Archive | junho, 2011

Tablets made in Brazil

Como comentei antes, é uma pena constatar que o atual governo demonstra estar fora da realidade. A ideia de criar incentivos à fabricação de tablets lembra o tal projeto do trem-bala: faz muito barulho na mídia, mas na prática significa pouco mais que uma miragem. É claro que teremos tablets produzidos no Brasil em breve; Samsung e Motorola são dois dos principais fabricantes mundiais e já iniciaram projetos nesse sentido, mesmo antes de alguém falar em incentivos fiscais. Os chineses da ZTE, como já publicamos aqui, talvez estejam até mais adiantados em seu projeto, e até o final do ano é provável que a essas se unam outras marcas de prestígio, como Dell, HP, Semp Toshiba e Acer, entre outras.

O problema é que tablet – assim como trem-bala ou estádio de futebol – não pode ser a prioridade de um país, a ponto de justificar isenções fiscais que, na ponta do lápis, devem somar bilhões de reais. Aliás, toda vez que você ouvir falar em isenção de impostos, prepare-se: você é quem estará pagando a conta. E, por mais que o iPad seja um sucesso mundial, os tablets são apenas um brinquedo, e nem de longe representam o grosso da indústria de informática. Chega a ser engraçado ver o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, encher a boca para dizer frases como esta: “É difícil montar uma fábrica de tablets em três meses”.

Mercadante se referia à também chinesa Foxconn, que segundo ele adiou de julho para agosto o início da produção do iPad em Jundiaí (SP). “Um mês não faz diferença”, ironizou ele, diante de jornalistas desinformados sobre a complexidade de montar uma fábrica desse tipo. O ministro admitiu que a Foxconn queria levar 200 engenheiros brasileiros para treinar na China, mas não os encontrou. E que ainda não está definido o financiamento do projeto, que para os chineses precisa ter a participação do governo (via BNDES) e de um grupo privado brasileiro, que seriam responsáveis pela maior parte do investimento. E que as obras de infraestrutura solicitadas pela empresa à Prefeitura de Jundiaí estão atrasadas. E que…

Em suas mais do que frequentes aparições diante dos holofotes, e na falta de coisas concretas para anunciar, Mercadante atua quase como um assessor de imprensa da Foxconn – até porque a empresa até agora não se manifestou sobre o assunto. Belo papel.

Mais um teste comparativo


Na próxima semana, circula a edição de julho da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL, trazendo como reportagem de capa o primeiro teste comparativo entre TVs 3D publicado no Brasil. Na verdade, já tínhamos publicado uma análise desse tipo meses atrás, mas agora colocamos frente a frente (ou melhor, lado a lado) dois televisores de tecnologias concorrentes: um modelo ativo de 55″, da Samsung, e um passivo de 47″, da LG.

Para quem não está familiarizado com essas tecnologias, “ativo” é o nome que se dê ao sistema de projeção em 3D que utiliza um óculos especial, alimentado a bateria, onde duas lentes LCD fazem a leitura dos sinais emitidos pelo TV, propiciando que o cérebro humano combine as imagens destinadas aos olhos direito e esquerdo, entre as quais há um pequeno atraso. “Passivos” são os TVs que dispensam esse tipo de óculos: o processamento todo é feito dentro do próprio aparelho, e o óculos apenas lê os sinais que já vêm, digamos, prontos.

Depois de duas semanas assistindo a vários tipos de conteúdo nos dois televisores, constatamos que há boas diferenças entre essas tecnologias (assistam a este vídeo). Curioso foi notar como os dois fabricantes estão se digladiando por causa da novidade, que pode determinar a liderança de um ou de outro no mercado brasileiro (e mundial) nos próximos meses. Estamos tentando, inclusive, organizar um debate público entre LG e Samsung, para que ambas apresentem seus argumentos em favor de cada produto. Como são empresas que, já na Coreia, brigam em torno de cada centímetro, espera-se que a rivalidade se acirre ainda mais.

A volta do mestre

Citei no post anterior o mestre dos mestres, Millôr Fernandes, e não foi por acaso. Nesta quarta-feira, o maior pensador brasileiro voltou à ativa, depois de meses internado para tratar de sua saúde infelizmente debilitada. Hoje com 87 anos (fará 88 em agosto), Millôr começou a trabalhar aos 13, e aos 17 já era editor de uma revista. Revolucionou primeiro a arte do humor brasileiro, criando personagens e escrevendo tiras geniais como as que continua produzindo hoje em seu site pessoal. Como humorista e cartunista, colaborou com os jornais e revistas mais importantes do país: O Cruzeiro, A Cigarra, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Folha de São Paulo, Estadão… todos ficaram mais pobres quando ele saiu.

