Archive | outubro, 2012

3D: o mercado existe!

Estatística divulgada semana passada nos EUA pela Nielsen revela um dado interessante: com o aumento – ainda que em baixa velocidade – nas vendas de TVs 3D, começa a crescer também a procura por filmes nesse formato. A nova safra de filmes lançada por lá, que inclui sucessos do cinema este ano como Os Vingadores e Prometheus, está ajudando a impulsionar esse segmento. No primeiro caso, somente em uma semana após o lançamento, 23% dos discos vendidos eram 3D; no caso de Prometheus, 25%. A caixa de luxo deste último, contendo as versões em DVD, Blu-ray e Blu-ray 3D, além da cópia em arquivo digital, foi responsável por 26% de tudo que o filme faturou até agora em vídeo, segundo a distribuidora Fox.

Mais: filmes antigos (hoje em dia, qualquer filme de um ano atrás já é considerado “antigo”) também se beneficiam da tendência. A versão 3D de Titanic, por exemplo, que chegou às lojas dos EUA em setembro, somou vendas que correspondem a 29% do total. É importante lembrar que lá, ao contrário daqui, os preços caem conforme as vendas aumentam. Os Vingadores 3D, por exemplo, é vendido na Amazon por 25 dólares, quando aqui não sai por menos de 90 reais.

Já as vendas de TVs 3D vão subindo lentamente, mas vão. Segundo a NPD DisplaySearch, cresceram 14,2% no último trimestre de 2011, e agora, no período julho-setembro de 2012, aumentaram 23,5%. Ainda são números bem abaixo do que esperava a indústria quando do lançamento dos primeiros modelos, em 2010. Mas o mercado como um todo acha que em breve a diferença de preço entre um TV 3D e um convencional será tão pequena que o consumidor, inclusive aqui no Brasil, nem precisará pensar muito para escolher o primeiro.

Já quanto ao preço dos filmes… bem, essa é uma outra – e bem mais complicada – história.

Falando para surdos

Já escrevi aqui que, para mim, os últimos dez anos foram de enorme atraso para o Brasil no campo tecnológico. Aliás, nem fui muito original. Vários analistas independentes – digo, que não têm rabo preso com o governo – já afirmaram o mesmo, inúmeras vezes. Meu colega Ethevaldo Siqueira, decano dos jornalistas especializados em tecnologia, encerrou recentemente sua colaboração com o Estadão (onde escrevia desde 1967) depois de repetir a crítica “n” vezes.

Falo da falta de uma política tecnológica para o país, algo que somente governantes sérios e preocupados com o futuro são capazes de criar. Depois do vergonhoso descaso com que é tratada a educação, principalmente a básica, a indefinição em tecnologia é talvez o problema mais grave para um país que quer se desenvolver (por favor, nem vamos falar agora em corrupção). Se tivéssemos diretrizes claras e bem fundamentadas para o setor, alguns cenários são fáceis de imaginar:

1) Já existiria uma rede de banda larga minimamente confiável implantada, pelo menos, nas 50 maiores regiões metropolitanas do país;

2) Estaríamos livres dos riscos de apagões energéticos e de telecomunicações, que volta e meia assustam os usuários;

3) Poderíamos estar pensando em organizar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada decentes, coisas que a esta altura não passam de miragem;

4) Nossas empresas estariam mais preparadas para disputar mercados pelo mundo afora, gerando mais empregos e trazendo divisas;

5) O próprio governo funcionaria melhor, prestando serviços menos vexatórios, estruturado em redes e aparelhado para atender a maioria das demandas dos cidadãos;

6) E seria mais fácil coibir a corrupção, que se também alimenta de regras incertas (ou da falta de regras).

Bem, listei apenas alguns itens, baseado no que tenho lido e ouvido a respeito. Há inúmeros outros. Esta semana, por exemplo, o vice-presidente do Gartner, uma das maiores consultorias do mundo, deu vários exemplos de como Brasil está atrasado tecnologicamente, inclusive na comparação com seus vizinhos sul-americanos. “Não há uma política costurada, uma prioridade de governo para tecnologia, como há no Chile, na Colômbia e no Peru”, disse Cassio Dreyfuss ao site Convergência Digital. Talvez o fato de o país representar hoje 50% de tudo que se investe em tecnologia na América Latina seja suficiente para os senhores governantes. Certamente, não o é para as futuras gerações.

Outra fonte insuspeita, o economista Ricardo Amorim, cujos artigos e palestras são verdadeiras aulas sobre o desenvolvimento brasileiro e mundial, matou a charada outro dia, ao dizer que nenhum país até hoje atingiu um estágio “desenvolvido” sem antes ter investido pesado em educação fundamental (veja aqui o que ele diz). Quem sabe seja por isso que ficar falando na falta de uma política tecnológica, ou pelo menos uma política industrial que não dependa de acertos políticos escusos, é como falar para uma plateia de surdos. Como vimos nas últimas eleições.

Telas grandes, muito grandes…

Antecipando aquela que promete ser a grande batalha da indústria eletrônica em 2013, a Samsung já começou a vender no Brasil seu TV de 75 polegadas (mod. UN75ES900G, foto), que tem preço sugerido de R$ 25.999 (vejam aqui um vídeo mostrando o produto). A LG também já está comercializando seu modelo de 72″ (72LM9500), que nossa equipe está começando a testar – já testamos o equivalente de 47″ (vejam neste vídeo). Também já passou por nossa sala de testes o monitor Sharp de 80″, este sem acesso à internet, ao contrário dos outros citados. E vamos testar em breve o Sharp de 70″, este sim TV smart.

