDs com backlight de LED. No mercado europeu, irá oferecer dois tipos: Edge-Lit e LED-Direct, este equivalente ao Local Dimming, que é mas eficiente (e também mais caro).

Preços? Ninguém da empresa se arrisca a prever. Em tempo: para quem ainda não viu o Cinema 21:9, sugiro este vídeo que fizemos no ano passado.

TVs correm em direção à web

Parece cada vez mais sem volta o caminho que leva as emissoras de televisão à internet. No Brasil, claro, devido às restrições de conexão, talvez esse processo demore. Mas, nos países desenvolvidos, quase todo dia sai uma notícia confirmando a tendência. Uma das mais recentes que li fala da HBO, maior programadora de TV por assinatura dos EUA e pertencente ao grupo Time Warner. A empresa anunciou o lançamento do site HBOGO.com, acessível apenas para os assinantes da operadora Verizon – que atualmente somam 2,9 milhões de residências. Esses usuários poderão agora ter acesso a cerca de 600 horas de conteúdo exclusivo da HBO, através do site. Aliás, a Verizon já tem acordo semelhante com uma rede aberta, a NBC Universal, que está colocando na internet, ao vivo (neste endereço), a cobertura exclusiva dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Vancouver.  

O próximo passo da HBO será levar seu conteúdo a celulares e tablets. As conversas com a Apple já começaram.

3D também nos receivers

Provando que está mesmo disposta a liderar o mercado de 3D, a Sony USA anunciou que sua nova linha de receivers – que chega em junho – incluirá quatro modelos com conexão HDMI 1.4, sendo um deles (STR-DN1010, foto) com o recurso “3D Passthrough”, que permite transportar sinal de vídeo 3D entre uma fonte (um player Blu-ray, por exemplo) e um display compatíveis. A conexão é essencial para que o sinal chegue “do outro lado” integralmente, sem perdas. No caso de alta definição, isso é crucial, claro (vale lembrar que nem toda imagem 3D é HD). O preço de lançamento do receiver já foi até anunciado: US$ 499.

A Sony é um dos fabricantes que mais vêm alardeando as qualidades do vídeo e da TV 3D. Promete lançar também no meio do ano, na Europa e EUA, a nova linha de TVs Bravia 3D, e já colocou no mercado americano dois players Blu-ray compatíveis; a atualização de firmware será feita pela internet. Não sei quais são os planos para o mercado brasileiro, até porque de nada adianta ter um aparelho 3D se não há conteúdo (ou há muito pouco) para reproduzir nele. De qualquer forma, a tecnologia 3D está mexendo com toda a indústria, principalmente depois do fantástico êxito do filme “Avatar” nos cinemas – falando nisso, o diretor James Cameron anunciou que o filme sai nos EUA em Blu-ray em abril. Será em 3D?

Banda larga vem pra Caixa

Para não dizerem que só falo mal do governo, faço questão de registrar aqui uma boa iniciativa da Caixa Econômica Federal. Neste mês de fevereiro, o banco está promovendo uma série de eventos em Brasilia para mostrar à população como funciona a interatividade na TV Digital. São demonstrações públicas, utilizando sinal do SBT e da TV Brasil, com objetivo de facilitar a comunicação da empresa com seus clientes. A idéia veio da agência de publicidade Borghierh-Lowe e da empresa HXD Interactive Television, que desenvolve aplicativos para TV interativa. O usuário pode, por exemplo, fazer simulações sobre financiamentos e cálculos do FGTS, inclusive com canal de retorno.

A CEF mostra com isso que está antenada com as novas tecnologias e, mais, enxerga na interatividade uma ferramenta potencial para melhorar seus serviços. É um ótimo primeiro passo. E surpreendente, partindo de uma estatal.

A festa dos camelôs

Interessante que toda vez que tocamos aqui no assunto “pirataria” há uma enxurrada de comentários dos leitores dizendo coisas como “é isso mesmo”, “não tem jeito”, “ninguém segura os piratas” e outros argumentos do gênero. Comentei outro dia sobre a pirataria na TV paga e o amigo Ronaldo Franchini acrescentou que isso não é novidade e que o problema só tende a aumentar. Não é por acaso que uma reportagem do Estadão neste fim de semana relata como os bandidos estão se aproveitando da confusão em torno do novo conector elétrico, que vem causando tanta confusão. O texto destaca a questão dos aparelhos de informática, os mais afetados pela mudança por exigirem o uso de no-breaks e/ou filtros de linha que, em 99% dos casos, utilizam o padrão americano 2P+T. Na verdade, sistemas de proteção contra surtos na rede elétrica devem ser usados sempre, em todos os eletrônicos, mas essa é outra história.

