Archive | maio, 2010

Comentários em blogs: muito cuidado!

O site Comunique-se, que cobre os bastidores da mídia, relata em detalhes mais um imbroglio envolvendo jornalistas que mantêm blogs onde as intenções nem sempre ficam claras. Em época de eleições, com muitos nervos à flor da pele e dinheiro fácil para os que se dispõem a vender até a alma (e há tantos…), esse fenômeno torna-se recorrente. Existem os que já deram um jeito de garantir sua boquinha para o caso de termos uma mudança de governo no final do ano; os que esperam justamente essa mudança para se aboletar; e os mais desesperados, que vêem o tempo passar sem conseguir (por enquanto) nada. Caldo perfeito para denúncias, calúnias, difamações e por aí vai.

O mais recente envolve Paulo Henrique Amorim, veterano da televisão, que de uns tempos para cá ficou tão chapa branca que perdeu grande parte da credibilidade conquistada nos tempos de Veja e Globo; e Ricardo Noblat, igualmente veterano (mas da mídia impressa) e provavelmente o primeiro jornalista a criar um blog sobre política no País. Noblat tem no currículo uma lista de processos movidos por políticos de vários partidos e é, sem dúvida, polêmico. Não posso falar de sua vida pessoal, mas sei que sempre esteve do lado que considero o mais adequado a um jornalista – a confrontação ao poder, seja de quem for. Imprensa livre se faz criticando o governo, não elogiando. Quem possui espaço num veículo de comunicação deve usá-lo para defender a comunidade e o contribuinte, que é quem sustenta o governo. Ponto.

A briga surgiu porque Noblat escreveu que ao Supremo Tribunal Federal “só falta tomar coragem” para punir a candidata Dilma Roussef devido aos abusos na pré-campanha – e Amorim tomou as dores dela. Permitiu que leitores usassem seu blog não para criticar Noblat, mas para ameaçá-lo de morte!!! Diante do mal-estar causado, teve que pedir desculpas e retirou do ar os comentários ofensivos. Isso depois de Noblat ter reagido: “Quem tem um blog se torna responsável também pelo que deixa postado no espaço dos comentários. A esmagadora maioria dos comentaristas usa apelidos ou se vale de nomes falsos”, escreveu.

Sábias palavras. Aqui mesmo, neste minúsculo blog, somos obrigados às vezes a censurar determinados comentários, quando escritos com visíveis segundas (ou até terceiras) intenções, ou quando agridem ou ofendem pessoas, empresas e instituições. É uma pena que muita gente não saiba utilizar um espaço democrático e, ao mesmo tempo, critique os desvios da mídia. Se antigamente dizia-se que “papel aceita tudo”, o que dizer então da internet, onde muitos se escondem atrás de pseudônimos, nomes falsos e vivem de espalhar vírus. Ainda pretendo traduzir para publicar aqui um artigo de Noam Cohen, publicado no The New York Times em 2008, criticando a “rede de mentiras“. É a síntese desse perigoso fenômeno que estamos vivendo.

Voltando às brigas políticas, não dá para levar a sério um blog (ou qualquer meio de comunicação) que utiliza chamadas como Arruda dava dinheiro a partido que apóia Serra. Bye-bye Serra 2010, ou O Vesgo tem mais chance que o Serra, ou ainda Serra prometeu, mas o Morumbi não vai abrir a Copa. Ainda que se queira apoiar Dilma, o que é direito de qualquer cidadão, existem meios inteligentes e honestos para fazê-lo. Sim, quando se quer ser honesto…

TV Digital sob ameaça. Será mesmo?

Os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram, na última quinta-feira, não julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade apresentada pelo PSOL contra o Sistema Brasileiro de TV Digital. Sim, o partido entrou com a ação em 2007, propondo que a implantação da TV Digital no País fosse simplesmente suspensa. Motivo: o governo não poderia distribuir canais digitais às emissoras que tinham concessões analógicas, pois trata-se de um serviço diferente; deveriam ser abertos novos processos de concessão. O STF levou quase três anos para agendar o julgamento e, no dia marcado, decidiu que não iria julgar. Agora, sabe-se lá quando isso irá ocorrer.

