Archive | fevereiro, 2012

Google TV: será que vem?

Os principais fabricantes de eletrônicos planejam para o período entre março e maio o anúncio oficial de seus lançamentos para este ano. Boa parte deles será composta dos itens exibidos na CES, em janeiro, que detalhamos em nosso hot site. A Samsung, por exemplo, agiliza os preparativos para trazer ao mercado brasileiro seu TV com comando de voz e reconhecimento de face, talvez ainda no primeiro semestre.

Uma das expectativas gira em torno da plataforma Google TV, lançada no final de 2010 e até agora um sonoro fracasso, como mostra reportagem do excelente site GigaOM (leiam aqui). Não só a Samsung, mas também LG, Sony e Lenovo anunciaram na CES que renovaram suas parcerias com a Google, para introduzir a plataforma em suas linhas de TVs 2012 (sim, a Lenovo também está entrando nessa praia, como mostramos aqui). Basicamente, Google TV seria uma versão ampliada dos serviços que você já encontra hoje no site de buscas: Gmail, Google Talk, Google Docs, Google Maps, guias de programação de TV etc. etc. etc. O sistema operacional Android vem sendo adaptado para uso nos TVs Smart, num mix com o software de cada fabricante (vejam aqui um vídeo).

Até este momento, nenhuma empresa confirmou se teremos Google TV também no Brasil (acho pouco provável). E, a julgar pelo que comentam os principais sites especializados (aqueles que não publicam informações “vendidas”), até mesmo para o mercado americano há o risco de uma nova decepção. Jankko Roetgers, repórter do GigaOM, fez aquilo que todo jornalista deveria fazer ao preparar uma reportagem: como a fonte principal – a própria Google Inc. – recusa-se a dar informações sobre o assunto, ele foi ouvir desenvolvedores independentes. E entrou  na Android Market, loja oficial de aplicativos da empresa, onde descobriu (os números são abertos) que menos de 1 milhão de aparelhos estão hoje operando com o software Google TV.

É bom prestar atenção nos números. Os primeiros receptores Logitech Revue, trazendo o software, chegaram às lojas dos EUA e Europa em novembro de 2010. As críticas foram amplamente desfavoráveis. Ao longo de 2011, a Logitech se desentendeu com a Google e desistiu de fabricar o aparelho. Não seria ruim se outros fabricantes aderissem, mas o fato é que, até agora, ninguém mais lançou. Nesse intervalo, já foram vendidos 4,2 milhões de caixas Apple TV e 2,5 milhões do media center Roku, que fazem basicamente as mesmas coisas que o Revue. No Brasil, só temos, por ora, o modelo de Apple, além de uma série de marcas menos conhecidas. Sim, os videogames PlayStation 3 e Xbox 360 também cumprem, em parte, essas funções, mas a um custo bem mais alto.

Nos bastidores da indústria, o que se ouve é o ruído das desconfianças. A maioria dos fabricantes não está totalmente certa de que é bom ser parceiro da Google. Assim como foi anos atrás a Microsoft, que até hoje paga o preço, a empresa de Larry Page e Sergey Brin é vista como pouco confiável – a compra da Motorola, em agosto do ano passado, foi encarada como uma “rasteira” em parceiros históricos, como Samsung e Sony Ericsson, concorrentes da empresa americana no setor de celulares. A própria Logitech “saiu atirando” da parceria com a Google, acusada de não cumprir sua parte no acordo Google TV.

Conclusão: qualquer um que queira comprar um aparelho com essa marca deve, no mínimo, ficar bem esperto.

 

A fé que cheira mal…

Num interessante levantamento, o site do jornal Meio & Mensagem, voltado ao mercado publicitário, mostrou esta semana em detalhes o fenômeno da ocupação das emissoras de TV pelas igrejas. Embora a televisão seja um serviço público e, pela Constituição, o Estado brasileiro seja laico, é cada vez mais extenso o horário destinado nas redes a programas religiosos. Na verdade, são horários “alugados” a entes como a Igreja Internacional da Graça de Deus (aquela do missionário R.R.Soares), a Assembleia de Deus Vitória em Cristo e – mais famosa delas – a Universal do Reino de Deus, dona da Rede Record, segunda do país em audiência.

Segundo o site, a RedeTV tem hoje 49,16% de seu espaço negociado com igrejas e serviços de televendas, num flagrante desrespeito à Constituição. Outras campeãs no quesito são a Bandeirantes, onde reina R.R.Soares, e a Rede Vida, custeada por entidades católicas. O levantamento foi feito a propósito da atual crise financeira da Rede TV, que vem atrasando até o pagamento de funcionários e prestadores de serviço, e acaba de perder (para a Band) seu programa de maior audiência e faturamento, o Pânico na TV. Mas esse é apenas um detalhe circunstancial da situação a que chegou a televisão brasileira, com a conivência do governo federal e de seus órgãos que fiscalização.

No momento em que produtores de vídeo e cinema ditos “independentes” conseguem abocanhar poderes sobre as operadoras de TV fechada, é um escândalo que ninguém se manifeste a respeito do que ocorre na TV aberta. O Meio & Mensagem foi ouvir especialistas, e de suas manifestações chega-se à conclusão de que, com perdão do trocadilho, “não há salvação”. A deputada Luiza Erunida, por exemplo, que faz parte da Comissão de Ciência, Tecnologia, Informática e Comunicação da Câmara Federal, relata que todas as vezes em que tentou debater o assunto foi sabotada pelos parlamentares da bancada evangélica. Claro, eles estão lá exatamente para facilitar o desrespeito à Constituição, e – como se vê em todo ano eleitoral – seu poder de influência jamais pode ser subestimado.

