Archive | maio, 2012

Síndrome da politicagem

O excelente jornalista Jamil Chade, correspondente do Estadão em Genebra, relata como está o clima na Organização Mundial do Comércio em relação ao Brasil: péssimo! Como se já não houvesse pendências em número suficiente para discutir com outros países, o governo brasileiro agora quer implantar redes de comunicação 4G vetando o uso de equipamentos importados. Simplesmente está exigindo que as operadoras, para se qualificarem no leilão marcado para junho, se comprometam a usar pelo menos 60% de itens fabricados aqui. Na OMC, a decisão está sendo encarada como afronta às atuais regras internacionais de comércio – nem o Japão, que produz esses itens em escala planetária, fixou tal restrição.

Pode parecer bobagem, mas é nisso que dá a obsessão pela chamada “soberania nacional”, que já comentamos aqui. Com razão, representantes europeus e americanos na OMC perguntam se o Brasil deseja uma rede 4G que funcione ou uma que agrade à indústria nacional. As operadoras, se lhes fosse perguntado, certamente responderiam que preferem a primeira hipótese; o consumidor, então, nem se fala. E, no entanto, o governo insiste nessa conversa protecionista mais do que surrada.

Aguarda-se para hoje ou amanhã um pronunciamento oficial do Planalto sobre as acusações da OMC. Mas, pelo que já se sabe (leiam aqui), é bom não esperar nada de novo: dizem que é preciso frear as importações porque o mercado interno está aquecido. Ora, ora… não era exatamente essa a ideia – estimular o consumo interno?

Bem, não sou diplomata, nem economista, mas tenho a impressão de que, pela enésima vez, a implantação do 4G no Brasil será retardada. Será, lamentavelmente, mais um episódio em que a política (melhor talvez fosse dizer “politicagem”) trava o desenvolvimento tecnológico do país.

Conexões em revista

Para festejar seus 16 anos de existência, a revista HOME THEATER & CASA DIGITAL está saindo em maio com um encarte especial intitulado “Mundo Multimídia”. A edição contém uma nova abordagem de nossa equipe para o fenômeno que se convencionou chamar de “convergência digital”, hoje materializada na conectividade entre os diversos tipos de aparelho que usamos em nosso dia-a-dia. Certamente o leitor já leu centenas de notícias e artigos sobre o assunto, até porque essa característica dos eletrônicos atuais é realçada diariamente pelos fabricantes. A própria HT&CD destaca, em seus testes e reportagens, os produtos que têm a capacidade de se comunicar entre si e, com isso, adquirem novas utilidades para o usuário.

Nosso desafio foi mostrar tudo isso numa linguagem mais, digamos, didática e utilitária. Não foi fácil. Mesmo entre os fabricantes e profissionais do mercado, há muitas dúvidas sobre a eficiência da tal conectividade – dúvidas que se acentuam na hora de explicá-la ao usuário. Continua sendo um paradigma da indústria eletrônica brigar consigo mesma, em vez de apostar nas padronizações que simplificariam a vida de todos. E nem sempre se fornece ao consumidor a informação detalhada sobre aquilo que está comprando e os benefícios que pode extrair.

Bem, convido todos a conferir a edição de 16 anos e o encarte que a acompanha (circulam na próxima semana), mesmo que seja para criticar. É nossa edição 192, ou seja, daqui a pouco estaremos publicando a de número 200, e queremos brindar os leitores com outros assuntos tão fascinantes quanto esse. Sugestões? Escrevam.

Preparando o mundo 8K

Comentamos aqui várias vezes sobre os equipamentos de resolução 4K, e olhem só a notícia que chega do Japão: a Panasonic e a rede de TV NHK demonstraram na semana passada um display 8K, ou seja, com o dobro de pixels (exatamente 7.680 x 4.320). Trata-se de um plasma de 145 polegadas!!!