Ou melhor: sabe-se sim – nunca. Ou alguém acredita que haja interesse dos juízes em mexer nesse vespeiro? Já imaginaram interromper todas as transmissões digitais e voltarmos a ver o velho sinal analógico? Só mesmo na cabeça desses políticos…

Copa em 3D, a R$ 200 por jogo

Os fanáticos por futebol podem preparar os respectivos bolsos: a rede Cinemark confirmou que exibirá jogos da Copa do Mundo em 3D, numa parceria com a TV Globo (que irá gerar o sinal), devidamente autorizada pela Fifa. Foram selecionadas para o projeto as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Salvador. Inicialmente, estão sendo oferecidos pacotes para empresas, que poderão distribuir os ingressos a funcionários, clientes etc. Cada entrada custa R$ 200, com o mínimo de 50 por pacote. Os ingressos que sobrarem (se sobrarem) poderão depois ser adquiridos de forma avulsa. Serão ao todo oito partidas transmitidas em 3D, incluindo as três primeiras do Brasil: dia 15, contra a Coréia do Norte; dia 20 (Costa do Marfim) e dia 25 (Portugal). A comercialização é de responsabilidade da empresa Golden Goal, também autorizada pela Fifa.

O show do áudio high-end

Infelizmente, não pude estar presente ao Munich High-End 2010, que aconteceu no início de maio e que vai se transformando no evento mais importante do mundo na área de áudio. Trata-se de uma feira e de um congresso organizados pela High-End Society, fundada em 1982 na Alemanha e que reúne a maioria dos fabricantes e distribuidores de equipamentos de áudio de alto padrão na Europa. Uma entidade onde só entram empresas que levam esse negócio a sério, ou seja, fabricam produtos sob rígido controle de qualidade e se preocupam com a verdadeira satisfação de quem os compra.

Meus colegas da The Absolute Sound estiveram lá e publicaram detalhes sobre o evento. Vejam no link. É de dar água na boca de qualquer audiófilo.

22 perguntas à Anatel

Após a consulta pública que durou dois meses (de 22 de março a 22 de maio últimos), o Ministério Público Federal de São Paulo enviou à Anatel 22 pedidos de informação sobre o serviço de banda larga 3G no País. Durante aqueles 60 dias, consumidores e representantes de entidades civis enviaram ao MPF o relato de suas experiências com o serviço e sugestões para aprimorá-lo. Segundo o procurador Marcio Schusterschitz, que coordenou o trabalho, foram mais de 700 mensagens. As queixas mais comuns: baixa velocidade e falta de informações sobre contratos, além de falhas na cobertura do sinal. Enfim, nada diferente do que cada um de nós, que tenta utilizar a internet móvel, já não tenha experimentado e que é bem documentado, por sinal, em todos os blogs, fóruns e demais meios de comunicação que tratam do tema.

Foi dado prazo de 30 dias para a Anatel responder e, mais uma vez, é difícil acreditar que esse prazo será cumprido (o procurador disse à Agência Brasil que poderão ser 60 dias, considerando que há muitas questões a serem esclarecidas). O curioso é que, lendo as tais 22 perguntas, fica uma sensação meio déjà-vu: nenhuma delas chega a ser novidade. Portanto, a Anatel já deveria ter esclarecido e resolvido. Exemplos: quais os direitos reconhecidos aos usuários pela regulação de banda larga? Qual a responsabilidade das operadoras pela variação da velocidade de navegação? Qual a atuação da ouvidoria da Anatel diante das reclamações dos consumidores?

Não sei se é do conhecimento geral (essas coisas geralmente ficam restritas a especialistas), mas existe no País um órgão chamado CDUST (Comitê de Defesa dos Usuários de Serviços de Telecomunicações), que serve justamente para fiscalizar o cumprimento daquilo que o MPF se propõe agora a investigar. Aliás, no final de abril esse comitê enviou ao conselho diretor da Anatel sugestões para aumentar a transparência de suas decisões; que se saiba, até agora nada foi decidido a respeito. Temos, portanto, dois órgãos pagos com dinheiro público para verificar se a Anatel está fazendo direito o seu trabalho. Se não fizer, todos acabam ficando sob suspeita.

Para quem quiser ver a lista completa dos questionamentos feitos pelo MPF, é só acessar este link.

Trabalho escravo high-tech

Minutos depois de receber uma mensagem propondo adesão a um abaixo-assinado contra o trabalho escravo, li surpreso hoje a notícia de que grandes empresas de tecnologia estão investigando a causa de uma série de suicídios acontecidos nos últimos dias na China. Coincidência? Bem, os dez suicidas divulgados até agora são todos funcionários da empresa Hon Hai, que fabrica componentes para clientes como Apple, HP, Dell e Nokia.

