Archive | August, 2011

O primeiro ou o melhor?

Só mesmo o velho humor britânico para enfrentar um ano como tem sido este para os japoneses. Foi assim, com ironia e piadinhas sobre os concorrentes, que sir Howard Stringer, chefão da Sony, abriu hoje a apresentação da empresa na IFA. “Foi um verão terrível”, disse ele. “Fomos inundados, sacudidos, espremidos, hackeados… Mas, tudo bem, esse verão ficou para trás. Estamos mais fortes do que antes”.

Stringer se referia, é claro, à série de acontecimentos que, desde o final do ano passado, vem abalando o Japão e a Sony. Houve o tsunami e os terremotos de março, mas já antes disso a empresa sofreu – e perdeu bilhões – com os ataques de hackers à sua rede PlayStation Network. Sem falar na recessão econômica, em que o Japão e os EUA – os dois mercados mais importantes para a empresa – foram os que mais sofreram. “As vendas estão voltando a crescer”, continuou Stringer, tentando mostrar otimismo. “Tivemos mais de 3 bilhões de novos usuários do PlayStation depois dos ataques. E agora vamos explorar muito a força dos nossos conteúdos”.

Passou então a enumerar o que a Sony está trazendo para a IFA e o que pretende fazer nos próximos meses. A entrada no segmento de tablets (um deles com tela dupla – veja a foto) é talvez o passo mais arriscado nesse projeto. “Sim, a Apple faz o iPad e a Samsung faz TVs. Mas será que eles são capazes de fazer filmes? Nós somos. E também conteúdos para TV, jogos, livros. A partir de agora, o mantra da Sony será integrar tudo isso, de uma forma que seja fácil para o consumidor perceber o valor dessa integração”.

Se vai dar certo? Quem poderá saber? Stringer deixou no ar uma possível resposta, quando comentou a atual posição da Sony na indústria eletrônica. “O importante não é ser o primeiro, mas ser o melhor”.

TVs virando commodities?

Panasonic e Sony foram os dois primeiros fabricantes a apresentar seus produtos na IFA. Nesta quarta-feira, dois dias antes da abertura do evento, pudemos entrar nos dois estandes e ver de perto algumas das novidades. Estranhamente, em ambos a seção de TVs não atraiu muita gente (foto). Pareceu até ter sido de propósito. De fato, não há mais muito o que avançar na tecnologia atual, em termos de qualidade de imagem. Todos os TVs (plasma e LED-LCD) mostram imagens maravilhosas, tanto em 2D quanto em 3D (ninguém mais fala em Standard Definition, tudo é High Definition). Blu-ray e HDTV agora são a referência de qualidade, então o máximo que podemos ver em nossos TVs são essas imagens mesmo (durante a feira, teremos apresentações de 4K e até 8K, é o que prometem, mas essas são tecnologias para o futuro).

Voltando aos TVs, a impressão que se tem é que viraram commodities. Ao adquirir um modelo novo, o consumidor agora tem de prestar atenção em outros detalhes além da imagem: o número de entradas para outros aparelhos, a oferta de aplicativos, a conexão em rede (com e sem fio). Os fabricantes perceberam que têm mais chance de seduzir o comprador oferecendo um belo design e o máximo possível de funções que ampliem as possibilidades de uso do TV. Aliás, reproduzir imagens 3D também é uma dessas funções. Em breve, acredito que todos os TVs serão desse tipo.

Curiosamente, os TVs top de linha que a Panasonic apresentou aqui na IFA são os mesmos que comentei aqui ontem, e que já estão saindo no Brasil (destaque para o plasma de 65″).

3D gigante no Brasil

Um dos aparelhos mais aguardados do ano já chegou ao Brasil: o plasma Panasonic 3D de 65 polegadas! Vi um protótipo na IFA em 2010, mas agora o brinquedinho está sendo, de fato, colocado nas lojas (ainda não sei o preço). Em nossa sala de testes, já estamos com o modelo de 55″, que tem basicamente as mesmas características; gabinete mais fino (5cm), adaptador WiFi, acesso à internet, conversor 2D/3D e um processador mais avançado para o nível de preto (detalhes aqui).

