Archive | março, 2013

Memórias em transe

Pessoas que nunca viveram numa ditadura têm o direito de achar que talvez, quem sabe, até se poderia aceitar alguma perda de liberdade, em troca da “solução” de problemas como miséria, corrupção, criminalidade etc. Talvez. Mas é triste ler e ouvir de gente com mais de 50 anos – e que, portanto, sentiu na pele (se é que estavam acordados) a truculência do regime militar brasileiro – elogios a Cuba, Venezuela e Irã, como se fossem exemplos de democracia.

filme-tropicaliaNos últimos anos, com a insana disputa entre PT e PSDB, comentários desse tipo tornaram-se comuns, rebaixando o debate político a uma reles discussão de botequim (e me desculpem os donos de botequins). Para quem acha tudo isso natural, e até desejável, nada como um banho de história, principalmente se for a história do país (bem) contada por seus protagonistas. É o caso do documentário Tropicália, recém-lançado em DVD e Blu-ray, que se propõe a relatar o movimento tropicalista, que chacoalhou o Brasil nos anos 1960, em plena ditadura militar. Quem conseguir assisti-lo sem travas nos olhos e nos ouvidos há de perceber que muito do que aconteceu entre 1967 e 1972 tem a ver com os fatos atuais, embora o contexto seja completamente diverso.

Uma breve sinopse: o tropicalismo começou como um movimento musical, liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, que propunha uma abertura às influências estrangeiras, notadamente o rock (americano e inglês) e a música latina, mas ao mesmo tempo resgatando manifestações típicas do país, como os ritmos nordestinos e a música caipira. Caetano e Gil queriam integrar a então chamada “música jovem” (representada por Roberto Carlos e a Jovem Guarda) com a bossa nova, o baião, o samba de origens afro e a poesia concreta, incorporando Beatles, Hendrix etc. Foi um movimento tão forte que ganhou as telas da televisão e atraiu artistas e intelectuais do cinema, teatro, artes plásticas. Tudo isso em 1967, quando ficava claro que o governo militar instalado em 64 não pretendia permitir a volta da democracia.

Como diz o cantor e compositor Tom Zé a certa altura do filme, “na ditadura pensar é proibido”. Mais do que perseguir inimigos políticos, o governo militar parecia incomodado com o fato de um grupo de artistas querer estimular o povo a pensar, e de usar para isso seu enorme talento. O documentário, dirigido brilhantemente por Marcelo Machado e co-produzido por Fernando Meirelles, mostra como a sociedade brasileira não entendeu a mensagem dos tropicalistas, embora adorasse suas músicas. E, na mão inversa, relata como o grupo não captou os sinais de que o conservadorismo era (acho que ainda é) um valor quase sagrado para a maioria da população brasileira. Rogerio Duarte, escritor e um dos mentores do movimento, resume bem a situação em seu depoimento: “Como diríamos na linguagem atual, para nós não caiu a ficha.”

tropicalia_405O roteiro do filme amarra habilmente os depoimentos a sons e imagens da época (a morte de Che Guevara, as passeatas estudantis, ídolos da TV como Chacrinha e filmes como Terra em Transe, de Glauber Rocha, e O Bandido da Luz Vermelha, de Rogerio Sganzerla) e ícones do Brasil (Getulio, Carmen Miranda), o que na tela vale como um imenso caldeirão tupiniquim. Mostra o início das carreiras de Gal Costa, Maria Bethania e Os Mutantes, em contraponto à morte do estudante Edson Luis, no Rio, episódio marcante da luta contra a ditadura. Funde efeitos sonoros usados em músicas tropicalistas com sons “da rua”, captados em gravações inéditas, que a equipe de produção conseguiu encontrar. Recupera o famoso discurso de Caetano na PUC-SP, em 15 de setembro de 1968, vaiado ao cantar sua simbólica “É Proibido Proibir”, dias depois da invasão de um teatro que exibia a montagem de O Rei da Vela, peça iconoclasta de Oswald de Andrade encenada por Zé Celso Martinez Correia. “Mas é isso que é a juventude deste país?”, pergunta Caetano, revoltado. “Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos.”