Os primeiros relatos indicam que todos vinham sendo pressionados por seus chefes, por ordem de Terry Gou, diretor-geral do grupo FoxConn, dono da Hon Hai. Em abril, o primeiro deles saltou da janela de seu dormitório, num dos prédios da fábrica localizada na cidade de Shenzen, onde se concentra a maior parte das empresas do setor de tecnologia locais. Embora com sede em Taiwan, a FoxCann possui várias fábricas na China, e na maioria delas o regime de trabalho é mantido em mistério, o que por si só já causa suspeitas. Até a semana passada, os clientes da Hon Hai evitavam comentar o assunto. Mas a repercussão entre os operários naturalmente só podia ser péssima. Ali trabalham nada menos do que 420 mil pessoas! O temor de novos suicídios fez Gou levar ontem um grupo de jornalistas chineses para um “tour” pelas fábricas, tentando mostrar que tudo está sob controle (ele aparece gritando, no centro da foto, divulgada pela agência France Presse).

Nos EUA, a Dell divulgou comunicado indicando que, se forem comprovadas más condições de trabalho, poderá suspender as encomendas da Hon Hai. HP e Apple foram mais cautelosas. É a Hon Hai que monta o iPad e os Macbooks. Vamos acompanhar os desdobramentos dessa tragédia.

Um dia para entrar na História

Precisamente às 14h30 desta quarta-feira (horário local), a Bolsa de Valores Nasdaq anunciou oficialmente que as ações da Apple haviam superado pela primeira vez as da Microsoft. Até ontem, a empresa fundada por Bill Gates vinha liderando o ranking das mais valiosas empresas de tecnologia do mundo, desde meados dos anos 90, quando ultrapassou a IBM. Não mais. A soma dos valores de todas as suas ações era de US$ 219,2 bilhões no final do pregão de hoje, contra US$ 222,1 bi da empresa de Steve Jobs.

A notícia certamente será muito comentada nos próximos dias e semanas. Alguém pode até questionar: “E eu, que não possuo ações de nenhuma das duas, o que tenho a ver com isso?” Aparentemente, nada mesmo. Mas não deixa de ser um feito histório, para uma empresa que até dez anos atrás era tida como acabada (antes do fenômeno iPod). E serve também para mostrar como esse mundo dá voltas, não?

Mais opções em TV por assinatura

Diz hoje o IDG Now que a Anatel promete licitar novas outorgas de TV por assinatura até o final do ano. A intenção, segundo Ara Minassian, superintendente da agência, seria fomentar a competição entre as operadoras. “Queremos o maior número de empresas operando no maior número de municípios”, disse ele, garantindo que assumiu esse compromisso com o Senado. Minassian diz ter mais de 700 pedidos de outorgas, feitos por cerca de 300 empresas, aguardando autorização, sendo a maioria para municípios com mais de 200 mil habitantes. Primeiro, serão abertas licitações nas cidades onde hoje não existe o serviço. Os processos começam em julho.

Ótimo. Pergunta que não quer calar: se é tão fácil, por que demorou tanto? Sinceramente, considerando a tradicional “agilidade” da Anatel, eu – se morasse numa das tais cidades – não ficaria muito otimista.

Sony + Google + Intel = ???

Enquanto a Google anunciava em San Francisco, nesta quinta-feira, sua entrada oficial no segmento de televisão (veja como), em Tóquio a Sony divulgava comunicado sobre o lançamento de seu primeiro “Internet TV”. Na verdade, trata-se da mesma coisa: as duas empresas firmaram acordo para trabalhar juntas no projeto chamado “Google TV”, que tem ainda como parceiras a Intel, fornecedora dos chips Atom para os novos aparelhos, e a Logitech, cujo conversor (set-top-box) fará a interface na casa do usuário.

A idéia é transferir para a tela do TV todos os recursos oferecidos hoje pelo Google no computador. Aplicativos como Google Maps, Google Docs, Picasa e Gmail poderão ser acessados nos TVs Sony Bravia, acoplados à caixinha Logitech que funcionará como modem e central de busca para os conteúdos do Google e tudo que o usuário tiver armazenado em sua rede doméstica. O set-top da Logitech será ainda um PVR (Personal Video Recorder), permitindo gravar programas da TV e salvá-los em sua memória. A Google quer que tudo isso seja tão simples e intuitivo quanto é hoje fazer buscas em seu site. Segundo executivos da empresa, as tentativas anteriores de unir PC e TV não deram certo porque seus idealizadores (leia-se: Apple e Microsoft) criaram sistemas fechados, o que, dizem, não acontecerá agora. Com uma plataforma aberta, a Google pensa transformar sua TV numa máquina de fazer dinheiro – via publicidade – tão ou mais forte quanto a atual.

