Archive | abril, 2012

Para onde caminha o varejo?

Há algumas semanas, comentamos aqui a situação da Best Buy, maior rede de lojas de eletrônicos do mundo, que corre até risco de falência. O assunto é polêmico, mas talvez valha a pena pensar com mais carinho nos motivos que estão levando o comércio tradicional a tantas dificuldades. Provavelmente, no Brasil ainda não haja grandes ameaças porque o mercado consumidor interno está em expansão, com a afluência de famílias que antes estavam fora dessa massa. Mas o fenômeno é mundial.

Esta semana, o site americano Home Media dissecou o problema atual da rede Walmart. Isso mesmo: o maior varejista do mundo. Antes, alguns números interessantes. A rede foi fundada em 1962, numa pequena cidade do estado de Arkansas, por Sam Walton, visionário a quem se credita a invenção do próprio conceito de supermercado. Segundo a Wikipedia, é a maior empresa do mundo em faturamento e a que emprega mais gente (2 milhões de funcionários), embora essa estatística possa estar defasada com o hipercrescimento chinês – lembremos que uma única fábrica da Foxconn emprega 240 mil pessoas.

Muito bem. De olho na queda de movimento em boa parte de suas 8.500 lojas, espalhadas por 15 países, a direção da Walmart decidiu rever seus conceitos. As lojas vão ficar menores, mais automatizadas, e o maior investimento será direcionado para a operação online. Um dos objetivos é roubar clientes da Netflix, através do serviço Vudu de venda e locação de filmes online. Na semana passada, o Vudu passou a oferecer um inédito serviço em que o cliente pode levar seus discos à loja e pedir para copiá-los em formato digital; as cópias ficam armazenadas no servidor da empresa e as pessoas podem acessá-las quando quiserem, pelo vudu.com. A pegadinha é que esses usuários passarão a ter mais contato com o mundo virtual, onde encontrarão uma enxurrada de promoções e descontos no velho estilo Sam Walton.

Vai funcionar? Quem pode dizer? O fato é que o comércio, de qualquer tipo, tem que se adaptar à realidade da internet e ainda não descobriu como. Se há um consolo para os lojistas, talvez seja este: eles não estão sozinhos. Na mesma situação estão diversos outros segmentos de mercado.

O futuro da TV (e do cinema)

Na semana passada, displays 4K foram o principal assunto da convenção da NAB (National Association of Broadcasters), que todo ano reúne em Las Vegas a fina flor do mercado de televisão, incluindo emissoras, produtoras, fabricantes de equipamentos e acessórios etc. Além de uma série de demonstrações, o tema foi discutido em vários seminários e workshops reunindo os maiores especialistas do mundo na área. O Brasil esteve muito bem representado: mais de 300 profissionais daqui foram a Las Vegas, num grupo organizado pela SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), com apoio do Consulado dos EUA em São Paulo. E quase todos concluíram que a tecnologia 4K será a próxima revolução na televisão.

Só relembrando, 4K é o nome genérico para equipamentos (câmeras, projetores e displays) que produzem imagens de vídeo com resolução de 3.840 x 2.160 pixels, equivalente a quatro vezes a do Blu-ray, que é o máximo dentro da tecnologia disponível hoje (vejam este vídeo). Deve ser, portanto, a próxima geração de aparelhos, embora não se saiba quando estará em uso comercial (mais detalhes aqui e aqui).

Num dos painéis durante a NAB, Fernando Bittencourt, diretor-geral de engenharia da TV Globo, exibiu um documentário sobre o último desfile de carnaval do Rio de Janeiro, que a emissora gravou em 4K. Foram usadas câmeras como esta da foto, modelo CineAlta F65, da Sony. O resultado foi tão bom que a Globo já encomendou algumas dessas câmeras para usar em gravação de novelas. Não, as imagens não serão transmitidas em 4K. Isso ainda não é possível. O material será usado apenas para complementar determinadas cenas com efeitos especiais, segundo Bittencourt. “Mas o 4K irá substituir definitivamente a película de cinema, pois em alguns aspectos produz imagem até melhor”, garante ele.

TV Digital governamental

Continua o impasse entre governo e indústria a respeito da interatividade. Já comentamos o assunto aqui algumas vezes, e a palavra “impasse” talvez nunca tenha sido tão apropriada. Só para refrescar a memória: o governo cismou (não há outra explicação) que todos os televisores devem ser equipados com o software do DTVi (antigo Ginga), para permitir aplicações interativas. E decidiu obrigar os fabricantes a isso. Na prática, não tem como fazê-lo, a não ser via pressões políticas. Politicamente, a indústria não se manifesta. Mas também não move uma palha para atender à exigência.

Duas semanas atrás, conversei com Frederico Nogueira, diretor da Rede Bandeirantes e portavoz do Fórum SBTVD, órgão que estabelece as normas para a TV Digital no país. Por representar as emissoras, Nogueira talvez não seja propriamente isento para opinar, mas afinal é ele quem fala pelo Fórum. Em tempo: este é formado por representantes de todos os setores envolvidos – emissoras, fabricantes, universidades, desenvolvedores de software etc. E Nogueira foi taxativo: “Tão cedo não teremos serviços interativos, porque a base instalada de televisores é muito pequena. Não posso mandar uma mensagem para 100 mil telespectadores, quando minha audiência é de 100 milhões”.