Depois, revolucionou a arte da tradução, vertendo para o português obras de autores tão complexos quanto indispensáveis, como Shakespeare, Moliere, Bernard Shaw, Brecht, Pirandello, Beckett, Vargas Llosa, Tchekov e até os gregos Sófocles e Aristófanes. Também foram revolucionários, a partir dos anos 1940, alguns de seus livros (a maioria de humor), como “Trinta Anos de Mim Mesmo”, “Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr” e “Devora-me ou te Decifro”. Escreveu também poesia, como os célebres hai-kais, poemas curtos (apenas três linhas) mas cheios de duplos e triplos sentidos. Em meio a seus inúmeros trabalhos como jornalista e humorista, ainda encontrava tempo para escrever roteiros para cinema e TV, além de aproximadamente 20 peças teatrais, algumas delas também revolucionárias, como “Um Elefante no Caos”, “Computa, Computador, Computa” e “O Homem do Princípio ao Fim”.

E sim, claro, ganhou um caminhão de prêmios como cartunista e desenhista, inclusive no Exterior. Mais incrível ainda é que boa parte dessas artes Millôr aprendeu literalmente sozinho, como autodidata assumido. Nessas múltiplas atividades, foi dezenas de vezes censurado, como quando dirigia “O Pasquim”, até hoje o mais influente jornal de humor brasileiro, lançado por ele junto com outros grandes jornalistas e humoristas cariocas em 1969. As milhares de frases que Millôr criou dariam para encher vários sites de inteligência e sagacidade, artigos há muito tempo em falta no mercado (aqui mesmo, neste blog, reproduzo algumas na seção “Frases”). Destaco aqui uma, que de certa forma resume essa figura inigualável:

“Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos”.

Esse é Millôr, que felizmente está de volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Seu site está fervilhando de ideias. Como ele mesmo gosta de dizer, vai lá… http://www2.uol.com.br/millor/

 

Mais uma (con)fusão

Depois de alguns dias de “recesso”, forçado por problemas particulares, aqui estou de volta tentando recuperar o tempo perdido. Assuntos para comentar não faltam, e infelizmente nem todos são motivo de alegria. Mas, como já dizia mestre Millôr Fernandes, a função do jornalista não é fazer rir; essa é prerrogativa intransferível do humorista. Jornalista existe para apontar os problemas, questionar os poderosos e ajudar as pessoas a refletir sobre o país e o mundo em que vivem. Se conseguir isso, já terá feito um grande bem à humanidade.

Então, vamos lá. O assunto do dia é a possível fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour, arquitetada em segredo pelo empresário Abilio Diniz. Não tenho condições nem pretensões de avaliar a questão sob o aspecto empresarial. Parece mais uma disputa entre sócios, em que cada qual garante ter razão e que, pelo visto, irá acabar na Justiça. O que me preocupa são alguns detalhes envolvendo o negócio. Primeiro, claro, a participação do governo. Permitir que o BNDES financie as pretensões do sr. Diniz – notoriamente alguém que não precisa de financiamento público – é mais um absurdo de um governo desconectado da realidade e que se considera acima do bem e do mal. O argumento de que se está favorecendo uma empresa nacional para comprar uma multinacional lembra as artimanhas usadas na fusão entre a Telemar e a BrasilTelecom, que acabaram resultando na Oi. Foram mais de R$ 6 bilhões de dinheiro público jogado numa ação entre amigos.

Embora o governo Dilma tente se diferenciar de seu antecessor, as semelhanças são mais evidentes que as diferenças. Vide o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, que com a maior desfaçatez afirma que “dinheiro do BNDES não é dinheiro público”. Experimente você, caro leitor que é empresário, pedir a esse banco um financiamento, pequeno que seja. Se não tiver amigos no poder, vai ficar esperando sentado. Esse é o conceito que gente como Pimentel faz do dinheiro que sai (de onde mais?) do bolso do contribuinte.