Segundo a agência Reuters, o evento de lançamento, em San Francisco, foi recheado de piadinhas sobre as duas maiores concorrentes da Google. Convidaram até um executivo da Adobe ao evento, elogiando o software Flash tão detonado por Steve Jobs. Mas houve também constrangimentos. Técnicos da Google não conseguiam fazer o equipamento funcionar para demonstrar aos jornalistas e tiveram que pedir que eles desligassem seus celulares, “para evitar interferências” no controle remoto dos TVs. Não foi um bom começo. Vamos ver quando os produtos realmente estiverem no mercado.

Diferenças entre os TVs 3D

A propósito dos novos TVs 3D, nossa equipe já testou um dos modelos da Samsung (UN55C8000, foto ao lado), de 55″, com painel LCD-LED do tipo Edge-lit. O teste está na edição de maio da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL. Mas os dois modelos que a LG pretende colocar nas lojas em junho ou julho – de 47″ e 55″ – utilizam painel Local Dimming, que é mais eficiente. Outra diferença que a LG pretende ressaltar é a taxa de atualização (refresh rate) de 480Hz, contra 240Hz da rival.

Teoricamente, esses dois aspectos podem fazer muita diferença na performance de um TV LCD. O painel LCD-LED melhora significativamente o contraste e a reprodução de cores, na comparação com o LCD convencional. E o Local Dimming produz imagens mais uniformes em toda a superfície da tela, já que a iluminação traseira (backlight) é feita de modo homogêneo; nos painéis Edge-lit, os leds ficam nas bordas e é mais fácil acontecerem vazamentos de luz. Mas, segundo a Samsung, o painel utilizado nos TVs 3D é um pouco diferente. Trata-se de uma variação dos Edge-lit, que a empresa chama de “Precision Dimming”. Os leds são montados nas bordas, mas enviam luz através das ranhuras de uma placa difusora (Light Guide Plate), que ilumina os pixels. Cada led é controlado individualmente, ajustando o brilho nas áreas que necessitam de maior luminosidade. Na prática, o que vimos nos testes foram imagens de brilho equilibrado e um nível de contraste bem próximo ao dos plasmas. As gradações de cinza foram convincentes, o que realmente indicam eficiência do backlight.

Já o aumento da taxa de atualização é talvez uma das melhores inovações dos fabricantes de LCD nos últimos tempos. Comparar um modelo tradicional, que trabalha com taxa de 60Hz, com um dos novos (120Hz) chega a ser covardia. O processador de vídeo insere novos quadros de imagem, criados a partir da duplicação dos quadros originais, num processo semelhante ao da produção de um desenho animado. Com mais quadros, melhora o registro da imagem, com cores mais firmes e contornos mais definidos. E a leitura desses quadros é feita numa velocidade duas vezes maior, de tal forma que o olho humano não percebe o “truque”. No Samsung de 240Hz, vimos um salto de qualidade ainda maior.

Bem, o modelo da LG (foto acima) acabou de chegar para teste. Com Local Dimming e 480Hz. Vamos ver como se comporta. Aguardem.

TV 3D: a disputa vai começar

Para decepção de alguns consumidores, os TVs 3D estão demorando a chegar às lojas. A maior culpada é a falta de componentes em Manaus, que segundo as autoridades locais deve-se ao “excesso de demanda”. O fato é que todos os grandes fabricantes estão com dificuldades para montar seus equipamentos (e não apenas TVs) no Polo Industrial de Manaus.

A corrida agora é para entregar pelo menos algumas unidades às principais lojas antes da Copa do Mundo. Nem tanto pela possibilidade de assistir aos jogos em 3D (talvez a Net ofereça isso, em caráter experimental, a seus assinantes top). Mas a Copa – a maioria das partidas será à tarde – talvez possa ser vista por milhares de pessoas nas próprias lojas de eletrônicos, o que serviria como fortíssimo apelo de venda.

Os primeiros TVs 3D que devem chegar ao varejo são os da Samsung – algumas lojas já iniciaram a pré-venda. O prazo inicial de entrega era abril, mas agora trabalha-se com a perspectiva de final de maio. Sony, Philips e Panasonic já confirmaram que só terão os seus a partir de agosto. Mas a LG, maior concorrente da Samsung, corre contra o tempo para sair antes disso.

