Archive | setembro, 2012

TVs vs. teles vs. Brasil

Tempos atrás, um leitor me censurou por fazer tantas críticas ao governo Lula, questionando por que não fizera o mesmo no governo FHC. A resposta foi fácil: este blog foi ao ar em 2008, cinco anos após FHC ter ido embora e Lula ter assumido. Como este não é um blog sobre política ou economia, me limitei a falar sobre ciência e tecnologia, às vezes adicionando o tema educação (que, a meu ver, está diretamente ligado a ambas). E, qualquer que seja o critério de análise, continuo achando que, nessas três áreas, Lula foi o pior presidente das últimas décadas.

Semana passada, no Facebook um amigo me questionou quando escrevi que o PT é um partido de incompetentes. Lamento ter de repetir, mas a cada dia surgem novas (e irrefutáveis) provas. Vejam a discussão que se trava agora em torno da faixa de frequências de 700MHz. É (ou deveria ser) uma questão essencialmente técnica. Com a transição da TV analógica para a digital, parte dessa faixa ficará ociosa a partir de 2016. A primeira iniciativa do governo foi destiná-la às operadoras de telefonia celular, para assim expandir a saturada rede de comunicação móvel. Ao saber disso, as redes de televisão iniciaram um lobby para que nada mude, isto é, as frequências continuem sendo “propriedade” do setor. Enquanto o governo não se decide, os dois lados da disputa permanecem espalhando ameaças pela imprensa, como se dessa decisão dependesse o futuro do país.

Não depende. Trata-se de mera disputa financeira ou, se quiserem, mercadológica. Na semana passada, descobriu-se que o ministro das Comunicações, a quem cabe tomar posição sobre o tema, não faz ideia do que significa o uso das frequências. Numa reunião com representantes das emissoras, segundo o site especializado Convergência Digital, Paulo Bernardo admitiu não saber que a tecnologia LTE (também conhecida como 4G), a ser usada nas futuras redes de celular, provoca interferências na transmissão dos sinais de televisão na faixa de 700MHz. Mesmo sem saber, aprovou a decisão da Anatel de convocar um leilão dessas frequências, inicialmente marcado para o início de 2013 (mas a esta altura extremamente ameaçado…)

Aproveitando a viagem, os executivos das emissoras levaram ao ministro uma lista de reivindicações que lembra a velha história do bode na sala. Querem para si não apenas os canais UHF 14 a 59, que ocupam a tal faixa, mas financiamento, isenções fiscais, indenização pelos canais que não forem utilizados na digitalização e um longo etc. Confundiram ainda mais a cabeça do ministro, que nessa toada vai terminar seu mandato, daqui a dois anos, sem nem saber o que é MHz.

Do YouTube para a TV

Nunca assisti, mas Recipe Rehab, um desses milhares de programas de televisão que dão dicas culinárias, deve ser muito bom. Sucesso de audiência no YouTube, com sei lá quantas visualizações (o número é o de menos, considerando a quantidade atual de chutes nessa área), a atração chega agora a uma das maiores emissoras do mundo, a ABC dos EUA. Estreia no próximo dia 6 de outubro, numa manhã de sábado, que pode parecer mas por lá não é um horário tão menos nobre assim.

Mesmo que não conquiste audiência, já leva o título de primeira produção específica de internet a ser contratada por uma TV tradicional. Seria a rendição do mundo off-line ao on-line? Talvez seja cedo para afirmar, mas sem dúvida é um indicador a ser considerado. O programa culinário foi um das centenas que a Google Inc. financiou, com recursos próprios, para rechear a “grade” do YouTube e dar ao site um pouco de credibilidade. Acertadamente, os marqueteiros da empresa constataram que na base dos vídeos idiotas enviados por amadores o site jamais daria lucro – continuaria sendo mero portal de trivialidades ou, pior, de baixarias.

Para atrair anunciantes, era preciso manter a audiência, mas com conteúdos mais, digamos, respeitáveis. Segundo The Wall Street Journal, a Everyday Health, produtora responsável pelo programa, recebeu adiantamento de US$ 150 milhões para entregar conteúdos na mesma linha e, assim, abastecer o YouTube. Ganhou visibilidade, atraiu outros clientes e hoje, com 500 funcionários, produz coisas semelhantes para empresas como Kraft Foods e a megaestrela Jennifer Lopez.

