A História, revisitada

18 de maio de 2012

Em alguns dias de reclusão forçada pelos médicos, pude terminar a leitura de um dos livros mais interessantes que vi nos últimos anos: “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, do jovem (31 anos) jornalista paranaense Leandro Narloch. Percorrendo caminho inverso ao da maioria dos seus colegas de hoje, ele decidiu recontar essa história (ou parte dela) não com base em suposições, achismos, modismos e dogmas ensinados na escola e/ou propagados pela mídia. Fuçou uma centena de livros, artigos e sites, consultou documentos, comparou estatísticas e elegeu alguns temas sobre os quais habitualmente há mais desinformação e preconceito.

Com essa capa inspirada na do disco “Sgt. Pepper’s”, dos Beatles, não sei se o livro teve boa vendagem (foi publicado em 2009), mas com certeza colocou uma pulguinha atrás da orelha de muita gente, especialmente os pseudointelectuais que se valem a ignorância alheia para transformar mentiras e meias-verdades em fatos incontestáveis. Sabiam, por exemplo, que Zumbi – tido nos livros de História como herói da raça negra e símbolo da luta brasileira contra a escravidão – também foi dono de escravos (negros)? Narloch cita vários documentos a respeito, sendo que dois deles estão nestes links:

Zumbi: Historiografia e Imagens, livro de Andressa Merces Barbosa dos Reis, disponível no site www.dominiopublico.gov.br

Vitimização do Negro nos Livros Estimula Preconceito, diz Historiador – entrevista publicada em 2007 no site em português da BBC

Outro tapa na cara dos professores de História do Brasil: os maiores responsáveis pelo genocídio de índios foram… os próprios índios. Narloch se apoia em historiadores de respeito e documentos históricos, publicados em vários países, para mostrar como todos nós fomos enganados na escola. Assim como no caso dos negros, ONGs e entidades que vivem de verbas públicas tentam perpetuar a tese de que os nativos foram vítimas dos conquistadores estrangeiros, quando na verdade a dizimação aconteceu, em sua maior parte, devido às guerras entre tribos. Mais detalhes aqui.

Não acreditei também quando li que, ao contrário do narrado por Fernando Morais no best-seller “Olga”, biografia do líder comunista Luiz Carlos Prestes, este não foi apenas uma vítima das ditaduras que assolaram o Brasil no século 20. Foi também um impiedoso assassino, capaz de trair companheiros e unir-se aos poderosos quando lhe convinha. Outro mito que cai despedaçado no livro é o escultor mineiro Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Da somatória de suas fontes, Narloch conclui que o grande artista celebrado por críticos de arte e marchands simplesmente nunca existiu; foi uma invenção (aliás, genial) do escritor Rodrigo Ferreira Bretas, baseada em lendas de que existira no interior de Minas Gerais um artista com vários defeitos físicos e que, mesmo assim, fora capaz de criar maravilhas.

Bem, paro por aqui. A quem ficou curioso, sugiro a leitura desse e de outros livros que procuram revisitar a história de nosso país com olhos mais atentos e menos preconceituosos.

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