Quem liga para o meio ambiente

Reportagem da semana passada no IDG Now fala de empresas do setor de tecnologia que implantaram programas de reciclagem de aparelhos usados e aceitam recebê-los de volta. A repórter Daniela Braun conseguiu localizar dez: Dell, Itautec, Philips, Positivo, Motorola, Nokia, Claro, Oi, Tim e Vivo. Sabe-se ainda de um trabalho organizado pela ONG Comitê para Democratização da Informática, que recolhe doações de computadores usados para reaproveitamento em comunidades carentes. E a USP mantém, desde o início do ano, o CEDIR (Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática), iniciativa do seu Centro de Computação Eletrônica.

Entre os fabricantes de TVs, a Philips é a que parece mais avançada nesse campo, seguindo inclusive uma diretriz mundial. Mas é muito pouco, certo? Não sei se há outros projetos do gênero sendo desenvolvidos no País, mas se houver devem ser restritos e muito mal divulgados. Pior: não se ouve uma palavra governamental a respeito. Tempos atrás, ao ser questionado por um jornalista sobre ações do governo federal nessa área, um assessor do presidente Lula saiu-se com esta: “Lixo eletrônico? Isso é coisa do países desenvolvidos. Foram eles que poluíram, agora eles que resolvam. O Brasil ainda pode poluir muito”.

É essa a filosofia reinante, apesar de toda a fanfarronice do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Enquanto isso, recebo a toda hora informes das associações de fabricantes de eletrônicos dos EUA (Consumer Electronics Association) e do Japão (Japan Electronics & Information Technology Industry Association) sobre programas de proteção ambiental, reciclagem e sustentabilidade. Em ambos os casos, com coordenação das autoridades (vejam o site da EPA – Environmental Protection Agency, dos EUA). Replico aqui alguns desses boletins, com ações recentes promovidas nos dois países:

*O ANSI (equivalente americano da nossa ABNT) anunciou que irá certificar empresas que demonstrarem boas práticas de reciclagem.

*A rede de lojas BestBuy, especializada em eletrônicos, começou a recolher em fevereiro aparelhos usados trazidos por seus clientes; os produtos são encaminhados para reciclagem.

*Em abril, a EPA promoveu a “semana de reciclagem de celulares”.

*Em novembro, a EPA concedeu um prêmio à empresa MRM (Manufacturers Recycling Management), joint-venture entre Sharp, Panasonic e Toshiba, que atingiu a marca de 3 milhões de televisores reciclados.

Mais ainda: os sites de quase todos os grandes fabricantes de eletrônicos detalham os esforços das empresas na área de sustentabilidade. Alguns desses programas:

Sony Green

Panasonic Environmental

Toshiba Social Responsibility

LG Green Products

Samsung Eco-Partner Certification

E no Brasil, há casos semelhantes? Se houver, gostaríamos de saber e divulgar. A partir de agora, nossa equipe vai estar mais atenta ao assunto, que interessa a todo mundo. Ou não?

 

A função das TVs públicas

A cena política brasileira está hoje, talvez mais do que em qualquer outro momento da História recente, propícia a uma espécie de “novo maniqueísmo”. A disputa eleitoral de outubro – basicamente entre PT e PSDB – parece servir como pano de fundo a todo tipo de discussão, mesmo aquelas que, a princípio, não têm (ou não deveriam ter) implicações políticas. Quando o governo Lula decidiu criar a TV Brasil, a maior parte das opiniões carregava esse viés (palavra da moda); o mesmo ocorreu nos debates em torno do Plano Nacional dos Direitos Humanos, que acaba de ser reformado pelo presidente; e ocorre também na questão da troca de comando da Fundação Padre Anchieta (FPA), responsável pela TV Cultura-SP. São apenas três exemplos.

Para ficar somente nos assuntos que têm a ver com a área de tecnologia, TV Brasil (hoje administrada por integrantes do PT, nomeados pelo governo federal) e TV Cultura (sob controle do PSDB, via governo do Estado de São Paulo) ilustram bem a leviandade desse debate. Parece impossível enxergar simultaneamente pontos positivos e também negativos numa ou noutra emissora: ou se é totalmente contra, ou totalmente a favor. E quem é contra uma não tem, jamais, o direito de ser contra a outra, e vice-versa. Bem ao estilo tacanho da política que se faz no País. E que, para sermos justos, deve muito à postura de Lula, para quem tudo de ruim que existe foi feito antes de 2003, e tudo de positivo aconteceu nos últimos sete anos.