Mesmo o PT e os sindicatos que defendem a chamada “regulação da mídia” não ousam tocar nesse tema. Seu discurso é de que é preciso conter a “ditadura dos grandes grupos de comunicação”, eufemismo que usam para identificar editoras e emissoras que criticam o governo e denunciam seus escândalos (na verdade, referem-se de forma recorrente à Rede Globo, Estadão, Folha de São Paulo e a algumas revistas da Editora Abril). Nenhuma palavra sobre a ação das igrejas, da qual só escapam, hoje, justamente os maiores grupos de mídia.

Curioso é pensar que, pelos novos critérios da Ancine, as igrejas, com suas enormes estruturas de produção, também já podem ser classificadas como “produtoras independentes”. O que aconteceria se as operadoras de TV paga começassem a incluir programas religiosos em suas grades, só para cumprir a nova lei?

Como se vê, esse é um debate escorregadio. E no qual nem todos são os anjos que querem se fazer parecer.

Sky vs Ancine = usuário vs governo

Excelente a iniciativa da operadora Sky de lançar uma campanha estimulando o consumidor a participar da discussão sobre a nova lei da TV por assinatura e suas implicações para o mercado. Dezenas de vezes, comentamos o assunto aqui, sempre com muitas reações dos leitores, mas a mídia em geral tratava (na verdade, continua tratando) a questão como secundária. Esse, aliás, foi um dos motivos pelos quais a lei foi aprovada no Congresso – sem falar, é claro, dos lobbies que lá atuam.

Em três páginas da revista Veja, mais uma saraivada de mensagens no Twitter, emails enviados a seus 3,8 milhões de assinantes e até um hot site dedicado ao tema, a Sky promove algo que nenhum órgão de imprensa importante foi capaz de fazer até hoje. Com a chamada “Seu controle remoto agora está nas mãos da Ancine”, o usuário é incentivado a se informar sobre a nova lei e a se manifestar (este é o link: http://www.sky.com.br/site/manifeste-se/). Perfeito. A lamentar, apenas que isso não tenha sido feito lá atrás, antes da votação do projeto, que dessa forma talvez nem tivesse sido aprovado.

A lei, de número 12.485, assinada pela presidente Dilma Rousseff em setembro passado, é aquela que determina cotas para conteúdos nacionais nas grades das operadoras. Na verdade, isso nem estava previsto na mudança da legislação, que tem quase vinte anos e, portanto, está totalmente superada pelas novas tecnologias. O objetivo era adaptar às normas ao mundo digital, incluindo aí o aumento da concorrência no mercado com a entrada das teles. Foi quando um grupo de produtores de cinema e vídeo, sem mercado para seus produtos, percebeu a grande chance de – via lobby – embutir no texto a questão das cotas. De quebra, ainda conseguiram que a lei desse novos poderes à Ancine para fiscalizar o setor de TV por assinatura.

Não por acaso, a Apro (Associação Brasileira das Produtoras de Audiovisual) foi a primeira a se manifestar, já nesta segunda-feira, contra a campanha da Sky. Num texto cheio de erros de português, diz que a operadora agiu “de maneira sórdida” ao acusar o presidente da Ancine, o ex-produtor Manoel Rangel, de ser o responsável pelas mudanças na lei. E defende seu “legítimo direito de nos defender e contra-atacar a Sky”, como se isso estivesse em dúvida.

Como o caso está na Justiça (a Sky promete acatar a decisão final que for tomada), resta uma esperança de que, com os consumidores debatendo livremente a questão, se possa entender melhor o que essa lei representa para o país. Só por isso a operadora já merece os parabéns.

Para quem quiser entender melhor a briga, sugiro este artigo.

 

iPhone brasileiro: qual a vantagem?

O site Gizmodo, em sua versão brasileira, deu um furo esta semana ao descobrir um consumidor (deve ser o único…) que comprou um iPhone made in Brazil. Sim, o aparelho existe, e o infeliz comprador até se identificou (na verdade, disse que “ganhou” de presente). Seja como for, é a primeira vez que se tem notícia da venda do produto que no ano passado causou tanta polêmica. Foi de fato produzido na unidade da Foxconn em Jundiaí (SP). O detalhe é o preço: nada menos de R$ 1.799 por um modelo de apenas 8Gb, valor similar ao do importado.

Caem por terra, dessa forma, todos os argumentos levantados pelo governo brasileiro ao forçar – praticamente implorar – a instalação de uma montadora de produtos Apple no Brasil, como cansamos de relatar em 2011. Com incentivos de toda ordem, e até a inclusão dos tablets na chamada Lei do Bem, que proporciona isenções fiscais a produtos de informática, ainda assim o consumidor não tem vantagem alguma em adquirir o aparelho feito no próprio país.

Resta ver quanto tempo irá durar o “novo iPhone” nas mãos do usuário que o comprou.

Exportando malandragem

O Brasil pode ser um dos países mais atrasados do mundo em tecnologia (é o que dizem os números), mas até gigantes multinacionais do setor têm o que aprender por aqui. O site americano ZD Net descreve em detalhes a maracutaia desenvolvida pela operadora AT&T para ludibriar usuários do iPhone nos EUA. Mesmo pagando um plano de dados identificado como “ilimitado”, eles acabam de descobrir que suas conexões são manipuladas pela operadora. Já foram registrados casos em que a velocidade real de 1,5 Megabits por segundo foi reduzida para 120Kbps (menos de 10%).

Tecnicamente, a prática é chamada throttling, algo que os usuários brasileiros conhecem bem (vejam o vídeo produzido pelo site App Advice para mostrar como funciona). O texto relata o caso de um usuário que até já conseguiu indenização na Justiça – a AT&T promete recorrer. E, num sinal de que os americanos estão aprendendo duramente a conviver com a crise, outro site, o MacTech, dirigido a usuários de produtos Apple, criou até um guia para quem se sentir prejudicado apelar a um tribunal de pequenas causas.

Pois é, se você reclama de sua operadora de celular, saiba que elas estão sendo muito eficientes em exportar seu know-how para as americanas. É o famoso jeitinho brasileiro fazendo escola, também na área de tecnologia.