Nogueira ainda foi mais longe: as emissoras estão investindo pouco em interatividade, porque não existe um modelo de negócio adequado para esse tipo de serviço. “Interatividade não existe em país nenhum do mundo”, explicou. “Até agora, isso para as emissoras só representou despesa, nada de retorno. Aliás, a própria TV Digital não aumentou em um centavo o faturamento do setor”.

A tradução, para quem acompanha o mercado, é: tudo vai continuar como está. O governo, na verdade, está fazendo jogo de cena para acalmar o pessoal de software, que – este sim – investiu bastante em soluções de interatividade, na ilusão de que o ex-presidente Lula e o ex-ministro Helio Costa falavam sério quando lançaram a TV Digital, em 2007. Prometeram interatividade, multiprogramação e aparelhos baratos para todos, lembram-se?

Desde aquela época dizíamos que era apenas fumaça… Pois é.

Discos: canto de cisne?

Passando por uma loja paulistana neste fim de semana, fiquei curioso ao ver uma prateleira repleta de LPs. Isso mesmo: discos de vinil, daqueles que colecionávamos na juventude e que, para a minha geração beatlemaníaca, eram a mais perfeita tradução da música. Não pude deixar de reparar, com uma ponta de decepção, algumas diferenças. Primeiro, os discos agora vêm plastificados; não dá para abrir e ver se há algum encarte ou folheto dentro da capa. Segundo: como não são muitos títulos, ficam todos misturados. Um John Coltrane submerso por um Coldplay não é das visões mais edificantes para uma boa loja de discos, certo? Ou não seria, antigamente. Também não há toca-discos disponíveis para ouvirmos “aquela” faixa que, nos velhos tempos, nos faria assinar o cheque na hora. Pois é, nem se assinam mais cheques…

Ah! Sim, os preços. R$ 140 por um LP, ainda que seja um Coltrane, é demais!

Coincidência ou não, isso aconteceu no sábado, mesmo dia em que, nos EUA, comemorou-se o Record Store Day. Cerca de 900 lojas de disco participaram da campanha, a meu ver ingênua, destinada a chamar a atenção do público para a morte do segmento. Como sabemos, as grandes redes de lojas (Tower, Virgin, Discount) que vendiam de tudo em matéria de música não existem mais. Sobraram as tais 900, independentes, que sobrevivem como podem, segundo o site do jornal Seattle Times, que lhes prestou um belo tributo.

Nem estou falando de vinil; essas lojas vendem (bem, tentam vender) CDs mesmo, embora algumas reservem espaço para os velhos bolachões, que nos últimos anos vêm experimentando um revival. Mas a situação é crítica. Um dos entrevistados pelo jornal se queixa de que tablets e smartphones nem têm entrada para CD, assim como a próxima geração de notebooks! É preciso muita paixão para manter um negócio nessas condições.

Não por acaso, o jornal definiu o movimento como “canto de cisne” das lojas de disco. Bem, lá ainda existem 900 delas. E aqui? 100? 200? Seria canto de quê? Urubu, talvez?

Mais telefone, menos rede

Será que lá vamos nós, de novo, tentar virar o mundo de cabeça pra baixo? Diz o Estadão que o Ministério das Comunicações sugeriu ao da Fazenda a isenção de PIS e Cofins (9,25%) para a produção de smartphones. Em contrapartida, os fabricantes não poderiam cobrar mais do que R$ 900 pelo aparelho. Com isso, seria atingido o objetivo de “popularizar a banda larga”.

O argumento do ministro Paulo Bernardo, segundo o jornal, é que isso estimularia as empresas a produzir smartphones no país, coisa que hoje não acontece (a maioria é importada). Smartphone, no caso, é definido como um celular que permite acesso à internet via redes Wi-Fi e 3G, incluindo contas de email e redes sociais.

Como se recorda, a tentativa de popularização já foi feita no ano passado com os tablets, que entraram na Lei do Bem, criada para estimular o mercado nacional de informática. Aumentou a produção de tablets, mas aumentou mais ainda a importação, já que esse é um produto de alta tecnologia, que requer muita especialização e know-how. O consumidor, quando tem a opção, prefere comprar o importado, que é mais confiável. Com os smartphones deve acontecer a mesma coisa.

Mas o pior, a meu ver, é a inversão de valores. Quanto mais aparelhos desse tipo são vendidos, maior a demanda pela banda larga, que continua sendo uma das piores do mundo. Como de hábito, o governo “joga pra torcida” fingindo que quer popularizar, mas na prática só está criando mais um problema. Se houvesse uma política industrial e tecnológica digna desse nome, primeiro se trataria de melhorar a infraestrutura de redes para permitir que, de fato, quem tem um tablet ou smartphone consiga acessar a internet numa velocidade aceitável.

É isso, se houvesse…

Jogando conversa fora

Acabo de descobrir que minha caixa postal está cheia. Quase 40 mil mensagens ficaram salvas no servidor desde não sei quando, a maioria delas absolutamente inútil. Pensei que deletando no computador elas desapareciam automaticamente, mas não: ficam lá guardadas até que um dia não sobra espaço para mais nada e as mensagens que realmente lhe interessam começam a ser recusadas pelo tal “sistema”.