Pessoalmente, acho ótimo que a Panasonic continue investindo no aperfeiçoamento do plasma. Embora perca longe para o LCD em termos de penetração, essa tecnologia mantém algumas vantagens tecnológicas que dificilmente serão batidas. Recentemente, a Samsung também lançou no Brasil uma nova linha de plasmas, de excelente desempenho. E aqui na IFA o comentário é que a LG está dando nova prioridade aos plasmas (sem deixar de lado os Nano LEDs, hoje seu top de linha) para atender ao usuário mais exigente.

Muito bom! O consumidor terá pelo menos três opções.

Escola de espertinhos

Como não consigo mesmo dormir em avião, aproveitei as longas horas de vôo para escrever. Saiu um artigo sobre… fazer o quê? Corrupção, o esporte preferido dos brasileiros. Vou postar aqui nos próximos dias (preciso reler). Mas achei coincidência que uma das primeiras mensagens que recebi chegando aqui trazia o link para reportagem do Fantástico de domingo passado, que denuncia um esquema de “roubo de trabalhos escolares”. Isso mesmo. A nova modalidade criada com a alta tecnologia brasileira consiste em copiar conteúdos alheios na internet, usá-los para montar trabalhos escolares e vendê-los a estudantes preguiçosos. Funciona principalmente no meio universitário. A repórter Sonia Bridi conseguiu depoimentos inacreditavelmente sinceros, incluindo o de um espertinho que plagiou um trabalho sobre Ética!!! Vejam o link, com vídeo de tudo.

Dispensa comentários.

Os pães de Berlim

A cada novo evento, evoluímos um pouco. Na chegada a Berlim, cruzo no aeroporto com colegas de outros países, quase todos agora a bordo de seus tablets (a maioria iPads, naturalmente). O taxista que me traz até o hotel – belo trajeto de uns 15 minutos, em meio à maior quantidade de árvores por metro quadrado que já vi – não usa mais um GPS convencional, mas um 3D, cujo visual vai mudando conforme o carro se desloca pelas tranquilas ruas da cidade. No quarto do hotel, não há mais necessidade de senha para acessar a internet sem fio: ligo o computador e começo a navegar, quase que num passe de mágica.

Sim, estamos evoluindo. Mas não tenho ilusões. Sei que amanhã, quando a IFA começa de fato para nós, jornalistas, a “batalha” será árdua para conseguir uma conexão ou um lugar sentado para as entrevistas coletivas das grandes empresas. São esperados aqui mais de 3 mil colegas, sem contar um número incalculável de “blogueiros” – esses seres que surgem como formigas, só que em muitos casos caindo de paraquedas em eventos como este. Novidades? Sempre tem. Por enquanto, só se fala de tablets e smartphones. Vamos ver amanhã.

Ah! Sim, a evolução inclui a área alimentícia, pelo menos aqui nas imediações do hotel: minha padaria preferida (nesse quesito, Berlim é quase tão irresistível quanto São Paulo) não existe mais. Em compensação, do outro lado da rua abriu outra, que parece melhor ainda. Já estou indo experimentar: os pães alemãs são ótimos!

O que a IFA nos reserva

Logo mais embarco para Berlim, onde na quarta-feira começa a edição 2011 da IFA (a abertura oficial será na sexta). Esse tipo de evento sempre gera muita expectativa, principalmente porque os expositores dão a entender que os produtos exibidos são definitivos – e isso nem sempre é verdade. Já vi inúmeros deles serem demonstrados e nunca chegarem ao mercado. Na verdade, as grandes feiras de tecnologia servem como uma espécie de “test-drive”, com protótipos para que todo mundo analise, experimente e mostre sua reação. Se esta não for favorável, o produto é recolhido aos laboratórios e modificado (ou simplesmente abandonado).

Para este ano, fala-se muito no 3D autoestereoscópico, palavrinha danada que identifica os displays glass-free, ou seja, sem óculos. Esse é, no momento, o maior desafio da indústria eletrônica. Dez entre dez executivos com quem converso acha que a TV 3D só irá pegar quando não for mais necessário usar óculos. No ano passado, vimos na IFA demonstrações de várias empresas, e até agora somente a Toshiba colocou à venda (no Japão) um display desse tipo, em tamanhos de 20 e 12 polegadas; especula-se que veremos em Berlim esta semana um modelo de 50″!