O Smart TV da Philips

Agora sob nova direção, a divisão de TVs da Philips, vendida no ano passado à chinesa TPV (também proprietária da AOC), realiza no início de abril seu primeiro evento de lançamento de produtos no Brasil. Nesta segunda-feira, a empresa apresentou em Londres a linha completa de modelos para este ano na Europa, boa parte dos quais será adaptada para os mercados norte e sul-americano. Relativamente tímida até agora, a empresa planeja revitalizar sua presença na memória do consumidor – no Brasil, durante muitos anos a marca Philips foi quase sinônimo de rádio e TV.

Segundo o vice-presidente do grupo, Pieter Vervoort, a empresa vem estudando cuidadosamente as mudanças de comportamento do consumidor nos últimos anos, quando os principais mercados foram inundados com TVs do tipo Smart. “Sabemos que 60% dos usuários ativos acessam os conteúdos de internet nos TVs mais de 50 vezes por mês”, disse ele ao site especializado Broadband TV News. Ou seja, o hábito de navegar pela tela do TV realmente está pegando (para o mercado brasileiro, ainda não conheço números desse tipo). Vervoort disse também que o acesso à web não está mais restrito aos usuários de alto poder aquisitivo, nem aos modelos mais caros. Por isso, uma das estratégias da Philips é estender o recurso até mesmo a modelos de 19 polegadas.

Outra novidade anunciada em Londres é que todos os novos TVs, independente do país onde sejam usados, irão mostrar a mesma tela de abertura (como na foto), informando dia, hora e situação do tempo na cidade local. A imagem do canal sintonizado irá aparecer numa janela PIP e, se quiser, o telespectador poderá acionar um aplicativo – pré-instalado no aparelho – com sugestões de programas que estejam sendo exibidos naquele momento em todas as emissoras captadas (inclusive os canais pagos).

Sem dúvida, são boas ideias. Vamos ver se chegam logo ao Brasil.

E por falar em inovação…

A revista americana Fast Company, biblia dos empresários antenados, acaba de divulgar sua nova lista das 50 empresas mais inovadoras do mundo. Adivinhem quem é a primeira da lista: claro, a Apple, seguida por Facebook, Google e Amazon. Até aí, nenhuma novidade. O que chama a atenção nesse ranking, e o que – acho – deve merecer atenção de empreendedores e candidatos a ter seu próprio negócio, é a diversidade de setores em que atuam as “50 mais”.

É bom anotar algumas delas (clique nos links para saber mais detalhes de cada uma). Como já dizia Steve Jobs, ninguém deve ter vergonha de roubar boas ideias, desde que seja para torná-las melhores e não apenas copiá-las:

Square – Fundada em 2009 por Jack Dorsey, um dos criadores do Twitter, fatura US$ 3 bilhões/ano com um sistema de pagamentos via smartphone.

Life Technologies – Também fundada em 2009, especializou em dispositivos biogenéticos, como sequenciadores de genoma. Tem até filial no Brasil.

Solar City – Sem um centavo do governo, tornou-se uma das principais fornecedoras de soluções em energia solar dos EUA. Além de fabricar os painéis, projeta, instala e dá consultoria sobre o uso.

Patagonia – Ainda na área da sustentabilidade, faturou US$ 500 milhões em 2011 convencendo empresas e pessoas a comprarem artigos usados e/ou reciclados.

AirBnB – Pensando na enorme quantidade de pessoas que deixam as grandes cidades no verão, criou um sistema virtual de locação de imóveis: você viaja e deixa alguém morando na sua casa. Em cinco anos, foram mais de 4,5 milhões de negócios fechados em 192 países.

LegalZoom – Uma espécie de Facebook dos advogados: se você tem uma queixa, eles te encaminham a um bom profissional e cuidam de todos os detalhes para que seu processo ande rápido (claro, isso lá nos EUA).

BUG Agentes Biológicos – Principal brasileira entre as 50: produz “pesticidas naturais”, insetos geneticamente preparados para combater pragas agrícolas.

Chipotle – É a rede de fast-food que mais cresce nos EUA, abrindo uma loja nova por dia. Receita: só trabalha com produtos naturais, e faz questão de mostrar isso aos clientes.

Soundcloud – Uma espécie de YouTube de sons: você pode gravar o som que quiser e colocar no site, que ajuda a editar e divulgar; um aplicativo permite reproduzi-lo onde quiser.

Knewton – Esta se especializou em novas tecnologias educacionais e vende serviços para escolas de vários estados americanos.

Red Bus – Empresa indiana que criou um inédito sistema para monitorar o infernal sistema de ônibus da cidade de Bangalore, com nada menos do que 10 mil linhas e 6 milhões de habitantes. Dá até para fazer reserva pela internet.

Como se vê, não há limites para a inovação e a criatividade.

Aula de inovação no Brasil

INEFINEPCIA: se você não sabe o que significa essa palavra, não se assuste; eu também não sabia, até ler este artigo, escrito por Roberto Mayer e publicado na revista Information Week. É um trocadilho com as palavras “ineficiência”, “finep” e “inépcia”, sendo que Finep é a sigla da Financiadora de Estudos e Projetos, órgão ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia e criado em 1967 com a finalidade de financiar projetos inovadores na área de tecnologia. O texto explica em detalhes como uma boa ideia – estimular a inovação nas empresas – foi transformada em mais um ente burocrático estatal, praticamente desativada desde 2010. Vale a pena ler!

Fiz questão de citar o artigo antes de contar sobre mais uma ideia inovadora de Cristiano Mazza e sua equipe na Discabos, fabricante brasileira de cabos e soluções de conexão para redes. Trata-se da transmissão de sinais de áudio e vídeo de alta definição (HDMI) via cabos de rede IP, uma solução que poucos especialistas brasileiros dominam e que agora torna-se mais acessível. O conceito básico é que o sinal de fontes como players Blu-ray, videogames PlayStation 3 ou Xbox 360 e receptores HD de TV paga podem ser transmitidos pela casa usando a mesma estrutura de cabos já existente para rede de banda larga (normalmente via cabo Cat5 ou Cat6). E gerenciados para exibição em diversos displays.