Como se sabe, o tropicalismo acabou de forma melancólica logo após o AI-5, em dezembro de 68, quando Caetano e Gil foram presos, depois exilados. Ao voltarem, em 72, tinham a recomendação de se manter calados, preço que tiveram de pagar para encerrar o insuportável exílio. O documentário fecha com depoimentos atuais dos dois, e também de Tom Zé (que faz, a seu estilo, uma primorosa análise do que o movimento significou), Rita Lee, Arnaldo e Sergio Baptista (os Mutantes). Emocionantes as imagens de Gil e Caetano, em backlight, assistindo num telão a cenas em preto-e-branco da época, e cantarolando trechos de “Back in Bahia”, música de Gil que é uma espécie de “hino da volta”.

Se faltou alguma coisa ao documentário, talvez tenha sido um ou dois depoimentos de quem estava “do outro lado”, quem sabe algum desses militares aposentados que detestam pensar e só sabem obedecer. E não deixa de ser irônico o fato de que o filme, da produtora Bossa Nova Filmes, foi todo financiado com dinheiro público. Os patrocinadores listados nos letreiros são Petrobrás, BNDES, governo da Bahia… Os petistas devem achar que é uma produção “contra a ditadura”. Na verdade, é a favor de um outro Brasil, um Brasil que pensa, e que, pelo menos por enquanto, ainda não existe.

Samsung começa a comprar a Sharp

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Nesta semana, foi confirmada a negociação entre a coreana Samsung e a japonesa Sharp. Esta emitiu ações no valor equivalente a US$ 112 milhões, ou 3,08% do capital de sua divisão de displays (a maior do grupo), que foram compradas pela Samsung. O negócio faz sentido, embora tenha surpreendido muitos analistas de mercado. Significa quase uma rendição dos japoneses aos coreanos, responsáveis em grande parte pela crise que assola o Japão há alguns anos, especialmente no setor eletrônico.

Faz sentido porque resolve alguns problemas dos dois grupos. Para a Samsung, é um bom negócio por vários motivos. Além de significar um pé (ainda pequeno) dentro da indústria japonesa, permitirá continuar produzindo TVs LED-LCD com componentes fornecidos por terceiros, concentrando suas instalações na produção de painéis OLED. Como se sabe, a Samsung está atrasada nesse campo, pois sua rival LG já está lançando um TV OLED (vejam este vídeo). Para tirar o atraso, precisa investir rápido. A ideia é adaptar suas fábricas atuais para a nova tecnologia, que é muito mais delicada, e terceirizar a produção de painéis LED. A Sharp é hoje a segunda maior fabricante desse componente, fornecendo inclusive para a Apple (dizem que é de lá que vai sair o tão aguardado iTV). Com o acordo, a Samsung terá prioridade no fornecimento de painéis da Sharp.

Para a Sharp, que vive a maior crise financeira de sua história, o aporte da Samsung significa uma ajuda fundamental. Embora pequeno diante do prejuízo de US$ 5 bilhões, acumulado no ano fiscal que termina este mês, o investimento da Samsung sinaliza para o mercado uma possível recuperação do grupo japonês. No final do ano passado, fracassaram as negociações da Sharp com a chinesa Hon Hai (dona da Foxconn), que investiria cerca de US$ 7 bilhões na empresa. Em dezembro, a Sharp anunciou acordo com a americana Qualcomm, que investirá US$ 120 milhões no grupo. Segundo o jornal Yomiuri Shinbum, além de amenizar as dívidas, o investimento da Samsung irá ajudar a Sharp a alavancar a nova tecnologia Igzo (foto), tida como provável concorrente do OLED.

Na quarta-feira, quando o negócio foi anunciado, as ações da Sharp na Bolsa de Tóquio subiram 19%. Mas a situação ainda é dramática: uma parte da dívida (inacreditáveis US$ 3,75 bilhões) vence em 30 de junho, e outros US$ 2,08 bilhões terão de ser pagos até setembro. Há ainda dívidas previdenciárias não calculadas; o jornal diz que o grupo precisa de mais de US$ 1 bilhão para não cair numa situação de capital inadequacy, que seria algo como pré-insolvência.

