Archive | setembro, 2011

Tecnologia nos tribunais

Um dos maiores estandes da IFA, como sempre, é o da Samsung. E uma das áreas mais agitadas ali é o espaço reservado a tablets e smartphones. A empresa coreana decidiu usar o evento como palco para mostrar que não só é forte nesse setor, como pretende ficar mais forte ainda, concorrendo em vários segmentos. Está demonstrando uma nova versão do Galaxy Tab, com tela menor (7.7″) e uma quantidade absurda de recursos, e também o Galaxy Note, que até já foi motivo de piada em sites de tecnologia – “será um um smartphone grande ou um tablet pequeno”? O público que visita a IFA, principalmente no fim de semana, parece que não está muito interessado nesses detalhes. Os dois produtos são um sucesso, a considerar as filas no estande.

Curioso é que na sexta-feira, dia de abertura da IFA, um tribunal de Dusseldorf emitiu ordem expressa para que a Samsung pare de vender seus tablets e smartphones. Foi uma resposta à ação da Apple, que acusa os coreanos de copiarem tanto o design quanto os recursos de navegação do iPhone e do iPad. Até aí, nem seria motivo para disputa judicial: quantos aparelhos você já viu por aí que imitam os dois produtos da Apple? Como proibi-los todos? O problema é que a Samsung é talvez o único concorrente, hoje, que pode de fato ameaçar a hegemonia da empresa de Steve Jobs.

Essa briga entre Apple e Samsung, que já dura alguns meses, não tem data para terminar. A Apple não fala a respeito, mas aqui em Berlim o pessoal da Samsung não perde uma chance para deixar claro que entrou nessa briga pra valer e vai até o fim, custe o que custar. Já comentamos aqui a estratégia da empresa, mas na IFA estamos vendo o lado prático dessa estratégia. O Galaxy Tab 7.7 (foto), por exemplo, inclui processador de núcleo duplo, atingindo taxas de até 21Mbps (o dobro do iPhone), entrada para cartão microSD (iPhone e iPad não têm), adaptador (TouchWiz) para ajustar a tela conforme os conteúdos, reprodução em 1080p, já vem com controle remoto integrado (para comandar TV e outros aparelhos) e também permite fazer chamadas com vídeo. A Samsung promete ainda integrá-lo a um novo hub de serviços, que inclui músicas, filmes, jogos e livros!!!

Se conseguir mesmo fazer tudo isso funcionar num aparelho de 7,7″, a Samsung certamente vai colocar pelo menos uma pulguinha atrás da orelha da maçã…

Por dentro do carro elétrico

Como se sabe, a IFA não é apenas um evento de eletrônicos de consumo. Universidades e institutos de pesquisa europeus participam ativamente, demonstrando estudos de laboratório que podem, quem sabe, se transformar em produtos no futuro. E muitas dessas instituições são apoiadas por empresas, que têm interesse no desenvolvimento das pesquisas. É o caso da Panasonic, que no ano passado comprou parte do controle da Tesla Motors, fabricante de carros especiais fundada por cientistas do Vale do Silício. O principal negócio da Tesla é o carro elétrico; e a Panasonic, como sabemos, é um dos maiores fabricantes mundiais de baterias – ficou mais forte ainda após a compra da Sanyo, que tem longa tradição na área.

Pois aqui na IFA pudemos ver, não a estreia do carro elétrico, que já é conhecido, mas uma amostra de como são fabricados esses veículos. Neste vídeo, mostramos um modelo Tesla Roadster 3.5 por dentro. Foi o mesmo que o presidente da Panasonic Europa, Laurent Abadie, entrou dirigindo em pleno palco da apresentação inicial da empresa na IFA, diante de centenas de jornalistas, no último dia 31.

Não entendo lá muito de carro (para os interessados, aqui está um teste), mas ao ver a estrutura interna do veículo tive uma sensação de já estar “viajando” no futuro. Quando será que poderemos dirigir um bichinho desses pelas ruas brasileiras?

 

 

Internet contra a corrupção

Mais uma pausa nos assuntos da tecnologia para comentar que recebi com prazer, via Twitter, um link enviado pelo amigo e grande jornalista Ricardo Noblat. Trata-se de matéria publicada em O Globo sobre a mobilização que acontece na internet para promover um grande ato contra a corrupção no próximo dia 7 de setembro. Leiam aqui. Não vou poder estar presente, mas tentarei, daqui de longe, espalhar essa ideia. O Facebook está sendo uma das principais ferramentas para conseguir apoios. Já são 11 mil. Espero que venham muitos mais. Neste artigo, explico um pouco do que penso a respeito.