Não sei se alguém conhece um meio mais fácil de me livrar desse problema, mas o que me disseram é que preciso “limpar” a caixa postal manualmente. Deletar todas as mensagens uma a uma. Ou melhor, de 100 em 100, que é quanto o servidor admite em cada página. Fazendo as contas, descobri que preciso apagar “na mão” cerca de 400 páginas que, por mim, nem estariam mais lá.

OK, OK, sei que há uma questão de segurança aí. Servidores fazem back-up de suas mensagens para o caso de um dia você precisar delas. Posso estar ficando paranóico, mas desconfio que a utilidade desses enormes “guarda-volumes” é, digamos, menos nobre. Querem apenas saber o que fazemos, e como, e quando, e com quem. Se meu provedor tem, sei lá, 10 milhões de usuários (deve ser muito mais), imagino o que essa gente gasta para armazenar tanta coisa inútil assim, sem cobrar nada. Só pode ter coisa aí…

Não adianta culpar, pela enésima vez, a praga dos spams. Apago (melhor seria dizer “deleto”, mas detesto essa palavra) diariamente uns 100, pensando estar me livrando deles. Vejo agora que sou enganado pelo “sistema”. Agora, mesmo considerando o back-up pura espionagem, é razoável supor que exista um software capaz de facilitar essa limpeza, não? Por que não posso simplesmente dar um comando e apagar tudo de uma vez, em segundos? Estou com os dedos doendo e ainda me restam mais de 30 mil bobagens a serem apagadas!

Help! I need somebody…

Vale quanto pesa?

A leitora Stela Venancio sugere no blog que os fabricantes de TVs façam como os de automóveis: incluam nos aparelhos um código antifurto, ou algo do gênero. Um TV LED-LCD de 40 polegadas, por exemplo, pesa hoje na faixa dos 13kg (o da foto pesa 5kg…), o que é tranquilo para qualquer criança com mais de 12 anos carregar. Numa época em que virou moda fazer arrastão em casas e condomínios, roubar aparelhos como esse é quase uma tentação – bem diferente dos antigos TVs de tubo (tenho ainda um de 38″ que pesa nada menos do que 104kg e exige três ou quatro fortões para tirá-lo do lugar).

A sugestão pode parecer estranha, mas não é fora de propósito. É difícil encontrar uma seguradora que dê proteção a aparelhos eletrônicos, justamente pela facilidade de transporte. Com os TVs ficando cada vez mais leves e finos, o fabricante que lançasse algum tipo de proteção antifurto certamente ganharia pontos junto aos consumidores.

Fica aí a ideia. Quem se habilita?

Game, central multimídia ou ambos?

Todo mundo parece que ainda olha para os consoles de videogame como “brinquedo de adulto”. Mas essa brincadeira pode estar virando coisa séria. Os dois maiores fabricantes mundiais estão anunciando planos ambiciosos para transformar aquela caixinha de jogos em centrais multimídia, ou algo assim.

Nesta segunda-feira, a Sony anunciou em Tóquio o lançamento de seu primeiro aparelho da categoria DMR (Digital Media Recorder), previsto para chegar as lojas do Japão em julho, com 500GB de memória interna e preço final equivalente a 210 dólares. Pela apresentação, será um “hub” capaz de captar conteúdos de qualquer fonte e transmitir, via streaming, para aparelhos Sony: TVs Bravia, consoles PS3 e Vita, notebooks Vaio, tablets e smartphones Xperia. Segundo a empresa, o aparelho (foto) – cujo nome comercial provisório é Nasne – é uma evolução do acessório PlayTV, sintonizador de TV Digital já vendido para o PS3. A principal diferença seria a memória interna e a capacidade de trafegar os conteúdos entre aparelhos diferentes, via rede sem fio.

Já a Microsoft, que precisa desesperadamente lançar uma novidade em hardware, aposta as fichas no seu maior sucesso do gênero, o console Xbox 360. Segundo o The Wall Street Journal, a empresa chegou à conclusão de que os usuários da rede Xbox Live passam a maior parte do tempo ouvindo música e assistindo a vídeos do que… jogando! A vantagem, em comparação com a solução da Sony, é que o 360 já traz tudo que é necessário – basta “turbiná-lo” com aplicativos. Nos últimos cinco meses, a Microsoft já lançou mais de 20 deles, destinados a entretenimento que nada tem a ver com games (quem comprar o aparelho hoje, nos EUA, paga US$ 200 e ganha entre 20 e 25 apps). Assim, os milhões de usuários do Xbox já podem, teoricamente, se converter em grandes consumidores multimídia.

 

Oi quer ser a primeira em IPTV

Francisco Valim, um dos homens que mais entendem de TV por assinatura no Brasil (já dirigiu empresas como Net, Telemar e RBS), assumiu a presidência da Oi, em agosto do ano passado, com a missão de tirar a empresa de um quase atoleiro. Parece estar conseguindo. Nesta terça-feira, ele anunciou no Rio um plano de investimentos de R$ 24 bilhões até 2015, avalizado pelos acionistas, sendo os principais a Portugal Telecom, o BNDES e alguns fundos de pensão. Nesta quinta, na Bolsa de Nova York, a operadora apresenta o plano a investidores internacionais, na esperança de captar todo o dinheiro necessário.