Como desgraça pouca é bobagem, e não faltam gaviões nessas horas, já circula nos bastidores da indústria que o acordo com a Samsung pode significar um conflito da Sharp com a Apple, seu “maior cliente” atualmente. Como se sabe, Apple e Samsung são os dois gigantes da tecnologia, concorrentes diretos nas áreas de tablets e smartphones, e vivem brigando na Justiça. A empresa de Cupertino não deve gostar de saber que agora a Samsung é 3% dona de seu principal parceiro, o que pode ser apenas um primeiro passo para se tornar dona, de fato, no futuro.

Vá produzir displays com um barulho desses!

Reclamar, sim. Mas também fiscalizar.

cliente-A Anatel divulgou nesta quinta-feira seu primeiro relatório sobre os planos das operadoras de TV por assinatura, divulgados no ano passado, para melhoria de seus serviços. Para quem vive criticando a Agência, como é o nosso caso aqui, é importante (e mais do que justo) saudar essa iniciativa. Tomara que esses relatórios se tornem mais frequentes.

Basicamente, são dados estatísticos que ajudam no acompanhamento da qualidade dos serviços. O relatório inclui as sete maiores prestadoras: Net, Sky, Vivo/Telefônica, Claro/Embratel, Oi, GVT e Algar. Para cada uma, é indicada a situação em outubro de 2012, especialmente a quantidade e o tipo de reclamações dos assinantes, e o que as empresas prometiam fazer para corrigir os problemas. Claro, não se pode afirmar que 100% das alegações são sinceras, nem que as promessas estejam sendo cumpridas. Mas, a favor da Anatel, deve-se dizer que é impossível fazer de outra forma: a Agência recebe as queixas, cobra providências e depois de algum tempo refaz a medição, para saber se os clientes estão mais (ou menos) satisfeitos; no limite, as operadoras podem ser punidas.

Portanto, cabe a eles – os clientes – acompanharem o serviço e se manifestarem. A Anatel determinou que as operadoras atuem em três frentes: infraestrutura para prestação do serviço, que naturalmente inclui boa qualidade de sinal e de conteúdo; comunicação com os assinantes, que devem ser informados da forma mais clara e eficiente; e atendimento, entendido como os procedimentos adotados quando o cliente procura a operadora. Nota-se pelos relatórios que este último item, o atendimento, continua sendo a maior fonte de insatisfação, e nenhuma operadora escapa disso.

No relatório geral da Anatel (veja aqui a íntegra), informa-se que a meta de redução das reclamações ficou longe de ser alcançada. Em agosto de 2011, a Agência registrou um total de 7.560 queixas, contra uma meta de 7.328; em julho de 2012 (um ano depois), diante do aumento na venda de assinaturas, foi fixada a meta de 9.622 reclamações – e chegou-se a inacreditáveis 14.851 clientes com alguma queixa. Ou seja, enquanto o número de assinantes aumentou cerca de 30%, o índice de insatisfação, retratado nas queixas à Anatel, subiu quase 100%!!!

A Anatel reconhece no relatório que no último trimestre do ano passado houve uma queda no número de reclamações, provavelmente em função do “puxão de orelhas” que as operadoras levaram. Mesmo assim, são níveis altíssimos. O gráfico por empresa revela que somente uma delas, a Sky, teve em torno de 7 mil queixas registradas, número que permaneceu constante entre outubro e dezembro. A Net foi a única que conseguiu reduzir seu número, embora ligeiramente. Ao longo do ano, o quadro ficou assim:

Sky – 41,3%

Net – 22,8%

Claro – 16,7%

OiTV – 11%

GVT – 4,7%

Vivo – 2,8%

Algar/CTBC – 0,6%

São percentuais normais, considerando que Net e Sky possuem muito mais assinantes que as demais. No entanto, quando se verificam os motivos das queixas, a maioria se refere a cobrança indevida (35,5%) e dificuldades quando o cliente tenta cancelar o serviço (19,1%). Pode-se deduzir então que o problema da TV por assinatura no Brasil não é técnico e, sim, de gestão. Em sua defesa, as operadoras alegam que muita gente está tendo agora sua primeira experiência com o serviço e não entendem aquilo que compram.