Não é propriamente uma novidade. Quando visitei a NHK, em 2008, assisti a uma demonstração desse tipo de tela, chamada “Super Hi-Vision” (mais detalhes aqui). Era um protótipo, e na época ninguém soube dizer quando poderia entrar em operação. Embora fosse um display 8K, as imagens exibidas eram 4K, pelo bom motivo de que não havia ainda câmeras para captar imagens com tamanha resolução.

Hoje, informa a própria NHK, já se pode falar em termos práticos sobre isso. Os engenheiros da emissora, que trabalham em parceria com diversos fabricantes, conseguiram desenvolver sensores capazes de registrar aquela quantidade de pontos de imagem (fazendo as contas, são 33.177.600 pixels). E parecem ter resolvido o principal problema na reprodução de sinais tão intensos: o flicker (cintilação) que resulta da projeção simultânea de tal quantidade de elementos – lembrando que cada pixel é composto de três subpixels, para as cores primárias (verde, azul e vermelho). A solução, como tinha de ser, veio na forma de processadores de altíssima capacidade, tecnicamente chamados drivers, trabalhando com algoritmos hipercomplexos, de tal modo que o registro, focalização, iluminação e transmissão de cada pixel seja estável (este vídeo, feito no ano passado, dá uma ideia).

A NHK informou ainda que estuda com a BBC uma forma de captar imagens da Olimpíada de Londres, em julho, com pelo menos uma câmera 8K e promover sessões públicas para exibir o material, quem sabe até ao vivo. Isso já foi feito anos atrás, mas o grau de dificuldade assusta até os mais experientes técnicos de televisão. Como se sabe, a Panasonic é patrocinadora oficial dos Jogos e já tem planejada a cobertura em 3D Full-HD; fazê-lo também em 8K, mesmo com toda a estrutura da BBC e da NHK, é um desafio e tanto. Tomara que consigam.

Quem consegue manter segredo?

Nesta era da comunicação em tempo real, uma das propriedades mais difíceis de proteger é o segredo industrial. Nos EUA e em alguns países da Europa, advogados têm se tornado milionários graças às ações movidas por empresas de tecnologia, umas contra as outras, num círculo vicioso que tende ao infinito. E o motivo quase sempre é o vazamento de segredos, que descamba para a quebra de patentes. No Brasil, essa conversa parece estranha, porque quase não há fiscalização sobre direitos de propriedade. Mas lá fora a coisa é séria.

Só que guardar segredo é algo cada vez mais problemático no mundo digital. Antes, era necessária uma montanha de papéis para registrar a descrição de um produto ou processo fabril; hoje, bastam alguns códigos. E, se pouca gente se preocupa com seus próprios dados pessoais, espalhados diariamente pelas redes sociais, que dizer de informações confidenciais pertencentes a empresas?

Paranoica com suas inovações (talvez por herança da personalidade errática de seu fundador), a Apple vê-se agora diante de uma tarefa inglória: tentar proteger os segredos por trás dos produtos que planeja lançar no futuro. Na semana passada, o site da BBC divulgou que a empresa mandou construir uma espécie de “restaurante secreto” – um prédio de dois andares onde os funcionários serão obrigados a fazer suas refeições e onde pessoas de fora não poderão entrar! “Queremos oferecer mais segurança a nossos funcionários, para que possam conversar e trocar idéias sobre seus projetos sem o risco de algum concorrente estar ouvindo”, explica Dan Whisenhunt, diretor de edificações da Apple.

O novo edifício não terá apenas um restaurante, mas também salas de reuniões, garagem e um quintal gramado, bem ao estilo do Vale do Silício. O que me espanta, no caso, é a ingenuidade. A Apple é a empresa mais admirada do planeta, e ao mesmo tempo a mais visada quando se trata de rumores e boatos. Aliás, faz questão de manter essa aura, que segundo dizia Steve Jobs ajuda a manter o interesse das pessoas pelos seus produtos. Agora, achar que os segredos deixarão de ser vazados simplesmente porque os funcionários almoçam num prédio de segurança máxima? Parece que os discípulos de Jobs vivem na era pré-digital…