E isso tudo começou há dez anos. Ou seja, estamos ficando velhos…

Imprensa vs. imprensa

Katharine Graham, dona do Washington Post e durante décadas uma das pessoas mais poderosas dos EUA, tinha uma frase certeira: “Jornalismo é tudo aquilo que alguém não quer ver publicado; o resto é propaganda”. Lembrei dessa joia ao acompanhar esta semana mais um episódio da insana guerra entre as revistas Veja e Carta Capital, duas das publicações mais tendenciosas que já existiram no Brasil. Enquanto a primeira divulgava uma “não-entrevista” com o trambiqueiro Marcos Valerio, a segunda saía-se com uma ode ao ex-presidente Lula, apresentada sob a alcunha de “reportagem”. Leitores de ambas foram covardemente enganados.

Publicar como “entrevista” um texto em que o entrevistado não diz uma só palavra (tudo é atribuído a “amigos” e/ou “pessoas próximas”) é caso de Procon, para dizer o mínimo. Diante das – justificadas – reações dos puxa-sacos do ex-presidente, a revista informou que Valerio realmente havia dado entrevista e que esta teria sido até gravada, estando em condições de ser veiculada no site da revista. Passada uma semana, nem a gravação foi ao ar, nem foi dada qualquer explicação. O leitor, depois de ter pago pela revista, fica sem saber se Valerio de fato falou ou não falou (seu advogado desmente). A nova edição de Veja, que circula neste fim de semana, repete trechos da inédita pseudo-entrevista.

No outro extremo desse jornalismo que no passado costumava-se chamar de “marrom”, Carta Capital, como sempre forrada de anúncios do governo federal, publica um texto que poderia perfeitamente ser assinado pela assessoria de imprensa do PT. Nele, Lula é apontado como vítima de um esquema orquestrado pelas “elites” e pela “grande imprensa”, colocando em suspeita até os ministros do Supremo Tribunal Federal nomeados pelo próprio ex-presidente. Denuncia um tal de “antilulismo” como tentativa de reduzir a influência de Lula nas eleições. Nenhuma linha sobre o mensalão e os crimes que estão sendo julgados no STF. Aqui, também, o leitor tem direito de se sentir traído. Afinal, comprou uma revista e recebeu em seu lugar uma peça de propaganda política.

Os fatos? Como dizia um político das antigas, ora, danem-se os fatos.

TV aberta on-demand

Provando, pela enésima vez, que é a única emissora aberta do país antenada com as novas tecnologias, a Globo lançou nesta sexta-feira seu primeiro serviço de video-on-demand. O Globo.tv+ já está disponível para assinantes do portal Globo.com, oferecendo material do imenso arquivo da emissora para visualização em dispositivos de acesso à internet: computador, celular, tablet e, é claro, também TVs do tipo Smart. Segundo a empresa, todo o conteúdo produzido na casa estará disponível após a exibição; apenas os programas do horário nobre serão oferecidos a partir da meia-noite, no mesmo dia. Haverá também conteúdos exclusivos, não exibidos em rede aberta, como as séries Os Normais e Globo Mar. E – um grande trunfo da emissora – jogos históricos do campeonato brasileiro de futebol.

Enfim, fica mais prova provado que, no mundo multimídia, quem tem conteúdo é rei.

Onde a Apple não é líder?

Sim, existe um país onde a empresa da maçã não consegue impor seu poderio. Adivinhem: claro, a China. Lá, a quantidade de marcas e modelos de smartphone é tão impressionante que o pobre iPhone só consegue ser, acreditem, o sétimo colocado nas vendas. Esse dado faz parte de uma pesquisa divulgada esta semana pela consultoria IHS iSuppli. Detalhe: a coreana Samsung e a finlandesa Nokia estão, respectivamente, nas posições 1 e 5.

É interessante lembrar alguns detalhes sobre o mercado chinês, que este ano responde por simplesmente 26,5% das vendas de smartphones em todo o mundo, superando assim os EUA como maior mercado do planeta. Devido ao seu histórico atraso econômico e tecnológico (nem vamos falar de política), os chineses ficaram anos sem telefone, enquanto outros países ampliavam suas redes fixas. Quando finalmente o governo de lá decidiu abrir o mercado, em meados dos anos 80, constatou-se que seria mais fácil investir na telefonia celular. Mais fácil, mais rápido e muito mais barato. Resultado: o país, que tem área equivalente à do Brasil e população dez vezes maior, hoje praticamente só tem redes móveis.