Entre as tecnologias de displays, esperam-se mais novidades sobre o OLED, que tem andado meio em ponto morto depois que a Sony suspendeu o desenvolvimento. Somente a LG lançou comercialmente, e apenas na Coreia, mas há notícias de que Samsung e Mitsubishi vêm aí com belos avanços. Vamos ver.

Outra disputa interessante é a que acontece entre os fabricantes de tablets, todos numa corrida para roubar pelo menos uma pequena fatia de mercado do iPad, que tem cerca de 80% das vendas mundiais. Como a Apple não participa da IFA, veremos certamente uma avalanche de tablets Honeycomb, variação do sistema operacional Android.

Enfim, teremos muita coisa para ver e relatar aqui. Fiquem ligados.

Netflix já está no mercado

Vai ser no dia 5 de setembro o anúncio oficial da entrada da Netflix no mercado brasileiro. Como já comentamos aqui, observa-se certa ansiedade, especialmente entre o pessoal de TV por assinatura, com a chegada dessa nova concorrente. Mas, na verdade, o colunista Guilherme Felitti, da revista Época, informou que a empresa já está trabalhando aqui há meses. E trabalhando de uma forma pouco usual em nosso mercado: contratou “beta testers”, ou seja, usuários com boa experiência na área, para avaliar a eficiência do serviço a ser implantado aqui. Como se sabe, a Netflix é totalmente baseada em conexões de alta velocidade, o que para alguns pode ser seu grande obstáculo no Brasil. Construir uma rede como as que algumas operadoras já possuem vai levar tempo… Os testes vão até o final de setembro, e a empresa planeja iniciar o serviço antes do final de ano. Se conseguir, já terá sido uma vitória – considerando como são precárias as nossas redes.

Mas, o que a Netflix pretende trazer de diferentes para o usuário brasileiro? Oficialmente, não se sabe. Circulam notícias sobre acordos com a Televisa (produtora mexicana de novelas) e com estúdios de Hollywood, mas até agora somente a Universal confirmou. Empresas brasileiras há anos vêm tentando convencer os estúdios a liberar seus filmes para venda e/ou locação pela internet, sem êxito (por enquanto, NetMovies e Saraiva Digital são que oferecem mais opções). Filmes de sucesso, com legendas em português e saindo simultaneamente ao lançamento nas locadoras, seriam o maior atrativo do serviço. Há ainda os fabricantes de TVs: alguns já estão anunciando que em setembro seus aparelhos irão incorporar o famoso logotipo da Netflix.

Enfim, há muita especulação, o que é normal num caso desses, que pode simplesmente revolucionar a forma como todo mundo consome filmes e vídeos no Brasil. Como, aliás, já está acontecendo em outros países (este artigo ilustra bem).

 

Inspiração para sempre

As milhares de notícias, artigos e debates que têm saído nos últimos dias sobre Steve Jobs provam – se é que precisava – que, mesmo saindo de cena, ele continua sendo uma inesgotável fonte de inspiração. Depois de pesquisar muito sobre sua vida, para o livro “Os Visionários“, devo dizer que sua personalidade continua me surpreendendo, à medida que descubro mais detalhes. Mas talvez o mais impressionante seja a devoção, quase no sentido religioso, que muitos têm por ele. Um caso incrível, mas que a imagem confirma, é o do blogueiro e maratonista inglês Joseph Tame, que encontrou uma forma absolutamente original de homenagear seu ídolo. Usando um iPhone com GPS e o aplicativo Runkeeper, voltado para corridas, ele percorreu um trajeto de 21 quilômetros pelo centro de Tóquio – tudo tão bem planejado que o desenho do percurso compõe com impressionante exatidão a famosa maçã do logotipo da Apple (aqui, detalhes do projeto). Vejam a imagem:

Outra imagem fantástica sobre Steve Jobs é esta abaixo, que ilustra reportagem da revista Wired: uma montagem com miniaturas de vários produtos Apple, que acaba formando a cabeça de Jobs. O trabalho é da artista Deanna Lowe e da agência Tsevis Visual Design para a revista Fortune. Admirem:

 

Para quem espera pela Gradiente

Escrevi aqui pela última vez sobre a Gradiente no dia 24 de março. Hoje, 28 de agosto, um leitor envia comentário sobre a situação atual da empresa. Identifica-se como acionista e incentiva seus colegas a lutarem pela valorização das ações, agora que, segundo diz, a Gradiente está prestes a retomar suas atividades no mercado. Infelizmente, não há informações concretas, apenas palavras de otimismo que, vindas de quem possui ações, não podem ser tomadas ao pé da letra. Seria mais produtivo se a empresa divulgasse exatamente em que pé estão suas negociações e o que podem esperar os milhares de fãs da marca – alguns, como se vê neste outro post, muito decepcionados.

Vamos torcer. E esperar.

O país mais caro do mundo

A toda hora nos chegam mensagens de leitores reclamando do preço de algum produto. Há até aqueles que utilizam esse fator como pretexto para defender o contrabando e a pirataria, no velho estilo levar-vantagem-em-tudo. Já virou chavão argumentar que a absurda carga tributária influi diretamente sobre o custo de tudo – fazendo as contas, muitos não aceitam que determinados itens custem aqui até cinco vezes mais do que, por exemplo, nos EUA.

De fato, não são apenas os impostos que elevam os preços. Tem muito mais. A última edição da revista Exame traz um interessante levantamento a respeito, ao mostrar por que os produtos brasileiros não têm competitividade na comparação com os comercializados em outros países. A partir do caso da Vulcabrás, fabricante de calçados que compete diretamente com artigos chineses, a revista enumera os custos laterais que incidem sobre o valor original dos produtos – cálculo que pode perfeitamente ser aplicado aos aparelhos eletrônicos, mesmo os importados. Eis alguns dos itens que entram na conta:

Transporte – O custo de levar mercadorias da fábrica (ou do porto, ou aeroporto, no caso dos importados) até o ponto de venda é 126% mais alto no Brasil do que na China.

Energia – As empresas brasileiras gastam com esse item cerca de 2,3 vezes mais que suas concorrentes chinesas, 46% a mais que as japonesas e quatro vezes mais que as argentinas.

Dinheiro – A taxa de juros brasileira continua sendo a mais alta do mundo: enquanto aqui pagamos uma média de 6,7% ao mês, os chilenos pagam 1,5% e os mexicanos, 1,1%.

Mão-de-obra – Além dos trabalhadores de fábrica, as empresas brasileiras precisam manter equipes, às vezes terceirizadas, para planejar, apurar e recolher os tributos (no caso da Vulcabrás, são 150 pessoas, dez vezes mais do que a concorrente chinesa).

Encargos – Para cada funcionário contratado, uma empresa brasileira recolhe ao governo o equivalente a 80% do salário pago, outro custo que não tem paralelo no mundo.

Segurança – É impossível calcular quanto os brasileiros gastam com esse item, que em tese deveria ser de responsabilidade do Estado. Além da segurança em sua própria casa (no caso das empresas, nas fábricas, lojas, escritórios e centros de distribuição), é preciso cuidar também dos produtos em trânsito – é infindável o número de caminhões roubados nas estradas do país.

Seguro – Quando há insegurança, naturalmente aumentam os prêmios cobrados pelas seguradoras.

Burocracia – Não parece, mas esse item também pesa muito no custo final dos produtos. A Vulcabrás, por exemplo, é obrigada a destinar cerca de 4 mil metros quadrados, em vários prédios, para guardar livros fiscais que devem ficar à disposição dos agentes federais, estaduais e municipais. Como lembra a Exame, isso equivale a um prédio de dez andares, cada um deles com quatro apartamentos de 100 metros.

 

E o iPad brasileiro, como vai?

