Archive | abril, 2011

Medo se espalha na rede

A invasão de hackers na PlayStation Network, confirmada hoje pela Sony, é mais um episódio de uma série que vem sendo registrada nas últimas semanas envolvendo grandes empresas da internet e a violação de dados pessoais de seus usuários. O caso – que já está sendo chamado de “PS3 Gate” – é talvez o mais grave. Segundo a empresa informou, por email, a cerca de 75 milhões de usuários espalhados pelo mundo, hackers de fato invadiram a rede e podem ter roubado dados como número e data de validade de cartões de crédito; endereço de email; senha e login da rede; endereço de cobrança; e histórico de atividades e compras na rede. O que mais preocupa, claro, são os dois primeiros itens, a ponto da Sony incluir no comunicado a seguinte observação:

“Verifiquem bem as suas faturas e confiram os relatórios de despesa”

A íntegra do comunicado, em inglês, é esta. Mas, infelizmente, a Sony não está sozinha. Google, Apple, Facebook e outras gigantes da web passam por problemas parecidos, variando apenas a forma como cada uma reage ao problema. Também nesta terça-feira, a Comissão de Energia e Comércio do Senado dos EUA enviou carta a seis empresas, entre elas Google e Apple, cobrando explicações sobre política de privacidade e segurança. Autoridades de outros quatro países (Alemanha, França, Italia e Coreia do Sul) também anunciaram que vão iniciar investigações a respeito. E, numa carta-aberta a Steve Jobs, o presidente da Privacy International (espécie de ONG que atua em moldes semelhantes à Anistia International), Simon Davies, pede explicações sobre a denúncia de que usuários do iPhone têm seus dados rastreados pela empresa, o que configuraria flagrante invasão de privacidade (leiam aqui a carta).

O alerta foi dado, no início do mês, por dois especialistas em segurança digital, Alasdair Allan e Peter Warden, que segundo The Wall Street Journal descobriram todo o processo técnico pelo qual um iPhone pode coletar os dados de seu usuários e até – acreditem! – rastrear por onde a pessoa andou em determinado período de tempo.

Bem, nunca levei muito a sério essa história de privacidade online. Agora, ser espionado pelo seu próprio celular é demais, não? Vamos ficar atentos!

Trabalho recompensado

Estou muito satisfeito com a repercussão de meu livro, “Os Visionários”, lançado no início do mês. Graças a uma reportagem de página inteira em O Globo, gentileza do colega André Machado, leitores de várias partes do país entraram em contato para adquirir o livro, que esta semana começa a ser vendido em algumas redes de livrarias. Deu para perceber também a importância do Twitter e do Facebook para repercutir comentários amáveis de pessoas que nem conheço. Tive ainda o prazer de dar uma entrevista a Marcelo Duarte e Silvania Alves, no programa “Você É Curioso?”, da Radio Bandeirantes, igualmente com ótima repercussão (o podcast está aqui). E agradeço imensamente ao colega Renato Cruz, do Estadão, que postou um comentário a respeito no site do jornal.

Não sei se o livro vai vender muito. Mas esses reconhecimentos já valem como uma enorme recompensa. Aproveito para reproduzir aqui um trecho do livro, no capítulo dedicado a Steve Jobs e à Apple:

Ao discutir com seus diretores um nome cotado para determinada função, Jobs simplesmente ordenava a contratação – ainda que o candidato não estivesse interessado. Bruce Horn, que entrou na Apple em 1999 como programador, conta que não acreditou quando o próprio Jobs lhe telefonou chamando-o para uma reunião em sua casa, num sábado à noite. “Ele me disse que eu precisava vir para a Apple, pois só ali me tornaria um profissional respeitado e inovador. Respondi que já me considerava respeitado e inovador. Mas ele insistiu: ´Você não está entendendo. Eu quero que você venha trabalhar conosco. E você sabe que não pode recusar`. Foi incrível. O cara nem me perguntou quanto eu ganhava, ou quanto queria ganhar. E o mais fantástico é que ele tinha toda razão: minha vida mudou completamente quando passei a trabalhar na Apple.”