Na prática, significa que as conexões de banda larga são frágeis e lentas; e que a qualidade dos aparelhos está longe do ideal. Aos chineses interessa, acima de tudo, quantidade. Daí porque os produtos da Apple têm dificuldade de se propagar como acontece no mundo inteiro. Segundo o site DisplayCentral, a maior parte dos aparelhos que a Samsung vende por lá tem preço final abaixo dos 100 dólares, o mesmo que cobram os fabricantes chineses. Ainda assim, os coreanos têm enorme lucro, até porque os aparelhos são fabricados lá mesmo, na China.

O quadro abaixo, divulgado pela IDC, mostra o despropósito entre a China e os demais países que mais compram celulares, entre eles o Brasil. Confiram:

 

A mesma conversa de sempre

Os leitores mais atentos são testemunhas de que, no ano passado, cobramos aqui do governo federal a promessa de um investimento de R$ 12 bilhões da empresa taiwanesa Foxconn para montar iPhones e iPads no Brasil. Seria construída uma super-estrutura na cidade de Jundiaí (SP), para atender ao projeto, que geraria milhares de empregos e resultaria em aparelhos mais baratos para o consumidor brasileiro. As últimas notícias divulgadas a respeito davam conta de que a unidade – já existente antes da promessa – estaria semiparalisada e com sérios problemas trabalhistas, pois os trabalhadores brasileiros não aceitam as mesmas condições impostas aos chineses. Nem existe super-estrutura alguma, nem os preços dos aparelhos caíram.

Só para comprovar que os políticos são (quase) todos iguais, nesta quinta-feira o governador paulista, Geraldo Alckmin, fez quase igual à presidente Dilma em 2011: anunciou que a Foxconn irá montar uma imensa unidade fabril na cidade de Itu, ali perto de Jundiaí, de onde sairão itens como cabos, câmeras, placas, leds e até displays (serão cinco fábricas, ao todo), segundo leio no site da revista Info. Investimento anunciado: R$ 1 bilhão. Número de empregos que serão criados: cerca de 10 mil. Tudo isso, claro, segundo a assessoria do Palácio dos Bandeirantes, que chega ao cúmulo de afirmar que o projeto não terá incentivos fiscais além dos que já estão previstos em lei!!!

Quem quiser acreditar, fique à vontade. Só é bom lembrar que, a exemplo do que aconteceu no episódio anterior, ninguém da empresa se manifestou sobre o assunto: todas as informações foram divulgadas pelo governo paulista. Um ano atrás, era o então ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, quem fazia as vezes de portavoz do grupo chinês para anunciar investimentos nisso e naquilo. Agora, é o sr. Luciano Almeida, presidente da estatal Investe São Paulo, quem fala em nome da Foxconn.

Mais importante ainda: o governador diz que o único incentivo dado à empresa é a isenção de ICMS, prevista no Pro-Informática, programa criado para atrair ao Estado investimentos em tecnologia. Justamente o programa que está sendo questionado no Congresso Nacional pelos governos da região Norte, para quem esse tipo de incentivo é inconstitucional; a Procuradoria-Geral da República já deu parecer nesse sentido. Ou seja, a tal isenção pode ser anulada a qualquer momento.

Se isso acontecer, aonde irão parar os tais 10 mil empregos?

 

Sharp, agora sim? Tudo indica.

O destaque da newsletter HT-Express esta semana é a volta da Sharp ao mercado brasileiro, depois de quatro anos de afastamento. Já explicamos aqui a história, mas como parece ser infindável o número de consumidores ressentidos com a marca, devido a problemas no passado, vale a pena resumi-la. A morte de Matias Machline, fundador da Sharp do Brasil, em 1994, praticamente decretou o fim do império que ele construiu em cerca de 25 anos – seus filhos não conseguiram levar o negócio adiante e faliram. Em 2007, o grupo Mitsui, muito atuante no país, fechou acordo com a Sharp Corporation, do Japão, para distribuir seus produtos. Acabou sendo pego no contrapé pela crise de 2008 e teve que sair de cena. Agora, é a própria matriz japonesa, através da Sharp Brasil Comércio e Distribuição de Artigos Eletrônicos, fundada em 2011, que lidera a operação.

E chega com bons trunfos, a começar do maior TV do mercado (e, por enquanto, o maior do mundo à venda), um LED-LCD de 80 polegadas (foto acima), que acaba de ser exibido na IFA. Na verdade, não é um TV, mas um monitor, pois não possui tuner; há ainda um modelo semelhante, de 70″. Com esses dois, e mais uma série de dez TVs 3D (confiram aqui), com tamanhos entre 32 e 70 polegadas, a Sharp busca enfim apagar o passado e competir de igual para igual com as principais marcas do mercado brasileiro hoje (pela ordem: Samsung, LG, Sony, Panasonic, Toshiba e Philips). Claro, não será fácil. Mas, de fato, não fazia sentido a ausência da Sharp num dos países com maior peso hoje para a indústria eletrônica mundial, considerando que nos EUA, Europa e Japão essa é uma das marcas mais populares e prestigiadas.