Pelos dados mais recentes disponíveis, da consultoria alemã GfK, os TVs com painel backlight de led já ultrapassaram os LCDs convencionais no mercado brasileiro. Em julho, os LEDs respondiam por 50,9% das vendas, contra 43,5% dos LCDs e 5,6% dos plasmas, numa curva ascendente que, até o final do ano, deve chegar a 60%. A previsão da indústria é que 2012 bata o recorde de vendas de TVs, superando a marca de 12 milhões de unidades. Não há estatísticas oficiais sobre quanto disso corresponde a telas grandes, mas a Samsung divulgou um dado interessante: 10% de seus TVs de led vendidos têm mais de 47″.

Juntando todos os números, chega-se à conclusão empírica de que os chamados “TVs gigantes” já somam em torno de 700 mil unidades vendidas. Não é pouco, ao contrário, é uma cifra significativa num país onde até outro dia ninguém tinha TV maior do que 50″. Como disse o diretor de marketing da Samsung, Marcelo de Melo Franco, ao repórter Ricardo Marques, da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL, parte desse fenômeno tem a ver com a paixão do brasileiro por telas grandes – na verdade, acrescento eu, paixão por telas maiores que a do vizinho, não importando muito aqui o quesito “qualidade de imagem”.

Os TVs de tela grande que estão chegando, quase todos importados, não vencem a demanda das lojas. Poucas conseguem sequer ter um exemplar para demonstração (fiz eu mesmo a prova esta semana), o que obriga o consumidor a 1) percorrer várias lojas até encontrar um para ver de perto; ou 2) simplesmente comprar sem ver, o que é sempre um risco. Já existem, inclusive, listas de espera para o modelo 4K, de 84″, da LG, que tem preço final estimado em R$ 40 mil e previsão de entrega para final de novembro.

Esse é o surpreendente mercado brasileiro.

Emissoras contra fabricantes

Talvez seja apenas um episódio isolado. Mas, considerando as partes envolvidas, há boas chances de que uma disputa hoje restrita à cidade de Nova York ganhe desdobramentos internacionais. Refiro-me à ação judicial que as seis maiores redes de TV dos EUA (ABC, CBS, Fox, NBC, PBS e Univision) estão movendo para tirar do ar um serviço chamado Aereo. Mantido pelo bilionário Barry Diller, ex-executivo de Hollywood, o Aereo permite que qualquer pessoa na cidade receba os sinais de TV aberta, via internet, inclusive em aparelhos portáteis como tablets e smartphones. Claro que as emissoras não estão gostando nada dessa concorrência.

O problema é que Diller está conquistando apoios inesperados. Numa primeira instância, em julho, a Justiça indeferiu o pedido das redes; depois, duas entidades que defendem a “liberdade total das mídias” saíram em favor do serviço: a EFF (Electronic Frontier Foundation) e a PKP (Public Knowledge). Agora, nesta segunda-feira, foi a CEA (Consumer Electronics Association), representando mais de 3 mil empresas, a maioria fabricantes de aparelhos eletrônicos, que divulgou comunicado apoiando o Aereo. “Temos que lutar contra setores do mercado que insistem em agir como no passado”, disse Gary Shapiro, presidente da CEA, comparando o caso ao vencido pela Sony em 1984, quando os estúdios de cinema quiseram proibir a venda do videocassete alegando quebra de direitos autorais (história que conto em detalhes no livro “Os Visionários“, no capítulo dedicado a Akio Morita, fundador da Sony). “Nos dois casos, a tecnologia ajuda a expandir o público”, comentou Shapiro. “As transmissões abertas são públicas e gratuitas, e o consumidor não pode ser controlado por velhas empresas.”

E por que acho que a questão pode interessar a quem não vive em Nova York? Simples: Diller usa a cidade apenas como piloto de seu projeto, que tem ambições muito maiores. E, com a reação das emissoras, quebra um importante elo que existe (ou existia) entre estas e os fabricantes, dois dos três pilares que sustentam a indústria eletrônica (o terceiro é Hollywood). Se o Aereo realmente for liberado e der certo como modelo de negócio, não há dúvida que outros serviços similares irão se espalhar pelo mundo.

A questão é apenas saber se isso será bom ou ruim. Vamos ver.

Apple dá as cartas na automação

Só pra variar, a Apple ocupou quase todo o noticiário esta semana com seu evento de lançamento do iPad Mini e da nova linha de computadores Mac. Não vou aqui ocupar o leitor falando sobre esses produtos, até porque eles nem estão à venda ainda. Na infindável lista de artigos escritos a respeito, um em particular me chamou a atenção. John Sciacca, colaborador da revista americana Residential Systems, voltada a instaladores e projetistas, levantou o que me parece será o próximo passo da hoje maior empresa do mundo.

Não, adverte Sciacca, não se trata do iTV, famoso projeto de televisor integrado a media center que Steve Jobs teria deixado encaminhado e que a empresa, segundo rumores insistentes, irá lançar em 2013. O autor do texto, que é dono de uma consultoria em projetos eletrônicos, nem acredita que esse produto realmente seja lançado. Para ele, os radares da maçã agora estão apontando para o segmento de automação, especialmente automação residencial. Quem pensou em iPads e iPhones controlando a casa, uma cena hoje comum até no Brasil, está enxergando apenas parte da questão. Sciacca acha que a Apple tem muito mais a oferecer nesse campo.

Confesso que não resisto a concordar com ele quando diz, por exemplo, que os controles de energia a serem usados nas residências dentro de alguns anos serão integrados. E que poderão ser acionados pelo usuário a partir de interfaces tão simples e intuitivas quanto as de um iPhone. Ele se refere aos controles de iluminação automatizada, termostatos e sistemas HVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado, em inglês). E cita um exemplo concreto: o Nest (foto acima), termostato lançado nos EUA em 2011, que foi criado por um ex-funcionário da Apple. Dentro do seu segmento, faz quase tanto sucesso quanto o iPad. Basicamente, é um pequeno painel de parede que informa a temperatura ambiente e pode ser ajustado com toques dos dedos (mais detalhes sobre o produto neste link).