Em tempo: quem não encontrar o livro nas lojas pode solicitar um exemplar por telefone (11-5083-3633) ou email ([email protected]).

Banda larga para todos. Será?

Passou quase desapercebido, na semana passada, o lançamento da campanha “Banda Larga É um Direito Seu”, na Câmara dos Deputados. Como os líderes do movimento combatem a grande imprensa com todas as letras, esta logicamente não o divulga. Uma pena, porque seria uma ótima oportunidade para a sociedade discutir o que significa, de fato, banda larga e como se pode pressionar o governo e as empresas a garantir um serviço de melhor qualidade.

Evidentemente, é preciso apoiar toda campanha para melhorar os serviços públicos em geral – a lamentar que não haja outras semelhantes, por exemplo, em favor da saúde e da educação públicas, por exemplo. Mas isso não significa concordar com os métodos e as ideias dos organizadores. O início oficial da mobilização – que pode ser acompanhada pelo site http://campanhabandalarga.org.br/ – foi marcado para esta segunda-feira, 25, em eventos simultâneos nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasilia, Salvador e Campo Grande. O problema é que, ao envolver sindicatos e partidos políticos, uma boa ideia como essa corre o sério risco de cair em descrédito.

Dizer que a banda larga brasileira é lenta e cara, por tão óbvio, me parece muito pouco para sustentar uma campanha. Quem quiser discutir o assunto a sério precisa, antes de mais nada, levantar o histórico do país nos últimos anos e analisar como países mais avançados estão resolvendo o problema. O slogan “banda larga para todos” soa tão demagógico quanto outros do gênero – “abaixo a pobreza”, “tudo pelo social”, “um país de todos” etc. Qualquer técnico com um mínimo de conhecimento nessa área sabe que é impossível levar banda larga a todos os mais de 5 mil municípios brasileiros, pelo menos na próxima década.

De qualquer maneira, tem que haver um começo.

Quem quiser entender um pouco melhor essa questão pode dar uma olhada nestes artigos:

Qual é a banda larga que queremos?

Como será o plano de banda larga dos EUA

Falta incentivo à oferta de banda larga

Banda larga tem que estimular a concorrência

Por maiores e melhores investimentos em P&D

Por que uma agência regulatória nas telecomunicações?

Comunidade bate recorde

Dennis Bonotto, coordenador do HT Fórum, provavelmente a mais antiga comunidade virtual ligada ao setor de áudio & vídeo no Brasil, manda e-mail para comunicar um número fantástico: 200 mil registros, marca atingida no último dia 16, a pouco mais de um mês do Fórum completar 9 anos de existência. Segundo ele, são 40 milhões de páginas todo mês, o que coloca o site brasileiro entre os 18 mil mais visitados do mundo!

É, sem dúvida, uma grande vitória. Parabéns aos participantes, e principalmente aos moderadores.

A morte do “pai” do CD

Quando Akio Morita, cofundador da Sony, foi obrigado a afastar-se devido a um derrame, em 1989, já havia um substituto para ele: chamava-se Norio Ohga, um ex-cantor de ópera que, mesmo sem ser engenheiro, fora contratado quase 40 anos antes pela sua fina sensibilidade auditiva. Ohga assumiu oficialmente o lugar de Morita em 1994, mas desde o início da década anterior já era homem-chave na empresa que, durante décadas, foi considerada a mais inovadora do mundo.

Ohga, que morreu no último sábado aos 81 anos, liderou a última fase de brilho da Sony. Entrevistei-o uma vez em São Paulo, com certa frustração (esperava entrevistar Morita em pessoa, mas este não veio), e a impressão que passou foi a de um executivo ao estilo ocidental. A Sony havia acabado de lançar no Brasil o videocassete Betamax (que seria um fracasso), mas Ohga orgulhava-se de ter comandado o lançamento, no Japão, de uma outra invenção da Sony, muito mais bem-sucedida: o CD, que só chegaria aqui alguns anos depois. Na sequência, a Sony comprou a Columbia Records e a Columbia Pictures, dois negócios também arquitetados por ele e Morita. Na década seguinte, já com o fundador fora de combate, era Ohga o líder quando surgiu o PlayStation, igualmente um êxito estrondoso.