Estamos nesta semana encerrando os testes com o modelo de 80″, o top da linha que a Sharp chama de Quattron (vejam este vídeo). Nesta, o modo como são formados os pixels é diferente. Em vez do tradicional RGB (três subpixels, nas cores primárias vermelho, verde e azul), temos agora RGB-Y, com o acréscimo de um subpixel amarelo. Segundo a empresa, além de ampliar significativamente a gama de cores alcançada pelo painel, essa mudança torna a imagem mais natural. Notamos alguns sutis vazamento de luz por trás do painel, característica do LCD amenizada nos painéis de led, mas ainda assim não totalmente eliminada. Numa tela gigantesca, evidentemente esses detalhes ficam mais perceptíveis. Mas, claro, depende muito da sensibilidade visual de quem assiste.

Importante é que a Sharp, que disputa com a Samsung o título de maior fabricante mundial de displays, parece decidida a recuperar sua posição no Brasil. Não deve ser pequeno o esforço para trazer do Japão esses TVs gigantes, conhecendo as vergonhosas burocracia e tributação brasileiras. Os TVs já estão nas lojas. Vamos ver como o mercado brasileiro reage.

Muito além do touchscreen

Qual será o futuro dos displays? Dez entre dez técnicos da indústria se debruça sobre o assunto diariamente; e todos certamente dariam seu emprego em troca da resposta. Palpites, existem aos montes. Há até quem diga que as telas de toque (touchscreen), hoje tão populares devido aos tablets e smartphones, terão vida curta; no futuro, acreditam alguns, não precisaremos nem tocar nas telas; bastará olhar que elas entenderão os comandos…

De certo, o que temos hoje é que há dezenas de experiências na área, muitas delas sigilosas. Outras, nem tanto. Vimos na IFA, por exemplo, uma demonstração da Samsung com uma mesa digital do tipo Surface, da Microsoft, em que não é necessário mesmo tocar na tela: basta aproximar os dedos para fazer objetos, letras e números flutuarem como se estivessem ganhando vida (confiram neste vídeo).

A própria Microsoft está divulgando um vídeo em que demonstra seu conceito de “casa do futuro”, recheada de telas pelas paredes (como na foto acima), que atendem aos gestos dos usuários (assistam aqui). Por sinal, a empresa americana acaba de registrar pedido de patente identificado como “experiência de display imersivo”: um software ampliaria as dimensões de uma tela convencional (um TV, por exemplo), de tal forma a envolver as pessoas presentes na sala. A aplicação seria os videogames, mas é certo que tal recurso, se for eficiente, servirá para muitas outras coisas (mais detalhes neste link).

Mas essa é apenas uma das experiências em execução. O site americano Buzzfeed se aprofundou no assunto e descobriu uma série de empresas e centros de pesquisa que trabalham em novos tipos de displays, um mais maluco que o outro (se é que podemos aqui usar essa palavra). São especialistas que já estão na era do “pós-touch”. Dêem uma olhada e digam se não é, além de genial, também assustador!

Fugindo do Brasil

Se o ex-ministro José Dirceu, réu no processo do mensalão, garante que não pretende fugir do Brasil, como revelou à Folha de São Paulo, muitas empresas pensam fazê-lo – claro, por motivos diferentes. A Google divulgou na semana passada que, depois de vários estudos, decidiu montar seu novo data center no Chile (detalhes aqui). É um investimento superior a US$ 150 milhões, que o governo brasileiro vinha namorando há tempos. Ali ficará baseado todo o processamento de dados ligado ao serviço de nuvem da empresa americana.

Não é o primeiro caso, e certamente não será o último. Até empresas brasileiras pensam seriamente se vale a pena investir aqui, diante da parafernália burocrática, da corrupção desenfreada, da tributação insana e da falta de infraestrutura logística. Antigamente, se chamava tudo isso de “custo Brasil”, mas na verdade não se trata apenas de uma questão financeira. Levantamento recente da Fundação Getulio Vargas revelou que só a corrupção causa ao país prejuízos da ordem de US$ 3,5 bilhões por ano. Além de ser um dinheiro que não volta mais, essas perdas desestimulam as pessoas e empresas afetadas, gerando um clima péssimo em termos de planejamento e investimento futuro.