Seu principal argumento, é claro, será a notável expansão do mercado brasileiro de TV por assinatura, que atualmente não tem paralelo no mundo. João Rezende, presidente da Anatel, diz que o número de assinantes deve dobrar nos próximos cinco anos. Já passamos da casa dos 13 milhões, e com a entrada mais forte das teles não há como o segmento deixar de crescer na casa de 20% a 30% ao ano. A Oi, que herdou a enorme rede cabeada da Brasil Telecom (mais de 115 mil quilômetros, segundo o site Convergência Digital), continua liderando o serviço de banda larga fixa, com 29,7% de market-share, apesar do crescimento continuado da Net (hoje com 25,8%) e principalmente da GVT (que passou de 7,9% em 2010 para 10,1% em 2011) – dados da consultoria Teleco.

Ou seja, se a Oi souber trabalhar essa rede e principalmente sua marca – que ainda é campeã em reclamações no Procon – pode morder uma boa fatia desse crescimento. Uma das estratégias escolhidas por Valim é explorar mais os serviços corporativos, sem medo do tal “tsunami de dados” identificado outro dia pela presidente Dilma Roussef. Outra é sair na frente da concorrência com o IPTV. Rio de Janeiro e Belo Horizonte devem ser as primeiras praças, no segundo semestre, com o serviço sendo oferecido de início ao público de renda mais alta (ainda não foram definidos preços). Mas o plano da Oi parece consistente: integrar a programação de TV a tablets e smartphones, instalando definitivamente a convergência no mercado brasileiro. O assinante teria acesso aos mesmos conteúdos em qualquer tela, dentro e fora de casa, algo que mesmo na Europa e nos EUA ainda é para poucos.

Segundo Pedro Ripper, ex-diretor da Anatel e hoje responsável pela área de Novos Negócios da Oi, será oferecida velocidade de 200 Megabits por segundo (a Net hoje chega a no máximo 100Mbps), e para isso a capacidade de sua rede de fibra óptica está sendo duplicada. No evento do Rio, Ripper e Valim insistiram em mostrar que a operadora está totalmente preparada para esse desafio: já fechou acordos com a Cisco (que fornecerá os conversores) e com a Microsoft (software). “Vamos oferecer TV Everywhere desde o primeiro momento”, disse Valim ao site Tela Viva, prometendo partir agora para as negociações com os fornecedores de conteúdo.

Por dentro da fábrica do iPad

O jornalista Rob Schmitz, da revista americana Marketplace, foi o segundo autorizado a entrar numa unidade da montadora chinesa Foxconn, onde é produzido o iPad. Cheia de segredos e coberta de denúncias sobre maus tratos aos trabalhadores, a Foxconn só havia dado acesso antes a um repórter do The New York Times. Deve ter se arrependido, pois a repercussão foi mundial. O jornal detalhou – como se pode conferir aqui – os casos de pessoas (a maioria na faixa entre 18 e 25 anos) que são forçadas a trabalharem doentes, a cumprirem horas extras que não são pagas, e que são humilhadas por seus chefes (os índices de suicídio só foram reduzidos depois que a diretoria mandou instalar grades nas janelas).

Bem, o caso de Schmitz (vejam aqui seu vídeo) foi um pouco diferente. Pelo visto, a Foxconn preparou bem essa segunda, digamos, reportagem. Primeiro, os trabalhadores foram orientados antes de conversarem com o jornalista, autor da foto acima, que mostra uma supervisora falando a seus subordinados antes do início do expediente; segundo, Schmitz foi acompanhado o tempo todo por um funcionário da empresa, que serviu também como “intérprete”; se traduziu corretamente as respostas, fica para os leitores deduzirem… Claramente, a intenção foi limpar a imagem da empresa após as denúncias dos últimos meses.

Seja como for, é interessante notar, por exemplo, que na fábrica (localizada no distrito de Longhua, em Shenzhen) trabalham 240 mil pessoas, população superior à da maioria das cidades do mundo; segundo Schmitz, 50 mil delas dormem em alojamento, na própria fábrica. E diariamente cerca de 500 se aglomeram em fila diante do portão, à espera de um emprego. Motivos: a Foxconn pelo menos paga os salários em dia, e o tratamento dispensado pelas outras fábricas locais a seus empregados é muito pior.

 

Bonito por natureza

Não à tôa, o locutor que vos fala – único sul-americano presente à Conferência Global de Imprensa da IFA 2012 – teve que responder várias vezes sobre o Brasil, motivo da curiosidade geral. Sim, a China chama mais atenção, mas no evento havia dez jornalistas chineses, que podiam se revezar nas conversas. No meu caso, tive de encarar sozinho gente do mundo inteiro – italianos, alemães, noruegueses, belgas, coreanos, búlgaros e até um colega nigeriano e outro que vive na ilha de Malta, embora seja americano. E todos vinham com o mesmo tipo de pergunta: o que está acontecendo com o Brasil?

Não foi fácil responder. Como explicar a um estrangeiro que, apesar de uma população de 200 milhões de habitantes, somente nos últimos quatro ou cinco anos o Brasil começou a ter consumo de gente grande? De olhos arregalados, alguns pareciam não acreditar quando eu dizia que chegamos a ter inflação de 80% ao mês (alguém lembra? Foi no governo Sarney, em 1988 e 1989). Mais ainda quando disse que, no Brasil, um assalariado não recebe seu salário integral, pois o governo confisca boa parte, e seu empregador ainda precisa recolher ao mesmo governo mais um valor calculado com base no salário.