Seja como for, fica evidente que os problemas estão longe de uma solução, até porque o setor continua crescendo na base dos 30% ao ano. A Anatel faz bem em divulgar esses números, da forma mais transparente. As operadoras fazem melhor ainda ao investir para reduzi-los. Mas nada isso irá adiantar se o próprio usuário não agir. Um bom começo é baixar esses relatórios, no site da Anatel, e conferir como anda o serviço de sua operadora. E continuar reclamando. Até melhorar.

Receita para se tornar líder

No evento da LG, conversei também com Pablo Vidal, diretor de marketing da empresa, que ocupou o mesmo cargo na LG Espanha e desde o ano passado está no Brasil. Com sua larga experiência em marketing, Vidal foi encarregado de executar a estratégia da LG para desbancar sua grande rival Samsung da liderança. Já comentamos aqui sobre a disputa histórica entre as duas gigantes coreanas. Até agora, a Samsung – que como grupo é muito maior – tem conseguido se manter à frente.

O maior campo de batalha, é claro, está no segmento de TVs. A decisão da LG foi sair sempre na frente com produtos novos, como aconteceu com o TV 4K, lançado em novembro nos principais mercados internacionais, e deve se repetir agora com o OLED. “É a forma que visualizamos para crescer nossa participação no mercado”, me disse Vidal. “Precisamos dominar as novas tecnologias e trazer para o Brasil tudo que há de mais avançado. Não apenas em TVs, mas em smartphones, linha branca etc. O consumidor acaba percebendo que estamos à frente da concorrência.”

LG IT H160-1Dos produtos exibidos hoje, podem ser enquadrados nessa filosofia, por exemplo, o sistema de ar condicionado Inverter, que esteriliza o ar e mantém partículas de água no ambiente, tornando-o menos seco; o notebook conversível (foto), cuja tela de 11,6″ pode ser acionada pelo modo convencional, via teclado, ou pelo toque dos dedos; o monitor IPS de 23″ multitouch (as funções podem ser acionadas pelos dedos em até dez pontos da tela); e o smartphone Optimus G, o primeiro que funciona em 4G (sai ainda este mês e vai custar R$ 1.999); este, na verdade, não foi apresentado hoje.

Outro assunto que comentei com Vidal foi a questão do aumento do consumo, que para alguns parece artificial, já que direcionado pelo governo. Será que isso se sustenta? Continuará a chamada classe C comprando como fez até agora? “Sim”, responde o executivo da LG. “As pessoas estão conseguindo satisfazer suas necessidades. Isso fica claro nas pesquisas que realizamos para saber o que deseja o consumidor. Costumo dizer que todos os nossos produtos têm que ser premium, mesmo aqueles mais acessíveis. Premium não significa, necessariamente, caro. Precisamos ter produtos para todo tipo de consumidor.”

Semana de grandes novidades

OLED LG
Como se tivessem combinado, Samsung e LG anunciaram na mesma semana seus lançamentos para 2013. A Samsung levou um grupo de jornalistas latinoamericanos para Bogotá, na Colômbia, na terça-feira, enquanto a LG reuniu só brasileiros (jornalistas e revendedores) nesta quarta, aqui mesmo em São Paulo. Assim, temos notícias em quantidade sobre as duas empresas.

Primeiro, falo sobre a LG, cuja prioridade agora é sair sempre na frente dos concorrentes quando se trata de inovações. Hoje de manhã, pudemos ver o TV OLED de 55 polegadas (foto) que havia sido apresentado pela primeira vez na CES 2012 e que acabou sendo adiado. Acaba de sair na Coreia, chega este mês aos EUA e alguns países europeus e ainda neste semestre, garante a empresa, ao mercado brasileiro. Preço? Suspense total. Na verdade, a partir deste encontro com os revendedores a LG começará a ter uma ideia melhor de como posicionar o produto.

Conversei com Roberto Barboza, diretor da empresa, que me disse estar surpreso com as vendas do TV 4K, lançado em novembro (R$ 40 mil à vista). “As vendas têm sido ótimas, mesmo com o produto distribuído apenas em quatro praças: SP, Rio, Porto Alegre e Recife. Este ano, vamos aumentar a distribuição e devemos sair também com modelos menores, de 55″ e 65”, disse ele.