A sorte, se é que se pode usar essa palavra, é o país ser tão carente e ter um potencial de consumo talvez até maior do que Índia e China, devido às características de cada nação. Só isso explica a insistência da Amazon, por exemplo, em implantar seu consagrado modelo de negócios aqui. Na surdina, a maior loja virtual do planeta vem conversando com possíveis parceiros e fornecedores brasileiros há mais de um ano, sem conseguir chegar a resultados concretos. Acabou sendo ultrapassada pela Livraria Cultura, que já tem tudo pronto para lançar seu e-reader, leitor eletrônico que dará acesso a mais de 3 milhões de títulos.

Para recuperar o tempo perdido, a Amazon foi buscar ninguém menos do que Alexandre Szapiro, executivo que conseguiu desenroscar o fenômeno Apple no Brasil (mesmo contra a vontade de Steve Jobs, que nunca escondeu sua contrariedade com a legislação brasileira). Tirar o principal executivo da maior concorrente – pode-se imaginar quanto isso custou – dá uma ideia da impaciência da Amazon, depois de ver o emaranhado de problemas que vêm junto com a abertura de negócios no país. É uma aposta alta. Vamos ver se vai dar certo.

Quem tem a tela maior?

Comentamos aqui, semana passada, sobre os TVs gigantes exibidos na IFA – alguns deles mostrados em vídeos que podem ser conferidos no nosso hot site. Pois vejam que não se trata de coincidência: nova pesquisa da NPD DisplaySearch, uma das principais empresas de análise do mercado de tecnologia hoje, confirma a aposta dos fabricantes em telas cada vez maiores.

É a velha luta por margens de lucro mais altas. Na faixa dos TVs até 50 polegadas, diz o estudo, está cada vez mais difícil para os fabricantes manter sua rentabilidade, dada a intensa queima de preços, um fenômeno mundial. Com base no mercado americano, a pesquisa mostra que o preço médio de um TV LCD de 50″ a 52″ caiu de US$ 1.370 no ano passado para US$ 829 este ano; e com previsão de chegar até abaixo de US$ 500 em novembro, época da famosa Black Friday, fim de semana em que os varejistas do país tentam descarregar seus estoques antes do Natal.

Segundo reportagem da agência Reuters, nos últimos anos têm havido estímulos adicionais para o consumidor, como Blu-ray, 3D e smart TVs. Este ano, sem nada do gênero, as principais redes de varejo estão focando no tamanho como principal incentivo à compra. “Troque seu TV por um maior” parece ser o mote preferido. O problema é serio: segundo a NPD, o segundo trimestre deste ano (abril-maio-junho) apresentou nova queda nas vendas mundiais da indústria (8% em relação ao mesmo período de 2011). Para o ano como um todo, a estimativa é de queda de 1,4%. “Para quem já fez o upgrade, passando de um TV de tubo para um de tela fina, o próximo passo só pode ser uma tela maior”, argumenta Frank DeMartin, vice-presidente da Mitsubishi USA.

Em resumo, a partir de agora deveremos ver uma oferta maior de TVs com tamanhos acima de 55 polegadas, chegando até as 90″ anunciadas pela Sharp na IFA. Para o consumidor brasileiro, já podemos afirmar que pelo menos três dos principais fabricantes – LG, Samsung e a própria Sharp – estão preparando lançamentos na faixa top do mercado. Além do TV 4K de 84″, que informamos ontem aqui em primeira mão, a LG irá trazer da Coreia um modelo led Full-HD de 70″; a Sharp já nos enviou para teste seus modelos de 70″ e 80″ (mais detalhes aqui); e a Samsung está em vias de decidir sobre um de 72″.

Portanto, afastem o sofá e mandem pintar a sala. O negócio agora é tela grande. Falaremos mais delas nos próximos dias.

Reciclagem, como se deve

Do site TI Inside, retiro uma nota que merece destaque. Não é a toda hora que se pode dar boas notícias em matéria de proteção ao meio ambiente, principalmente no nosso ramo tecnológico. A maioria das empresas simplesmente ignora essa preocupação, e as poucas que levam o assunto a sério não encontram qualquer apoio ou contrapartida dos governantes (infelizmente, meio ambiente no Brasil ainda não dá voto).

A notícia é que está sendo criado o primeiro órgão brasileiro de soluções sustentáveis para o segmento de eletroeletrônicos. Chama-se Cinctronics (Centro de Excelência de Inovação Tecnológica em TI Verde) e é uma iniciativa das empresas HP e Flextronics, em parceria com o FIT (Flextronics Institute of Technology), dos EUA. A ideia é não apenas fazer reciclagem de aparelhos usados, mas desenvolver soluções que permitam seu reaproveitamento sustentável, incluindo o treinamento de pessoal especializado.