Há uma visível má-vontade da mídia em geral contra a TV Brasil, desde que o projeto foi anunciado, porque sempre se soube que a intenção não era criar uma emissora pública, mas sim uma TV estatal. Qual a diferença entre os dois conceitos? Públicas são, por exemplo, a BBC da Inglaterra e a PBS dos EUA, mantidas com fundos governamentais, mas totalmente independentes de quem está no poder. Agora mesmo, vimos na BBC a melhor cobertura das eleições britânicas, tão isenta quanto possível, sem pender para nenhum dos lados. Aqui, veremos o que acontecerá até outubro: já se sabe que Serra é contra a forma como é gerenciada a TV Brasil e, portanto, não é preciso pensar muito para saber qual candidato a emissora irá apoiar.

No caso da TV Cultura, já houve também denúncias de manipulação em diversos governos, inclusive os do PSDB. Há até a suspeita de que a nomeação de João Sayad para presidir da FPA seja para favorecer as candidaturas do partido no Estado (e a de Serra à presidência). Também veremos isso ao longo dos próximos meses (Sayad, que já foi secretário da ex-prefeita Marta Suplicy, nega veementemente: leia aqui). Mas o mais importante, me parece, é que nos dois casos o verdadeiro conceito de TV pública sai arranhado.

Num regime democrático, uma emissora mantida pelo governo (qualquer governo) deve antes de mais nada servir à comunidade, que a sustenta via impostos e tributos. Portanto, seus dirigentes não podem ser nomeados pelo governante de plantão, seja ele presidente ou governador. Do ponto de vista do interesse público, o correto é que exista um conselho, formado por representantes da sociedade – sem remuneração – e cujos nomes sejam aprovados pelo poder legislativo; a esse conselho cabe indicar os diretores, estes sim remunerados para garantir que a emissora atenda, de fato, às necessidades da população. Que são: informação, educação, cultura, entretenimento, prestação de serviço, campanhas de esclarecimento etc. Simples assim.

Bem, esse assunto merece mais. Voltaremos a discuti-lo aqui em breve. E o leitor, o que pensa a respeito?

Vendo a Copa na telinha

Antigamente, quando alguém usava a expressão “telinha” certamente estava se referindo à televisão, comparada com o “telão” dos cinemas. Hoje, nestes tempos de mobilidade e conectividade (quase) total, a referência não faz mais sentido: é cada vez mais comum assistir a vídeos e até programas de televisão no celular, notebook etc. “Telão” significa tela de home theater, com 60, 70 ou mais polegadas. Lembrei dessa analogia ao observar a grande quantidade de aparelhos portáteis que vêm sendo lançados com capacidade de sintonizar emissoras de TV. Com a proximidade da Copa, o apelo desses produtos torna-se mais irresistível.

O netbook acima é um dos mais recentes lançamentos nessa linha. Tem tela LCD-LED de 10,1″, conexão WiFi N (a mais rápida atualmente) e sintonizador 1-Seg para captar os sinais da TV Digital. Não quero fazer propaganda, até porque não conheço o produto (os interessados podem procurar pelo código X130 no site do fabricante). Mas é um bom exemplo dessa nova tendência de mercado, em que os usuários procuram acima de tudo conveniência. Existem diversos outros netbooks, notebooks e celulares que permitem assistir TV em qualquer lugar, até mesmo no carro (cuidado, ligue apenas quando estiver num daqueles engarrafamentos medidos em quilômetros).

Quase todos os grandes fabricantes estão caminhando nessa direção: Sony, Nokia, Samsung, AOC, além das menos conhecidas C3 Tech (esta já com uma solução HDTV) e Telesystem (um GPS com TV Digital).  Este vídeo, produzido pela equipe da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL, mostra mais detalhes.

Em tempo: no Japão, acabam de sair TVs portáteis à prova d´água. Dá para ver televisão até mesmo no chuveiro.

Mão-de-obra desqualificada

Não passa uma semana sem que alguém venha me pedir sugestão ou indicação de profissional qualificado para trabalhar no segmento de áudio, vídeo e sistemas residenciais. A carência de mão-de-obra é tão grande quanto a que afeta, pelo que leio e ouço dizer, vários outros setores da economia brasileira. Um amigo engenheiro civil me conta que vem tendo dificuldade até em contratar operários para construções! Nos segmentos ligados à tecnologia, então, o problema é ainda mais grave, pois não se forma um profissional da noite para o dia.