Quanto gastamos com educação

Dizem que as estatísticas, quando bem torturadas, confessam qualquer coisa! Exceto pelo mau gosto dessa analogia, certos dados divulgados pelos institutos de pesquisa parecem zombar de todos nós. É o caso de um levantamento publicado na semana passada pela empresa Pyxis Consumo, pertencente ao Ibope, sobre os gastos com educação no Brasil. Pelos números, tem-se a impressão de que o Brasil vem aumentando seus investimentos no setor: serão R$ 49,55 bilhões em 2012, contra R$ 43,61 bilhões em 2011. Fazendo o cálculo per capita, os pesquisadores chegaram à conclusão de que cada brasileiro está gastando R$ 303,92 para educar seus filhos (foram R$ 267,68 no ano passado).

Como se pode interpretar esses dados? A meu ver, é puro faz-de-conta. Primeiro, porque talvez nada seja mais enganoso do que estimar o investimento em educação com base o gasto médio das famílias. A desigualdade é tão vergonhosa que a média, no caso, serve absolutamente para nada. Segundo, o fato de estarmos aumentando nossos gastos tem menos a ver com a qualidade do ensino, e mais com a inflação no setor – nenhuma escola particular segue os índices de inflação, e as estatísticas não computam gastos relacionados, como transporte, alimentação, vestuário etc.

Por fim, o mais trágico nesse tipo de pesquisa: parece que educação é mais um item de consumo, como o tomate ou o sabonete.

O primeiro Blu-ray 4K

Há quem diga que é cedo demais, mas o fato é que na próxima semana começa a chegar às lojas on-line da Sony o primeiro Blu-ray player com capacidade de reproduzir imagens com resolução 4K. O modelo BDP-S790 (foto), que será vendido a partir de 250 dólares (preço-base para o mercado americano), terá capacidade de converter qualquer sinal de vídeo para 4K. O problema é que essa função não terá a menor utilidade imediata, pois ninguém ainda possui um TV ou monitor 4K – há apenas os projetores desse tipo, cujo preço final gira em torno dos US$ 25 mil (também nos EUA).

O objetivo da Sony, claro, é demarcar território. Já foi a primeira a lançar projetores 4K (vejam o teste aqui) e também acaba de colocar no mercado profissional as primeiras câmeras de televisão capazes de captar esse tipo de imagem. Credencia-se, portanto, a liderar um segmento que deve crescer nos próximos anos, assim que os consumidores assimilarem a revolução do Blu-ray. Este, como se sabe, gera imagens Full-HD (1.920 x 1.080 piles), enquanto o player 4K produz o dobro de resolução (3.840 x 2.160). Mais ainda: é compatível também com imagens 3D.

O novo player será o top de linha da Sony, com recursos como Wi-Fi embutido, circuito redutor de ruído para sinais da internet, acesso à rede Sony Entertainment Network e todas as demais comodidades da geração smart TV. Para processar tamanho detalhamento de sinais, o aparelho vem com processador de núcleo duplo.

Das promessas à realidade

Até a Copa de 2014, todas as cidades com mais de 50 mil habitantes estarão recebendo sinal de TV Digital. É a previsão do Fórum SBTVD, que regula as normas de transmissão e recepção no país. O problema: o Brasil tem 5.565 municípios e, destes, menos de 1.000 possuem 50 mil habitantes ou mais. Ou seja, cerca de 80% deles ficarão sem ver a Copa em TV Digital. Quanto representa isso em termos de população? Tomando por base o último censo do IBGE, aproximadamente 40 milhões.

Essa é a dura realidade, bem diferente das promessas feitas pelo ex-presidente Lula em 2007, quando inaugurou o Sistema Brasileiro de Televisão Digital. O chamado switch-off – quando todas as emissoras terão obrigatoriamente que desligar seus transmissores analógicos e passar a transmitir somente sinal digital – está marcado para 2016, mas a esta altura ninguém de bom senso acredita que esse cronograma possa ser cumprido. “Só se o governo decidir investir pesado”, diz Frederico Nogueira, ex-presidente e atual porta-voz do Fórum.