Tomara que dê certo.

Bons e maus ventos culturais

Em mais uma prova de que cultura não é prioridade “neste país”, o ministério que deveria cuidar da área foi usado como moeda de troca política. Nada tenho contra (nem a favor) a ministra que saiu; sobre a que entra, o fato de admitir, publicamente, que nada entende do assunto já fala por si só. Repete-se o famoso caso do Ministério da Pesca, entregue a um pastor protestante para acomodar interesses do governo com a comunidade religiosa (leia-se: TV Record).

Lamento não ser tão otimista quanto o brilhante colega Samuel Possebon, do site Tela Viva, que esta semana analisou em detalhes o que esperar da gestão Martha Suplicy. Possebon acha que pode haver uma reaproximação entre o Ministério e a Ancine, cujas relações andavam estremecidas na gestão Anna de Holanda. Sinceramente, não sei se isso é bom ou ruim. Nada deve mudar nos poderes da Agência, que hoje arrecada cerca de R$ 1 bilhão por ano em tributações sobre diversas atividades culturais, dinheiro que acaba nas mãos dos privilegiados cujos amigos se aninharam no comando do órgão. Como Martha é da política e tem pretensões eleitorais, sua prioridade será usar os recursos para atender a esses objetivos, como sempre acontece.

Já dei aqui minha opinião sobre o assunto. Não acho sequer que deva existir um Ministério da Cultura. Para ser tratado como prioridade, de fato, o setor não precisa de burocracia nem politicagem, muito menos cabides de emprego como a Ancine. Bastaria o governo, como um todo, estimular os produtores culturais que realmente precisam de apoio, via leis de incentivo isentas de nepotismo e apadrinhamento; e garantir a construção e manutenção decente de museus, bibliotecas, teatros, monumentos, edifícios históricos, cinemas de arte, enfim, itens que não consumiriam muito dinheiro do orçamento. Este deveria ser reservado às grandes urgências do país, como saúde, educação, transporte e segurança.

Mas, claro, isso é pura utopia, num país em que estatais como Banco do Brasil e Petrobrás são usados para patrocinar shows de rock, sites de artistas famosos, livros, jornais e revistas de amigos do poder, entre outras aberrações. Prefiro ficar com o excelente escritor Leandro Narloch, autor de obras como “História Politicamente Incorreta do Brasil”, um grande desfazedor de mitos e hipocrisias. Recomendo a todos seu artigo de hoje na Folha de São Paulo, sob o título “Ministério da Cultura, Ministério do Vento”. Em poucas linhas, ele conseguiu resumir essa (tragi)comédia de absurdos.

Um passeio em Marte (em HD)

Quem ainda não viu não sabe o que está perdendo. O site da revista Wired, ainda a melhor do mundo quando se trata de tecnologia, reproduz vídeo gravado por uma câmera instalada na nave Curiosity, que aterrissou em Marte há cerca de um mês. Na verdade, trata-se de um trabalho humano: o cineasta Bard Canning foi autorizado pela Nasa a trabalhar sobre o material bruto, captado em baixa definição (4 quadros por segundo), e de certa forma “recriou” as imagens em 30qps, chegando a 1080 pixels pelo processo de renderização. Mais ainda: acrescentou efeitos de som que simulam os ruídos obtidos por um microfone adaptado ao “paraquedas” que permitiu à nave descer suavemente na superfície do planeta distante.

O vídeo produzido por Canning pode ser visto aqui; há ainda um making-of do trabalho, que está neste link. Ambos equivalem a um pequeno passeio em Marte. Emocionante, para dizer o mínimo.

Confirmado: ele vem aí!!!

A LG nos confirmou agora à tarde que vai mesmo colocar nas lojas brasileiras seu grande lançamento internacional do ano: o TV de 84 polegadas com tecnologia 4K, sobre o qual temos falado seguidamente aqui. O modelo UD84LM9600 foi um dos  destaques da IFA, não apenas por seu tamanho majestoso, mas principalmente pela qualidade das imagens em 4K. Segundo o fabricante, o produto começa a ser mostrado em outubro, em pontos de venda selecionados, e será entregue a partir de novembro. Preço de lançamento: R$ 40 mil.