Com o alerta de furacão em Nova York, vários políticos que sonham com a candidatura à presidência dos EUA em 2012 mudaram-se temporariamente para a cidade. Claro, tentam faturar politicamente sobre a tragédia, como fez George Bush em 2005, quando o furacão Katrina arrasou a região de New Orleans – Bush ainda ganhou muitos votos para seus amigos nas eleições de 2006; só não contava com o fenômeno Obama em 2008, mas essa é outra história.
Digo isso a propósito do imbroglio em que se transformou a instalação da fábrica brasileira do iPad. Nas últimas semanas, parece que azedou de vez o projeto do governo para convencer a taiwanesa Foxconn a montar os produtos da Apple no Brasil. Como comentamos aqui, essa história estava mesmo estranha. Em abril, visitando a China, a presidente Dilma Roussef anunciou que tudo já estava acertado; depois, o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, cansou de dar declarações confirmando que a fábrica começaria a funcionar em julho, em Jundiaí (SP) – em julho mesmo, ele corrigiu o prazo para agosto. A notícia mais recente é de que o projeto foi adiado para 2012!!!

Interessante que, na hora das boas notícias, os políticos sempre aparecerem, altaneiros, para alardear supostas realizações suas. Agora, Dilma, Mercadante e os outros ministros envolvidos se calam (apenas o secretário de Informática do Ministério, Virgilio Almeida, deu esta entrevista para desmentir que o projeto tenha sido abandonado). Desmentido estranho: ninguém havia falado em abandono…

Neste momento, os fatos são os seguintes. A Foxconn fez um caminhão de exigências ao governo brasileiro, já que não via grandes vantagens em transferir a produção atual do iPad, que é toda concentrada na China. A principal exigência era de apoio financeiro. O investimento total seria de R$ 12 bilhões, mas o governo teria que entrar com a maior parte (via BNDES), ou convencer algum grupo privado a bancar a conta. Com o agravamento da crise internacional, esse plano não prosperou; na semana passada, executivos da Foxconn estiveram em Brasilia cobrando uma definição do governo, que não vê uma saída a curto prazo.

Curiosamente, reportagem da revista Veja esta semana informa que nem foi concedida ainda a licença do governo para o funcionamento da empresa, o que é no mínimo esquisito (não estava tudo certo já em abril?). Os executivos da Foxconn estão sendo cortejados por estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, para montarem a fábrica com incentivos fiscais estaduais (esta semana estiveram também em Arapongas, Paraná), mas o fato é que o projeto só sai com alguém colocando dinheiro.

Quem se arrisca?

Foto de Jobs: falsa ou verdadeira?

Como é dinâmica a internet! Alertado, via Twitter, por meu colega Renato Cruz, do Estadão, fui checar um blog americano que acusa o site TMZ de ter falseado a foto de Steve Jobs que comentei há pouco. Será? Veja o link e tire suas próprias conclusões.

TV paga vai crescer mais ainda

Ainda sobre a polêmica TV aberta vs. TV fechada, que comentei ontem, vale a pena analisar duas pesquisas divulgadas esta semana. A primeira vem da Digital TV Research, empresa britânica que analisa as tendências no mercado mundial de televisão. Seu mais recente estudo enaltece o Brasil como “o mais dinâmico mercado de TV paga do mundo”, prevendo que a penetração da TV por assinatura no país atingirá a marca de 35% das residências até 2016, com um total de 22,2 milhões de assinantes. O faturamento do setor, diz a pesquisa, irá mais do que triplicar nesse período, saltando dos atuais US$ 2 bilhões para US$ 6,64 bilhões. Outra previsão: o segmento de DTH (TV via satélite) continuará crescendo mais rápido que o de TV a cabo. Mas, nos próximos anos, as operadoras de telecom, agora autorizadas a entrar nesse mercado, deverão priorizar os serviços de IPTV, utilizando a internet para dar acesso a conteúdos da televisão. Faz todo sentido.

Outro estudo divulgado dias atrás vem do Ibope Mídia. Revela que 74% dos assinantes brasileiros estão satisfeitos com seu serviço de TV paga e que 66% não pretendem mudar de operadora. Interessante que 30% disseram desconhecer a tecnologia HD! Mais detalhes aqui. Saiu também o levantamento da Anatel referente a julho, com mais números do crescimento da TV por assinatura: foram 187.492 novos assinantes, somando agora 11.295.511, o que significa 31,3% a mais do que havia em julho de 2010!!!