Sem dúvida, um empresário brilhante. Não deve ser coincidência que, após Ohga ter deixado o cargo de CEO, o grupo nunca mais foi o mesmo.

Nosso ex-amigo IPEA

Até meses atrás, o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas) era uma referência para o governo. Toda vez que algum ministro – ou o próprio presidente – queria validar uma decisão polêmica, citava um estudo do órgão, como se este fosse acima de qualquer suspeita. De fato, trata-se de um dos principais centros de estudos que temos no país, com profissionais de alto nível e (até onde sei) independentes para fazer o seu trabalho.

Mas, de repente, não mais que de repente, parece que as coisas não são bem assim. O último estudo do IPEA sobre a situação dos aeroportos brasileiros em preparação para a Copa de 2014 (vejam aqui a íntegra) caiu como uma bomba no Palácio do Planalto, que nem tinha sido avisado a respeito (claro, se tivesse, mandaria suspender a publicação). Como tantos outros estudos do Instituto, esse confirma o que todos já sabemos: a situação dos aeroportos é simplesmente desastrosa, e tende a ficar pior à medida que a Copa se aproxima. Há ingerências de todo tipo, contas mal explicadas (vetadas inclusive pelo Tribunal de Contas da União), problemas com o Ibama, cartolas de futebol querendo tirar sua casquinha… Tudo isso está ali, claro como água pura, num relatório recheado de números que os pesquisadores do IPEA levaram meses para coletar. E números, como se sabe, não mentem. Agora, o Planalto tenta desqualificar o estudo como se não fosse do IPEA, e sim de um de seus pesquisadores, em caráter pessoal (leiam aqui). Essa é boa…

Bem, mas por que cito aqui esse assunto, que pouco ou nada tem a ver com tecnologia. Primeiro, para defender o IPEA, órgão que já fez importantes análises sobre o mercado de telecom, com dados que deveriam ser melhor aproveitados pelas empresas e pelo próprio governo (se este quisesse). Sim, durante parte do governo Lula tentaram cooptar seus técnicos para a “causa socialista”, com seu ex-presidente, Marcio Pochmann, servindo de “camarada”. Mas, felizmente, esse tempo passou. E, pensando bem, vai ver que é por isso mesmo: o atual governo, como o anterior, está forrado de gente que detesta ouvir verdades. Como já dizia o falecido senador Jefferson Peres, “a verdade é a maior inimiga dos canalhas”.

Philips dá adeus aos TVs

Antes do que se previa, confirmou-se ontem a saída da Philips do segmento de televisores. Uma das marcas mais tradicionais da História – e certamente referência para muitos usuários pelo mundo afora, quando se trata de TVs – comunicou oficialmente um acordo com a chinesa TPV, maior fabricante de displays do mundo. Ambas estão constituindo uma joint-venture (70% TPV, 30% Philips), que terá o direito de usar a célebre marca durante cinco anos.

Mas não no mundo inteiro. O acordo cobre principalmente o mercado europeu, onde os prejuízos nos últimos anos vêm sendo inadmissíveis para os acionistas do grupo holandês. Afinal, por décadas e décadas a empresa foi líder do segmento na Europa. A joint-venture não poderá, pelo menos de início, atuar nos dois maiores mercados do mundo (EUA e China), além de Canadá, Índia e mais alguns países sul-americanos, ainda não confirmados. Sei que a maioria dos leitores já deve estar se perguntando se o Brasil está nessa lista. Aparentemente sim, embora não haja palavra oficial a respeito.

Abandonar o mercado brasileiro a essa altura significaria abrir mão de um enorme potencial de vendas, embora a Philips – assim como os fabricantes japoneses – esteja sofrendo perdas irreparáveis de market-share devido à agressividade das coreanas LG e Samsung. Vale a pena continuar lutando essa batalha inglória? Qual será o custo disso? Há possibilidade de reverter o quadro, talvez sacrificando as margens de lucro? É sobre essas questões que a direção do grupo está debruçada neste momento. As respostas não são fáceis.

Algumas pistas podem ser conferidas neste artigo e também nestas reportages do Estadão e de O Globo.