Quem sabe não aconteça o mesmo com o OLED, tecnologia que é muito superior à de LED (embora tenha também seus problemas, sobre os quais falaremos em breve)? Só lembrando: esse OLED não é 4K.

Wi-Fi por decreto. E de graça!

Em reunião nesta terça-feira em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad disse ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, que entre suas “políticas públicas” está a instalação de uma rede Wi-Fi gratuita na capital paulista. Detalhe: Haddad não pretende investir um centavo para isso. A rede seria montada a partir das novas torres de celular que o Ministério está negociando com as operadoras, na tentativa de descongestionar o caótico serviço prestado atualmente. Por seu tamanho e complexidade geográfica, São Paulo é vista como um grande desafio. “Se conseguirmos resolver isso aqui, conseguiremos em qualquer lugar do país”, comentou o ministro após o encontro.

Pode parecer brincadeira, mas instalar uma torre – ou mesmo um poste – em São Paulo é algo que exige nada menos do que sete licenças!!! Se quisesse resolver mesmo o problema, Haddad já teria, no primeiro dia de mandato, determinado que essa aberração fosse extinta. Como sabe qualquer paulistano que já tentou obter um alvará ou uma licença para construção, a rede de corrupção na Prefeitura paulistana vem sobrevivendo a todos os prefeitos, que entram e saem sem mudar um milímetro da situação. O prefeito atual deve saber bem disso, tanto que resolveu transferir a responsabilidade para o Ministério e as operadoras: concorda em liberar as licenças, desde que a) haja Wi-Fi grátis para todo mundo; e b) retirem-se os horrorosos fios que poluem a cidade e sejam feitas ligações subterrâneas.

Segundo Paulo Bernardo, a presidente Dilma vem cobrando mais agilidade na questão da infraestrutura e quer lançar, o quanto antes, o que em Brasilia está sendo chamado de “PNBL 2.0” (como se o “PNBL 1.0” já estivesse voando…). Sua ideia de agilização é, em vez de erguer torres, instalar ERBs (estações rádio-base), que são caixas conversoras de pequeno porte, em postes e muros. Para isso, foi pedido às operadoras que apresentem um plano em 30 dias.

Não, você não leu errado: todos os parágrafos acima foram tirados do site Mobile Time, que entrevistou o ministro após a reunião com Haddad. É assim que se brinca de governar no Brasil, prometendo tecnologia na base do decreto e do “vamos lá, moçada”. O mais engraçado – para não dizer “trágico” – foi quando Bernardo, citando mais uma vez a presidente, comentou que nem ela está satisfeita com a internet brasileira. E cobra que a infraestrutura de telecom “passe a ser tratada como as ferrovias e os aeroportos”.

Ou seja, o que está ruim pode ficar pior ainda.

Sky + GVT = boa parceria?

Caminham bem as negociações entre o grupo americano Liberty Media e o francês Vivendi. Ambos são, respectivamente, donos da DirecTV, maior operadora de TV por satélite das Américas, e da GVT, uma das emergentes no Brasil. A DirecTV, como se sabe, controla a brasileira Sky, líder no segmento de satélite (DTH).

Segundo a consultoria Teleco, a GVT é uma das operadoras com crescimento constante no mercado brasileiro, desde que foi adquirida pelo Vivendi, em 2009. Praticamente triplicou sua base de clientes de voz e banda larga nesse período, entrou no serviço de TV paga e, no final de 2012, passou a atuar também na Grande São Paulo. Como o grupo francês está em dificuldades financeiras, a maioria dos especialistas acredita que a venda da GVT – sua atual “joia da coroa”, com faturamento de R$ 4,3 bilhões no ano passado – seja um passo interessante. E, como o Liberty busca há tempos expandir seus negócios na América do Sul, nada mais natural do que se candidatar à compra.