Outro exemplo para confirmar a tese do autor: AirPlay. Esse recurso, patenteado pela Apple, permite transferir arquivos de áudio e vídeo entre aparelhos diferentes, sem necessidade de fios, com extrema velocidade e confiabilidade. Fabricantes de prestígio – Denon, Marantz, B&W, JBL – pagam royalties à Apple para adotar o software AirPlay em seus players, receivers, amplificadores e caixas acústicas, de modo que fica muito mais simples reproduzir os conteúdos de um iPhone ou iPod.

A tese de Sciacca é que a Apple nem precisa se preocupar em fabricar produto algum para conquistar o mercado de automação residencial. Basta dominar, como já domina, o software e o design dos aparelhos, que serão fabricados por outras empresas. O articulista até já tem um nome para essa revolução: AirLife. Seria um aplicativo (ou conjunto de apps) para gerenciamento de uma casa a partir de controles de uso comum, caso dos players que a Apple já produz e de painéis de parede que venham a ser produzidos por terceiros.

Estaria o homem delirando? Não tenha tanta certeza. Pensando bem, AirLife até que um nome simpático.

O mercado de TVs e o futuro

 

 

Prometi na semana passada analisar um pouco mais a fundo o relatório da CEA (Consumer Electronics Association), que indica cinco tendências para o setor de tecnologia nos próximos anos. O texto dedica várias páginas ao segmento de televisores, que embora já não seja o mais rentável é ainda o que dá maior visibilidade às empresas. Com tantos novos produtos surgindo a todo momento, é inegável que o TV continua sendo o “centro das atenções” na maioria das residências. É em torno dele que convergem os demais aparelhos, e isso fica evidente, mais uma vez, quando se discute a questão da “segunda tela”. Sobre esta, porém, falaremos mais à frente.

O quadro abaixo mostra as previsões da CEA para os próximos anos, em cada categoria de TV vendida atualmente, em milhares de unidades. Notem que os 4K só entram a partir de 2013, enquanto os OLED, que atualmente existem apenas na Ásia, ocupam parcela ínfima das vendas. É bom lembrar que esses números não se referem aos itens vendidos pelas lojas, mas sim às quantidades que saem das fábricas. Ainda assim, são bons indicadores para entender a situação.

TIPO DE TV

2011

2012

2013

2014

2015

FULL-HD

15.334

17.053

18.604

20.396

22.142

4K (UHD)

20

190

1.305

REDE

6.431

10.022

13.650

16.782

19.416

3D

2.728

5.565

8.682

12.415

15.030

WEB

3.349

7.334

11.368

14.097

16.775

OLED

10

34

128

503

1.305

A partir de 2012, observa-se certa proporcionalidade entre o crescimento dos TVs Full-HD como um todo e os do tipo smart, como chamamos os modelos que acessam a internet e os que podem se integrar a redes domésticas. Mas as proporções se alteram expressivamente quando se vê a evolução prevista para os TVs 3D; e mais ainda ao analisar as novas tecnologias (4K e OLED). Quer dizer, a indústria acredita mesmo que estas, embora mais caras e direcionadas a nichos de mercado (pelo menos por enquanto), terão crescimento muito rápido.

Quanto aos TVs atuais, ninguém mais tem dúvida de que o caminho está aberto para os modelos com painel de LED, que já neste ano irão representar 55% de todas as vendas de LCDs, devendo atingir 75% até 2015. Plasmas nem são citados no estudo, pois terão participação residual nesse mercado.

O problema, como já comentamos aqui, é que a própria indústria criou uma guerra de preços que, embora beneficie o consumidor, funciona a longo prazo como um tiro no pé dos fabricantes. Descapitalizados e com margens de lucro espremidas, eles hoje sofrem para investir nas novas tecnologias. Concordam que somente estas serão lucrativas, mas terão de convencer o consumidor a fazer mais uma migração – sendo que a última, dos TVs analógicos para os digitais, ainda está acontecendo.

Um desafio e tanto!

As piores tecnologias

Todo mundo já deve ter feito uma lista dessas, pelo menos uma vez na vida: as coisas mais irritantes nos produtos e serviços eletrônicos que usamos diariamente. Na hora da raiva (quando, por exemplo, cai a conexão da internet ou o cartão de crédito não passa na maquininha da loja), dá mesmo vontade de xingar Bill Gates, Steve Jobs e todos os outros “visionários” que inventaram essas coisas.

Mas, calma, não é para tanto. Roberto Baldwin, repórter da revista Wired, a melhor do mundo em tecnologia, respirou fundo e foi conversar com seus colegas da redação para, com muita tranquilidade, escrever uma lista das doze tecnologias que mais os irritam. Algumas são quase que unanimidade, outras nem tanto, e há ainda algumas que foram muito bem lembradas. Vejam só:

1.Comandos de voz – Por mais que esse recurso tenha sido aperfeiçoado, ainda é grande a proporção de falhas. Baldwin e seus colegas concordam que poucas coisas fazem as pessoas perderem mais a paciência do que ficar falando (às vezes gritando) com o celular ou o TV, sem conseguir que o aparelho obedeça.

2.Alarmes de automóvel – Esta certamente tem adesões pelo mundo afora. Quantos de nós já não fomos acordados no meio da madrugada por uma sirene que, na teoria, foi feita apenas para evitar o roubo do veículo, cujo proprietário “esqueceu” de desativar? Ou que simplesmente funcionou por engano?

3.Câmera de iPad – Baldwin e sua turma acham “ridículo” usar um tablet para fotografar, considerando que, na maioria dos casos, os donos possuem uma câmera ou celular que podem fazê-lo com muito mais discrição.

4.Máquina de fax – Aqui, sou obrigado a discordar do colega americano. Ele acha “inadmissível” que alguém ainda use papel; me parece que, em muitas situações, isso é simplesmente inevitável.