Apple, agora contra Samsung

No verdadeiro festival judiciário em que vem se transformando a indústria de tecnologia, a última novidade é uma ação proposta pela Apple contra a Samsung. Sim, na sexta-feira a empresa de Cupertino entrou na Justiça californiana com um processo sobre suposta infração de patentes na produção de tablets, pedindo indenização, multa, interrupção da fabricação do produto e, mais ainda, que os juízes declarem que a Samsung fez tudo isso de propósito! “Não é coincidência que os os mais recentes produtos da Samsung se parecem muito com iPhone e iPad, tanto no formato dos aparelhos quanto na interface do usuário e até na embalagem”, diz a petição da Apple. “Precisamos proteger a propriedade intelectual da Apple quando empresas roubam nossas ideias”.

Em comunicado, a Samsung respondeu que irá brigar contra a Apple na Justiça, o que não quer dizer muita coisa: só faltava a empresa aceitar passivamente as acusações! O problema é mais amplo. Esse segmento de tablets parece um oceano propício às mais diversas pendengas judicias. A Justiça americana já estuda ações da Apple contra a Nokia, da Microsoft contra a Motorola, da Oracle contra a Google. Mas, como bem lembra o blogueiro Ina Fried, do site AllThingsD, este novo caso é estranho porque a Samsung é um dos fornecedores de componentes para a Apple.

Curioso que a ação da Apple chega semanas depois da Samsung lançar o notebook ultrafino 9 Series, para concorrer justamente com o MacBook Air. E você, leitor, o que acha? O Galaxy Tab, da Samsung, é mesmo uma cópia do iPad? E o smartphone Galaxy S seria uma cópia do iPhone? Quer mais detalhes? Clique aqui.

Nova revolução no varejo

A primeira grande revolução no comércio varejista aconteceu nos anos 50/60, quando surgiram os shopping-centers, conceito que limitou bastante o espaço para as chamadas “lojas de rua”. A segunda revolução é bem mais recente: na virada do século 20 para o 21, o sucesso da Amazon.com obrigou todos os varejistas a pensar em alguma forma de comércio eletrônico. É provável que estejamos diante da terceira revolução nesse ramo da economia. Talvez não no Brasil, ainda, mas certamente nos EUA.

Vejam algumas notícias das últimas semanas:

*O grupo DISH, um dos principais do mercado americano de TV por assinatura, adquiriu a massa falida da rede Blockbuster, com seus mais de 4 mil pontos de venda e uma dívida estimada em US$ 900 milhões. Mais do que as lojas, o grupo quer usar a imensa base de clientes deixada pela Blockbuster para fazer frente à Netflix, dona de pelo menos 70% do mercado de venda e locação de filmes online.

*A Sony anunciou o fechamento de 11 de suas 56 lojas SonyStyle, em vários estados americanos, numa tentativa de conter seus prejuízos no setor de varejo. No entanto, o negócio da SonyStyle online cresce continuamente, agora integrado à rede mundial PlayStation Network.

*A BestBuy, maior rede varejista de eletrônicos do mundo, anunciou um plano para reduzir em pelo menos 10% a área física total de suas mais de 1.000 lojas. A medida atende a pressões de seus acionistas, que defendem uma política mais agressiva do grupo na área de e-commerce. A prioridade agora é roubar clientes da Amazon.com.

O que há de comum entre as três notícias? Claro, as lojas físicas estão aos poucos cedendo espaço (literalmente) para suas concorrentes online. O consumidor brasileiro talvez demore para perceber, pois esse é um fenômeno típico dos países onde a infraestrutura de redes já está desenvolvida. Afinal, sem conexões rápidas nenhum esquema de e-commerce se sustenta. Mas, a médio prazo, o fenômeno irá se replicar pelo mundo afora, reforçado por tecnologias como a que transforma o smartphone num “cartão de crédito inteligente”.

Se é bom ou ruim? Não há como saber, no momento. É apenas inevitável.