 

3D ou Smart TV: o que você prefere?

São as duas principais tendências atuais no mercado de TVs: a tecnologia 3D e o conceito de “TV conectado”, que alguns chamam “web TVs”, mas que a maioria dos fabricantes decidiu batizar “Smart TVs”. A princípio, pensava-se que o 3D seria a grande revolução. Com o sucesso de Avatar e outros filmes no cinema, muitos chegaram a dizer que a televisão convencional (2D) estava com os dias contados. Depois, viu-se que era exagero: nem todo mundo gosta de ver imagens tridimensionais – pelo menos, não a toda hora. Cinema é uma coisa, TV é outra.

Com a possibilidade de agregar aos TVs, via software, uma série de recursos dos computadores, os fabricantes descobriram esse novo filão: TVs que acessam a internet e podem compartilhar redes. Pra quê computador, se eu posso ver tudo que quero na tela do meu TV, no conforto do sofá, acionando o controle remoto? Outro engano. TV é uma coisa, computador é outra. Quando se está na internet, geralmente exige-se privacidade. Navegar é um ato solitário por definição, e se o computador trava você sofre sozinho! Ver televisão quase sempre é um ato coletivo, compartilhado com a família e/ou os amigos. Ninguém imagina um TV travando na hora do jogo ou da novela…

Então, o que é melhor? Um TV 3D ou um Smart TV? Ou um que faça as duas coisas? Bem, pelo que estamos vendo aqui na IFA, os próprios fabricantes estão divididos a respeito. Conversei hoje com Kenneth Hong, o homem que dirige a área de comunicação global do grupo LG, ou seja, é quem tem na cabeça a estratégia para a marca. Num inglês fluente, ele me explicou por que a empresa decidiu, agora, mudar sua estratégia: antes, Smart TV era o principal feature, como gosta de dizer o pessoal de marketing. Pesquisas indicavam que o consumidor é muito mais atraído por uma tela cheia de funções do que pelas imagens tridimensionais que muitas vezes causam tontura e irritam os olhos.

Pois bem, tudo mudou (vejam na foto o estande da empresa na IFA). “Sabemos agora que Smart TV não é mais um diferencial”, diz Hong. “Todos os fabricantes têm e todos funcionam praticamente da mesma maneira. Como o consumidor pode diferenciar um produto do outro? Já o 3D é diferente: nós temos uma solução, baseada na tecnologia passiva, que é mais barata e mais confortável para a maioria das pessoas. Então, decidimos apostar nela. Vai levar algum tempo, mas temos certeza de que o consumidor vai saber optar. Não agora, porque ele ainda não se acostumou à ideia. Mas também foi assim na época do TV em cores. No início, era caro e as pessoas diziam que não precisavam. Depois, todo mundo aderiu”.

Hong mostra convicção. Disse, por exemplo, que a LG perdeu muito dinheiro com essa decisão, porque já tinha vendido muitos TVs com óculos ativos e ainda tem muito em estoque. “Além do mais, a tecnologia ativa nos dá margens de lucro mais altas”, diz ele. Mas a decisão está tomada, e não tem mais volta. Ainda que outros fabricantes – especificamente: Sony, Samsung e Panasonic – tenham se juntado numa espécie de consórcio para defender a tecnologia ativa (mais detalhes aqui). “Eles fizeram isso por desespero”, me diz Hong. “Precisavam se unir para enfrentar essa disputa. Nós estamos tranquilos. Estamos sendo procurados por outros fabricantes, que querem usar nosso filtro FPR (Film-patterned Retarder). Mas, se ninguém quiser aderir, tudo bem. Continuaremos sozinhos. E vamos vender mais, porque sabemos que é isso que o consumidor deseja”.

Será excesso de otimismo? Talvez. Mas foi engraçado ver que, no estande da Samsung (foto abaixo), as palavras de ordem são “Smart TV”, “conteúdo” e “aplicativos”. Ou seja, pela enésima vez, LG e Samsung trilham caminhos opostos.