Os dados a respeito são mesmo preocupantes. Vejam este número divulgado recentemente pela Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex): se o País continuar crescendo, em 2013 o mercado terá um déficit de 140 mil profissionais capacitados nas áreas de software e serviços de Tecnologia da Informação. A defasagem poderá ser ainda mais alta se o setor de serviços se expandir mais que o de produtos. Agora, esta outra análise, feita pelo site Emprego Certo, do UOL, e publicada pelo Convergência Digital: para as empresas que buscam novos profissionais, não existe mais a antiga separação entre “especialistas” e “generalistas”; o funcionário ideal é aquele que consegue conciliar as duas características de forma equilibrada. “A combinação dos dois perfis começa a ser vista como um diferencial para um bom candidato”, diz Luiz Pagnez, diretor do Emprego Certo, que analisou os requisitos para mais de 170 mil vagas oferecidas. “Além disso, a atualização constante ou continuada, o domínio de línguas estrangeiras, ferramentas de informática e internet, já passaram a ser pré-requisitos obrigatórios em muitas posições”, completa ele.

A situação, portanto, é mais do que preocupante. Um país que nunca investiu em educação básica não pode agora exigir de seus jovens em idade universitária, ou mesmo recém-formados, habilidades como essas acima. A busca por um emprego acaba se tornando uma batalha inglória e muitas vezes frustrante. Por mais que a demagogia dos políticos diga o contrário.

O homem do bigode na História

Lembro que, nos anos 80, quando o presidente da República chamava-se José Sarney e eu trabalhava no jornal O Estado de S.Paulo, nas conversas de redação nos referíamos a ele como “o homem do bigode”. Era o início da redemocratização, a chamada Nova República, após 21 anos de ditadura, e Sarney – embora nos bastidores soubéssemos de sua longa folha corrida de casos de corrupção no Maranhão – até que era visto com certa simpatia. Afinal, melhor ele do que um general qualquer.

Como se sabe, Sarney não é hoje das figuras mais populares do País, pois suas falcatruas e as de seus familiares tornaram-se conhecidas de todos. Num país sério, não só estaria fora da política como teria lugar certo em algum presídio! Bem, mas estamos na “novíssima República”, certo? E, nesse ambiente, há lugar para coisas como um documentário intitulado “José Sarney – Um Nome na História”. Exibido recentemente pela TV Senado, chega agora ao DVD, com centenas de cópias sendo distribuídas gratuitamente a parlamentares, empresários e quem mais se interessar. O custo da produção: meros R$ 650 mil. E, se você quiser saber quem pagou, basta olhar no espelho. O filme foi patrocinado pela Eletrobrás, cujo presidente, ora vejam, é Antonio Muniz Lopes, indicado por Sarney e nomeado por Lula.

Os detalhes são relatados aqui. Mas, se você quiser ter mais prazer ainda e assistir a trechos da obra, visite o blog de Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, um dos melhores jornalistas políticos do País. É quase tão bom quanto “Lula – O Filho do Brasil”.

iPad e a TV por assinatura

Comentei aqui semanas atrás sobre a tendência dos tablets, uma nova categoria de produto que promete chacoalhar a indústria eletrônica. O sucesso do iPad, para muitos surpreendente, deve fazer os fabricantes repensarem suas estratégias em relação à chamada convergência digital. A partir de agora, os smartphones não serão mais os mesmos, assim como projetos de notebooks e netbooks terão que ser revistos. Hoje mesmo li em sites internacionais que empresas como Samsung e HTC estão reconsiderando os planos de lançar tablets este ano, pois não podem simplesmente colocar no mercado novos modelos; terão que ser, no mínimo, tão bons quanto o iPad.

Mas não são apenas os fabricantes que precisarão rever seus conceitos. Também as emissoras de televisão – e principalmente as operadoras de TV por assinatura – serão obrigadas a uma reciclagem. Vejam o que relata o competente Samuel Possebon, enviado especial da revista Tela Viva a Los Angeles, onde esta semana aconteceu a convenção da NCTA (National Cable & Telecommunications Association), o encontro mais importante do setor. “Toda a discussão virou de cabeça para baixo e ganhou um novo tratamento por parte de engenheiros, fabricantes de equipamentos e desenvolvedores de UI (user interfaces), além dos próprios operadores e programadores, com a concretização do conceito de tablet PCs”, diz Possebon, que ouviu analistas de mercado e executivos das emissoras e operadoras.