Nogueira, como todo mundo no Fórum, defende que o cronograma está indo bem, comparado com os de outros países. O fato de a maioria da população poder assistir à Copa com sinal digital, diz ele, é prova de que o SBTVD é um sucesso. “Em todos os países foi assim: cidades muito pequenas precisam de apoio financeiro do governo, porque não têm retorno comercial”, me disse ele. “Aliás, para as emissoras até agora a TV Digital só trouxe despesa, nada de retorno, a não ser pelo fato de que o telespectador recebe um sinal de melhor qualidade”.

A solução, ainda de acordo com o Fórum, é as prefeituras das pequenas cidades se mobilizarem. Nogueira explica que, em muitas localidades, o próprio prefeito manda instalar uma torre de recepção e cada residência coloca sua antena, de modo a captar o sinal que chega a uma cidade maior nas redondezas. “Talvez a Copa sirva de motivação para esses prefeitos acelerarem a infra-estrutura necessária”, diz ele.

Mais complicado, porém, será convencer as famílias mais pobres a trocarem seus TVs de tubo pelos novos, com receptor digital integrado. Lembro que, nos EUA, isso foi um tremendo problema em 2009, quando o recém-empossado Barack Obama teve que criar um plano de emergência para o switch-off. Muitas famílias se diziam satisfeitas com sua TV analógica, e o governo teve que subsidiar a troca. Será que veremos o mesmo no Brasil? Ou, refazendo a pergunta, você – como contribuinte – está disposto a bancar mais essa conta?

O pirata do bem

Hyman Strachman (foto) é um americano de 92 anos, veterano da Segunda Guerra Mundial, que para amigos e familiares virou uma espécie de herói. Apesar da idade, e principalmente após ter ficado viúvo, em 2003, ele decidiu dar algum sentido a sua vida, que achava muito monótona. Descobriu então uma atividade inédita, que é hoje o que mais lhe dá prazer: copiador de DVDs.

Aquilo que muitos fazem para ganhar dinheiro, na base do trambique, Strachman faz por pura diversão, sem ganhar nada. Nos últimos oito anos, ele montou em casa um equipamento para copiar filmes e enviá-los a soldados que estão no campo de batalha, em locais como Iraque e Afeganistão. Pelos seus cálculos, já enviou mais de 300 mil discos – pelos quais recebeu milhares de cartas de agradecimento. “Sei que não é certo, mas faço mesmo assim”, disse ele ao The New York Times.

Curioso é que, graças a seus contatos em Hollywood, o homem consegue cópias de filmes que ainda nem estrearam nos cinemas. “Assisti a Os Transformers antes de passar nos EUA”, contou Bryan Curran, capitão do exército que recentemente retornou do Afeganistão. Muitos soldados por lá já assistiram, por exemplo, a filmes que recentemente disputaram o Oscar, como Moneyball e O Artista. “A cada carta que recebo, envio mais filmes”, diz Strachman, argumentando que sabe como os soldados se sentem, longe de casa, porque ele próprio viveu essa experiência. Mas nunca aceitou pagamento pelo “trabalho”.

“Foi essa atividade que lhe devolveu o prazer de viver”, diz seu filho, Arthur. Típico caso de pirataria do bem.

Philips promete OLED na IFA

O site Digitimes, sediado na China, deu a notícia no último fim de semana, citando fontes locais: a TP Vision – joint-venture entre a holandesa Philips e a chinesa TPV – irá mostrar na IFA, em setembro, seu primeiro televisor OLED. O lançamento comercial ainda não tem data certa (seria fevereiro de 2013), mas de qualquer maneira, a se confirmar a informação, significa que as duas empresas falam sério quando prometem disputar a liderança do mercado mundial de displays, como já comentamos aqui. Os painéis seriam fornecidos pela LG, que já confirmou o lançamento de seu TV OLED este ano, inclusive no Brasil.