Pesquisando no Rio de Janeiro, o repórter constatou que os camelôs estão sendo os grandes beneficiados, porque só eles têm para vender os adaptadores que agora se tornaram indispensáveis. A Casa & Vídeo, uma das principais redes de lojas da cidade, diz que encomendou o produto em janeiro e até agora não recebeu; só tem adaptador para instalações sem aterramento. Ou seja, é o Estado ajudando a pirataria, em vez de combatê-la.

Telebrás: o tamanho do estrago

Se os envolvidos fossem pessoas de respeito, até seria possível argumentar em nome do “bem do Brasil”. Infelizmente, não é este o caso. A reação irada do presidente Lula na sexta-feira, quando um repórter lhe perguntou sobre o vazamento de informações (na verdade, boatos) que levaram as ações da Telebrás às alturas, só confirma o que já se suspeitava: foi tudo armação. “Não saiu informação privilegiada de dentro do governo”, disse Lula. “No meu governo, as ações de todas as empresas cresceram. Se o jornal em que você trabalha tiver ações na Bolsa, pode estar certo que cresceram muito também.”

Alguém conhece uma empresa cujas ações tenham subido 35.000% em sete anos? Tenho amigos que operam na Bolsa e ficaram espantados com esse número. Não sei se as investigações da CVM vão dar em alguma coisa, é difícil acreditar. Se fosse um governo sério, no mínimo colocaria em standby a reativação da Telebrás, para não gerar mais suspeitas. Como não é, Lula apressou-se em confirmar: “Nós vamos recuperar a Telebrás. Nós vamos utilizá-la para fazer banda larga neste país”, disse.

O problema, para Lula e seus colegas, é que isso não depende apenas de seu desejo. A Telebrás, além de estar desativada e sem quadro de pessoal qualificado, simplesmente não possui rede própria; teria que usar os cabos de fibra óptica da Eletronet, enrolados numa interminável disputa judicial, sobre a qual já comentei aqui. Reativar a estatal que já deu tanto prejuízo ao País, até que é possível: basta contratar os “companheiros” no esquema de sempre. Difícil vai ser fazê-los produzir alguma coisa de útil.

A dura vida dos “sem-3G”

Reportagem do UOL Tecnologia na semana passada detalha um dos efeitos do alto custo da banda larga no Brasil. Com a queda nos preços dos smartphones, muita gente entrou nessa achando que era a oitava maravilha do mundo. Quando descobriu os preços dos pacotes de dados oferecidos pelas operadoras (todas elas), caiu na real. E simplesmente deixou de usar a conexão 3G para acesso à internet, ou seja, o smartphone deixou de ser “smart” e passou a ser, apenas, um telefone portátil. O repórter Guilherme Tagliaroli descobriu vários casos assim.

Além do custo quase proibitivo, a falta de regulamentação sobre a venda desses pacotes causa uma tal confusão na cabeça dos usuários que muitos acabam simplesmente desistindo do 3G. Cada operadora utiliza uma política comercial e uma forma de cobrar pelos dados, o que a meu ver deveria ser regulado pela Anatel. E esse é um mercado que não dá para desprezar: segundo a consultoria especializada Teleco, já existem no País mais de 5 milhões de assinantes 3G. Mas aí entra o famoso custo-Brasil: “A tecnologia 3G chegou com dois anos de atraso em comparação a outros países. E a estrutura de rede é pouco desenvolvida”, diz um dos maiores especialistas no assunto, Eduardo Tude, presidente da Teleco, que tem um estudo indicando que até 2011 o número de linhas móveis de banda larga irá ultrapassar o de linhas fixas.

Outro estudo da consultoria é de nos envergonhar: revela que o custo médio de um pacote de 1GB no Brasil é de R$ 80, enquanto na Inglaterra equivale a R$ 17 (justamente a Inglaterra, que tem um nível de tributação dos mais altos do mundo). Para ficar apenas aqui na América do Sul, o estudo compara o Brasil com seus vizinhos nesse quesito. Enquanto aqui um plano de 500MB custa em torno de R$ 76, no Chile sai por R$ 54, e na Argentina por R$ 31.

