Archive | agosto, 2012

Um novo prato para os assinantes

Nos bastidores do mercado de TV por assinatura, o grande assunto – após a ABTA 2012, realizada na semana passada – é a notícia da chegada de mais uma grande multinacional. A Dish Network, que pertence ao conglomerado Echostar, teria tudo acertado com a Vivo/Telefônica para uma parceria visando o segmento de DTH (TV via satélite). Espera-se que o acordo seja oficializado nas próximas semanas, embora as empresas envolvidas não digam uma palavra a respeito.

Claro, é cedo para especular o impacto que esse negócio poderia ter sobre o mercado em geral, e sobre as demais empresas. Mas não há dúvida de que a maior ameaçada é a Sky, do grupo DirecTV, principal concorrente da Dish nos EUA. Também na mira ficaria a Claro TV (ex-Via Embratel). Basta lembrar que, enquanto a Sky é a operadora que mais cresce no país em números absolutos (ganhou mais de 500 mil novos assinantes nos últimos seis meses), a Claro TV é a que mais vem crescendo proporcionalmente (multiplicou por dez sua participação de mercado em três anos – ainda como Via Embratel).

Como em tantos outros setores, os números da economia brasileira devem estar dando água na boca dos executivos da Dish, hoje a principal operadora dos EUA e que, entre outros trunfos, tem o suporte da Hughes, um dos maiores fabricantes de satélites do planeta. O mais recente balanço da DirecTV – só para citar um exemplo – indicou que os negócios do grupo na América Latina é que a estão salvando do vermelho; no Brasil, os bons resultados da Sky devem estar contribuindo para isso.

Para quem não se lembra, “dish”, em inglês, significa “prato”. Tanto pode ser “prato de comida” quanto o nome popular para as pequenas antenas parabólicas que captam os sinais de satélite. A marca ainda não chegou ao ponto de ser confundida com o produto, como acontece, por exemplo, com Gillette, Xerox e iPhone. Talvez nunca chegue a isso. Mas ninguém deve duvidar de sua força.

Show de automação, ao vivo

Começou hoje em São Paulo a Expo PredialTec 2012, com mais de 30 empresas mostrando o que há de novo em matéria de automação residencial e predial. Como já afirmamos aqui, esse é um dos segmentos que mais crescem no Brasil, na esteira no chamado boom imobiliário. Não é crescimento fácil de perceber. Os sistemas estão quase sempre embutidos nos projetos de construção, com recursos transparentes para o usuário, isto é, ao receber o imóvel ele nem sabe o que está por dentro daquelas paredes, onde painéis de toque, dimmers e leds luminosos são presença quase obrigatória.

A feira se tornou maior, e mais atraente, não apenas devido ao avanço tecnológico e à queda nos preços, mas também ao surgimento de uma série de empresas, sediadas em várias partes do país, que está descobrindo como instalar e vender automação. Conversando com os expositores, fica fácil perceber o entusiasmo de lidar com inovações como monitoramento a distância (pelo celular, você pode até “enxergar” sua casa por dentro), controle automático do consumo de energia e o uso de um único aparelho – o tablet ou o próprio celular, por exemplo – para comandar desde as luzes e o ar condicionado até a abertura/fechamento do portão.

O consumidor brasileiro certamente ainda não está acostumado a essas comodidades; muitos acham que tudo é caro e inacessível. Também não sabe que já existem dezenas de empresas e profissionais especializados, capazes de especificar, programar e instalar esses recursos. Muitos deles estão presente à Feira. Vale a pena conhecê-los.

Mercado de projetores resiste

Houve quem pensasse que, com a popularização dos TVs de tela grande, os projetores iriam desaparecer das casas e apartamentos. Não é o que acontece, segundo as pesquisas mais confiáveis pelo mundo afora. Uma das mais recentes, da empresa americana Futuresource Consulting, mostra que o crescimento foi de 11,4% nos doze meses terminados em junho. O número se refere às vendas dos fabricantes ao varejo e incluem ainda as vendas diretas a órgãos de governo e grandes empresas.

Como sempre, não há números sobre o Brasil – apenas a informação de que as vendas vêm sendo prejudicadas por greves nos portos, o que não chega a ser novidade. Mas o uso de projetores parece estar crescendo em países importantes, como Rússia, Reino Unido e Estados Unidos. Este ainda é o maior mercado do planeta, com vendas de quase 600 mil unidades em um ano, vindo a seguir a China, com 430 mil.