“Seu governo é de direita ou de esquerda?”, me perguntou Angelika, repórter de uma revista austríaca. Apesar de interessada em política, ela disse nunca ter ouvido falar de Lula nem de FHC, muito menos Dilma. Ficou horrorizada quando lhe contei que, no Brasil, os partidos políticos não são de direita nem de esquerda, muito pelo contrário… Sorriu quando um colega dinamarquês lhe falou maravilhas sobre a caipirinha, mas não sei se entendeu quando tentei explicar como Lula chegou ao poder.

Num ponto, todos concordaram: morrem de vontade de conhecer o Brasil, que deve ser um país maravilhoso. Estranhei que ninguém falou de futebol (é, acho que nossos jogadores já não estão mais com a bola toda…). Mas fiquei com a sensação de que todos torcem, sinceramente, para que o velho “gigante adormecido” finalmente acorde e ajude o Primeiro Mundo a sair da enrascada em que se meteu. Pareciam saber que, nesse ponto, não dá para contar com a boa vontade dos chineses.

Melhor brindar à saúde do Brasil, de preferência com uma boa caipirinha.

1,1 trilhão de dólares digitais

A cifra foi apresentada – creio que pela primeira vez – neste sábado por Jurgen Boyny, diretor da GfK, hoje uma das mais respeitadas empresas de pesquisas de mercado internacionais: o mercado mundial de produtos digitais já ultrapassa 1,1 trilhão de dólares. Boyny falou durante a Conferência Global de Imprensa da IFA 2012, que acompanhamos em Dubrovnik, na Croácia (mais detalhes aqui). Boyny me garantiu que o número é confiável. E mais: que 20% do total apurado em 2011 (pouco mais de US$ 900 bilhões) veio da América Latina.

Parece exagero, mas outros números divulgados pela GfK também são surpreendentes. Exemplo: a participação latinoamericana no tal 1,1 trilhão cairá para 14% este ano, porque está crescendo a presença africana no consumo de aparelhos eletrônicos. Isso mesmo: países como África do Sul, Gana e Nigéria, que possuem populações enormes, estão conseguindo aumentar seu consumo e atrair principalmente os fabricantes asiáticos, que vendem a custo mais baixo. Pelas contas de Boyny, os cinco países que irão puxar o crescimento dessa indústria nos próximos anos são, pela ordem: China, Índia, Brasil, Rússia e África do Sul.

E o que a GfK considera “mundo digital”? Simplesmente, todo aparelho elétrico ou eletrônico que inclua algum tipo de processador de bits. Durante a Conferência da IFA, por exemplo, a empresa alemã Kärcher demonstrou um aspirador de pó robotizado (vejam o vídeo), que acaba de ser lançado na Europa, capaz de executar suas tarefas circulando pela sala sem contato humano e de ser monitorado via internet – o usuário(a) pode assim conferir à distância se a limpeza está sendo bem feita. É um tipo de produto que irá se tornar cada vez mais comum daqui por diante.

“O mundo digital inspira uma série de mudanças de comportamento”, explicou Boyny. “Fabricantes e revendedores precisam estar atentos a isso. A postura do consumidor está mudando, tanto nas lojas físicas quanto nas virtuais. Hoje, graças aos sistemas de geolocalização, já é possível a um lojista saber se o seu cliente está por perto e até convidá-lo, via SMS, a aproveitar uma promoção que esteja acontecendo naquele momento”.

No caso do tal aspirador, que tem o sugestivo nome de “robocleaner”, Boyny acha que as lojas poderão faturar muito se souberem usar essa ferramenta (o SMS) para levar as pessoas a vê-lo em funcionamento. É o que ele chama de “shopping everywhere”: graças aos celulares e tablets, você pode comprar literalmente “em qualquer lugar”, ou “de qualquer lugar”. Mas isso pode ser, ao mesmo tempo, uma grande facilidade e uma tremenda dor de cabeça para o consumidor, adverte ele: “É preciso cuidado com a sobrecarga de informação. Cabe ao fabricante e ao revendedor oferecer a orientação adequada, caso contrário aquele cliente se perde”.

 

Vivendo num país de rico

Não, o título não se refere à Suíça, onde casualmente estou neste momento, à espera de uma conexão de volta ao Brasil. Nem à Croácia, onde estive nos últimos três dias. Falo mesmo do nosso Brasil, a propósito desta notícia divulgada no site G1: Brasileiros estão indo casar no Exterior. Isso mesmo: está saindo mais barato – além de dar status, coisa que brasileiro adora… – juntar os trapos na Itália, por exemplo, do que em São Paulo ou Rio de Janeiro.

Custo de um casamento num castelo medieval da Toscana, com 100 convidados, incluindo comida, bebida, decoração, quarteto de cordas, DJ e até o padre: R$ 98 mil (claro, fora passagem e hospedagem). Custo da mesma cerimônia no Brasil: pelo menos R$ 150 mil, segundo especialistas ouvidos pelo site. Considerando que passagem e hospedagem por uma semana, no caso, saem por algo em torno de R$ 10 mil para o casal, a economia fica na casa dos R$ 40 mil.