Não é especulação. Os dois grupos vêm conversando há alguns meses, mas trata-se de um negócio necessariamente demorado. Em entrevista na semana passada, o vice-presidente da DirecTV para a América Latina, Bruce Churchill, admitiu o interesse e lembrou que o Brasil, com apenas 27% de penetração da TV paga, é um mercado muito atraente. Anunciou ainda que o grupo irá lançar em 2014 um satélite para atender exclusivamente ao mercado brasileiro.

Mas o lance inicial do Vivendi foi de 7 bilhões de euros, o que assustou os americanos; a esta altura, já deve ter baixado. Outras citadas como possíveis interessadas – Telefônica, Telecom Italia e até a brasileira Oi – aparentemente saíram do páreo porque estão todas com problemas de caixa (no caso das europeias, problemas graves gerados por suas matrizes). Não é o caso do Liberty, que tem por trás pelo menos dois grandes fundos de investimento. E seria uma união natural, boa para as duas empresas: a Sky poderia, finalmente, entrar no serviço de banda larga, e a GVT ampliaria centenas de vezes, numa tacada só, seu número de assinantes potenciais.

Mas o maior obstáculo à possível compra da GVT pelo Liberty não é financeiro: os americanos buscam garantias de que o governo brasileiro não irá interferir no mercado de TV por assinatura, como vem fazendo seguidamente. É isso, aliás, o que assusta qualquer investidor, por mais que o mercado brasileiro seja atraente. Como intervir, ao que parece, rende votos (os marqueteiros do Palácio do Planalto sabem faturar com isso), é improvável que a garantia pretendida venha antes das eleições, no final do ano que vem.

Anatel vs TCU: essa briga rende…

Foi preciso um grande jornal (Folha de São Paulo) estampar em manchete, nesta terça-feira, o puxão de orelhas do TCU na Anatel relativo às obras de infraestrutura da Copa, para a Agência tentar prestar contas de seus atos – algo que, por lei, todo órgão regulador tem obrigação de fazer. Alguém no Tribunal, talvez exatamente para colocar a Anatel contra a parede, vazou para os repórteres um relatório mostrando quanto a Agência está devendo em matéria de providências, não só para a Copa de 2014, mas já para a das Confederações, que acontece agora em junho.

“Atraso da Anatel põe em risco transmissão da Copa”, diz a manchete do jornal, amplificando o que publicamos aqui na semana passada, e que, a bem da verdade, já vinha sendo divulgado em sites do segmento. À primeira vista, parecem atrasos “normais” em todo projeto que depende do governo, no Brasil. Mas, analisando em detalhe, percebe-se uma somatória de incompetência com a mais pura falta de planejamento.

Um exemplo: de R$ 45,7 milhões que haviam sido orçados em 2012, para concorrências visando à compra de equipamentos, a Anatel investiu somente 11,6%. Isso dá menos de R$ 5 milhões, quando se sabe que a Agência foi incumbida de investir um total de R$ 170 milhões até 2014. Sobram, portanto, R$ 165 milhões até o início da Copa, daqui a 15 meses. Pior: projetos estão parados, aguardando definições técnicas que somente a agência reguladora pode fazer.

O Tribunal de Contas da União questiona, por exemplo, a instalação de toda a estrutura para as emissoras de rádio e televisão que irão cobrir o evento, muitas delas vindas de outros países. Como o Brasil possui um sistema de TV digital único no mundo (um erro histórico, que já discutimos neste espaço), cabe ao país cuidar para que equipamentos vindos de fora entrem aqui de forma regular; e que funcionem, sem travamentos nem interferências, o que é o mínimo exigido de um organizador de evento.

A Anatel também é responsável pela rede de telecom (leia-se: celulares e banda larga), igualmente atrasada. Há o plano – para muitos inviável – de implantar redes 4G em todas as cidades-sede, mas como esperar que isso aconteça se nem as redes 3G atuais atendem satisfatoriamente a população? Considerando que, no período dos eventos, o país irá receber milhões de visitantes estrangeiros, é preciso planejar com antecedência uma “folga” nessas redes para que todos possam se comunicar decentemente.

Em nota de esclarecimento, a Anatel se defende divulgando números e mais números, mas sem responder à questão fundamental: por que deixou que a situação chegasse a esse ponto? E será que ninguém em nível hierárquico superior (o ministro das Comunicações, por exemplo) foi informado desses atrasos?