Confirmado: Netflix vem aí

Hoje de manhã, a D-Link apresentou em São Paulo a versão brasileira do Boxee Box, media center lançado no início do ano nos EUA e que vem sendo muito elogiado por lá. Para muitos especialistas, esse é o tipo de solução que vai dominar o mercado nos próximos anos: pequeno, fácil de instalar e operar, barato e, principalmente, oferecendo uma variedade de conteúdos que o usuário não encontra em qualquer lugar. Basicamente, o que essa “caixa” faz é a ponte entre o televisor (via HDMI) e a internet.

“Boxee” é o nome do software que comanda o aparelho, acessando uma infinidade de sites e serviços online: rádios, streaming de música e vídeo, arquivos virtuais de fotos, games e por aí vai. Só não acessa o iTunes, da Apple; aliás, a própria D-Link não esconde que o produto foi criado justamente para servir de opção à loja da Apple. Como esta ainda não opera no Brasil, é muito provável que, ao ser lançado aqui (o que está previsto para setembro), o Boxee Box seja um sucesso.

Mas a grande novidade anunciada pela taiwanesa D-Link foi a parceria com a Netflix, hoje a maior videolocadora online do mundo. Já comentamos aqui que a empresa americana abriu escritório em São Paulo e vem negociando com distribuidores de filmes e música. Só que oficialmente ninguém da Netflix se manifestou até agora. O mistério acaba de acabar: o serviço estará disponível para quem comprar o Boxee Box, juntamente com uma série de outros conteúdos. O lançamento oficial está marcado para setembro.

Na verdade, a Netflix não será exclusividade desse aparelho: praticamente todos os fabricantes de TVs estão negociando com a empresa para ter seu famoso logotipo vermelho estampado em seus menus, que já trazem marcas mais do que badaladas, como YouTube, Facebook, Skype e outras. É quase certo que, até setembro, quem comprar um TV Samsung, LG, Sony ou Panasonic, entre outras marcas, receba no pacote o acesso à versão brasileira do site Netflix, com uma oferta inédita de títulos para comprar ou alugar, especialmente filmes.

Certamente ainda vamos falar muito dessa marca.

A TV que você não vê

Um detalhe que passou quase desapercebido no evento da Sony, hoje cedo: a empresa já fechou parcerias com SBT e Band para colocar em seus TVs, via internet, conteúdos especiais das duas emissoras. Estranhamente, nenhum dos executivos da Sony explorou o assunto, que considero um marco na evolução do setor: a partir de agora, quem tiver um TV dessa marca poderá assistir, quando quiser, a qualquer programa exibido pelas duas emissoras e que porventura tenha perdido quando foram ao ar. Assim como no caso de Facebook, YouTube, UOL e outros sites conhecidos, os novos TVs vão exibir um ícone especial (vejam na foto), pelo qual o telespectador poderá acessar os conteúdos dos dois canais. É só clicar e assistir na íntegra ao programa que perdeu.

E por que considero isso um marco? É a primeira vez que temos, na TV aberta, o recurso que na TV paga é conhecido como VoD (video-on-demand). A Net, por exemplo, acaba de lançar esse serviço, com alguns conteúdos gratuitos e outros pagos. Mas o caso de SBT e Band é diferente: será possível assistir a toda a programação, e no horário mais conveniente, ou seja, libertando o usuário das famosas grades. Como não costumo assistir a nenhum dos dois canais, não vou aqui entrar em detalhes sobre seus conteúdos. Mesmo assim, essa parceria aponta para uma nova tendência, à qual todos – emissoras, público, fabricantes e anunciantes – terão que se acostumar: a integração entre TV e web.

Definitivamente, a televisão nunca mais será a mesma.

Quem são os donos da TV

Nesta quinta-feira, empresários do setor de radiodifusão acorrem a Brasilia para participar das discussões, no Senado, sobre o já célebre projeto-de-lei 116, aquele que muda quase todas as regras do mercado de TV por assinatura. Deve ser o milésimo encontro desse tipo, e – ao contrário do que se poderia pensar – não se trata de debate democrático; não, na maior parte dos casos são apenas acertos de bastidores. Como esse projeto é um verdadeiro balaio, com a pretensão de corrigir todos os problemas do setor, é quase certo que será mais uma vez alterado e, assim, adiado.