Os absurdos desse país rico chamado Brasil vão se acumulando. Tempos atrás, o Globo Repórter mostrou a epopeia de uma família de Campinas (casal e dois filhos adolescentes) indo passar férias nos EUA. Além de conhecer Nova York, Miami e Orlando, os quatro trouxeram seis malas cheias de compras, com dezenas de encomendas para familiares e amigos. Na ponta do lápis, o custo da viagem saiu por cerca de um terço do que custaria no Brasil!!!

Tive hoje uma aula prática sobre o assunto, n0 free-shop do aeroporto de Dubrovnik, Croácia. Garrafa de vinho chileno Tarrapacá: 2 euros. A mesmíssima garrafa no free-shop de Cumbica sai por 15 dólares. E o Chile, ao que consta, está a duas ou três horas de vôo dali, enquanto os croatas têm que viajar um dia inteiro se quiserem ir até Santiago. Se o oposto valesse, uma garrafa de vinho francês em Dubrovnik (hora e meia de vôo até Paris) custaria bem mais do que os 16 euros que constatei no mesmo free-shop; o mesmo vinho francês que no Brasil não sai por menos de R$ 70.

A capital paulista, aliás, está virando caso de polícia. Vejam este vídeo gravado pela equipe da Folha de São Paulo: perderam-se completamente as referências do que é caro ou barato. Pior é que as pessoas continuam pagando…

Como é bom ser rico!

 

Tablets e TVs, um bom casamento

 

 

 

A propósito da discussão sobre nuvem, que comentamos outro dia, saiu esta semana uma outra pesquisa, esta da Nielsen, confirmando uma das tendências mais interessantes da atualidade. Trata-se daquilo que os pesquisadores chamam de “simbiose entre TV e tablet”, um fenômeno que tem tudo a ver com o acesso remoto a conteúdos armazenados em nuvem.

Basicamente, o estudo revela que 45% dos usuários de tablets nos EUA mantêm seus aparelhos ligados enquanto assistem televisão pelo menos uma vez por dia; 26% dos entrevistados disseram que fazem isso o tempo todo. O comportamento foi registrado também em pesquisa semelhante realizada na Inglaterra. Respostas praticamente iguais vieram dos usuários de smartphones.

E o que fazem essas criaturas enquanto estão assistindo a seus programas de TV favoritos? Acessam emails (parece que ninguém mais consegue passar um dia sem receber emails…). Alguns também estão se habituando a procurar na internet, pelo tablet ou celular, informações sobre o conteúdo que vêem na TV. E já existem aqueles que, ao verem um anúncio no intervalo do programa, correm os dedos pela telinha para procurar mais detalhes sobre o produto anunciado.

Vejam que, numa tacada só, estamos observando várias  mudanças de comportamento, que afetam não apenas a programação das emissoras, mas também o uso mais intensivo dos aparelhos e a resposta à publicidade. Tudo por causa daquele bendito casamento entre telona e telinha(s).

Nada de queimar dinheiro

A indústria eletrônica mundial precisa acabar com essa história de jogar dinheiro fora. Quem diz não sou eu, mas Rainer Hecker, diretor-geral da GFU, sigla alemã para a entidade que promove a IFA, principal feira de equipamentos de consumo da Europa. Hecker falou na manhã deste sábado para uma plateia de mais de 250 jornalistas internacionais, aqui em Dubrovnik, Croácia, onde estamos desde quinta-feira. A frase, na verdade, nem é dele; Hecker citou o novo presidente do grupo Panasonic, Katzuhiro Tsuga, que assumiu o cargo para tentar interromper o ciclo de prejuízos da empresa japonesa. “Estamos queimando dinheiro”, disse textualmente Tsuga, condenando a “guerra de preços” provocada pelos fabricantes coreanos, assunto que comentamos recentemente aqui.

Hecker fez a citação para reforçar o que, a seu ver, deve ser o papel da IFA no atual momento da indústria eletrônica: evitar a “destruição de valor”. Foi assim que ele se referiu às empresas que preferem cortar os preços em vez de investir em novação tecnológica (claro, não citou nenhuma delas). “Mais do que o preço, o consumidor precisa ser orientado sobre a importância do valor das coisas”, disse o executivo alemão. “Hoje, a maioria das pessoas tende a trocar seus aparelhos mais rapidamente, e isso se deve à inovação, não ao fator preço”.

A seu lado, outros representantes da IFA balançaram as cabeças, concordando. Reinhard Zinkann, presidente da ZVEI (associação dos fabricantes de eletroeletrônicos da Alemanha), acrescentou que, em tempo de crise, a solução não é baixar os preços, mas gerar mais valor para quem consome. E Christian Göke, diretor da Messe Berlin, que organiza a feira, citou diversos números para mostrar que a atual crise econômica européia não é tão feia quanto parece. “Apenas três países estão em crise: Portugal, Grécia e Irlanda. E esses representam apenas 5% do PIB europeu”, disse, sem mencionar Espanha, Itália etc.

Do ponto de vista de um evento como a IFA, de fato não parece haver crise alguma. Quase todos os expositores do ano passado – entre eles as marcas mais importantes da indústria – estão confirmados para o evento, que acontece entre 31 de agosto e 5 de setembro em Berlim. A reunião de tantos jornalistas aqui em Dubrovnik foi organizada justamente para mostrar que a IFA 2012 será, no mínimo, um sucesso tão grande quanto a edição de 2011, quando houve recordes históricos de expositores (1.400), executivos do setor (38 mil), área de exposição (140 mil metros quadrados) e jornalistas não europeus (2.100), além de 239 mil consumidores visitantes (a CES, por exemplo, não é aberta ao público).