Conversando com Gabriel Gonçalves, que coordena a área de projetores da Epson do Brasil, percebi otimismo, especialmente com a adoção dos modelos 3D. Depois de um período de certa estagnação, a empresa japonesa – que detém alta tecnologia no setor – voltou a apostar no país e está lançando mais dois projetores desse tipo (mais detalhes neste vídeo).

Há uma razão técnica para essa espécie de revival: nem todo mundo está satisfeito com a imagem brilhante dos TVs, especialmente quando se trata de ver filmes que contêm cenas escuras. Quanto maior o tamanho do TV, maior o envolvimento; mas, dependendo do conteúdo, maior também a irritação nos olhos. Com um projetor – e, claro, uma boa tela de projeção – é possível obter imagens excepcionais de 100, 120 polegadas (ou até maiores, dependendo do espaço disponível) numa sala com iluminação controlada.

O problema, muitos usuários não querem admitir, é que a regulagem de um projetor nem sempre é fácil, embora modelos recentes possuam mais controles automatizados. Escolher e instalar a tela de projeção mais adequada também exige certa experiência. E nem todo mundo quer pagar por isso. Aí, então, o TV acaba sendo bem mais cômodo.

Coreia: OLED é questão de Estado

O governo da Coreia do Sul anunciou na semana passada a criação de um fundo para financiar um programa de fabricação de displays OLED flexíveis e transparentes. O objetivo é entregar os primeiros exemplares, de 60 polegadas, em 2017. O projeto será tocado pela LG Displays, em parceria com uma empresa local chamada Avaco, sob supervisão direta do Ministério da Economia do Conhecimento – sim, lá eles têm esse órgão, com poucos funcionários mas atuando na linha de frente do desenvolvimento tecnológico. Depois de vários estudos, o governo coreano escolheu alguns segmentos como chaves para alavancar a economia do país, e a tecnologia OLED é um deles.

As estimativas indicam que o projeto, chamado FFP (Future Flagship Program), irá gerar 840 mil novos postos de trabalho e proporcionar receita de US$ 56 bilhões em exportações. Pelas informações disponíveis, uma fábrica-piloto começa a funcionar ainda este ano, devendo liberar os primeiros produtos em 2014. É importante lembrar que estamos falando de um tipo distinto de OLED. Os painéis usados nos TVs que a LG promete lançar comercialmente em breve são do tipo WOLED (conhecido entre os especialistas como “OLED branco”), que utiliza filtros de cores; os futuros painéis são do tipo PCS (Polymide Coated Substrate), com subpixels nas três cores primárias, dispensando o uso de filtros e, por isso mesmo, tidos como capazes de gerar imagens de melhor qualidade.

Além do que a notícia significa em termos de avanço tecnológico, é interessante ressaltar o papel do governo coreano no projeto. A indústria de ponta na Coreia do Sul sempre contou com fortes subsídios estatais, o que, embora aumente a concentração em torno de pouquíssimas empresas, sem dúvida ajuda a acelerar o ritmo de inovação. Isso vem desde os anos 1950, logo após a guerra que dividiu o país entre Coreia do Sul (capitalista) e Coreia do Norte (comunista). Enquanto esta manteve-se praticamente parada no tempo, sustentada pela China, a primeira elaborou um detalhado plano de desenvolvimento, apoiado em forte presença do governo e investimento maciço em educação de base. Segundo alguns estudiosos, a renda per capita da Coreia do Sul naquela época era equivalente à do Brasil (hoje, é duas vezes maior, com população quatro vezes menor). Grande parte dos executivos que hoje estão no comando das empresas coreanas era criança quando esse processo começou – o que explica o fato do país ter se transformado em campeão de inovações.

Sustentabilidade: quem se importa?

Não é novidade que a proteção do meio ambiente está longe de ser prioridade no Brasil – tanto do governo quanto da maioria das empresas. Daí por que é interessante compartilhar certas notícias que nos chegam e que mostram um caminho a seguir. Ontem, enquanto o competente André Trigueiro mostrava no Jornal Nacional que não chega a 10 o número de cidades brasileiras que fizeram projeto para tratar seu lixo com verbas cedidas pelo governo federal, encontrei num blog americano dedicado ao tema esta nota: três mil municípios competem em batalha para cortar o desperdício de água e de energia!!!