OLED: me inclua fora dessa…

Como já se esperava (leia aqui), a Sony desistiu mesmo da tecnologia OLED. A notícia é da agência Reuters: a empresa anunciou em Tóquio que não irá mais vender displays desse tipo no mercado japonês, onde a receptividade – após dois anos do lançamento inicial – foi mínima. Pretende continuar com o modelo atual, de 11″, na Europa e América do Norte, conforme tiver demanda, mas não irá investir em outros. “Vamos prosseguir pesquisando novas aplicações para a tecnologia OLED”, disse o portavoz da Sony, sem entrar em detalhes.

Sem dúvida, uma pena. Os displays OLED têm performance bem superior à de plasmas e LCD-LEDs, mas a Sony acha que o custo de fabricação é impraticável. Mesmo o modelo de 11″ é vendido nos EUA por algo em torno de 2.000 dólares, o que assusta qualquer um. Não é à tôa que, segundo a empresa de pesquisas DisplaySearch, foram vendidas até hoje somente 2 mil unidades. O problema é que os coreanos parecem com enorme apetite para entrar também nesse segmento. A LG lançou na Coréia em novembro um modelo OLED de 15″, e na semana passada demonstrou um outro, de 27″ (foto); e a Samsung já tem uma fábrica de painéis desse tipo.

A propósito, esta entrevista com Won Kim Ha, vice-presidente da divisão OLED da LG, ilustra bem o citado apetite.

Pirataria na TV paga

Confesso que para mim é novidade. O novo ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, que já foi presidente do Conselho de Combate à Pirataria, assumiu o cargo prometendo combater a pirataria da TV por assinatura. Segundo ele, até os canais pay-per-view estão sendo vendidos ilegalmente! Antenas semelhantes às da Sky, em formato pizza, são comercializadas no mercado negro por até 100 dólares; e decoders da Net também, diz o ministro. “Pelo que soube, você pode comprar pelo telefone”. Barreto prometeu que irá conversar com as operadoras para criar um plano contra esses piratas. Vamos acompanhar.

Telefone da alegria

A propósito das últimas discussões sobre banda larga, Anatel e o papel das operadoras, vejam que maravilha esta notícia que encontrei no site Tela Viva: o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) apresentou projeto que cria mais um fundo para financiar as telecomunicações. O FITEL (Fundo de Investimentos em Telecomunicações) seria destinado a investimentos das teles. Podem acreditar.

Em seu primeiro parágrafo, o texto propõe “apoiar investimentos voltados à ampliação e a atualização tecnológica da infraestrutura de redes de comunicações do país, e de fomentar a competição no setor de telecomunicações”. Nos parágrafos seguintes, detalha de forma elegante uma nova maracutaia com dinheiro público, inclusive apoio do BNDES. Com um detalhe: só participariam as grandes operadoras. Bela forma de fomentar a competição…

Leiam, por favor, e digam se estou exagerando.

Quem quer comprar um tesouro?

Talvez não diga muita coisa para as novas gerações, mas para a minha com certeza é uma notícia triste: os célebres estúdios de Abbey Road, em Londres, estão à venda. Numa demonstração do estágio atual do mercado fonográfico, a gravadora EMI, proprietária do local, abriu negociações com interessados em adquirir o prédio (um sobrado que de fora nada tem de especial) e os equipamentos ali usados, que estão entre os mais refinados do mundo. Segundo o jornal Financial Times, que deu o furo, a gravadora comprou o sobrado em 1929, por 100 mil libras; agora, pede algo em torno de 120 milhões! O dinheiro será usado para abater parte de uma dívida com o Citibank, que já beira os 3,3 bilhões.

Nestas oito décadas, passaram pelo prédio número 3 de Abbey Road, região noroeste de Londres, todos – simplesmente TODOS – os músicos e intérpretes importantes, do jazz, da música clássica e do pop/rock. De Sinatra a Zubin Mehta, do Pink Floyd a Ella Fitzgerald, e mais Led Zeppelin, The Who, Miles Davis… Mas, claro, Abbey Road não seria o que é (uma marca admirada por todo mundo que entende de música) se não tivesse sido palco de 90% das gravações de um certo quarteto, nos anos 60. E se não tivesse sido capa (a rua, não o estúdio) do último disco desse mesmo quarteto, em 1969 (foto).

Tive o privilégio de entrar em Abbey Road em 2008 e chegar perto do piano com que – me disseram lá – Paul McCartney gravou “Let It Be”. Para saber mais detalhes, cliquem aqui. A notícia não esclarece o que será feito do fantástico acervo de gravações ali guardadas, algumas tão antigas quanto o próprio estúdio. Um verdadeiro tesouro, que pode simplesmente desaparecer. Me conforta um pouco o fato de saber que, pelas leis atuais de Londres, é proibido construir edifícios altos no bairro St. John´s Wood, onde fica a rua. Mas, nesse mundo virado de cabeça pra baixo em que vivemos, nada impede que derrubem a cada e construam ali, quem sabe, um estacionamento ou uma lanchonete fast-food. Só me resta rezar, ao som de “Because”.