Não será encontrado em todas as lojas, e nem poderia ser diferente, porque trata-se de um produto mais do que premium. Quantas pessoas você conhece que pagariam R$ 40 mil por um TV? Pois é, a LG quer, tanto quanto possível, valorizar esse seu patrimônio, que oferece imagem quatro vezes mais definida do que os melhores TVs atuais.

Vai ser interessante saber agora a reação dos demais fabricantes, especialmente a Sony, que também mostrou sua versão de 84″ na IFA.

3D sem óculos: uma pista

Falando nos alemães do Instituto Fraunhofer, eles acabam de ser premiados com o “Best Conference Paper Award”, da IBC 2012, encerrada ontem em Amsterdam. Esse é o evento técnico mais importante da Europa na área de displays, e a premiação se refere a um trabalho apresentado pelo Instituto, sob o título “Conversão Totalmente Automática de Estéreo para Multitelas em Displays Autoestereoscópicos”. Traduzindo: um novo processo de conversão de imagens 3D em vídeo para uso em displays sem necessidade de óculos especiais.

Os cientistas do Fraunhofer explicam no estudo que criaram um novo método para gerar imagens 3D autoestereoscópicas – ou seja, que podem ser vistas mesmo sem óculos – a partir de sinais convencionais, tecnicamente chamados “estéreo 3D”. Ao contrário dos displays desse tipo conhecidos hoje, as imagens podem ser vistas igualmente por grupos de pessoas, sem diferenças conforme o ângulo de visão, problema que relatamos aqui em relação aos protótipos mostrados na IFA 2012.

Ao conceder o prêmio, o pessoal da IBC (International Broadcast Convention) reconheceu que o trabalho é importante porque atende a uma demanda concreta do mercado, lembrando que a tecnologia 3D só será bem sucedida com o advento de formatos que não dependam de óculos especiais. O que encantou a plateia, segundo o site especializado Display Central, foi que os alemães não se limitaram a descrever o processo; fizeram uma demonstração prática no estande do Fraunhofer montado no evento.

Claro, ainda estamos longe de ver displays desse tipo à venda no mercado – as previsões mais otimistas são para 2015. Mas, sem dúvida, mais um grande passo foi dado.

No olho da mariposa

Não é segredo que os fabricantes de TVs, particularmente em LCD, investem bilhões em busca de aperfeiçoamentos que compensem certas deficiências inerentes a essa tecnologia. Aumentar artificialmente a taxa de renovação de tela (em Hertz), por exemplo, é um recurso para minimizar um efeito colateral do processo de iluminação interna dos pixels nos painéis de cristal líquido – o atraso na leitura é inevitável, já que cada pixel precisa “abrir e fechar” milhares de vezes por segundo.

Uma das tentativas mais interessantes da indústria para contornar as falhas do LCD foi descrita neste texto do colega Ricardo Marques, que esteve comigo em Berlim para a cobertura da IFA. A convite da Philips, ele foi conferir de perto o processo chamado tecnicamente Moth Eye (em português, “olho de mariposa”). A partir de uma descoberta biológica, os técnicos em eletrônica desenvolveram um processo diferente de construção do painel, que amplia consideravelmente a taxa de reflexão, grande inimiga das imagens contrastadas. A descoberta – descrita neste vídeo – foi do Instituto Fraunhofer, da Alemanha.

Numa explicação resumida: os olhos das mariposas possuem um revestimento externo único na natureza (foto), que absorve praticamente toda a luminosidade; ou seja, quase nada da luz que elas enxergam é refletida. Esse revestimento foi filmado e amplificado mais de 25 mil vezes, revelando uma superfície coberta de inúmeros pontos precisamente distribuídos. O espaçamento entre esses pontos é impressionantemente exato, o que, segundo os cientistas, explica o alto grau de absorção luminosa. No Fraunhofer, foram construídas réplicas dessa película sensível à luz que, aplicadas sobre folhas de vidro, receberam uma quantidade determinada de laser holográfico. Resultado: a camada de micropontos se reproduziu, permitindo obter o mesmo efeito de absorção, sem reflexões.

Foi uma experiência tão bem sucedida que passou a ser usada também em áreas como energia solar. Painéis solares agora são construídos com uma película semelhante, de tal forma que é possível maximizar a absorção da luz e, portanto, aumentar muito a eficiência no armazenamento de energia.

Enfim, um golaço dos cientistas, comprovando como a natureza pode, sim, contribuir para o aperfeiçoamento tecnológico.