5.Secador de mãos – São aquelas geringonças que encontramos em alguns banheiros públicos e que ninguém jamais teve coragem de usar em casa. Você pode até queimar as mãos ali, mas secá-las, mesmo, é difícil.

6.Máquinas de cartão de crédito – Na teoria, é uma ótima ideia: basta passar o cartão e tudo está resolvido. Resolvido? Sim, desde que você digite a senha certa, que as teclas do aparelho estejam funcionando, que a atendente coloque o valor correto, que a conexão com a operadora não caia… Baldwin acrescenta mais um “perigo”: já pensou quantas bactérias estão ali naquele teclado à sua espera, depois que centenas de outros clientes já as apertaram? Bem lembrado.

7.Códigos de barras – Aqui, ainda não é muito comum. Mas, nos EUA, é grande o número de serviços que utilizam o celular como leitor desses códigos: lojas, cinemas, aeroportos, convênios de saúde etc. O problema é que, para cada um, é preciso ter o app baixado no celular. O consolo: a tecnologia NFC (Near-field Communication), muito mais avançada, está chegando.

8.Rádio-relógio – Sim, este é um dos aparelhos mais odiados do planeta; e a foto usada pela Wired para ilustrar o texto (acima) é autoexplicativa a respeito. Infelizmente, alguém precisa acordar em determinada hora. E quem consegue, se não for com essa maravilha tecnológica?

9.Subwoofer de carro – Outra provável unanimidade mundial. Poucas coisas dão mais dor de cabeça do que aqueles motoristas que passeiam tranquilamente com o som a todo volume, como se a cidade inteira estivesse querendo ouvir a mesma música. Aí, tenho que fazer a ressalva, não é culpa da tecnologia, mas do idiota que a está usando.

10.Captcha – Não sabe o que é? São aquelas letrinhas tortas que alguns sites pedem para você digitar, como forma de verificar a autenticidade (ou seja, verificar se você é você mesmo!). É o típico caso de uma tecnologia que ainda não chegou à idade smart.

11.Facebook – Sério. A equipe da Wired incluiu a rede social mais famosa do mundo entre as piores tecnologias já inventadas. Conheço gente que concorda, mas o próprio autor do texto diz que não consegue viver sem. Só não entende (nem eu) por que a toda hora pedem para reconfigurar os controles de privacidade. E, acrescento, por que a toda hora ficam mudando o layout? Coisa de nerd.

12.Jornalistas especializados em tecnologia – Por fim, Baldwin faz sua autocrítica: nunca estudou informática, até os 20 anos mal sabia mexer num computador, e tem a petulância de ficar criticando as coisas que outros inventaram. E que tanta gente usa sem reclamar. Como diria o brilhante Tutty Vasques, ô raça!!!

Alguém quer acrescentar outras à lista?

Custo Apple Brasil!!!

O roubo ao hangar da TAM, em Viracopos, nesta terça-feira, só confirma as suspeitas da Apple. Desde os tempos de Steve Jobs, executivos da empresa evitavam fazer negócios no Brasil, temendo a insegurança jurídica e o excesso de burocracia. De certo, não contavam também com a insegurança física, que agora se configura. Um grupo armado invadiu o galpão da TAM, onde estavam armazenadas caixas contendo centenas de aparelhos Apple, entre computadores, tablets e smartphones. A carga era avaliada em R$ 3,5 milhões. Tudo foi levado pelos assaltantes, que renderam os funcionários da empresa aérea.

O site americano The Next Web, mantido pela Apple, repercutiu a notícia com preocupação, o que é natural. Roubos e outras violências não acontecem só no Brasil. Mas a falta de segurança, à qual todos somos submetidos diariamente, é mais um dos fatores que compõem o chamado “Custo Brasil”. Segundo os economistas, esse indicador seria a soma de todas as despesas pagas pelas empresas para poderem fabricar e/ou importar um produto. No caso de quem fabrica, a lista inclui encargos trabalhistas, custo de manutenção de fábrica, logística de distribuição, transporte e assistência técnica, além dos tributos que atingem todas as empresas; neste ponto, aliás, o Brasil inovou ao criar os impostos em cascata, algo que as maiores ditaduras do planeta ainda não conseguiram copiar (ou não tiveram coragem de).

Já para empresas importadoras, há os custos relativos ao processo tecnicamente conhecido como “internação”, que inclui uma complexa burocracia, recheada de taxas, guias e demais complicadores. Um relatório recente do Fórum Econômico Mundial (vejam aqui) colocou o Brasil entre os piores países do mundo nesse aspecto. Analisando cerca de 180 nações onde esses dados podem ser medidos, o Fórum chegou à conclusão de que nosso país ocupa as seguintes posições:

144° lugar em excesso de regulação

144° lugar em efeitos nocivos da tributação

135° lugar em desperdício

130° lugar em facilidade para abrir uma empresa

121° lugar em confiança nos políticos

111° lugar em eficiência do governo

Não é por acaso, portanto, que o novo iPad Mini, lançado hoje pela Apple nos EUA ao preço de US$ 329, chegará aqui por algo entre R$ 1500 e R$ 1.800, ou seja, duas a três vezes mais caro. Já comentamos o assunto em outros posts; no Brasil tudo é absurdamente mais caro, da comida aos supérfluos, das bugigangas aos bens duráveis, das viagens aos aluguéis. Há quem diga que a causa seja a ganância das empresas, e é difícil negar esse argumento, em alguns casos. Mas, a meu ver, as causas principais se localizam em duas áreas: a governamental e a comportamental.