Para não encher o leitor com explicações técnicas mais detalhadas, passo logo o link para o vídeo preparado pela Discabos, que mostra como funciona.

O golpe do Ginga

Pode-se aguardar para as próximas semanas a ação judicial dos fabricantes de televisores contra a portaria que obriga a introdução do DTVi (Ginga) nos aparelhos a partir de 2013. Essa é uma novela que não deve terminar tão cedo. O governo cansou de ouvir as queixas dos fabricantes e decidiu dar uma sonora rasteira em todos eles: publicou a portaria no Diário Oficial, na última quinta-feira, e agora não há mais negociação. A decisão foi dos ministros do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, e de Ciência e Tecnologia, Marco Antonio Raupp – este, na verdade, acabou de assumir o cargo, no lugar que era de Aloizio Mercadante, e mal sabe o que está acontecendo; na verdade, Mercadante era um importante interlocutor da indústria eletrônica, que agora se vê ainda mais distanciada do governo federal.

A questão tem seu lado técnico, mas também fortes implicações políticas. Tecnicamente, o governo exige que todo o parque instalado de televisores seja, até a Copa do Mundo, compatível com interatividade. Parte dos ministros e seus assessores técnicos acha que isso irá gerar empregos, atendendo a uma antiga (desde 2007) reivindicação da indústria de software. Equipados com o Ginga, os TVs podem receber, por exemplo, aplicativos de interesse do governo, que pensa com isso modernizar os serviços públicos até 2014. Com um TV desses, o usuário poderia acessar em casa informações de setores como saúde, previdência etc.

Parece bonito, mas – como tudo que vem do governo – é bom desconfiar. Primeira ressalva: o preço dos TVs deve aumentar. Segunda: vários fabricantes já lançaram TVs com interatividade, e o consumidor simplesmente ignora esse recurso; a maioria, por sinal, nem tem interesse nele, como de resto acontece no mundo inteiro. Interatividade é coisa de computador, e o governo faria muito melhor se ampliasse seus serviços pela web. Um terceiro ponto de questionamento é que a portaria faz distinção entre TVs comuns e TVs conectados (os chamados Smart TVs). Para os primeiros, estipula que 75% dos itens produzidos no Brasil deverão ter o Ginga em 2013; para os conectados, o percentual é de 100%. Mais: os fabricantes devem “abrir” os códigos IP dos TVs para os desenvolvedores indicados pelo governo.

Aí é que o problema passa a ser, também, político. Embora a indústria não tenha chegado ainda a um consenso, é praticamente certo que os principais fabricantes não vão aceitar abrir seus códigos, pois é isso o que os diferencia da concorrência. Do ponto de vista mercadológico, essa exigência não faz o menor sentido. Seria como pedir a um técnico de futebol que antecipe sua estratégia antes do jogo começar. No mínimo, dá uma boa briga na Justiça.

O maior problema, a meu ver, é que o governo tomou essa decisão sem nem se dar ao trabalho de saber quais conteúdos interativos será possível ao consumidor acessar. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, disse ao site Convergência Digital que irá chamar as emissoras para conversar a respeito, o que é mero jogo de cena. Nenhuma das grandes redes tem interesse em oferecer interatividade em sua programação, pelo bom motivo de que ela atrapalha, e não ajuda, o telespectador. Todas as pesquisas já feitas mostram que o usuário, quando está assistindo a sua novela ou a seu jogo de futebol, não quer ser interrompido. É consenso no meio publicitário que ninguém irá investir nesse tipo de mídia; e, sem publicidade, nenhuma emissora irá manter esse conteúdo no ar.

Impressionante como, na área de tecnologia, este governo cria problemas onde eles não existem. Dá até a impressão de que esses ministros não têm coisas importantes com que se preocupar!!!

Dr., um app, por favor

Daqui a algum tempo, quando você for ao médico não irá mais receber uma receita listando os remédios para tomar. Se tudo correr como imaginam os ingleses, o “doctor” irá lhe receitar alguns aplicativos… Isso mesmo, apps para celular ou tablet, desses que você baixa na internet. Eles serão a cura para todos os males.

Segundo o ministro da Saúde inglês, Andrew Lansley, a tecnologia pode ser o melhor remédio (sem trocadilho) para milhares de pessoas que sofrem de doenças como diabetes, hipertensão, depressão etc. Depois de uma pesquisa pública pedindo sugestões, Lansley anunciou uma lista de 500 apps que serão indicados a pacientes do National Health System (equivalente deles ao nosso SUS, só que lá funciona). A ideia é que, através dos apps, os pacientes encontrem alternativas de tratamento sem ter que ficar gastando com remédios. Os médicos estão sendo orientados a prescrever soluções que reduzam a necessidade de visitas a hospitais e permitam que cada pessoa monitore seu próprio estado de saúde. “Cada um pode cuidar melhor de si”, diz Lansley. “Se usam apps para falar com amigos ou ler notícias, por que não usá-los para controlar a pressão ou encontrar socorro numa emergência?” – mais detalhes neste link.

Já comentamos aqui sobre o crescente mercado de eHealth, nome dado aos recursos tecnológicos aplicados à saúde. Este artigo, por sinal, traz dados valiosos a respeito. Com a população mundial vivendo mais, cresce a necessidade de monitoramento para pessoas idosas ou com doenças crônicas. Fabricantes como GE, Philips e Siemens estão de olho nisso, criando aplicativos que permitem, por exemplo, a um médico checar o estado de um paciente em seu próprio celular.

Espero nunca precisar, mas que é bom saber dessa possibilidade, isso é.