Sim, você leu certo. Nos EUA, a EPA (Environmental Protection Agency), equivalente ao nosso pobre e politizado Ibama, está organizando, pelo terceiro ano consecutivo, um concurso entre administradores de edifícios de todo o país. No ano passado, foram 245 competidores; este ano são 3.200. O desafio para todos é ver quem consegue reduzir mais o seu consumo de água e energia ao longo de doze meses. São aceitos apenas edifícios comerciais (aqueles que mais consomem), e há representantes de todos os 50 estados americanos, mais Porto Rico e Ilhas Virgens.

Funciona da seguinte forma: cada administrador apresenta seu relatório de consumo, com base num software fornecido pela EPA, explicando o que foi feito para reduzir e qual foi a redução; os dados são confrontados com os das respectivas fornecedoras de água e energia. Quem comprovar que economizou mais, em dinheiro, recebe um prêmio (também em dinheiro) da Agência. O “campeonato” é acompanhado ao longo de todo o ano via Twitter e pelo site da EPA, além da divulgação que os próprios participantes fazem (mais detalhes aqui).

Segundo Lisa Jackson, diretora da EPA, em 2011 os 245 edifícios inscritos somaram US$ 5,2 milhões em economia nas respectivas contas de água e energia, além de terem contribuído para reduzir em 30 mil toneladas a emissão de dióxido de carbono. A campeã foi a Universidade Central Florida, que conseguiu reduzir em 63% a sua conta de energia. Espera-se que esses números sejam superados agora. “O melhor”, diz dona Lisa, “é que as ideias de cada um são compartilhadas para que todos possam utilizá-las na sua vida diária”.

 

 

Um freio na googlemania

Poucas empresas são tão onipresentes em nossas vidas hoje quanto a Google (ou “o Google”, quando se trata do serviço de busca). Há quem a chame de “big brother”, referindo-se não ao famoso reality-show da TV, mas ao personagem criado por George Orwell em seu livro 1984, escrito há mais de 60 anos – não leu? Dê uma olhada neste link. Pois, se não é, também não está muito longe disso. Nunca é demais lembrar que, no ano de 1984, ao lançar o primeiro computador Macintosh, Steve Jobs patrocinou um anúncio de TV que entrou para a história da publicidade. O filme criticava exatamente a figura do “grande irmão”, representado pela IBM, que para muitas pessoas pretendia dominar o mundo (se você não viu, assista aqui).

A imagem vale também para a Google atual, com a diferença de que hoje esse domínio parece muito mais improvável. Em meu livro Os Visionários – Homens que Mudaram o Mundo através da Tecnologia, ao contar a história de Larry Page e Sergey Brin, fundadores da Google, analisei por alto essa questão. Mas o que temos visto nos últimos anos só confirma que o sucesso obtido pela empresa com seu mecanismo de buscas, até hoje não superado, se mostra difícil de repetir com outros produtos. Vejam só.

Reportagem da revista Wired publicada anteontem revela que a Google adiou mais uma vez o lançamento do player multimídia Nexus Q, anunciado como uma síntese de todos os dispositivos criados para reproduzir áudio, vídeo, fotos etc. etc. etc. Também foi jogado para não se sabe quando o lançamento do smartphone Nexus, após os primeiros exemplares serem mal avaliados por especialistas. Além de problemas com a Justiça de vários países devido a acusações de invasão de privacidade, principalmente com a ferramenta StreetView, a Google, informa a agência Reuters, acaba de ser condenada nos EUA por rastrear dados de usuários do navegador Safari, da Apple (a denúncia havia sido feita pelo The Wall Street Journal).

Convenhamos que é muita notícia ruim para quem se dispõe a dominar o planeta. Sim, na semana passada a Google anunciou o início de sua operação de fibra óptica, num projeto-piloto implantado na cidade de Kansas City, que eleva a velocidade da banda larga à inacreditável marca de 1 Gigabit por segundo (aqui, um resumo empolgado do projeto). Sem dúvida, uma boa notícia, mas que ainda precisa passar por provas para ser considerada um sucesso.

O que me intriga é: por que alguém insiste em “dominar o mundo”? IBM, Microsoft, Apple… todas já tentaram, em vão. Ainda bem. Não está na hora da Google também cair na real?