De um lado, temos um governo que a cada dia aperfeiçoa sua máquina de arrecadação, criando novas taxas e tributos e, ao mesmo tempo, fingindo que não vê a corrupção e as extorsões cometidas por fiscais e agentes do Estado. Mais ainda: gastando onde não devia e deixando de cuidar da infraestrutura, que poderia tornar os produtos muito mais baratos. Ou alguém duvida que os cerca de 1.400 itens roubados em Viracopos irão chegar ao mercado, via camelôs e vendedores “alternativos”?

Do outro lado, temos a própria atitude da população que, como bem apontou o antropólogo Roberto da Matta, assume duas posturas diferentes, conforme a situação. Ou aceita, submissa, a imposição de mais tributos, taxas e custos burocráticos; ou até gosta de pagar mais caro, chegando a se orgulhar disso, como se fosse prova de status.

Seja qual for a verdade, estamos roubados!

Brasil grande, Brasil maior

O título acima é de um artigo publicado no último fim de semana pela Folha de São Paulo, de autoria do excelente jornalista Gustavo Patú. Especializado em economia, principalmente administração pública, Patú foi buscar dados que ilustram à perfeição a forma como o atual governo cuida de suas contas. O Programa Brasil Maior, lançado pela presidente Dilma, nada mais é do que uma reedição modernizada do “Brasil Grande”, criado no governo Geisel, nos anos 1970. E quem afirma isso é o próprio ministro da Fazenda de Dilma, Guido Mantega, em artigo publicado em 1997, como pesquisador da Fundação Getulio Vargas.

Não conseguiram ser originais nem no título do programa!

Satélite brasileiro não decola

Corre o risco de ir para os ares (sem trocadilho) o projeto de um novo satélite geoestacionário brasileiro, que seria destinado exclusivamente ao setor de telecom. Com ele, dizem alguns experts, o país conseguiria prover banda larga de qualidade (até 50Mbps) até às regiões mais remotas da Amazônia. Ao ler a notícia, fui pesquisar mais a fundo, pois não sou especialista.

No blog Brazilian Space, vejo que Duda Falcão, um dos que mais entendem do assunto, questiona aspectos do projeto. Primeiro, o prazo de lançamento: final de 2014, totalmente inexequível, já que até agora não foi assinado o contrato com a empresa fornecedora da tecnologia (dizem que será a japonesa Mitsubishi). Como de hábito neste governo, anunciam-se metas como se fossem dados consumados, apenas para fazer demagogia e mostrar que o país está evoluindo. Foi assim com a fábrica brasileira de chips, com a história dos tablets, depois os displays de cristal líquido…

No caso do satélite, uma diferença importante em relação ao projeto original é que seu uso não será exclusivo do setor de telecom. As Forças Armadas também pretendem utilizá-lo para melhorar a segurança de fronteiras, o que me parece sensato. Para tocar o projeto, foi criada uma empresa cujo controle é dividido entre Telebrás, Ministério das Comunicações e a ex-estatal Embraer, a quem caberia o gerenciamento. Pelo que pude apurar, um projeto desse tipo tem custo aproximado de R$ 1 bilhão. A área econômica do governo ainda não sabe de onde tirar o dinheiro (vejam aqui alguns dados do Minicom).

Outro projeto que envolve a Telebrás, e está parado por indefinição financeira, é o da expansão da rede de cabos submarinos que hoje dá suporte às redes de dados. Como em tantos outros projetos estatais, a Odebrecht, construtora que financia a maior parte das campanhas eleitorais do PT, foi chamada a cuidar deste. Mas não topou entrar sozinha, e agora busca-se um sócio, de preferência estrangeiro, que traria também a tecnologia necessária.

Pela enésima vez, quando se trata de tecnologia – setor eminentemente técnico, que exige planejamento e visão de futuro – o governo está patinando. É o que acontece quando se unem incompetência gerencial e interesses políticos.

 

Obama vs Romney: e o mercado?

O site da revista americana Commercial Integrator, voltada a profissionais de projetos e instalação, marcou um belo gol esta semana, ao comparar as propostas dos dois candidatos à presidência e como elas podem afetar o setor. Confesso que fiquei com inveja, ao lembrar do nível das campanhas eleitorais brasileiras, a atual e quase todas as anteriores. Não me lembro de ter visto um candidato a presidente, aqui, discorrer sobre ideias para estimular o setor de tecnologia. Quase sempre, acusações de lado a lado (raramente investigadas e/ou comprovadas), ou tópicos religiosos, dão o tom das campanhas. Programas, mesmo, ninguém tem. E, quando tem, não cumpre.

Vou tentar aqui resumir a avaliação sobre as propostas de Obama e Romney que têm a ver com as empresas e os trabalhadores ligados à indústria eletrônica.

1) Enquanto Obama promete cortar os impostos pagos pelas pequenas e médias empresas (que constituem a maioria no segmento), Romney não é tão enfático a respeito, deixando dúvidas no ar. Garante que não irá aumentar impostos de nenhuma empresa, grande ou pequena, o que é muito vago. Obama já tem um plano em andamento, o chamado JOBS (Jumpstart Our Business Startups, algo como “estímulo ao surgimento de novas empresas”). O plano prevê mais financiamento para quem quiser abrir seu próprio negócio, aumentando de 5 para 50 milhões de dólares o teto para esses empréstimos; e menos burocracia para pequenos e médios empreendedores venderem ações e, com isso, capitalizar suas empresas. Obama também propõe criar um fundo de US$ 1 bilhão para financiar investimentos de pequenas empresas (até 50 funcionários); Romney nada diz a esse respeito.

2) Por ter sido empresário de sucesso, antes de governador, Romney é visto por muitos como mais capacitado a entender as necessidades do país, no momento em que tantas empresas estão em dificuldade. Enquanto Obama promete aumentar os impostos pagos pelos mais ricos para diminuir o déficit atual, Romney garante que não fará isso. Com esse argumento, profissionais dos setores de construção e projetos apoiam Romney, alegando que os ricos são os maiores consumidores de seus produtos. O ex-governador propõe cortar de 35% para 25% a taxação sobre empresas (Obama promete 28%), justificando que isso as fará contratar mais gente.

