Imprensa contra imprensa

23 de maio de 2012

Já comentei aqui que o governo Lula transformou o país numa espécie de “luta de classes permanente”. Um fenômeno único na História brasileira, que o jornalista Alberto Dines definiu como “Fla x Flu político”. Aproveitando-se da crescente ignorância geral, os grupos políticos e econômicos em posições de liderança alimentam a tese de que é obrigatório estar de um lado ou de outro – nunca no centro, jamais na dúvida. Nessa boçal competição, quem defende o PT e suas políticas deve, necessariamente, condenar todas as ideias da oposição (leia-se: PSDB); e vice-versa. A preguiça mental e a desculpa da falta de tempo impedem avaliar as nuances de um lado e de outro, como se um governo, ou um partido, fosse um monolito inexpugnável.

Felizmente, vivemos (ainda) num regime democrático, ou quase isso. Ideias e opiniões podem ser verbalizadas e publicadas à vontade. E a imprensa continua sendo o grande, talvez único, espaço para isso. Hoje, porém, quando se usa a palavra “imprensa” é preciso estender o leque ao máximo, para incluir não apenas veículos impressos, mas rádios, TVs, sites, blogs etc. Nunca houve tantos meios à disposição de quem quer comentar os temas de seu interesse. Ainda que o nível desses comentários seja pobre (e isso é natural, num país sem base educacional nem tradição cultural), é sempre bom lembrar as palavras de Thomas Jefferson, um dos “pais” da democracia moderna: “Melhor ter uma imprensa ruim do que nenhuma imprensa”.

Fiz esse longo prólogo para sugerir aqui o link de um blog comandado pelo jornalista Fabio Panunzio. Não o conheço e, portanto, nada posso falar sobre seu caráter pessoal. Atualmente na Rede Bandeirantes, me parece um bom profissional. O que me chamou a atenção em seu blog, por indicação de meu amigo Moacir Japiassu, um dos maiores jornalistas brasileiros, foi a proposta de desmistificar a enorme quantidade de historias mal contadas (quando não mentiras mesmo) que circulam pela mídia em geral. Para isso, não basta escrever o que vem à cabeça, nem simplesmente emitir opiniões, ainda que fundamentadas. Panunzio recusa esse caminho fácil: pesquisa a fundo e publica aquilo que outros tentam esconder.

Tempos atrás, por exemplo, Mino Carta, outro grande jornalista, afirmou em entrevista à TV Cultura/SP que não houve censura à imprensa durante a ditadura militar. A única publicação censurada, segundo Mino, foi a revista Veja, fundada e dirigida por ele entre 1968 e 1976. Não estou mentindo. Pela narrativa de Mino, tudo o que você já ouviu falar sobre censura ao Estadão, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e vários jornais da época não passa de invencionice (não acredita? Assista a este vídeo). Pois Panunzio, em seu blog, reproduz em fac-símile vários textos de Veja naquele período elogiando a ditadura militar e chegando ao extremo de sugerir a pena de morte para os militantes de esquerda (então chamados “terroristas”).

Sim, é de arrepiar. Mas, infelizmente, é dessa podridão que se alimenta, também, a democracia. Para o leitor que não conhece tão bem a história do país, a única saída é tomar muito, muito cuidado com tudo que lê e ouve. Há um Fla x Flu sendo disputado, mas ninguém é obrigado a torcer. Muito menos distorcer.

 

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