O TV com tela dupla

Na Europa, a Philips apresentou na segunda-feira seus TVs top de linha para este primeiro semestre. São modelos LED 3D entre 32 e 55 polegadas, que trazem como maior diferencial o recurso chamado dual-screen. A estratégia é conquistar a preferência dos gamers. Esses TVs (como o da foto) exibem duas imagens ao mesmo tempo, mas quando se coloca os óculos 3D vê-se apenas uma. Explicação: o sinal 3D é dividido no momento da projeção, ou seja, é mantido em sua forma original. Se nos TVs 3D convencionais os óculos servem para juntar as duas imagens, aqui elas são mantidas separadas, de modo que cada jogador enxerga uma imagem diferente.

Vimos esse artifício em demonstração na IFA, em agosto passado, só que no estande da LG (assistam aqui ao vídeo que gravamos lá). Não tem a menor graça para quem está do lado, sem óculos, que só consegue ver imagens embaralhadas na tela. Mas, para quem está jogando é fantástico.

Assim caminha a TV paga

Comentei ontem aqui sobre a parceria entre Samsung e Blockbuster, e vejam duas notícias de hoje: a Comcast, maior operadora de TV por assinatura dos EUA, está lançando um serviço de video streaming para aparelhos portáteis, incluindo smartphones Android e o videogame Xbox 360, da Microsoft; e a DirecTV, dona da Sky, prepara um serviço semelhante para os próximos meses. Todas tentam roubar um pedaço do mercado ocupado pela Netflix.

O que isso tudo significa? Que a TV por assinatura nunca mais será a mesma. As operadoras descobriram que não podem assistir passivamente ao crescimento da internet. Aqui, é bom separar bem o que é o mercado americano e o que é o brasileiro. Na semana passada, comentamos sobre o Sky Online, novo serviço da Sky brasileira que oferece filmes e séries de TV para venda ou locação pela internet (basta ser assinante). A Net já faz o mesmo, com seu serviço Now, só que em vez de usar uma conexão de banda larga o assinante utiliza a própria rede da operadora (o que sai mais barato). Telefônica e GVT seguirão essa tendência, restando apenas saber quando.

No Brasil, as operadoras têm – como dizia minha avó – a faca e o queijo na mão para dominar os dois segmentos: a TV paga convencional e a TV via internet. Nos EUA, a coisa é um pouco mais complicada. Com redes de banda larga mais confiáveis, os americanos estão descobrindo que não vale a pena pagar uma mensalidade de cabo ou satélite, quando é possível acessar os mesmos conteúdos pela web. Lá, o governo teve o bom senso de separar os dois serviços na legislação: quem opera com TV paga não pode ser provedor, e vice-versa, embora tenham ficado abertas as portas para possíveis parcerias.

Resultado: Comcast, Dish, DirecTV, Time Warner, Charter e Cablevision, as grandes do pay-TV nos EUA, estão perdendo assinantes continuamente (só a Comcast perdeu 460 mil deles em 2011), e nada faz supor que esse processo irá parar tão cedo. É o fenômeno chamado cutting-cord (literalmente, “cortar o fio”), bem explicado neste artigo. A maioria desses usuários está se tornando viciada em Netflix, Hulu, iTunes e outros serviços, estimulada pelas promoções das teles na banda larga 3G e agora também 4G. Como lá todas as grandes operadoras têm ações na bolsa, já começaram as apostas: qual delas será a primeira a tombar?

Los hermanos sem iPhone

“A melhor maneira de um argentino comprar um iPhone é pegar o primeiro voo para Miami”, diz o presidente da maior operadora do país, Franco Bertone. A política comercial do governo argentino está sendo motivo de chacota até em jornais sérios como The Wall Street Journal, que faz piada com a proibição de importar os aparelhos da Apple.

Diz o texto que é comum ver pessoas ricas e também figurões do governo de Cristina Kirchner portando alegremente seus iPhones, mas que isso não é permitido ao cidadão comum. É uma pena, segundo o jornal, porque os argentinos são fanáticos por celulares. Bem mais que os brasileiros. Enquanto aqui a média é de 104 aparelhos para cada 100 habitantes, lá é de 142! (Só para não perder a deixa: no Japão, essa média é de 95 aparelhos, enquanto nos EUA é de 90.) Pois bem, a Apple vendeu cerca de 3 mil iPhones no país vizinho, até que o governo decidiu proibir as importações – e com isso, é claro, criou um enorme mercado negro para o produto.

É a “política comercial” de Kirchner, que também proíbe a entrada de carros BMW, bonecas Barbie, queijo francês e até uísque escocês. Lembra o Brasil de 25 anos atrás, quando só quem viajava ao Exterior tinha o privilégio de comprar certos produtos (como os funcionários do governo, é claro). A desculpa é a mesma: prestigiar a indústria nacional. Pior é que muitos acreditam nessa lorota, tanto que dona Cristina é campeã de popularidade.

Para os brasileiros, o consolo é pensar que a Argentina de hoje é o Brasil de ontem. Ainda bem que não é o oposto.

 

Sua locadora, na TV

Numa indicação de como pode ficar o mercado de entretenimento nos próximos anos, a Samsung está firmando uma inédita parceria com a Blockbuster para veicular filmes e séries em seus TVs Smart. A notícia foi dada por um executivo da empresa online na Austrália. Os primeiros países a receber o serviço seriam EUA e Grã-Bretanha, ainda neste primeiro semestre. Não chega a ser propriamente novidade. Os principais modelos de TV atuais estão saindo, inclusive no Brasil, com serviços como Netflix, NetMovies e outros que oferecem exatamente isso. É o que se convencionou chamar, genericamente, de VoD (video-on-demand), conceito já praticado nos EUA há uns quinze anos.