“Como os senhores podem ver, não há crise”, insistiu Göke, apontando numa tela gigante o fato de que pelo menos 200 novos expositores irão se incorporar ao evento este ano. “Até mesmo os japoneses, que vêm sofrendo muito mais que os europeus, já garantiram presença”.

 

Um paulistano na Croácia

Uma garoa bem paulistana não para de cair desde ontem sobre esta linda cidade de Dubrovnik, no litoral do Mar Adriático, onde estamos para a Conferência Global de Imprensa da IFA 2012. Uma pena. A paisagem é digna de filme americano, semelhante a toda a costa mediterrânea, e somente no final da tarde de quinta-feira, quando chegamos, foi possível percebê-la melhor. Não há praias, apenas penhascos e casas penduradas nos morros, parecendo que ameaçam desabar a qualquer momento. Mas estão ali há séculos, e – ao contrário dos morros brasileiros – não se tem notícia de deslizamentos.

Para quem não conhece, recomendo. Fundada no século 7, Dubrovnik tem apenas 42 mil habitantes, mas uma história de fazer inveja a muita cidade mais famosa. Indicada como “patrimônio mundial” pela ONU em 1979, teve seu apogeu na Idade Média, quando era sede do reino de Ragusa, que chegou a rivalizar em importância com Veneza, Genova etc. Depois, em meio a seguidas guerras, foi conquistada pelos venezianos e mais tarde incorporada ao Reino Húngaro, chegando ao século 19 como parte do Império Austro-Húngaro. A região também foi ocupada, durante a Segunda Guerra, pelos fascistas italianos e pelos nazistas, derrotados pelo exército do Marechal Tito, comunista que por causa disso virou herói nacional e ditador da Iugoslávia, unificando à força seis países diferentes (Eslovênia, Sérvia, Bósnia, Macedônia, Montenegro e Croácia, esta na área amarela do mapa – Dubrovnik fica no extremo sul).

Mas, por incrível que pareça, o período mais sofrido para a população daqui tem menos de vinte anos. Após a dissolução da antiga Iugoslávia, em 1991, a Croácia tornou-se um país independente, mas foi duramente atacada pelos exércitos da Sérvia e de Montenegro (embora não tanto quanto a Bósnia). Dubrovnik teve vários de seus edifícios históricos queimados. Ainda há marcas em alguns deles, e para quem quiser tirar a prova foi montado um museu em homenagem a 110 moradores da cidade, assassinados pelo exército do terrível Slobodan Milosevic, mais tarde condenado como criminoso de guerra.

Felizmente, a maior parte das casas e prédios sobreviveu. Apesar da garoa, conseguimos caminhar pelo que eles chamam de “centro velho”, junto à muralha de 1.940 metros que circunda a cidade (foto ao lado). Impossível deixar de reparar: embora seja um país pobre, a Croácia consegue preservar a maior parte de seu patrimônio histórico. Nos últimos anos, o governo decidiu investir nisso para explorar seu potencial turístico – de barco, chega-se em meia hora ao litoral da Itália. E os edifícios, apesar de terem mais de mil anos, parecem mais sólidos do que muitos prédios de apartamento construídos atualmente no Brasil.

Com a cabeça na nuvem

Apesar de toda a badalação em torno da tal nuvem, ainda não me convenci de sua utilidade. Especialistas não se cansam de recomendar que embarquemos nessa onda (alguns, até, argumentando que não há escapatória). E, no entanto, quando se analisa a realidade, há mais registros de problemas do que de soluções.

Para quem chegou agora (ou tem andado “nas nuvens” ultimamente, em termos de informação): nuvem (do inglês “cloud”) é o nome genérico dos serviços de armazenamento de dados. Lá, você e sua empresa podem colocar todos os seus arquivos, que eles estarão sempre à disposição, via internet. A vantagem seria não ter que manter grandes estruturas para bancos de dados, economizando espaço físico e não precisando trocar de computador a toda hora. O mesmo vale para os programas: é possível acessá-los remotamente, apenas quando necessário, poupando a memória de computadores e servidores.

Seria lindo se não fosse a matemática: quanto mais pessoas e empresas usam a nuvem, mais ela fica congestionada; e, portanto, o acesso àqueles seus preciosos dados deixa de ser tão simples quanto prometia. Pode-se aumentar a capacidade de armazenamento, mas esta é finita.

Um estudo recente publicado na Coreia (hoje o país com a melhor rede de banda larga do planeta) mostra que a disseminação dos dispositivos portáteis, e agora dos Smart TVs, complica ainda mais as coisas. “A nuvem é um pré-requisito para o sucesso desses aparelhos”, diz o pesquisador Park Min-seong, do Instituto de Desenvolvimento da Sociedade da Informação (KISDI), sediado em Seul. “Os fabricantes precisam se entender com os provedores, caso contrário esses aparelhos não vão funcionar”.