3) Os dois candidatos concordam que é preciso atrair as empresas americanas a produzirem no próprio país, e não construir fábricas na Ásia como têm feito. Mas Obama é claro em criar incentivos fiscais às que o fizerem, enquanto Romney não incluiu isso em seu programa.

4) O atual presidente também lançou um polêmico programa de assistência médica, apelidado “Obamacare”, que na prática concede incentivos a empresas que ofereçam planos de saúde a seus funcionários. Já Romney diz que isso vai significar mais custos, levando as empresas a contratar menos. Além disso, argumenta que a medida é um desestímulo à inovação na área médica.

De modo geral, enquanto trabalhadores e pequenos empresários apoiam Obama, a maioria dos executivos e donos de grandes empresas defendem Romney. O próprio Gary Shapiro, presidente da CEA (Consumer Electronics Association), que representa os fabricantes de eletrônicos, não perde uma só oportunidade para criticar Obama e defender Romney. Não é por acaso, como se vê.

Fim de ano em 4K?

Nem bem chegaram às lojas dos EUA, e os TVs 4K já estão mexendo com o mercado por lá. Como será aqui? Relatório divulgado esta semana em evento da CEA (Consumer Electronics Association) mostra otimismo com a novidade, tendo em vista o final de ano. Sony e LG confirmaram o lançamento de seus modelos de 84 polegadas, aqueles mesmos que vimos na IFA (confiram aqui), devendo estar nas prateleiras até o final deste mês. Para o Brasil, a LG informa que houve atraso na chegada dos aparelhos, que vêm da Coreia, e agora a previsão é de estar nas principais lojas em novembro.

Independente da qualidade dos produtos, que certamente causarão grande impacto em quem está acostumado às imagens Full-HD, a tecnologia 4K é vista como oportunidade para o varejo americano, pela primeira vez em muitos anos, não ficar dependente de descontos e promoções de Natal. Em plenos preparativos para a Black Friday (sexta-feira do feriado de Ação de Graças, que este ano cai em 23 de novembro), quando por tradição todos os varejistas concentram suas promoções, a indústria eletrônica percebeu que os TVs 4K podem ser a cereja desse bolo.

Explico. Há anos que os fabricantes não conseguem manter suas margens de lucro em TVs. Com a guerra de preços, também os lojistas – pelo menos a maioria – constataram que esses aparelhos servem mais para atrair clientes às lojas do que propriamente para encher o caixa. Esse é um fenômeno mundial. A única maneira de enfrentá-lo é lançando algo completamente diferente, e bem mais caro. Se uma quantidade razoável de consumidores estiver disposta a pagar por isso, aí sim se conseguem margens mais compensadoras.

(Cabe aqui uma breve pausa: por mais que se odeie o capitalismo, ninguém até hoje descobriu uma fórmula de manter as empresas funcionando e gerando empregos sem preservar suas margens de lucro. Até o velho Marx concorda!)

O TV 4K da LG tem preço estimado de US$ 20 mil para os EUA (cerca de R$ 40 mil para o Brasil), enquanto o da Sony sai por US$ 25 mil (sem previsão para o mercado brasileiro, por enquanto). Certamente, poucas famílias poderão adquiri-los, mas quando se vê uma pesquisa como esta, da Nielsen, indicando que existem mais de 13 milhões de famílias americanas com alto poder de compra, embora não sejam milionárias, percebe-se que a indústria está correta. Se 0,1% delas comprarem um TV 4K, já serão 13 mil aparelhos vendidos – a propósito, quantas famílias desse nível haverá no Brasil?

Não sei se isso resolve o problema de fabricantes e lojistas, mas com certeza ajuda. Sem falar que muita gente vai querer ir às lojas só para ver um TV 4K funcionando. E, aproveitando a viagem, sempre acabam levando alguma coisa. Ou não?

Caixinhas mágicas

O termo set-top box (hoje encurtado para STB) faz parte do vocabulário tecnológico há pelo menos uns dez anos. Virou genérico para definir os conversores de sinal ligados aos TVs; como hoje quase todo TV tem conversor embutido, a sigla foi adaptada para identificar várias outras caixinhas de uso comum num equipamento de áudio/vídeo. Os americanos usam STB, por exemplo, quando se referem aos receptores que transferem conteúdo da internet para o TV, serviços de sucesso hoje entre eles, como Roku, Hulu e até o Apple TV.

Mas acaba de sair por lá uma caixinha que está empolgando os experts. É a nova versão do Boxee Box, media center lançado aqui no ano passado. Agora chamado Boxee Live TV, o aparelho – que custa US$ 99 – vem com sintonizador HDTV dual (pode captar o sinal de duas emissoras ao mesmo tempo); entrada para antena ou conector de TV a cabo; guia próprio de programação; uma série de aplicativos já integrados (Netflix, Vimeo e Vudu entre eles); e até gravador DVR. Melhor ainda: o gravador funciona em nuvem, ou seja, todos os conteúdos gravados ficam salvos no servidor da D-Link (fabricante do aparelho) e podem ser acessados a partir de qualquer navegador de internet, mesmo sem o Boxee Live TV. Portanto, não há limite de memória para armazenar as gravações.

Tudo isso custa 14 dólares por mês, o que é considerado nos EUA um preço razoável – aqui, seria uma pechincha. Bem, não estou fazendo propaganda do produto, embora possa parecer. No Brasil, um aparelho cujo funcionamento depende fundamentalmente da banda larga é sempre investimento de risco. E também não sou muito chegado a essa história de nuvem. Uma jornalista da revista Electronic House, por exemplo, perguntou: o que acontecerá com meus arquivos salvos na nuvem se a empresa sair do mercado? Bem lembrado. Quem gosta de salvar seus arquivos – de música, vídeo, fotos etc. – dificilmente vai querer mantê-los num servidor remoto; no mínimo, os manterá em backup bem guardadinhos em casa.