Aproveitando o ensejo, recomendo a todos que dêem uma olhada neste link, que encontrei no site do Ministério das Comunicações. Ali estão os nomes de todas as emissoras de rádio e televisão operando no país, com seus respectivos sócios-proprietários. Como se sabe, a maior parte deles é composta de políticos. Há também muitos laranjas, essa praga nacional. Mas quem quiser entender por que as coisas no Brasil são como são deve ler. E guardar bem esses nomes.

A fera sai da toca

Tudo indica que a Sony, após anos assistindo ao crescimento dos concorrentes coreanos e chineses, resolveu partir para o contra-ataque. O que vimos hoje de manhã, no megaevento organizado pela empresa (que ontem recebeu centenas de revendedores de todo o país), mostra que a ordem é enfrentar Samsung e LG com armas poderosas, inclusive num terreno em que, tradicionalmente, os fabricantes japoneses são ultraconservadores: o preço.

A partir de agora, veremos nas lojas dois tipos de produtos Sony: os de alto padrão, com recursos de última geração, e os destinados à ascendente classe C, que segundo o presidente da Sony Brasil, Ryuichi Tsutsui, já representa 50% das vendas de produtos eletrônicos no país. Num inglês quase perfeito, ele explicou como foi difícil convencer seus colegas da matriz a apoiar esse plano. O maior argumento é que, ao contrário de Japão, EUA e Europa, o Brasil está em alta – no ano passado, o grupo cresceu aqui 65%, com a subsidiária brasileira liderando, em faturamento, a lista das 60 operações internacionais da Sony. Contra números assim, não adianta discutir.

Nos últimos dois anos, enquanto as duas coreanas se consolidavam na liderança do mercado, a Sony trouxe dezenas de executivos e engenheiros do Japão para estudar o mercado brasileiro. Segundo Carlos Pascoal, gerente-geral de marketing, foram feitas inúmeras entrevistas com revendedores e consumidores, incluindo visitas a famílias que utilizam produtos Sony, para saber onde estavam os problemas. O plano que agora está saindo do papel baseou-se nesses estudos. Primeira providência: unificar as operações de todas as divisões do grupo – música, filmes, games, celular, áudio, vídeo, informática – sob um guarda-chuva chamado “Sony United”.

“A Sony é a única empresa que pode oferecer essa solução completa”, diz Pascoal. “Falta mostrar isso tudo ao consumidor, que agora vai ver nossos produtos expostos não apenas nos pontos-de-venda, mas na mídia, na internet e em espaços públicos”. Exemplo concreto: ao comprar um player Blu-ray, o consumidor vai ter direito a escolher quatro filmes do acervo da Sony Pictures e recebê-los em casa, de graça. Encaixam-se nessa estratégia o lançamento no Brasil da rede PlayStation Network (PSN), que já é sucesso em vários países, e da linha Internet TV, que vem com navegador para acessar qualquer site e conexão sem fio para “conversar” com notebooks e smartphones (vejam este vídeo).

Enfim, um excelente ponto de partida. Como se vê, a “fera” está solta outra vez, e com muito apetite. Vamos esperar pela chegada dos produtos.

Uma nova Sony no Brasil

Escrevo neste momento diretamente do hotel Sheraton, em SP, onde a Sony do Brasil realiza hoje seu maior evento do ano. O grupo, que está cheio de problemas no Japão (e não apenas devido aos terremotos), garante que vai muito bem em nosso país. E prepara uma nova estratégia. Está nascendo a “Sony United”, reunindo todas as divisões da empresa: Sony Pictures, Sony Music, Sony Ericsson, PlayStation e, claro, a Sony do Brasil, que fabrica aparelhos de áudio e vídeo.
Já em agosto, aproveitando o Dia dos Pais, os mais de 4 mil pontos de venda da marca no Brasil receberão uma overdose de produtos, tendo como motivação especial o lançamento do filme “Os Smurfs”, que chega aos cinemas em 3D.
Executivos da Sony estão falando com jornalistas neste momento. Acaba de ser anunciado o início da rede PlayStation Network no Brasil a partir de outubro.
Mais tarde teremos outras informações.

O grande teste dos óculos 3D

Já comentamos aqui, dias atrás, sobre a nova “guerra de formatos” desencadeada por Samsung e LG em relação aos TVs 3D. Enquanto a primeira defende o uso de óculos ativo (com bateria e processador embutidos) para obter melhor efeito de envolvimento, a segunda diz que isso pode ser obtido com óculos passivos (mais leves e baratos, e sem bateria), usando processadores instalados no próprio display. Essa disputa, pelo jeito, ainda vai longe.