 

TV Digital continua avançando

Talvez muitos leitores não gostem de saber, mas o fato é que a TV Digital no Brasil continua se expandindo. A Anatel divulgou hoje o mais recente levantamento sobre cidades que recebem o sinal, estimando que 46% da população já tem acesso ao serviço. Por esse cálculo, seriam 480 municípios em quase todos os estados, atendidos por 102 emissoras autorizadas a transmitir sinal digital. A Agência faz a estimativa com base no último censo do IBGE: seriam 87,7 milhões de brasileiros com acesso à programação. Evidentemente, é um exagero: muitos nem possuem ainda aparelhos de TV compatíveis com esse tipo de transmissão; sem falar que nessa conta entram até os bebês, que – por enquanto – ainda não assistem televisão.

De qualquer forma, é um avanço. A Anatel promete atualizar mensalmente esses dados. É um serviço de utilidade pública: se você encontrar no link o nome de sua cidade e não está conseguindo captar o sinal digital, convém verificar seu equipamento. Só quem não vai gostar são os moradores dos outros mais de 4 mil municípios que ainda não foram apresentados à novidade. Quando chegará a vez deles?

As notícias do momento

Circulou hoje a nova edição da newsletter eletrônica HT-Express, produzida por nossa equipe para ser uma espécie de guia informativo sobre os assuntos mais importantes do mercado. A polêmica sobre a fabricação do iPad no Brasil, a revitalização do Polo Industrial de Manaus com mais investimentos estrangeiros (principalmente coreanos), a decisão do Congresso de suspender as concessões de rádio e televisão devido a denúncias de falcatruas e a situação do Plano Nacional de Banda Larga estão entre os destaques. Junto a cada comentário, uma série de links que podem ser úteis para quem quer se manter informado mas não tem tempo de procurar a informação de que precisa.

A newsletter é enviada quinzenalmente, e sem custo, a mais de 50 mil pessoas, no Brasil e no Exterior. Quem ainda não recebe pode se cadastrar aqui.

Quem gosta (mesmo) do Brasil?

A pergunta acima é feita pelo The Wall Street Journal, a propósito do episódio de ontem envolvendo a Apple, a Foxconn e o governo brasileiro. O jornal ridiculariza as declarações da presidente Dilma Roussef sobre a possível instalação de uma fábrica de iPad no Brasil. Como dissemos ontem, esse pode até ser um desejo de Dilma e de muitos brasileiros, mas não encontra base na realidade.

Segundo o Journal, o comunicado divulgado ontem pela Foxconn, logo após as declarações de Dilma, foi uma forma diplomática de desmenti-la. Terry Gou, fundador e presidente da empresa, não morre de amores pelo Brasil, como deixa claro em entrevista concedida ao jornal americano no final do ano passado. Quando lhe perguntaram se nosso país seria um futuro rival da China como sede de suas fábricas, ele foi mais do que irônico: “Os trabalhadores brasileiros ganham muito bem. E basta alguém gritar ‘futebol’ que eles param de trabalhar. Pode ser muito bom para o mercado local, mas se você quer exportar para os EUA leva mais tempo e custa mais caro do que produzir na China”.

A conclusão é que mr. Gou deve ter ouvido com atenção os pedidos de Dilma para investir no Brasil, mas apenas por delicadeza. Não há, pelo menos por ora, a menor possibilidade de investir US$ 12 bilhões aqui, por mais que essa notícia soe simpática. A Foxconn possui unidades de produção em pelo menos uma dezena de países onde faria mais sentido esse investimento, inclusive o México, que fica colado aos EUA. E, a bem da verdade, para vender no mercado brasileiro a Apple não precisa ter uma montadora aqui – como sabem os milhares de usuários de iPod, iPhone e iPad que existem por aí.

Carta aberta aos applemaníacos

Dois sites brasileiros dedicados aos usuários de produtos Apple (Mac+ e MacMagazine) divulgaram agora à tarde o esclarecimento que precisava ser dado: quase tudo que a imprensa vem divulgando sobre a Apple entrar no mercado brasileiro não passa de especulação. Como comentei aqui ontem e hoje de manhã, tudo não passou de declarações de Dilma Roussef e Aloisio Mercadante, que como se sabe não são porta-vozes da Foxconn, muito menos da Apple.