Grande Irmão versão high-tech

Parece que agora não há como escapar. Se for verdade o que o mundo online – inclusive sites respeitados, como o da revista New Scientist – estão divulgando, o caos está próximo. Ou, para ser mais exato, uma tecnologia identificada como NGI – Next Generation Identification. Se você pensou em alguma nova forma de vigilância, acertou. A partir das técnicas já conhecidas de reconhecimento facial, oficiais do FBI aperfeiçoaram um sistema de identificação eletrônica de criminosos usando como base apenas uma foto ou cena de um vídeo. O projeto, que tem financiamento do governo americano na casa de US$ 1 bilhão, conta com a participação da técnicos da Universidade Carnegie Mellon, e agora está sendo investigado por uma comissão do Senado.

Desde fevereiro, o FBI está montando um gigantesco banco de dados com imagens de criminosos, armazenadas em fichas contendo também análises de DNA, identificações de voz e até imagens escaneadas de íris. Ao investigar um suspeito, basta colocar no sistema sua imagem atual: em alguns segundos, os agentes podem checar se a pessoa já está na lista.

Até aí, nada muito diferente do que já se faz hoje. O problema começou quando um técnico envolvido no desenvolvimento disse à Comissão que a tecnologia pode ser usada para coisas bem menos dignificantes. Com uma única imagem eletrônica de um rosto, o sistema é capaz de encontrar a pessoa numa multidão de aproximadamente 1,6 milhão – a margem de acerto seria de 92%. As imagens armazenadas podem ser tratadas com programas de modelagem 3D, que permitem giros de até 70 graus, de tal forma que até uma imagem convencional 2D pode ser rastreada na multidão – o site do FBI dá mais detalhes sobre o funcionamento da coisa.

O perigo: o FBI pretendia (a esta altura não se sabe mais se continua com essa intenção) montar um banco de dados com imagens até de cidadãos comuns, para fins investigativos. Seria um Big Brother perfeito, dotado da mais moderna tecnologia. Um resumo dessa maluquice é descrito neste site.

Briga na terra dos gigantes

Fiquei desconectado nos últimos dias. De volta ao Brasil, após a IFA, vejo que a LG também anunciou que irá começar a vender seu TV 4K de 84″, que, como o da Sony (conforme comentamos aqui na semana passada), foi mostrado lá em Berlim (mais detalhes neste link). Preço estabelecido para o mercado americano: US$ 19.999. O produto começará a ser distribuído, a lojas selecionadas, em outubro, diz o fabricante. Pergunta: será que já existe mercado para uma disputa desse tipo? Embora sabidamente os americanos sejam adeptos de telas grandes, parece prematuro dois dos principais fabricantes mundiais apostarem nisso. A impressão é que se trata de mais uma “guerra” do tipo quem-chegou-primeiro.

De qualquer modo, é bom ficar ligado nos desdobramentos. Até porque, hoje, o Brasil é quase tão importante para essas empresas do que os EUA, que ainda estão em crise, lembram-se? Pode ser que resolvam trazer os produtos também para cá. Difícil saber a que preço e se haverá alguém disposto a investir.

TV 4K: US$ 25.000!!!

Menos de uma semana depois de apresentar, em premiere mundial, seu TV 4K de 84 polegadas (neste vídeo, o momento da estreia), a Sony anunciou ontem que o produto estará à venda nas lojas Sony a partir de novembro; nos EUA, os interessados já podem encomendar. Preço de lançamento: 24.999 dólares. Não há, até o momento, informação sobre outros países. Na verdade, a Sony aproveitou a CEDIA Expo, realizada esta semana, para fazer o anúncio oficial, atendendo a pressões de seus revendedores americanos; na IFA, foi informado que não havia previsão de lançamento.

Só para lembrar, o aparelho (modelo XBR-84X900) não apenas reproduz imagens gravadas em 4K (que hoje praticamente não existem), mas também faz a conversão de imagens convencionais para essa resolução (3.840 x 2.160 pixels), que equivale a quatro vezes a dos TVs Full-HD atuais – daí a denominação 4K. O painel é LED-LCD do tipo Edge-lit, considerado inferior ao Local Dimming e também ao novo MicroDimming, este por enquanto exclusivo da Samsung. Ao contrário dos outros modelos 3D da Sony, este utiliza processo passivo para construção dos efeitos tridimensionais, com óculos mais leves. Segundo ainda o fabricante, o TV gigante vem com todos os aplicativos da rede Sony Entertainment Network, que podem ser atualizados pela internet. Vem também com dez alto-falantes, cinco de cada lado. Um site especial foi criado para prestar mais informações sobre o produto.

Para a pergunta que não quer calar (“quando sai no Brasil?”), por enquanto ainda não há resposta. Com a palavra a Sony do Brasil.