A boa notícia é que já estamos com exemplares das duas tecnologias em mãos. Hoje, chegou o novo TV Samsung que iremos usar numa avaliação comparativa com o modelo da LG, que recebemos na semana passada. Nossa equipe já está iniciando os testes. O objetivo é saber qual dos dois oferece melhor reprodução dos efeitos tridimensionais, considerando diversos aspectos: nitidez de imagem, resolução, profundidade, intensidade das cores, contraste, brilho, ângulo de visão, cansaço visual e estabilidade do sinal quando o usuário se movimenta pela sala.

Devemos ter novidades a respeito nas próximas semanas. Por enquanto, fiquem com este primeiro vídeo.

O problema é o aluno? Ou a escola?

Sem querer, a garota Jannah, de 15 anos, que criou uma comunidade no Facebook para reunir seus colegas de classe, prestou um excelente serviço: despertou a discussão em torno do despreparo das escolas diante da evolução tecnológica. Jannah estuda no Colégio Ph, de classe média alta, um dos mais conceituados do Rio de Janeiro. Em março último, ela achou uma boa ideia criar na rede um grupo para compartilhar com seus colegas os temas que todos deveriam estudar. Muitos aderiram. Na semana passada, Jannah foi chamada pela diretora, que a advertiu duramente, diante de dois professores. “Disseram que, se ela não apagasse a página, eu poderia ser presa por crime cibernético”, relatou sua mãe, que registrou queixa na polícia e está processando a escola por danos morais (leia a história aqui).

Em sua defesa, o colégio alegou que apenas seguiu sua “linha pedagógica” e que a garota usava o logotipo da instituição e veiculava material didático sem autorização. Ou seja, a preocupação de seus responsáveis não é exatamente com o ensino, nem com a forma como seus alunos estão absorvendo o que lhes é ensinado, mas sim com o uso não autorizado de seu material. É bem típico das escolas brasileiras caracterizar seus estudantes em “alunos-problema”, quando na verdade elas e seus professores é que são o problema. Se no ensino público o cenário é de desolação, pela falta de estrutura e apoio dos governantes, nas escolas particulares – mesmo aquelas que se dizem campeãs de aprovação nos vestibulares (como é o caso do Ph) -geralmente o que manda é o interesse comercial.

Já comentei aqui sobre o escritor canadense Don Tapscott, autor de best-sellers como Wikinomics, A Hora da Geração Digital e Capital Digital. Tanto em suas palestras quanto em seu site, e também em seus dois livros mais recentes (Grown Up Digital e Macrowikinomics, ainda não traduzidos em português), ele analisa o problema escola vs. tecnologia citando dezenas de educadores que conseguiram vencer esse falso dilema. Seriam ótimas leituras para os responsáveis pelo Ph e outras escolas brasileiras que queiram, mesmo, ajudar a formar seus alunos. Em vez de proibir o uso de uma ferramenta poderosa como o Facebook, esses educadores defendem que a escola aprenda  – isso mesmo: aprenda – a entender como pensam e agem os estudantes de hoje.

Convenhamos: isso é bem mais complicado do que simplesmente chamá-los de “alunos-problema”.

Preços de Primeiro Mundo

O Dia dos Namorados foi mais um bom pretexto para se reafirmar o disparate em que se transformou a economia brasileira. Mais uma vez, o jornal O Estado de S.Paulo montou uma tabela comparando preços de vários produtos e serviços que são mais caros na capital paulista do que na capital francesa. Sim, estamos evoluindo: já ultrapassamos Nova York, Londres e agora Paris, no ranking das cidades mais caras do mundo. Quem quis dar a seu namorado ou namorada um presente mais refinado chegou a pagar 200% mais aqui do que lá. Vejam os valores (sempre em reais):

Garrafa de champagne Veuve Clicquot: Paris, 81; SP, 234

Caixa de chocolates Lindt: Paris, 14; SP, 34

Vidro de perfume Boss in Motion: Paris, 126; SP, 269

Óculos Ray-ban: Paris, 304; SP, 505

São vários os exemplos. Hospedar-se num hotel da rede Mercure próximo à Torre Eiffel está saindo por R$ 311 a diária; o hotel mais top da rede em São Paulo cobra R$ 276, ou seja, quase o mesmo valor. E, se você quiser levar sua esposa ou namorada para jantar o Le Chateaubriand, um dos restaurantes mais elogiados de Paris, irá gastar R$ 200 por pessoa. No Spot, em Sampa, a conta está na casa dos R$ 250, que tal?