Um golpe na banda larga

Até que estava demorando. A denúncia feita hoje pela Folha de São Paulo, de que as ações da Telebrás subiram 35.000% desde o início do governo Lula, pode ser o golpe que as operadoras de telefonia esperavam para acabar de vez com o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), aparentemente tão caro ao presidente Lula. Uma valorização desse nível, nem mesmo a todo-poderosa (e extremamente produtiva) Petrobrás conseguiu! E olhem que a Telebrás, na prática, não existe: está parada desde a privatização, em 1998, com apenas alguns funcionários que não têm rigorosamente nada para fazer.

Segundo o jornal, a empresa vem sendo investigada desde 2008 pela CVM, responsável pela fiscalização nas Bolsas de Valores, com a ajuda de procuradores de Justiça. É estranho que a investigação esteja demorando tanto, mas de qualquer forma o simples fato de estar sob suspeita deixa a Telebrás absolutamente sem condições de assumir qualquer compromisso público – quanto mais administrar um plano que, pelas estimativas mais modestas, irá consumir algo em torno de R$ 3 bilhões (há quem fale em R$ 70 bi). O tema veio a público meio que como brincadeira, quando um “ongueiro” (leia-se: dirigente de uma ONG financiada pelo governo federal) fez circular pelo Twitter uma frase do presidente Lula garantindo que a Telebrás seria encarregada de conduzir o PNBL. Foi no último dia 2, conforme relatamos aqui. Mas, pelo visto, a farra já vinha desde 2003, quando as ações da empresa começaram a subir sem razão aparente.

Claro que vai ser quase impossível descobrir quem ganhou com essas oscilações. Mas há pistas: foram as mesmas pessoas que espalharam boatos sobre a reativação da Telebrás semi-extinta. Com essas e outras, só mesmo se for muito irresponsável é que Lula irá manter seu plano. Será mais fácil criar uma outra estatal do que ressuscitar esse dinossauro mergulhado na lama.

Quem não conseguir abrir o link da reportagem da Folha, pode ler também aqui.

Plugue vai parar na Justiça

Continua grande a confusão em torno do novo padrão de conexão elétrica implantado no País pelo Inmetro. Revendedores e instaladores já discutem a possibilidade de recorrer à Justiça contra a mudança, que seria até mesmo ilegal. Não, você não leu errado. O questionamento é fácil de entender: as normas da ABNT não têm força de lei, já que essa é uma entidade privada, não pertence ao governo. O Inmetro é um órgão de fiscalização, não pode legislar. E o Conmetro também não possui poder legal para legislar sobre nada, por ser apenas um órgão auxiliar do executivo. Além do mais, o Inmetro não cumpriu uma das recomendações expressas da Norma 14136, quando oficializada pelo Conmetro, que determinava a realização de “ampla campanha de divulgação” junto à população.

Em suma, a ação movida pelo Ministério Público do Paraná tem boas chances de ser bem sucedida e mudar toda a situação. Pode até criar jurisprudência! Enquanto isso, dá-lhe adaptador, já que ninguém mais consegue encontrar no mercado os plugues antigos e os aparelhos continuam saindo de fábrica (ou sendo importados) com o plugue novo – o único fabricante que de fato já adotou o novo padrão é a Panasonic.

Bem, para quem quiser se inteirar do problema, recomendo a cartilha preparada pelo Inmetro para tirar dúvidas. É uma boa leitura para o Carnaval.

A culpa é do anãozinho

O ministro Helio Costa foi escalado para dar explicações à imprensa, ao final da reunião de quarta-feira sobre o Plano Nacional de Banda Larga. Justamente ele, que vem batalhando ao lado das operadoras privadas e é frontalmente contra a reativação da Telebrás para cuidar do assunto. Apesar das idas e vindas, Costa garante que a intenção do governo é implantar o Plano ainda este ano, no mandato do presidente Lula. Quando lhe perguntaram sobre o “episódio do Twitter“, quando Lula teria dito que a decisão de reativar a estatal já está tomada, Costa saiu-se com esta, segundo o site Tela Viva: “Havia um anãozinho embaixo da mesa naquela reunião e que passou uma informação que não estava absolutamente correta”.

Então, está explicado: o aumento de 20% no valor das ações da Telebrás naquele dia foi culpa do anãozinho.