É de se perguntar: qual outro segmento da economia brasileira está crescendo tanto e com tamanha regularidade? Além do maior poder de compra da população, a meu ver o fenômeno está relacionado aos maiores investimentos das operadoras em suas redes, à melhoria do atendimento (caiu expressivamente o número de queixas nos Procons) e à maior oferta de canais de boa qualidade, tanto em HD quanto em SD.

Enquanto reclama da TV fechada, a TV aberta prefere investir em Ratinhos, Datenas, caldeirões, dramalhões requentados à mexicana, pastores e futebol às 10 da noite. Vai continuar tendo que se queixar, literalmente, ao bispo.

Talvez a última foto…

Compreensivelmente, a Apple vem preservando ao máximo a intimidade de Steve Jobs, desde que foi diagnosticada sua doença. Ontem, depois que escrevi o comentário sobre ele, surgiu na internet – e está hoje em vários jornais – a foto ao lado, que deixa claro, se alguém ainda tinha dúvidas, o estado em que se encontra o paciente. Saiu num site californiano e imediatamente se espalhou pelo mundo. Pode ter sido a última foto do homem, vivo. Triste, muito triste.

TV Digital não é popular

Vem aí mais uma campanha publicitária para popularizar a TV Digital no Brasil. O Fórum SBTVD anunciou que entra no ar na próxima quarta-feira, pelas principais redes de televisão aberta, uma série de anúncios mostrando que o serviço é gratuito. Isso mesmo: pesquisas encomendadas pelo Fórum revelaram que, para a maioria dos brasileiros, TV Digital se confunde com TV paga.

Em mais um capítulo da eterna briga entre TVs aberta e fechada, o presidente do Fórum, Roberto Franco, acusou esta semana as operadoras de TV por assinatura de “uso indevido” da marca TV Digital. Seriam elas as culpadas pelo fato de o padrão brasileiro ainda não ter conquistado o telespectador, que cada vez mais – como mostram as estatísticas – está aderindo à TV paga. “Há uma confusão dos consumidores”, diz Liliana Nakanechnyj, que coordena a área de promoção dentro do Fórum. A nova campanha visa deixar claro para o usuário que, para ter acesso à qualidade de imagem da TV aberta, não é necessário ter uma assinatura.

É uma forma indireta de reconhecer que as emissoras falharam no trabalho de massificar a TV Digital, como se prometia desde 2007, quando o SBTVD foi inaugurado. Nesse período, os fabricantes de TVs fizeram a sua parte: foram 6 milhões de aparelhos com conversor digital embutido em 2010, e serão mais 16 milhões produzidos este ano, segundo previsão do próprio Roberto Franco, em entrevista ao site Convergência Digital.

E, no entanto, as pessoas continuam preferindo pagar para ver TV: também nos últimos quatro anos, a TV por assinatura aumentou em 140% sua clientela, roubando boa parte da audiência dos canais abertos. É sempre mais fácil colocar a culpa nos outros do que assumir a própria, não?

O Homem está indo embora…

 

 

 

 

Toda vez que alguém me pergunta qual personagem de meu livro “Os Visionários” é o mais interessante, não tenho dúvidas em responder: Steve Jobs. Apesar dos vários outros gênios cuja história é contada no livro, a vida e a carreira de Jobs são, ao mesmo tempo, uma lição de criatividade (e obstinação) e um retrato da crueldade que domina as relações humanas nos tempos atuais. Sinceramente, não sei como ainda não fizeram um filme sobre o Homem – agora que ele está lançando sua autobiografia, isso talvez aconteça.

Por mais que fosse aguardada, a renúncia de Jobs à presidência da Apple causou um choque não apenas entre os milhões de fãs da empresa, mas até entre seus concorrentes. E, claro, entre seus inúmeros admiradores, como o cineasta George Lucas (outro “visionário” que analiso no livro): “Pessoas como Jobs a gente só conhece uma vez na vida”, disse Lucas, como que sintetizando a consternação geral provocada por seu estado de saúde. Sim, Jobs ainda não morreu, mas a forma como a mídia internacional vem tratando sua saída lembra os obituários que geralmente prestam tributo a quem já se foi.