Mais um exemplo de que é preciso muito cuidado com o que se lê. Papel aceita tudo, e a internet também!

Todos contra a Anatel

Durante quase toda a semana passada, a Rede Bandeirantes levou ao ar uma série de reportagens com denúncias contra a Anatel. Escarafunchando até minúcias que nem sempre têm a ver com o cidadão comum, a equipe da emissora quis mostrar que um órgão sem credibilidade – como entende ser o caso da Agência – não pode ser responsável pelas decisões que vem tomando nos últimos meses.

De fato, a Anatel está, mais uma vez, sob fogo cruzado. Ministério Público, Tribunal de Contas, Congresso, emissoras, operadoras, entidades de classe, todo mundo parece ter combinado de atacar o órgão agora, logo após a mudança de governo, como se desconhecessem o que foi feito nos últimos anos. De repente, começam a aparecer “evidências” de corrupção, tráfico de influência, desrespeito à lei… (leia aqui). Parece que até o ano passado estava tudo bem com a Agência!

Para quem não está familiarizado com os bastidores desse mercado, é realmente complicado entender os interesses por trás de cada decisão. Que a Anatel virou um saco de gatos, assaltada por apadrinhados políticos a partir de 2003, todo mundo sabe. Que suas decisões foram desmoralizadas na prática pela ingerência do Palácio do Planalto, idem. Que seus bons quadros técnicos perderam espaço, também. Mas o que fazia o Ministério Público todo esse tempo? E o TCU, que acusa a Anatel de não ter cumprido várias de suas determinações “nos últimos oito anos”? Só agora resolveu agir? É, no mínimo, muito estranho.

 

Morre um visionário

Por muito pouco Sidney Harman não entrou no meu livro “Os Visionários – Homens que Mudaram o Mundo através da Tecnologia”. Ao fazer a seleção final dos personagens, ele e outros grandes empreendedores do segmento de áudio acabaram ficando de fora. Nesta terça-feira, aos 92 anos, Harman se foi – a leucemia foi o único adversário que ele não conseguiu vencer.

Tal como J.B.Lansing, Henry Kloss, Paul Klipsch, John Bowers, Amar Bose e vários outros, Harman foi um dos principais responsáveis pela organização da indústria de áudio, que até outro dia dominava o planeta. Ao fundar a Harman Kardon, em 1953, ele foi um dos primeiros a transformar o transistor – inventado alguns anos antes – no coração de uma série de produtos que todo mundo queria ter em casa. Licenciou-se apenas em 1976, para assumir o cargo de secretário do Comércio no governo de Jimmy Carter; quatro anos depois, reassumiu para comandar o processo de digitalização do grupo, agora renomeado Harman International.

Hoje com mais de vinte marcas, o grupo é o maior do setor. Marcas que você certamente conhece: JBL, Infinity, Mark Levinson, AKG, Lexicon, Crown, Revel, Soundcraft e até a brasileira Selenium, incorporada no ano passado, com a criação da Harman do Brasil. Também no ano passado, Sidney Harman deu o que pode ser chamado agora de seu “canto de cisne”: pagando apenas 1 dólar (e você não leu errado), ele arrematou a revista Newsweek, assumindo uma dívida que passava dos US$ 47 milhões. Não foi pelo dinheiro, é claro: Harman fez parte de uma geração de empreendedores que aprendeu a conduzir suas empresas lendo artigos como os que a revista publicava, especialmente entre os anos 40 e 50 do século passado.

Foi sua última compra – com certeza, a mais sentimental de todas.

Os planos da Foxconn no Brasil

Após as notícias de ontem sobre a fabricação do iPad no Brasil, fiz uma busca entre os principais sites asiáticos para entender melhor essa anunciada decisão da Foxconn, empresa de Taiwan que faz a montagem do aparelho para a Apple. Não encontrei nada de concreto, a não ser a repercussão – muitas vezes, pura replicação – das declarações de Dilma Roussef e Aloisio Mercadante a respeito. Até este momento, nenhuma palavra da própria Foxconn, muito menos da Apple.