A explicação mais comum é que o excesso de impostos leva os preços no Brasil às alturas. Mas essa é apenas uma meia-explicação. Além dos impostos, que são mesmo indecentes, os chamados custos indiretos é que estão por trás desse fenômeno: encargos sobre salários, taxas sobre burocracias diversas, transporte, logística, seguros, segurança… itens que incidem sobre todos, absolutamente todos os produtos. Sim, há também, em alguns casos, uma boa dose de ganância. O problema é que, mesmo assim, sempre há quem aceite pagar.

TVs: uma pesquisa mundial

O que leva uma pessoa a escolher determinado modelo ou marca de televisor? Qual o fator (ou fatores) preponderantes na hora da decisão? Foi perguntando isso que um grupo de pesquisadores contratados pela empresa americana DisplaySearch abordou, por telefone, cerca de 14 mil usuários de 13 países: Brasil, México, Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Reino Unido, Turquia, Rússia, Índia, Japão, Indonésia e China (esta última dividida entre “áreas urbanas” e “áreas rurais”). Que que saiba, foi o levantamento mais abrangente já realizado no setor. Vale a pena analisar algumas das revelações do Global TV Replacement Study:

*Quando vai comprar um novo TV, a maioria das pessoas não pensa apenas em substituir um aparelho antigo; procura qualidade de imagem melhor e, principalmente, tamanho de tela maior.

*Os três fatores mais apontados pelos entrevistados como atraentes num TV novo foram: tela fina, acesso à internet e reprodução de imagens 3D – exatamente nessa ordem. No entanto, a maioria rejeita pagar mais do que 20% acima do preço de um modelo sem esses recursos.

*Na comparação entre os países, observou-se que os chineses urbanos e os russos são os que mais valorizam as telas finas, enquanto os franceses dão prioridade à questão da internet; brasileiros, indianos, turcos, britânicos, japoneses e italianos revelaram maior equilíbrio entre os três fatores.

No final, a conclusão dos pesquisadores foi de que preço e marca continuam sendo os principais critérios de decisão. A maioria dos entrevistados mostrou-se confusa quanto às inovações. A falta de padronização no acesso à internet, por exemplo, é vista como uma barreira, embora todos achem essa novidade interessante. Alguns fabricantes utilizam acessórios (os chamados dongles) que obrigam o usuário a ter que fazer mais uma conexão, quando esta já deveria estar embutida no aparelho.

No caso do 3D, o atrativo parece ser ainda menor devido à falta de conteúdo. Como esta deve continuar por um bom tempo, talvez os fabricantes devessem mudar a abordagem (aqui, estou falando eu, nada a ver com a pesquisa). Por mais que seja envolvente, a imagem 3D, por si só, não convence o consumidor a pagar mais pelo TV que viu na loja. Vai ser preciso encontrar outro argumento.

Samsung vai comprar a Nokia?

Sim, esta é a principal notícia de hoje no mundo da tecnologia. Pra variar, foi The Wall Street Journal quem deu primeiro: a empresa coreana teria entrado no páreo para assumir o controle de sua maior rival no segmento de celulares. Pode ser apenas “boato”, como definiu a própria Samsung, mas o fato é que o momento favorece o negócio. Com seu sistema operacional Symbian em queda livre, uma recente (e meio desastrada) troca de comando e um acordo operacional com a Microsoft que ninguém engoliu até agora, é bem provável que os acionistas da gigante finlandesa estejam mesmo querendo mudar de ares. Na semana passada, o boato foi de que a própria Microsoft teria oferecido US$ 19 bilhões pela Nokia. Ontem, as ações da empresa despencaram em vários mercados, devido às péssimas avaliações sobre seu desempenho. Na última lista da Forbes, a Nokia caiu da posição 85 para 120, ao contrário das principais concorrentes, que subiram.

Talvez não haja melhor momento para vender do que este.

Atualizando: hoje (6a. feira), o presidente da Nokia, Stephen Elop, desmentiu que a empresa esteja à venda. O que não quer dizer absolutamente nada. Quem vai decidir isso serão os acionistas.