Tenho certeza de que Lucas está com a razão. Todo mundo que tem mais de 20 anos de idade já foi (a maioria continua sendo) influenciado pelas ideias e atitudes de Steve Jobs. Mesmo que você nunca tenha usado um produto da Apple, saiba que a forma como todos nós nos comunicamos hoje, via celular ou internet, foi moldada por ele. Também a forma como consumimos vídeo e música, por mais que tenhamos resistência ao MP3, e como trabalhamos e buscamos entretenimento. Não tenho dúvidas em afirmar que Jobs e a Apple determinaram o estilo de vida das populações urbanas do planeta nos últimos 15 anos – coincidência: está fazendo exatamente 15 anos que Jobs reassumiu a direção da Apple, em 1996, ele que fora escorraçado de lá dez anos antes.

Pois é, como nossas vidas mudaram em 15 anos! Acredito que a Apple possa continuar sendo uma empresa inovadora mesmo sem a presença de seu líder. Mas será algo como a arte da pintura após a morte de Picasso, a poesia brasileira pós-Drummond ou o cinema depois de Chaplin: sempre estará faltando alguma coisa.

Aliás, falando em Picasso, me lembrei agora do dia em que ele morreu e o Jornal da Tarde, de São Paulo, estampou em manchete: “Picasso morreu (se é que Picasso morre)”. Taí uma dúvida que sempre iremos aplicar também a Steve Jobs.

Ceará contra o Google

Não sei por que, mas esta notícia ganhou pouquíssimo destaque na imprensa brasileira (fui encontrá-la no excelente site americano The Next Web): “Google recebe multa no Brasil por não fornecer dados de usuários”. Aconteceu na pequena cidade de Varzea Grande, interior do Ceará. O prefeito local não gostou de acusações de corrupção postadas contra ele em três blogs, em janeiro deste ano, e pediu que a Google Brasil os tirasse do ar. Diante da recusa, acionou a Justiça. Em fevereiro, um juiz local ordenou que, além de cortar os blogs, a empresa fornecesse os nomes dos três blogueiros responsáveis. Em maio, o juiz decidiu multar a Google BR em 3.100 dólares por dia, até que a ordem fosse cumprida. Como não foi (e a multa também não foi paga), agora saiu uma sentença mais drástica: congelar um total de R$ 225 mil das contas bancárias da empresa!

Sinceramente, não sei o que é pior: se a decisão do juiz propriamente dita (nunca se sabe de onde eles tiram esses valores de multas e indenizações); o desrespeito à liberdade de crítica; ou o fato de nenhum órgão de imprensa importante no Brasil ter divulgado o caso. Fez muito bem a Google em se recusar a fornecer os nomes dos blogueiros, até porque estes correriam sério risco se o tal prefeito soubesse quem são.

Pior é que, segundo o site americano, não se trata de caso isolado. “Ameaças de morte e execuções infelizmente não são incomuns para os blogueiros brasileiros”, diz o texto. Lembra vários casos relatados pelo site Jornalismo nas Américas. E cita a agência de notícias Deutsche Welle, para quem os tribunais brasileiros se transformaram numa “ferramenta de censura”.

Bonito, não?

Automação para todos

Quem ainda acha que automação residencial é coisa de milionário deve se surpreender com este dado: mais de 1,8 milhão de sistemas desse tipo serão vendidos este ano em todo o mundo. A informação é da empresa americana ABI Research, que inclui no levantamento produtos dos fabricantes conhecidos (Crestron, Control4, Savant, Cisco, Lutron, AMX, todos por sinal com distribuição no Brasil). Para 2016, a previsão é de chegar a 12 milhões de sistemas vendidos e instalados (veja aqui a pesquisa).