No Brasil, como em todos os países onde a banda larga ainda é uma ficção, o conceito de nuvem torna-se inviável, pelo mesmo motivo matemático: quanto mais acessos, mais lentas as conexões. Mesmo em alguns smart TVs que testamos, às vezes os aplicativos travam devido à instabilidade das redes. Claro, a tendência é que estas sejam ampliadas. Mas esse parece ser o típico caso em que é preciso ver para crer. Somente quando tivermos banda larga estável e disponível para a maioria dos usuários é que será possível falar em nuvem.

Enquanto isso, melhor ficar aqui embaixo mesmo.

Nova aliança estratégica?

A reestruturação da Philips, que já comentamos aqui, vai mais longe do que simplesmente reunir forças com um parceiro poderoso (no caso, a chinesa TPV). Pelo que disse hoje um dos diretores do grupo, Maarten De Vries, está nascendo uma aliança estratégica cujo objetivo é confrontar a atual líder Samsung no segmento de TVs. Uma aliança com a maior rival desta, a também coreana LG.

De Vries, que fez toda a sua carreira na Philips, onde está há 25 anos, foi escolhido para comandar a joint-venture TP Vision, que iniciou oficialmente suas operações este mês. A estratégia é unir a força da marca Philips com a agilidade operacional da TPV, maior fabricante de displays da China. Hoje, quando se fala em displays, é bom pensar não apenas em TVs e monitores, mas em celulares, tablets, notebooks, filmadoras, e-books, enfim, todo tipo de aparelho que possui uma tela. A disputa, aí, acontece em duas frentes: conectividade e facilidade de uso. “Nossa prioridade está no design”, explicou De Vries. “Mas não apenas o design físico dos produtos. Me refiro a toda a interação do usuário com seus aparelhos. O design hoje precisa incluir uma interface que agrade ao consumidor. E também a possibilidade de integração com outros aparelhos da casa. Temos um ótimo know-how nisso, porque a Philips foi a primeira a lançar um TV com características que hoje todo mundo chama de smart”.

Tem razão. Vimos esse aparelho em demonstração na IFA, em 2007. Só que, na época, nem mesmo a própria Philips apostava que o recurso de acesso à internet se transformaria em algo muito mais amplo, integrando o TV a tantos dispositivos. Como foi diminuindo sua participação no segmento, a empresa holandesa acabou não investindo no aperfeiçoamento daquele recurso. A ideia agora é recuperar o tempo perdido, e rapidamente. “Já posso dizer que a TP Vision trabalha em conjunto com a LG para desenvolver novos recursos de interação, que vão criar um tipo diferente de TV. Agora, com mais investimentos e a força industrial da TPV, podemos nos dedicar a isso”, garantiu o executivo.

A parceria tem até um nome: Smart TV Alliance. O nome não pode ainda ser registrado porque pertence a uma entidade americana (Smart Television Alliance), que defende uma programação de qualidade na TV. Mas deverá ser oficializado na IFA, em setembro, quando é possível até que os novos televisores sejam exibidos. Aguardemos.

Troque seu TV a cada quatro anos

Não sei quantos dos leitores se enquadram nesse perfil, mas as pesquisas mundiais da Samsung indicam que a maior parte dos usuários costuma comprar um televisor novo a cada quatro anos. Não é necessariamente uma troca. Às vezes, o TV velho vai para outro cômodo, ou até outra casa (de praia, sítio, de um parente). E há aqueles que compram mais um TV, para o quarto do filho, por exemplo. Somando tudo, é com esse prazo de troca que trabalha a indústria em geral, me disse Michael Zoeller, diretor da Samsung para o mercado europeu, hoje de manhã, aqui em Dubrovnik, durante a Conferência Global de Imprensa da IFA 2012.

De olho nessa estatística, o que fizeram os estrategistas da marca coreana, hoje a mais vendida no mundo? Se você pensou em atualizações pela internet, acertou. A partir de agora, os TVs da Samsung (pelo menos os top de linha) poderão ser atualizados via software, que o usuário irá baixar na plataforma Smart Hub; em alguns casos, o download será automático e você em casa nem irá perceber. “Não há mais como pensar em TV sem ser smart”, diz Zoeller, que revelou um dado impressionante: dos 250 milhões de TVs (plasmas e LCDs) vendidos anualmente no mundo inteiro, 60% já são desse tipo; 30% são 3D; e apenas 10% não são uma coisa nem outra. “A tendência, porém, é que todos passem a ser smart muito em breve”, prevê o executivo alemão, que dirige a terceira maior operação da Samsung hoje. “O próximo passo será tornar inteligentes todos os aparelhos da nossa linha, inclusive os eletrodomésticos, que logo poderão conversar com TVs, celulares etc. Esse é um caminho sem volta”.

E por que os tais quatro anos? Bem, a estratégia da Samsung é que um TV adquirido hoje possa ser atualizado, somente com software, várias vezes durante esse período. Depois de quatro anos, as inovações de design e funcionamento interno serão tantas que o consumidor naturalmente irá querer trocar seu aparelho. “Mas estamos montando toda a nossa estrutura para atualizações constantes, e não apenas nos aplicativos de parceiros”, explicou Zoeller, enquanto mostrava, na tela, um colega seu, em Londres, gravando e transmitindo na hora, ao vivo, um pequeno vídeo. “Viu só? Essa é a mais nova atualização do Skype. Ele gravou o vídeo com seu tablet e nós vimos aqui alguns segundos depois. É puro software”.