A volta da Atari

Se é verdade que os videogames não são mais brinquedo de criança, como muitos dizem, poderemos agora tirar a prova: a Atari, empresa que começou a febre dos jogos eletrônicos na década de 1970, está voltando à cena. Depois de ser vendida e revendida várias vezes e quase falir, a empresa permanece ativa na área de software, com sede em Los Angeles, mas praticamente ninguém sabe. O plano de Jim Wilson, atual CEO, é relançar os jogos clássicos que produziram uma legião de atarimaníacos, só que formatados para a tecnologia atual.

Em meu livro “Os Visionários“, dedico um capítulo à Atari e a seu criador, Nolan Bushnell, o primeiro empreendedor que percebeu o potencial dos games como produto de consumo. Ao lado de seu sócio Ted Dabney, Bushnell criou os primeiros jogos best-sellers, como Asteroids, Warlords e Pong, tornando-se milionário em menos de dois anos. Sem aptidão para a vida de empresário, os dois venderam a empresa ao grupo Warner, que não soube aproveitar a aura em torno da marca. Esta passou por várias mãos até o ano passado, quando Wilson assumiu o comando. “Enxergamos uma ótima oportunidade de negócio relançando os velhos clássicos, que poderão agradar tanto aos antigos fãs quanto aos jovens gamers de hoje”, disse ele ao The Wall Street Journal, antecipando seus planos.

Em abril passado, a Atari já lançou na Apple Store um aplicativo chamado “Atari’s Greatest Hits”, que permite comprar até 100 jogos diferentes (um pacote com quatro jogos sai por US$ 0,99). O app já foi baixado por 3 milhões de usuários, o que é nada comparado aos hits do momento. Mas mostra que o apelo da marca continua. Wilson diz que em breve colocará à venda outro aplicativo, que transforma o iPad numa espécie de mini-fliperama, com joystick vendido à parte. Mas sua grande aposta está nos chamados jogos informais (casual games), que não oferecem tanta riqueza visual mas podem ser jogados em redes como o Facebook, de acordo com a conveniência dos jogadores.

Ao saber da notícia, o aposentado Bushnell, hoje com 68 anos, se disse feliz e ao mesmo tempo aliviado: “Tinha medo que acabassem com a marca”, comentou ele, que na verdade nem é tão fã assim de jogos pela internet. Se dependesse de sua vontade, trabalharia com jogos educacionais. Mas isso talvez seja utopia. Coisa de visionário!

TV em todo lugar (mesmo)

Comentei aqui outro dia sobre a iniciativa da Globosat de lançar no Brasil um serviço do tipo “TV Everywhere“. Essa empresa americana criou uma plataforma na qual o usuário de TV por assinatura pode assistir a seus programas preferidos em qualquer aparelho, não apenas no televisor, e em qualquer lugar, conectando-se à internet. Segundo a empresa de pesquisas Parks Associates, no início de 2009 somente cinco operadoras de TV paga haviam adotado o serviço em todo o mundo; agora, já são 50. Motivo? Claro, o sucesso dos notebooks e dos tablets, particularmente do iPad, que permitem assistir a conteúdos de vídeo com uma boa qualidade de imagem mesmo quando se está em trânsito.

Evidentemente, essa não é a realidade brasileira. A precariedade de nossas redes impede que esse hábito se espalhe. Mas a tendência é irreversível. Segundo a Parks, o ritmo de crescimento é espantoso. “Normalmente, o pessoal de TV por assinatura demora a adotar essas novidades”, diz Brett Sappington, coordenador da pesquisa, lembrando que 81% dos assinantes americanos pretendem ter acesso a seus canais pagos através de outros aparelhos além do televisor. A plataforma TV Everywhere chega como consequência natural de um fenômeno que não é só dos EUA: cada vez mais as pessoas querem liberdade para ver seus programas na hora e local mais convenientes.

Em alguns países (não no Brasil, por enquanto), as operadoras temem que muitos cancelem suas assinaturas para buscar conteúdos alternativos na internet. A saída então é oferecer a eles o acesso gratuito via tablets e outros aparelhos portáteis, desde que continuem sendo assinantes.