Três minutos sem óculos

Foram 15 minutos de espera numa fila… e apenas três, três minguados minutos de demonstração do TV 3D Toshiba sem óculos, de 55″, nesta sexta-feira. É, sem dúvida, o grande lançamento da IFA 2011. Foram espertos: fizeram tudo em salinhas estreitas, apenas três pessoas sentadas e ninguém mais, para aproveitar ao máximo o ângulo de visão… E, em três minutos, fica aquele gosto de “quero ver mais”.

Conclusões? Se é que dá para tirar alguma, o que mais chama atenção é a falta de naturalidade das imagens. Há uma tomada curta de um surfista sob uma onda gigante, com a água espirrando na tela, mas não dá aquela sensação de que a água vai cair por cima da gente. E aí, quando começamos a gostar da brincadeira, a demonstração acaba – que a fila lá fora aumentou ainda mais.

Comparando com o que vi no estande da Philips (já tinha sido mostrado no ano passado – vejam aqui), achei inferior. Mas, repito: foram apenas três minutos, que passaram voando. De qualquer forma, a Philips promete lançar somente daqui a quatro anos, enquanto a da Toshiba é pra já: até dezembro. Será mesmo? Quanto vai custar? Ninguém sabe informar.

Bem, daqui a pouco o vídeo estará no hot site IFA 2011. Acessem.

Como mataram a HP!!!

Pausa de alguns instantes na IFA para registrar este excelente artigo de Al Lewis, que está na edição em português do The Wall Street Journal, sobre a crise na HP. Embora ainda seja o maior fabricante mundial de computadores, a empresa vive um inferno astral desde que, há pouco mais de um ano, decidiu demitir o CEO Mark Hurd, acusado de mau comportamento sexual. O artigo detalha como a diretoria conseguiu praticamente destruir a reputação da empresa nesse período, culminando agora com o desastrado anúncio de que pretende sair do segmento de PCs – como disse um analista de Wall Street, isso equivale ao McDonald’s anunciar que não irá mais vender hamburguers!!!

Todo mundo que tem ou pretende ter uma empresa deve ler. É uma espécie de manual gerencial ao contrário.

Grande, bonito. E sem óculos.

O grande destaque do dia na IFA (e provavelmente de todo o evento) foi o TV 3D da Toshiba que não exige o uso de óculos. Parece que nem o pessoal da própria empresa acreditava que fizesse tanto sucesso. Vi pessoas olhando para a tela, com cara de “não acredito”. Depois de tantos anos de feiras, realmente é difícil crer que um produto desses estará no mercado internacional ainda este ano, como promete a Toshiba.

As especificações são de tirar o chapéu! Com 55 polegadas (a empresa tinha lançado no Japão um modelo de 20″), o aparelho é o primeiro equipado com o moderníssimo chip CEVO, criação da própria Toshiba, que possui sete núcleos. Com essa arquitetura, os técnicos japoneses conseguiram produzir um TV que, além da altíssima qualidade de imagem, consegue processar uma quantidade muito maior de informações. Esse aspecto é crucial na era da convergência, em que os chamados Smart TVs estão se transformando em centrais multimídia, conectados a diversas fontes de sinal. Só mesmo um processador muito avançado é capaz de elaborar tamanha quantidade de pixels: 3.840×2.160, o que dá mais ou menos o dobro de um TV Full-HD.

São bilhões de operações por segundo. Para reproduzir imagens tridimensionais, o TV precisa minimizar as limitações dos painéis LCD em termos de contraste, processamento de cores e tempo de resposta. Pelo visto, o CEVO consegue. Segundo a Toshiba, um sensor colocado no painel frontal faz a “leitura” do ambiente e identifica a posição das pessoas na sala. Baseado nessas informações, o processador direciona a imagem para os ângulos adequados, de tal modo que o efeito 3D não se perde.

Bem, tudo isso é teoria. Vimos o TV por alguns instantes nesta quinta-feira e vamos tentar vê-lo melhor nos próximos dias. Mas é fato que, dispensando o uso de óculos, o aparelho já leva de cara uma enorme vantagem sobre a concorrência. Ainda assim, há algumas incógnitas no ar: será que a Toshiba consegue produzi-lo em escala comercial? Chegará a um custo final não exorbitante? E os outros fabricantes, terão alguma resposta à altura? Respostas, se tudo der certo, nos próximos meses.