Se formos considerar o número de residências que existem ao redor do mundo, claro que esses dados não significam muito. Mas a conta a ser feita é outra. O que está sendo vendido agora é produto de um trabalho que se pode chamar “de formiguinha”, realizado por esses fabricantes e seus distribuidores em vários países. A partir deste ano, a brincadeira começa a ficar mais interessante, com a entrada em cena das operadoras de telefonia, banda larga e TV por assinatura, que buscam agregar a automação a seus pacotes de serviços. No Brasil, isso já é feito pela Telefônica (que atua basicamente em São Paulo, com a Control4), mas em breve começará a ser oferecido também aos assinantes da Net, Sky, Embratel, GVT e Oi, entre outras.

A Verizon, maior operadora dos EUA, já está instalando sistemas nas casas de seus assinantes, englobando monitoramento de luzes, ar-condicionado e controles de acesso, inclusive com câmeras IP, a um custo básico de US$ 9,99 por mês. A Comcast, maior do setor de TV por assinatura, também está entrando nesse campo. O esquema é quase sempre o mesmo: parceria com uma empresa especializada em automação, para oferecer ao usuário a solução mais completa possível. Em breve, estará disponível para os americanos também uma solução do Google (vejam o vídeo).

 

Tablet a US$ 99: quem quer?

Filas e mais filas têm se formado em lojas de eletrônicos nos EUA, nos últimos dias, devido a uma promoção tão inesperada quanto estapafúrdia. O TouchPad, tablet lançado pela HP há cerca de dois meses e que tem o mesmo visual do iPad, entrou literalmente em liquidação, depois que o fabricante anunciou, na semana passada, que não irá mais produzi-lo. Vejam a diferença: o modelo de 16GB, que em junho custava US$ 399, agora já pode ser encontrado até por US$ 99. Que tal? Bela pechincha, não? Mesmo considerando que o aparelho usa um sistema operacional (WebOS) que deve cair em desuso, por esse preço até que vale a pena ter um à mão, por exemplo, para navegar pela web, assistir a vídeos e outras aplicações básicas.

À primeira vista, até que a HP não sairia mal nessa foto: milhares de estudantes estão comprando o TouchPad agora, na volta às aulas, na certeza de que o aparelho lhes será útil nos estudos. Muito bem, só que nem todo mundo está satisfeito. A Best Buy, maior rede de varejo de eletrônicos do mundo e, naturalmente, o maior cliente da HP, anunciou hoje que irá simplesmente devolver quase 250 mil unidades do produto que encalharam!!! Isso mesmo: ainda que fazendo os tais cortes de preços, a rede não está conseguindo desovar seu estoque. Em junho, encomendou 270 mil TouchPads; vendeu cerca de 25 mil, e ainda assim muitos compradores estão voltando às lojas para devolvê-los, sentindo-se traídos pelo fabricante.

Vejam no que dá uma decisão esdrúxula de uma grande empresa. Com seus quase 70 anos de existência e líder em seu setor durante décadas, a velha Hewlett-Packard acaba de se tornar protagonista de um dos maiores cases negativos da indústria. O que está acontecendo com o pobre TouchPad é apenas um detalhe, num emaranhado que pode, literalmente, levar a empresa ao buraco. Hoje mesmo, a HP lançou um novo computador (o Compaq 8200 Elite All-in-One), destinado ao uso corporativo, provocando piadas na internet: afinal, não foi há menos de uma semana que a empresa anunciou que estava desativando sua divisão de PCs?

Esse tipo de episódio só contribui para sujar ainda mais a reputação de uma marca que até outro dia era bem vista pelo consumidor em geral. O caso da Best Buy não é isolado, segundo o site AllThingsDigital: outros grandes varejistas – entre eles Wal-Mart, Fry’s e Staples – estão igualmente decepcionados com seu fornecedor, que os deixou literalmente na mão. A decisão de promover o chamado spin-off, que é como se define em inglês a progressiva desativação de uma empresa ou divisão para posteriormente vendê-la, pegou de surpresa até mesmo executivos da própria HP. Leo Apotheker, o CEO contratado no ano passado, não é muito chegado ao mercado de consumo – mas a empresa devia saber disso quando o contratou.

Agora, o estrago está feito. Os estudantes americanos talvez estejam felizes. Mas duvido que os acionistas da HP estejam.