 

O novo PlayStation portátil

O blog Engadget, na sua versão japonesa, foi o primeiro a publicar imagens detalhadas do Vita, novo videogame portátil da Sony, criado para suceder o PSP (PlayStation Portable). O produto está sendo exibido esta semana na E3, maior feira do setor, que acontece em Los Angeles, e deve chegar ao mercado antes do final do ano, com preço sugerido de US$ 249 no mercado americano (a versão com 3G sairá por US$ 299). Seu maior diferencial, segundo a Sony, é que será portátil mesmo: você pode parar um jogo no meio, sair de casa e continuar jogando em outro lugar exatamente do ponto onde parou.

Esse mundo é dos hackers

 

 

 

A notícia de que hackers invadiram os servidores da Sony e roubaram dados dos usuários da rede PlayStation Network ganhou as manchetes há cerca de dois meses. Até agora a empresa japonesa tenta corrigir o problema, agravado por uma série de ataques menores e que já provocou prejuízos superiores a US$ 200 milhões, segundo dados oficiais – sem falar dos danos para a imagem da empresa.

Mas a Sony está longe de ser a única vítima. Neste fim de semana, hackers atacaram também a central da Nintendo, localizada nos EUA; a empresa garante que não foram afetados dados de usuários. Ao estilo dos ataques terroristas, este foi assumido por um grupo chamado Lulzsec, que através do Twitter revelou não ter pretensões de prejudicar ninguém.

Os hackers assumiram também a responsabilidade por ataques às redes da Sony Pictures, da Fox.com e da emissora de TV estatal americana PBS, todos ocorridos na semana passada. Dá para pensar em uma nova forma de espionagem industrial: Sony e Nintendo são concorrentes e disputam o bilionário mercado de games com Microsoft, Sega, Electronic Arts e outros gigantes. Numa investigação policial, todas essas empresas ficariam bem no papel de “suspeitos de sempre”.

Mas, o que dizer de um ataque de hackers aos arquivos do FBI? Bem mais grave, não? Pois foi exatamente o que o tal Lulzsec (abreviatura de Lulz Security) fez no último sábado, segundo o site CBC.news: invadiram os servidores de uma empresa chamada InfraGard, com sede em Atlanta, que presta serviços ao famoso Bureau, e roubaram cerca de 180 senhas de agentes secretos, integrantes do Exército e também técnicos de empresas de telecomunicações que trabalham para o governo americano. Em suma, um belo estrago. Seria uma “pequena vingança” contra a ameaça do Pentágono, divulgada na semana passada, de passar a considerar todo ataque de hackers como “ato de guerra”.

Depois dessa, se alguém ainda ousar falar em segurança na internet, é porque também acredita em duendes.

Os chineses estão chegando…

Em extensa reportagem na semana passada, o jornal inglês Financial Times dissecou a situação do Brasil como polo de atração para investimentos estrangeiros. O jornal ironiza a pretensão do Brasil de “roubar” empresas da China, considerando nossos gravíssimos problemas de infraestrutura, logística, tributação e burocracia. Comparando as condições oferecidas pelos dois países, qualquer empresa bem administrada irá optar por montar fábricas em território chinês – e exportar para o Brasil, pelos mais diversos (des)caminhos, como muitas já fazem.

Bem, mas essa é apenas parte da história. O FT encontrou pelo menos um grande fabricantes chinês que já decidiu mudar-se para o Brasil. Trata-se da ZTE, segunda maior fabricante de equipamentos para telecom do país, que possui escritório de vendas aqui e é controlada pelo governo de Hong Kong. “Nossa fábrica no Brasil servirá de base para toda a América Latina”, prometeu no jornal inglês o principal executivo da companhia, Eliando Avila, anunciando ainda a contratação de 2 mil trabalhadores para a unidade que está sendo construída em Hortolândia, próximo de Campinas. Parte desses contratados irá trabalhar num centro de R&D (Pesquisa & Desenvolvimento), mais um dos quinze que o grupo já possui em vários países. Haverá também cerca de 400 técnicos que virão da China para treinar os brasileiros.

A ZTE pretende produzir aqui – e exportar para todo o continente – telefones celulares, centrais telefônicas e equipamentos para redes, disputando o mercado com outras gigantes como a sueca Ericsson, a americana Cisco, a finlandesa Nokia (que atua em parceria com a alemã Siemens), a francesa Alcatel-Lucent e a chinesa Huawei. Do alto de seus US$ 10,4 bilhões de faturamento em 2010, a ZTE – ao contrário de outros grupos chineses – parece que está falando sério.