Segundo esses entrevistados, o tradicional controle remoto que comanda uma caixinha conversora e aciona um guia de programação na tela do TV está com os dias contados. O iPad (e outros tablets que devem surgir em breve) irá  forçar essas prestadoras de serviço a rever o próprio modelo de negócio que domina hoje o segmento de TV por assinatura. A interação do assinante com a programação, que hoje se baseia no uso intensivo do controle remoto, com menus pobres e respostas lentas dos conversores, terá de sofrer um enorme upgrade para combinar o conteúdo das TVs pagas às redes sociais. O sinal foi dado pela Comcast, maior operadora de cabo dos EUA (e que, por sinal, acaba de adquirir o controle da cinqüentenária rede de TV NBC), que demonstrou no evento um iPad dotado de um aplicativo específico para controle de canais pagos. Todo mundo que viu achou o máximo.

Vejam esta declaração: “A simplicidade que o Google trouxe à internet e que o iPhone trouxe ao celular, o iPad traz para a interação com o vídeo”. Veio de Tom Rogers, presidente da celebrada TiVo, a pioneira nos serviços de video-on-demand que revolucionaram a TV paga nos EUA. É bom todos nos prepararmos para, no futuro, usar um iPad como controle remoto.

Plano Nacional de Banda…

Ninguém sabe aonde vai parar essa disputa entre governo e operadoras pelo controle da banda larga no Brasil. Mas, pelo menos, já é possível rir um pouco. O ousado presidente da Sky, Luiz Eduardo Baptista, que no mês passado apareceu com uma solução mágica (sua empresa poderia cuidar de tudo sozinha, usando a tecnologia WiMax, ainda não liberada pela Anatel), agora decidiu ser irônico. Diante da promessa da Telebrás de levar conexões de até 512Kbps a todo o País, Baptista saiu-se com esta: “O plano deveria ser renomeado para ´Plano Nacional de Banda´, sem a palavra ´larga´, pois a maioria dos acessos vendidos atualmente é quatro vezes mais rápida”.

Bela sacada! Pena que essa velocidade esteja apenas nas faturas e nos anúncios, nunca na conexão propriamente dita.

Banda larga não vai ficar assim

Nos bastidores, pouca coisa mudou com o anúncio oficial do Plano Nacional de Banda Larga, feito por auxiliares do presidente Lula na semana passada. Continuam em litígio quase beligerante os vários segmentos atingidos pelo projeto, dentro e fora do governo. Informações verdadeiras misturam-se a boatos, fofocas e ameaças numa velocidade espantosa, a tal ponto que torna-se difícil levar a sério o que se ouve.

Inimigas mortais, as operadoras colocaram seus advogados para discutir como brecar na Justiça o PNBL, caso seja mesmo assinado pelo presidente (ainda não foi). Sabe-se lá o que vai sair da cabeça deles, mas é certo que o alvo prioritário é a Telebrás ressuscitada. Um desses especialistas é Floriano de Azevedo Marques, professor da USP e um dos criadores da legislação que resultou na Anatel. Para Marques, a Telebrás não pode operar com banda larga, a menos que haja mudança na legislação. E, embora a nova chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, tenha dito que o PNBL não precisa passar pelo Congresso (afinal, Lula assinará um decreto), parlamentares da oposição prometem não deixar o assunto assim barato.

Há ainda a eterna questão da rede de fibra óptica que seria usada pela Telebrás, mas que hoje pertence à falida Eletronet. Os credores da empresa não pretendem assistir de braços cruzados à implantação do Plano, pois julgam-se no direito a uma bela indenização. Como detalhou recentemente o repórter Renato Cruz, do Estadão, pelo menos duas grandes operadoras (Oi e Telefonica) chegaram a estudar a compra da tal rede, que soma 16 mil quilômetros de fibra óptica não usados. Desistiram, diante do tamanho da encrenca. Outro problema aparentemente sem solução é a própria situação da Telebrás, que responde a centenas de processos trabalhistas.

Os membros do governo que defendem o Plano (não são muitos) também têm sua estratégia. Artigos de “especialistas” e notícias de bastidores vêm sendo plantados na imprensa quase que diariamente, para reforçar a impressão de que tudo está decidido e que está prestes a acontecer uma “revolução nas comunicações”. Hoje, por exemplo, a Casa Civil divulgou uma lista de 100 cidades que seriam atendidas pelo Plano, entre elas 15 capitais. A idéia é que prefeitos e parlamentares dessas localidades passem assim a apoiar o projeto. Faz parte ainda desse esquema o artigo publicado semana passada na Folha de São Paulo, sob o título Democratização do acesso à banda larga, de autoria de Rogerio Santanna, secretário do Ministério do Planejamento.

Essa briga ainda vai longe.