É curioso como as notícias se espalham nestes tempos de informação em tempo real. A mídia em geral simplesmente replica o que alguém falou, como se fosse a verdade verdadeira. A primeira notícia a respeito – que comentei aqui – saiu no final de março, quando um secretário da prefeitura de Jundiaí (SP) disse a repórteres ter “ouvido falar” que a Apple estaria estudando investir numa fábrica na cidade. Agências de notícias espalharam essa especulação pelo mundo afora, a ponto de sites internacionais a tomarem como “decisão consumada”. Agora, com as declarações de Dilma e Mercadante, a notícia fez o caminho inverso, inundando os sites e jornais brasileiros.

De concreto, mesmo, o que há é o seguinte:

*A Foxconn tem, sim, planos de trazer parte de sua produção para o Brasil. A ideia é diversificar, para diminuir a dependência em relação ao governo e aos fornecedores chineses (a Foxconn é uma empresa de Taiwan, país rompido com a China desde que Mao Tsé Tung tomou o poder, em 1949).

*Em comunicado, a Hon Hai Precision Industry, subsidiária da Foxconn na China, anunciou nesta quarta-feira que o Brasil tem “enorme potencial de desenvolvimento” e “ocupa posição estratégica para atender aos crescentes mercados da América Latina”. Apenas isso. Nenhuma menção à Apple ou mesmo à montagem de uma fábrica aqui (na verdade, a Foxconn já possui três – duas em São Paulo e uma em Manaus).

*O plano de montar aparelhos no Brasil estima investimentos da ordem de US$ 12 bilhões, começando a produção de fato em 2013. A Foxconn aqui já fornece componentes para empresas como Sony e HP. Além de nosso mercado interno ser muito atraente, a empresa vê com otimismo a possibilidade de montar aqui para vender aos demais países latino-americanos; além disso, o Brasil está mais próximo dos EUA, maior mercado do mundo. Portanto, haveria um enorme ganho logístico com a mudança.

*No encontro com Dilma, o presidente da Foxconn, Terry Gou (que o ministro Mercadante chamou de “o Bill Gates da Ásia”, num evidente exagero), confirmou os planos e quis saber se haverá incentivos fiscais. Dilma, é claro, disse que sim. Mas nem ela nem seus ministros sabem que tipo de incentivo pode ser concedido.

*Realmente, para qualquer empresa estrangeira, é muito mais prático produzir no Brasil (ainda que seja apenas montagem, e não fabricação propriamente dita) do que importar. Os custos de importação são risíveis, como se sabe. Mas, para viabilizar um projeto como esse, teria de haver isenções na importação de componentes, que hoje é um ponto crítico na política comercial brasileira. E, se houver isenções, elas terão de ser estendidas também a outras empresas.

*Analistas do mercado asiático de tecnologia ponderam ainda que a Foxconn não fabrica nada, apenas monta produtos a partir de encomendas de seus clientes. E seus maiores fornecedores localizam-se exatamente na China, além de Coreia e Japão. A curto e médio prazo, não há como trazê-los para este outro lado do mundo. Além disso, a mão-de-obra chinesa é infinitamente mais qualificada – e mais barata – que a brasileira.

*Por fim, a Apple – hoje o principal cliente da Foxconn – precisa ser ouvida a respeito. Depois dos terremotos no Japão, a empresa americana começou a desenhar um plano para diversificar seus fornecedores, dispondo-se até a pagar mais para evitar problemas como o desabastecimento do iPhone e do iPad nos últimos meses. Mais ainda: a Apple é a empresa mais exigente do planeta em termos de controle de qualidade. Para montar no Brasil, não vai aceitar produtos que estejam sequer um milímetro abaixo do nível atual. Como garantir isso?

 

Video-on-demand, enfim, aqui

A operadora Net anuncia esta semana a estreia de seu serviço video-on-demand (VOD), já comum em outros países há anos. Basicamente, oferece um menu de atrações – que podem ser filmes, shows, eventos especiais – que o assinante pode adquirir à parte, escolhendo quando e como assistir. O formato é sucesso nos EUA, por exemplo, graças à enorme oferta de conteúdos premium, ou seja, distintos daquele que se pode ver na programação normal. O clássico deste fim de semana entre Barcelona e Real Madrid seria um bom produto para isso, se o sistema já estivesse implantado no Brasil. O show do U2 no último fim de semana, transmitido apenas para quem pagasse, poderia ser outro. Enfim, tudo vai depender do tal menu.