De qualquer modo, o lançamento do Boxee Live TV é mais um exemplo da transformação que estamos vendo no mercado de áudio e vídeo. Saem os conteúdos lineares, cujos formatos e horários são decididos pela emissora ou operadora, e entram os serviços OTT (over-the-top), que na prática representam o fim da STB.

Aguardem os próximos capítulos. Enquanto isso, leiam este artigo, muito oportuno a respeito.

Panasonic fora do mercado de LCD?

Não costumo divulgar boatos aqui, mas este parece vir de boa fonte: o grupo Panasonic estaria estudando sua saída do segmento de TVs LCD, para se concentrar no fornecimento de painéis para dispositivos portáteis. E já teria um belo cliente engatilhado: uma tal de Apple. A notícia saiu ontem num pequeno jornal de negócios japonês, o Diamond Online, e foi repercutida imediatamente. Claro que a empresa não se manifestou até agora e, portanto, é uma informação extraoficial. Mas, segundo o blog Apple Insider, sempre bem informado quando se trata de Apple, já foram até enviadas amostras de painéis para iPad, que a empresa americana estaria analisando. Depois dos problemas registrados com a última versão do tablet e sua tela Retina, a conversa é que a Apple decidiu rever seu esquema com os fornecedores.

Não foram poucos os que acharam estranho, dois anos atrás, quando a Panasonic começou a vender TVs LCD – justamente ela que sempre defendeu ardorosamente o plasma. A explicação foi que a demanda por LCDs crescia, enquanto o plasma se tornava um produto de nicho. O problema é que são exatamente os produtos de nicho que dão lucro. Como já comentamos aqui várias vezes, o desafio dos fabricantes hoje é evitar prejuízos, o que só pode ser feito de duas formas – aumentando os preços ou reduzindo os custos. Ambas, hoje, aparentemente inviáveis.

Vamos aguardar a confirmação da notícia.

A melhor jornalista do Brasil

Tantas bobagens vêm sendo ditas e escritas sobre o julgamento do mensalão que é justo ressaltar quando alguém publica aquilo que realmente interessa. É o caso de Miriam Leitão, em sua coluna de domingo último no jornal O Globo, sob o título “A Grande Lição“. Merece ser lida, compartilhada, republicada e discutida em faculdades de jornalismo e de direito. Numa linguagem simples, característica dos grandes jornalistas, Miriam mostra os erros que as duas partes em disputa (no caso, petistas e tucanos) cometem a respeito do escândalo e das punições aplicadas pelo STF.

Basicamente, tucanos acusam o PT de ser o único responsável pela corrupção que se alastrou no país, desconhecendo práticas que vêm dos tempos do Império; e petistas tentam desmoralizar a principal corte brasileira, como se esta não tivesse, pela primeira vez em muitos anos, cumprido exatamente o seu dever: aplicar a lei. Se eu pudesse acrescentar algo a um texto tão brilhante, lamentaria apenas que a imprensa vem sendo levianamente usada pelos dois lados, que se aproveitam da ignorância política vigente. Tentam reduzir tudo a uma disputa do bem contra o mal, típica de um cenário político empobrecido, onde as pessoas só conseguem enxergar dois lados. Em suma, um maniqueísmo comum em países sem educação e culturalmente subdesenvolvidos.

Quanto a Miriam, seu texto não me surpreende. Foi uma das primeiras jornalistas a discutir os rumos do país na televisão, a sério, sem se deixar levar pelo glamur do veículo; consegue acompanhar e analisar uma variedade de temas interessante sem ser chata nem sensacionalista; mantém há anos uma isenção rara de se encontrar na imprensa brasileira; escreveu um livro (“Saga Brasileira“) em que consegue explicar como sobrevivemos a tantas mudanças de moeda; e, de quebra, ainda produz obras-primas, como a série de reportagens sobre o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, preso pela ditadura militar em 1971, que foi ao ar meses atrás na Globo News (aqui, a versão publicada em O Globo; a reportagem está disponível no serviço Globo.TV, do portal Globo.com).

Essa mulher é fera!

Google TV, enfim, sai do mundo virtual

A Sony anunciou para novembro a chegada às lojas brasileiras do Google TV, acessório que vai permitir acessar a internet através de qualquer televisor, mesmo que não seja do tipo smart. Com preço inicial de R$ 899, o lançamento significa um grande passo da empresa para consolidar a plataforma Sony Entertainment Network, sua rede mundial de entretenimento e serviços. Quem tem um TV Sony adquirido recentemente já deve ter experimentado; os usuários do PlayStation 3 também, através das atualizações oferecidas pela empresa; agora, o acesso se amplia a todo consumidor que comprar o Google TV.

Um dos trunfos da Sony nesse projeto é a parceria com a Globo, através do serviço Globo.TV, que já comentamos aqui. Trata-se da primeira investida do maior grupo de mídia brasileiro no chamado OTT (over-the-top). Acessando o site, é possível assistir, de graça, a conteúdos exibidos pela emissora, não exatamente ao vivo, mas poucas horas depois de irem ao ar. Hoje, esse privilégio é dos assinantes do portal Globo.com. Segundo a Sony, quem adquirir o Google TV também entrará nesse grupo, além de receber Netflix, Saraiva Digital e outros serviços OTT.

Nos EUA, o Google TV já foi lançado, mas ainda não se pode afirmar que seja um sucesso. Não sabemos se as especificações do modelo brasileiro serão as mesmas. Aqui, a Sony nem utiliza a marca Google; chama-o de “Internet Play”. Lá, a caixinha (foto acima) tem memória interna de 8GB, saída óptica para áudio e controle remoto com touchpad, teclado e sensor de movimentos; o comprador americano ainda tem direito a descontos na loja Google Play. Aqui, a Sony anunciou início da pré-venda para ontem (dia 15), mas até o momento em que escrevo (17h30 do dia 16) o produto não está na loja oficial da empresa.