Lição de democracia, pela TV

Quem gosta de TV mas não é fã de Olimpíada ganhou esta semana uma excelente opção: assistir à transmissão, ao vivo, do julgamento do mensalão. Pela primeira vez, um escândalo político está tendo cobertura em tempo real, pela TV Justiça e uma infinidade de sites. Ninguém tem mais desculpa para ser mal informado.

Não que seja motivo de ilusão. A mídia parece estar vendendo a ideia de que os 38 bandidos irão para a cadeia, o que está muito longe da realidade. Se durante sete anos fizeram de tudo para adiar o julgamento (inclusive uma campanha odiosa pelas redes sociais), não será agora que os mensaleiros e seus comparsas irão assistir calados a uma eventual sentença desfavorável. Para isso, aliás, contam com alguns dos melhores advogados do país. Mesmo com a maior parte da opinião pública cobrando punição, os juízes do Supremo precisam seguir determinados rituais. E, em caso de condenação, pode até ser que fiquem abertas portas para recursos.

Seja como for, estamos vendo algo inédito no Brasil: um escândalo de corrupção, talvez o maior de nossa História, sendo julgado pela principal corte do país diante de milhares de cidadãos. Estes, assistindo pela TV ou pela internet, tornam-se assim testemunhas oculares de tudo que for decidido ali. Não basta, porém, ficar na torcida. Se houver condenações, especialmente dos “peixes grandes”, será ótimo para os brasileiros que trabalham, pagam seus impostos e respeitam a lei (presumo que seja a maioria). Se não houver, terá sido, ainda assim, um marco no avanço da democracia brasileira, tão pisoteada e desacreditada.

O mínimo que se pode desejar é que as discussões em plenário e seus desdobramentos sirvam para clarear mais as mentes dos eleitores, de tal forma que não permitam a repetição de crimes como o assalto cometido entre 2002 e 2005, popularmente chamado “mensalão”. Sim, há muitos outros escândalos a investigar e punir. Mas até nisso o espetáculo a que assistimos no STF pode ser simbolicamente educativo: tomara que os brasileiros o utilizem como aula de democracia. E que os outros bandidos tenham o mesmo destino.

Para onde vai a TV por assinatura

Não estive em todas as 20 edições da ABTA, feira e congresso sobre TV por assinatura. Mas me arrisco a dizer que a edição 2012, que se encerra hoje em São Paulo, é a melhor de todos os tempos. A maior, com certeza, considerando os últimos anos, em que o setor cresce acima de todas as previsões. Num mundo em crise quase permanente (e o Brasil não está fora disso), não é qualquer setor que pode ostentar um crescimento continuado de 30% ao ano.

Mas a ABTA 2012 está mostrando muito mais do que números. Foi interessante ver o entusiasmo e o dinamismo dos profissionais presentes, muitos deles jovens empreendedores do interior do país, que agora estão entrando no mercado ou começando a enxergar seu enorme potencial. Conversei com alguns e pude perceber sua ânsia para entender e quem sabe adotar as novas tecnologias disponíveis; mais do que isso, aprender a se posicionar como prestadores de serviço, o que talvez seja a base de tudo. Definitivamente, fecharam-se as portas para aventureiros, ainda que sejam investidores com muito dinheiro. O avanço tecnológico, entre outras virtudes, tem essa: exigir o máximo profissionalismo de todos.

Bem, mas nem tudo são rosas. Conversando nos bastidores com executivos de operadoras e programadoras, percebe-se a insegurança gerada pelo que se convencionou chamar de “novo marco regulatório”. Ouvi por puro acaso um pedaço de conversa entre representantes da Ancine em tom ameaçador: “Isso, nós não vamos permitir”. Lembrei na hora do velho “você sabe com quem está falando?” Embora o presidente da Agência, Manoel Rangel, e o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, tenham feito discursos diplomáticos (políticos sempre sabem dizer aquilo que a plateia quer ouvir…), o fato é que os agentes do mercado estão tendo de literalmente engolir as novas regras, como se fossem todos bandidos!

Um empresário do setor, com quem encontrei nos corredores, sintetizou bem a situação: “Está todo mundo calado, pois se abrir a boca pode complicar a vida de sua empresa.” Não é esse o ambiente ideal para se fazer negócio!!! Paira no ar um cheiro forte de corrupção. Quando viram que TV por assinatura é um grande negócio, deram um jeito de tomar conta. Daí para virar um grande balcão para troca de favores e tráfico de influências, a distância é curtíssima.