O que há de novo é que o acordo inclui não apenas a distribuição via TV, mas também por outros dispositivos da Samsung, como notebooks, tablets e smartphones. Lembro que, durante a CES, em janeiro, a empresa coreana anunciou parceria com a operadora DirecTV (proprietária da brasileira Sky) para lançar TVs com o decoder de TV por assinatura já embutido. Informalmente, executivos da empresa admitiram na ocasião que a estratégia é mundial: estabelecer o máximo possível de parcerias para “cercar” o consumidor com todo tipo de conteúdo. E convencê-lo dos benefícios de possuir vários aparelhos da mesma marca.

Se vai dar certo ou não, é outra questão.

Olho gordo na mídia

Como se sabe, jornalista não gosta de ser criticado. São raríssimas as exceções. Tempos atrás, fui censurado por um jornalista da Veja, no Facebook, por chamar a imprensa de “mídia”. O conceito, tentou ensinar o nobre colega, aplica-se aos meios de comunicação, mas não às empresas que os mantêm. Pura discussão de botequim, que me fez simplesmente abandonar a conversa.
Desde cedo na profissão, aprendi também que jornalista costuma ter solução para todos os problemas do mundo. Talvez por ter acesso a informações privilegiadas, julga-se – mais do que os pobres mortais – dono da verdade numa série de especialidades. Muitos costumam exercitar esse pendor também nos botequins da vida. Quando se vêem contrariados, usam uma arma ferina contra o adversário: o puro tráfico de influência, para disseminar fofocas e/ou factoides.
Difícil encontrar um jornalista que queira discutir, a sério, questões muito mais relevantes, como a regulamentação da mídia (ou será da imprensa?), um dos assuntos do momento. Na semana passada, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, incitado por jornalistas, revelou que o governo estuda uma forma de enquadrar os sites de notícias estrangeiros na legislação que obriga toda empresa jornalística a ter, no mínimo, 70% de seu capital nas mãos de brasileiros. O motivo seria o anúncio de que o site americano The Huffington Post, propriedade da America Online (AOL), estaria em vias de lançar sua versão brasileira. Para completar, Bernardo informou que o governo também quer retomar a discussão sobre o marco regulatório da mídia (ou será imprensa?).
Os vários sites dedicados à comunicação no Brasil se dividem entre as saudações ao ministro – por, finalmente, dedicar-se a defender a cultura nacional (!!!) – e as críticas ao governo como um todo – por agir pressionado pela Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão), que estaria com medo da concorrência estrangeira. Ambas (saudações e críticas) me parecem frutos da mesma árvore: o corporativismo.
Qual seria o perigo de uma empresa estrangeira abrir um site no Brasil? Propagar aqui a terrível ideologia capitalista? Num momento em que quase todos os grupos nacionais de mídia estão operando no vermelho, e demitindo centenas de pessoas, não seria bem-vindo o investimento de uma multinacional forte? E por que o governo teria de se envolver no assunto?
Quanto ao marco regulatório da mídia, este é o novo eufemismo criado pelos defensores de maior controle público (leia-se: do governo) sobre os meios de comunicação. É algo que vem sendo tentado desde o primeiro dia do governo Lula, e intensificado a partir das denúncias sobre o Mensalão (na época, não faltou quem dissesse que aquilo fora invenção da imprensa). O ministro Paulo Bernardo chegou a dizer, quando assumiu, que o tema estava fora de cogitação. Pelo visto, as pressões em contrário estão sendo muito fortes.
É o sonho de (quase) todo mundo que assume o poder: mandar na imprensa (ou seria mídia?)

Com a boca no trombone

Como prometido, volto ao evento de ontem da Sky, para comentar algumas declarações do presidente da empresa, Luiz Eduardo Baptista. Figura polêmica do mercado (alguns o detestam), ‘Bap’ – como costuma ser chamado – é também um executivo respeitado e um dos que mais entendem, no Brasil, do negócio chamado televisão. Uma de suas marcas é a informalidade pessoal: diz sempre o que pensa, seja numa conversa ao pé do ouvido, seja numa entrevista coletiva – e é por isso, aliás, que não costuma atender jornalistas. É um perigo!

Anotei alguns trechos do que Bap falou ontem e os reproduzo aqui, sinteticamente, pois acho que merecem reflexão. Os leitores que nos acompanham hão de perceber que muitas de suas opiniões já foram externadas aqui neste blog. Pode-se não gostar do tom ou da contundência, mas são pontos de vista que merecem ser analisados atentamente. Acompanhem:

Sky vs. Netflix – Quase toda a mídia vem ressaltando a disputa entre as duas empresas. Mas são dois projetos muito diferentes, e Bap sabe que a Sky não tem como competir com a oferta de títulos da empresa americana. Seu trunfo é conhecer melhor o consumidor brasileiro, graças a pesquisas contínuas sobre seus hábitos. “Sei exatamente o que cada assinante nosso assiste, quando e quantas vezes”, diz ele. “Essa história de 10 mil títulos é muito bonita, mas na prática são pouquíssimos os filmes que as pessoas assistem. Dois ou três, no máximo, num fim de semana. E todo mundo assiste aos mesmos! Nosso desafio é oferecer sempre conteúdos relevantes, ainda que não sejam muitos. Em breve, teremos novidades da HBO, do Telecine e de outras programadoras que estamos negociando.”

Obs.: o Sky Online começa com cerca de 1.000 títulos, contra os propalados 10 mil da Netflix e mais de 20 mil da NetMovies.

TV paga x teles? – Por não ter como oferecer banda larga em alta escala, como as concorrentes Net/Embratel e Telefônica, a Sky se concentra no produto chamado “entretenimento”. Seja através de seus famosos pacotes, via pay-per-view ou video-on-demand, seu produto básico é a oferta de filmes, shows, séries, esporte e tudo mais que o usuário de TV por assinatura busca. “Não temos cacife para competir com as teles. Lançamos a banda larga como um projeto-piloto em Brasilia, e vamos estudar bem antes de expandir para outras regiões, até porque dependemos das licenças da Anatel.”