Não sei que tipo de acordo a Net terá estabelecido com as programadoras, mas o mercado brasileiro é tão surpreendente que, de repente, o VOD se transforma também num sucesso. Vejam que um dos hits do ano passado na TV paga foi a venda em pay-per-view da série UFC (Ultimate Fighter), que pelo visto tem seu público fiel no Brasil. É a melhor prova de que, em TV por assinatura, há espaço para tudo.

Da China para o Brasil

Todos os sites estão noticiando, e certamente amanhã será manchete em todos os jornais: “Apple irá mesmo produzir iPad no Brasil”. Convém guardar bem essas aspas. O ministro de Ciência e Tecnologia, Aloisio Mercadante, que adora um holofote, fez questão de anunciar a novidade aos jornalistas brasileiros que acompanham a visita da presidente Dilma à China. Mercadante deu a entender que está tudo certo, faltando apenas definir “as condições”.

Na verdade, a coisa não é tão simples. Diz a agência Reuters que a Foxconn realmente tem um plano de transferir parte de sua linha de produção para o Brasil, investindo US$ 12 bilhões em cinco anos, de olho no nosso mercado interno. Só que a empresa fornece não só para a Apple, mas também para Dell, HP e outros gigantes. Sua entrada aqui não significaria, portanto, a entrada do iPad, nem do iPhone. Steve Jobs é quem tem a palavra final, no caso. E, a menos que haja um belo plano de incentivos fiscais, não irá se esforçar para ampliar seus negócios no Brasil.

O lobby é forte. Esta semana, saiu na internet que a Apple do Brasil teria inclusive mudado sua razão social para permitir o início dessa operação – depois, viu-se que era mentira. Assim como Dilma e Mercadante, governadores, ministros, prefeitos e secretários estão loucos para anunciar uma fábrica da Apple em seus estados e municípios. É o tipo da notícia que rende muito voto. Mas, por enquanto, não passa disso: um enorme balão de ensaio.

Banda larga por decreto

A presidente Dilma mandou aumentar a velocidade da banda larga, dizem os jornais. Assim, no grito: quem não concordar que saia do caminho. A ordem para o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, foi dar o recado às operadoras: ou elas aceitam, ou… A contrapartida seria apoiar no Congresso o já amarelado projeto-de-lei 116, pelo qual as teles passam a ter direito de atuar no setor de TV por assinatura. Entenda-se: direito legal, porque, na prática, já estão atuando (Telefonica, Oi, Embratel…). Outra contrapartida, esta mais interessante para as operadoras, é a flexibilização das metas de universalização dos serviços de telefonia – metas jamais cumpridas.

O primeiro erro está em achar que essas coisas se resolvem por decreto. Dilma argumenta que a velocidade estipulada no Plano Nacional de Banda Larga (600Kbps) é muito mais baixa do que nos EUA, cujo plano começa em 1Mbps e chega – pelo menos na teoria – até 100Mbps. “Vamos abolir esse negócio de kilobit e falar em megabit”, teria dito ela ao ministro. Com apenas 800 municípios atendidos por algum serviço de banda larga (a maioria deles em sistema de monopólio, com uma única operadora), ninguém tem dúvidas de que o Brasil está completamente defasado no setor, mesmo quando comparado a países do mesmo porte econômico, como México e Turquia. Daí a querer forçar uma solução que não tem base na realidade, vai uma distância estratosférica.

A consequência imediata dessa decisão será o atraso, em pelo menos alguns meses, na implantação do PNBL. Como o governo não aceita aumento de tarifa (fixou-se nos tais R$ 35 mensais), as teles terão que “tirar da cartola” uma solução que permita chegar a 1Mbps. Quem vai convencê-las a fazer isso, se não fizeram até hoje? E mais: quem irá fiscalizar? Teremos uma fiscalização também “no grito”?