O preço é de US$ 183, mas é bom saber que o aparelho vendido lá não funciona com TVs brasileiros, que exigem a certificação da Anatel.

As cinco tendências da hora

A CEA (Consumer Electronics Association) divulgou hoje seu tradicional relatório anual com as cinco principais tendências tecnológicas para os próximos anos. A saber:

1. Impressão em 3D

2. As próximas gerações de TVs e displays

3. A evolução do mercado de áudio

4. A revolução móvel na África

5. Tecnologia na educação

A ordem dos temas não implica a importância de cada um para a indústria. Trata-se, basicamente, de cinco setores que a entidade, ao pesquisar os negócios de seus mais de 2 mil filiados pelo mundo afora, considera com maior potencial de expansão ao longo desta década. Embora atraia grande curiosidade, a tecnologia de impressão em 3D, por exemplo, ainda vai levar alguns anos para se popularizar. A estimativa da CEA é que o faturamento global do setor este ano fique em torno de US$ 1 bilhão, podendo atingir US$ 3 bi em 2015.

Sobre a introdução das tecnologias móveis na África, não vamos comentar muito. Já as tecnologias voltadas à educação, reconhecidas como uma necessidade tanto nos países mais avançados quanto nos mais pobres, estão se desenvolvendo rapidamente. Mas é difícil quantificar seus custos, assim como os investimentos necessários para torná-la uma realidade, pois isso depende de como cada país trata o setor educacional (e, nesse aspecto, como sabemos, o Brasil ainda muito mal).

Falando especificamente do mercado de áudio, fiquei surpreso ao vê-lo incluído numa lista de setores com melhores perspectivas de crescimento. Afinal, o número de fabricantes de equipamentos vem caindo continuamente, e a venda de CDs – que dez anos atrás beirava 900 milhões de cópias – hoje mal passa de 200 milhões, e com tendência de queda. No entanto, dizem os pesquisadores da CEA, aí está um setor que merece ser olhado com atenção. O que antes se identificava como ‘audio high-end’ custa tão caro que somente milionários têm acesso. Já os produtos que procuram atender a conveniência do usuário, com base no uso intenso de música em MP3, estão deixando de ser ‘descartáveis’. O exemplo mais citado é o das soundbars, hoje adotadas até por marcas sagradas como a inglesa B&W. “Agora é a hora dos fabricantes ganharem dinheiro com áudio de qualidade”, resume Paul Geller, diretor  da Grooveshark, empresa de venda de música online, citado no relatório da CEA.

O que ele quer dizer com isso? Que uma soundbar não precisa necessariamente ser de má qualidade, como muitos pensam, pois a tecnologia atual permite fazê-la com recursos de áudio interessantes. O mesmo é dito em relação aos receivers A/V, que comandam os sistemas de home theater. Hoje, são comuns os modelos que acessam a internet e se integram a redes Wi-Fi, permitindo a transferência de arquivos com relativa facilidade, sem prejudicar a resolução sonora. Acrescente-se a isso a extraordinária evolução dos fones de ouvido, e aí está a razão por que o pessoal da CEA coloca o setor de áudio entre suas prioridades.

Vale a pena pensar sobre tudo isso. Para acessar o relatório na íntegra, este é o link. Amanhã, comentaremos sobre as previsões para o setor de TVs e displays.

 

Olho na tela, tela no olho

Talvez ainda seja cedo para afirmar, mas uma das tecnologias com mais chance de vingar nos próximos anos é a chamada eye-tracking. Na Ceatec, feira de tecnologia que aconteceu no Japão há duas semanas, a Fujitsu surpreendeu grande parte dos especialistas ao demonstrar seus avanços nessa área. Já é possível comandar uma tela apenas com os olhos, sem ter que usar as mãos!!!

O segredo está em câmeras e diodos microscópicos instalados no display. As câmeras são parecidas com as que hoje equipam alguns notebooks e permitem videochamadas, como no Skype. Só que são de alta sensibilidade e possuem sensores capazes de ler os movimentos da pupila. Com isso, o usuário consegue mover o cursor simplesmente olhando para determinado ponto da tela. Um processador acoplado à câmera capta essa informação e aciona os comandos do computador, tudo isso em milésimos de segundo.

Este vídeo mostra como funciona.

Digo que o eye-tracking tem boas perspectivas porque há uma boa quantidade de empresas investindo nessa tecnologia. Uma delas até mostra o que está fazendo, neste site, inclusive com um vídeo sobre as vantagens no trabalho, na educação e em outras áreas. É bom ficar de olho. Literalmente!

Um grande brasileiro

Em meio à avalanche de mensagens que recebemos sobre as eleições, incluindo aquelas enviadas por pessoas de quem nunca ouvimos falar, uma me chamou a atenção há alguns dias. Era o link para um depoimento do jurista, professor e ativista político Helio Bicudo. Está no YouTube, mas não sei se todo mundo assistiu, por isso deixo aqui o link. A parte que trata da briga entre os partidos, especialmente PT x PSDB, não traz nada de novo. Mas as falas desse homem são uma verdadeira lição; aliás, várias lições: de fé democrática, de honestidade, de ética e de coragem. Acompanhei, como jornalista, boa parte de sua história. Bicudo foi um dos milhões de brasileiros que lutou contra a ditadura, foi perseguido por ela e que, mais tarde, acreditou na ideia de um partido diferente, democrático e voltado aos interesses do país, não apenas de seus dirigentes. Claro, decepcionou-se. E, agora, relata essa decepção em detalhes, que talvez possam inspirar outros a não cair na mesma armadilha.