TV em todo lugar – Bap diz que a Sky ainda não oferece a chamada TV Everywhere, mas que isso está nos planos. “Dependemos de mudanças nos contratos que temos com as programadoras. E, ao contrário de outros, gostamos de respeitar os contratos… Mas a TV Everywhere é uma evolução natural do nosso negócio. Começamos agora levando nosso conteúdo para o computador, que representa 95% dos acessos de internet para ver filmes; depois iremos para o iPad, que é a segunda plataforma mais usada no Brasil; depois, smartphones e TVs conectados.”

Assinantes x não assinantes – Por que lançar um serviço que somente assinantes podem acessar, quando estes já dispõem de uma infinidade de canais a sua disposição? “Para nós, o assinantes sempre virá em primeiro lugar. Quando abrirmos o Sky Online para quem não é assinante, este irá pagar mais caro. Temos a obrigação de privilegiar quem compra uma assinatura e confia no nosso serviço. Sabemos bem o que o assinante pensa, fazemos a gestão de nossos conteúdos com base na experiência do assinante. Por isso, também, nossas plataformas estão integradas às redes sociais, pois conseguimos saber o que as pessoas estão falando do nosso produto.”

Quanto custa? – Assinatura de TV no Brasil é cara? “É só fazer as contas: quatro anos atrás, o preço do pacote básico era de R$ 140; hoje, vendemos por R$ 40. Temos que trabalhar com a realidade do país. A economia melhorou, as pessoas têm mais dinheiro para gastar e a TV por assinatura era um desejo de todos. Mas tem que ser um bom serviço, com bons conteúdos. Chegamos hoje a 13,5 milhões de pessoas. Onde estão os 8 milhões de assinantes que a Oi dizia que iria conseguir?”

Obs.: pelos dados mais recentes da Anatel, a Sky possui pouco mais de 3,8 milhões de assinantes, liderando o segmento de DTH (TV paga via satélite); a Via Embratel tem 2,3 milhões e a OiTV, 357 mil. Em 2011, a Sky aumentou sua carteira em quase 1,3 milhão de assinantes, enquanto a Via Embratel ganhou pouco mais de 1,1 milhão.

A polêmica Fox Sports – Depois do conflito público, ainda é possível um acordo entre Sky e o canal americano que está chegando ao país? “Estamos negociando, mas há regras que precisam ser respeitadas. Temos dois canais que eles nos venderam (FX e Speed) que ninguém assiste, essa é que é a verdade. Tinham nos prometido uma série de conteúdos nesses canais, e nada foi feito. Agora, vêm com a mesma conversa… Eles estão desesperados porque precisam exibir a Copa Libertadores. Quando você compra os direitos de um evento, você se compromete com o organizador, que espera ver o evento sendo exibido. Agora, querem nos cobrar 22 vezes mais caro pelo produto e acham que vamos nos curvar a eles? Não é assim que funciona. É como o cara que chega atrasado na festa, sem convite, e quer entrar dando carteirada no porteiro.”

Obs.: extraoficialmente, sabe-se que a Fox Sports está pedindo a Net e Sky o valor de R$ 1,50 mensais para cada assinante, quando normalmente as negociações de grandes eventos giram na casa de R$ 0,10. O cálculo é feito sobre a base de assinantes de cada operadora, ou seja, se são 3 milhões de domicílios recebendo aquele conteúdo o valor mensal pago à programadora seria em torno de R$ 300 mil.

Cotas, cotas, cotas – A Sky foi, até agora, a única empresa do setor que se rebelou publicamente contra a imposição de cotas para conteúdos nacionais na TV por assinatura. A polêmica provocou até um racha na ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura), que evitou combater a medida. Bap não engoliu até agora. “Foi como a quebra de um cristal. A entidade deveria defender os interesses do seus filiados, e não foi o que aconteceu. Decidimos ir à Justiça contra esse absurdo que são as cotas. Se alguém pensa que isso vai estimular a produção nacional, terá uma grande decepção. O principal resultado será o aumento do preço das assinaturas. Essa coisa de querer impor o conteúdo ao telespectador lembra o que se fazia na antiga União Soviética! Não faz o menor sentido. Vamos à Justiça defender o direito de cada um escolher o que quer ver.”

O diabo chama-se Ancine – Além da política de cotas, o setor de TV por assinatura agora tem de conviver com os novos poderes concedidos à Ancine. Pela nova lei, a Agência pode interferir até na distribuição dos conteúdos entre os canais. “O responsável por mais esse absurdo chama-se Manoel Rangel, que era produtor independente e descobriu uma forma de impor seus interesses no nosso mercado. Você acredita que eles vão querer se meter até nos contratos de compra de direitos? Temos que gritar contra isso. Fomento, para incentivar o cinema brasileiro, é uma coisa. Carimbo da Ancine é outra, bem diferente. Um filme como Tropa de Elite ou Central do Brasil nunca precisou disso. O que eles querem é empurrar produtos de baixa qualidade, na base do carimbo. E ainda ficam com essa história de consulta pública. Isso é pura fachada. Nenhuma consulta pública até hoje trouxe qualquer mudança.”

Obs.: Manoel Rangel é o presidente da Ancine, que está promovendo até o próximo dia 3 de março uma consulta pública sobre a nova legislação.

 

Até onde vai a maçã?

Um dia depois que o presidente da Apple, Tim Cook, deu sua primeira entrevista desde que assumiu o cargo, as ações da empresa na Nasdaq quebraram todos os recordes e atingiram a inacreditável marca de 500 dólares cada (mais exatamente: US$ 503,73).

Os dois fatos – a entrevista e a subida das ações – provavelmente nada têm a ver entre si, mas ambos são significativos; sobre a entrevista, comento amanhã. Quanto às ações, basta lembrar que em 2002, logo após lançar o iPod, a cotação da empresa era de $10 por ação. Nem sei fazer a conta de quanto foi essa valorização, mas com certeza é algo sem paralelo!!!

