Falando para surdos

Já escrevi aqui que, para mim, os últimos dez anos foram de enorme atraso para o Brasil no campo tecnológico. Aliás, nem fui muito original. Vários analistas independentes – digo, que não têm rabo preso com o governo – já afirmaram o mesmo, inúmeras vezes. Meu colega Ethevaldo Siqueira, decano dos jornalistas especializados em tecnologia, encerrou recentemente sua colaboração com o Estadão (onde escrevia desde 1967) depois de repetir a crítica “n” vezes.

Falo da falta de uma política tecnológica para o país, algo que somente governantes sérios e preocupados com o futuro são capazes de criar. Depois do vergonhoso descaso com que é tratada a educação, principalmente a básica, a indefinição em tecnologia é talvez o problema mais grave para um país que quer se desenvolver (por favor, nem vamos falar agora em corrupção). Se tivéssemos diretrizes claras e bem fundamentadas para o setor, alguns cenários são fáceis de imaginar:

1) Já existiria uma rede de banda larga minimamente confiável implantada, pelo menos, nas 50 maiores regiões metropolitanas do país;

2) Estaríamos livres dos riscos de apagões energéticos e de telecomunicações, que volta e meia assustam os usuários;

3) Poderíamos estar pensando em organizar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada decentes, coisas que a esta altura não passam de miragem;

4) Nossas empresas estariam mais preparadas para disputar mercados pelo mundo afora, gerando mais empregos e trazendo divisas;

5) O próprio governo funcionaria melhor, prestando serviços menos vexatórios, estruturado em redes e aparelhado para atender a maioria das demandas dos cidadãos;

6) E seria mais fácil coibir a corrupção, que se também alimenta de regras incertas (ou da falta de regras).

Bem, listei apenas alguns itens, baseado no que tenho lido e ouvido a respeito. Há inúmeros outros. Esta semana, por exemplo, o vice-presidente do Gartner, uma das maiores consultorias do mundo, deu vários exemplos de como Brasil está atrasado tecnologicamente, inclusive na comparação com seus vizinhos sul-americanos. “Não há uma política costurada, uma prioridade de governo para tecnologia, como há no Chile, na Colômbia e no Peru”, disse Cassio Dreyfuss ao site Convergência Digital. Talvez o fato de o país representar hoje 50% de tudo que se investe em tecnologia na América Latina seja suficiente para os senhores governantes. Certamente, não o é para as futuras gerações.

Outra fonte insuspeita, o economista Ricardo Amorim, cujos artigos e palestras são verdadeiras aulas sobre o desenvolvimento brasileiro e mundial, matou a charada outro dia, ao dizer que nenhum país até hoje atingiu um estágio “desenvolvido” sem antes ter investido pesado em educação fundamental (veja aqui o que ele diz). Quem sabe seja por isso que ficar falando na falta de uma política tecnológica, ou pelo menos uma política industrial que não dependa de acertos políticos escusos, é como falar para uma plateia de surdos. Como vimos nas últimas eleições.

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