Mais incrível ainda é que a elevação não captou os números do balanço financeiro final da Apple em 2011. O último trimestre foi o melhor de todos os seus 35 anos de história, com recordes nas vendas de iPhones (37 milhões de unidades) e de iPads (15,4 milhões), segundo o jornal Los Angeles Times. Mais números: faturamento inédito de US$ 46,3 bilhões no período, e lucro 100% mais alto do que no trimestre anterior (US$ 13,1 bi).

Lembram-se dos comentários surgidos quando da morte de Steve Jobs: será que a Apple sobrevive sem seu líder? Pelo jeito, não só sobrevive como vai crescer ainda mais. Essa é hoje a grande aposta dos analistas.

Carnaval em HD 3D

Repetindo uma experiência iniciada no ano passado, a Net irá transmitir os desfiles de Carnaval do Rio de Janeiro em HD 3D, em parceria com a TV Globo. Agora mais familiarizadas com a tecnologia, as duas empresas montaram uma grande estrutura para gerar o sinal direto da Marquês de Sapucaí, ao vivo, de modo que assinantes da operadora em qualquer ponto do país possam assistir em seus TVs 3D. O sinal estará disponível nos canais HD da Net.

Como já se viu na Copa do Mundo (e veremos novamente este ano, nos Jogos Olímpicos de Londres), transmitir ao vivo em 3D é algo completamente diferente de uma transmissão convencional. Tanto o posicionamento e a movimentação das câmeras, quanto a seleção das imagens que vão ao ar, obedecem a uma dinâmica bem mais complexa. Nem sempre o ângulo que parece melhor numa captação 2D é o mais adequado em 3D, ainda mais num evento com variações constantes de luzes e movimentos como é o Carnaval. Na Globo, os técnicos vêm sendo treinados há cerca de dois anos para se adaptar à mudança. A emissora, inclusive, já começa a fazer experiências com captação de imagens em 4K, o que certamente será mais complexo ainda.

Segundo a Globo, neste Carnaval serão usadas 40 câmeras HD e 6 câmeras 3D (de modelos diferentes); estas terão prioridade na edição de imagens, mas o material captado em 2D será convertido para 3D – vai ser interessante para o telespectador tentar identificar os dois tipos de sinal durante a transmissão. José Dias, diretor de Novas Mídias da emissora, diz que a estrutura para geração das imagens em 3D é totalmente separada da convencional. “Este ano, o telespectador terá uma experiência inédita”, diz Dias. “A transmissão terá equipamentos utilizados na produção de cinema 3D em Hollywood, além de uma câmera super-slow-motion 3D, capaz de criar imagens de até 800 quadros por segundo”.

Marcio Carvalho, diretor da Net Serviços, acrescenta que a ideia é oferecer ao assinante uma experiência diferente daquela a que está acostumado. “Os consumidores estão demandando cada vez mais qualidade de imagem e novas experiências nas telas de TV”. Para a cobertura do Carnaval, a Net também fez parceria com a LG, que irá receber clipes dos desfiles para exibir no aplicativo 3D Zone de seus televisores, que utilizam óculos passivos. Quem tiver um TV Sony, Samsung ou Panasonic, com óculos ativos, não deve esquecer de carregar antes a bateria do óculos, se quiser ver mesmo os desfiles ao vivo.

Os planos da Sky

O novo serviço da Sky é bem parecido com o já oferecido por empresas como Netflix e NetMovies. Diferenças, se é que existem (vamos saber nas próximas semanas), estão na quantidade de títulos oferecidos. O Sky Online não terá muitos, segundo o próprio presidente da operadora, Luiz Eduardo Baptista. “Optamos pela qualidade, e não pela quantidade”, nos disse ele hoje de manhã, ao anunciar a estreia do serviço. Seu raciocínio a princípio parece lógico: embora seja grande a oferta de filmes no mercado (tanto em TV por assinatura quanto nos novos formatos, sob demanda), apenas alguns poucos títulos são de fato assistidos. “Nos fins de semana, todo mundo assiste a mesma coisa”, diz ‘Bap’, como é chamado no mercado.

Depois de pesquisar e analisar a fundo os hábitos de seus assinantes, calculados pela Anatel em cerca de 3,8 milhões ao final do ano passado (Bap prefere dizer que são 13,5 milhões de telespectadores, considerando a média por domicílio do IBGE), a Sky montou sua estratégia baseada não no televisor, como seria de se esperar, mas no computador. Seus assinantes podem agora comprar e alugar filmes e séries simplesmente conectando-se à internet e digitando seu CPF. “Com dois cliques, a pessoa já está assistindo ao filme”, garante Bap, explicando que sua maior preocupação foi com a facilidade de acesso, mais até do que com a quantidade de títulos oferecidos.

Quando alguém perguntou por que não oferecer a mesma comodidade na tela do TV, sua resposta foi pronta: o usuário, se quiser, pode ligar o computador ao TV (na verdade, com um TV do tipo Smart nem é preciso computador). A vantagem, diz ele, é que a internet – dependendo da conexão disponível – permite até assistir a um conteúdo numa tela e a outro em tela diferente, o que o próprio usuário define, de acordo com sua conveniência. “Não somos ainda uma TV Everywhere, mas estamos nesse caminho”, disse Bap, referindo-se ao conceito que está se disseminando em alguns países, de que o conteúdo original da televisão pode ser transportado para outras telas. “Logo teremos o Sky Online no iPad, depois nos outros tablets, e assim por diante. Estamos apenas dando o primeiro passo”.

Essa, segundo ele, é uma das principais diferenças em relação a concorrentes como o Now, da Net, que só pode ser assistido no próprio decoder da operadora. Resta saber se o público irá concordar.

De qualquer modo, a conversa com Bap rendeu ótimas frases e comentários maliciosos sobre concorrentes, programadoras, membros do governo… Amanhã, conto mais.