É triste, mas vai se confirmando o que muitos temiam: vamos dar vexame na Copa (e nem estou falando do time de futebol). E pensar que o Brasil foi escolhido em 2007 e a Anatel só começou a pensar no assunto em 2012!!!

O carro e o conceito

Toyota-Fun-Vii-Coupe-Tokyo-Image-01-1680É comum nos salões do automóvel, no mundo inteiro, os fabricantes mostrarem seus “carros-conceito”. Os especialistas já sabem que são veículos experimentais, cheios de inovações, mas que nunca chegarão ao mercado – quando chegam, são completamente diferentes daquilo que foi exibido.

Não sou especialista, e talvez por isso tenha ficado com água na boca (um de meus antigos professores de Português diria “estupefacto”) ao ver as imagens do Fun-Vii, que a Toyota apresentou no último Salão de Tóquio, mês passado. Mais do que um carro-conceito, é uma proposta de estilo de vida, em que a tecnologia desempenharia papel fundamental. Vejam só a lista de “itens de série”:

*Portas e janelas touchscreen: basta encostar o dedo para abrir ou fechar;

*Telas (também de toque) em todos os vidros internos, dando acesso a conteúdos diversos, à escolha do motorista e seus passageiros;

*Sensores anti-choque, que evitam colisões mesmo que o condutor perca o controle do carro;

*Comunicação sem fio com outros veículos;

*GPS com vídeo de alta definição, mostrando inclusive as condições do trânsito;

*Sensores de A.R. (realidade aumentada) para ampliar o tamanho dos objetos externos através do parabrisa;

*Atualização automática de software, via internet;

*Acionamento via smartphone.

O modelo apresentado (foto) tem lugar para apenas três pessoas, e as pessoas usadas no vídeo promocional parecem felizes da vida com seu novo “conceito”. E este outro vídeo mostra mais detalhes. Já dá pra imaginar os anúncios na TV quando (e se) for lançado esse carro, literalmente do outro mundo: o alegre proprietário desfila pelas ruas e ninguém consegue tirar os olhos dele, até que estaciona em frente a uma mansão ou prédio de luxo, de onde sai uma mulher deslumbrante para encontrá-lo.

Isso, sim, é que é conceito.

Mais novidades da França

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Coincidência ou não, ao comentário feito anteontem sobre a chegada de caixas acústicas francesas no mercado brasileiro segue-se agora uma outra notícia sobre o país dos vinhos. Começa a ser importado aqui o amplificador D – Premier, produção artesanal (se é que cabe a palavra no mercado de tecnologia) da Devialet. Esta é uma minúscula empresa baseada em Paris, que existe há apenas dois anos e, por enquanto, só tem esse produto. Mas seu conceito é tão inovador que já ganhou espaço em publicações de prestígio no mundo do áudio, incluindo What Hi-Fi, Hi-Fi Choice e Stereophile, além dos prêmios EISA, na Europa, e Best of Innovations, na CES.

E o que tem o D – Premier (foto) de tão original? Que se saiba, é o primeiro amplificador estéreo que funciona de forma híbrida, abrigando tanto fontes de sinal analógicas quanto digitais. Aliás, ADH (Analog/Digital Hybrid) é como foi patenteada a configuração interna do aparelho, que contém dois estágios de amplificação: um analógico Classe A e um digital Classe D. Isso permite operar com alta corrente sem superaquecimento, liberando potência de até 400W em cada canal, não importando que tipo de caixa acústica esteja sendo usada. Feito em alumínio maciço polido, o Devialet mete 40x40cm (4,4cm de altura), mas pesa cerca de 8kg apenas.

Na era do MP3, a maior sacada de Pierre Calmel, dono da empresa, foi criar um aparelho que se adapta tão bem a iPods e iPhones quanto a fontes de sinal analógica; possui até entrada pré de phono, para quem não abre mão do vinil. Com design refinado, pode agradar aos dois públicos. Funciona em redes Ethernet e Wi-Fi, possui conectores ópticos, HDMI (neste caso entrada e saída), conversor DAC interno para 192kHz/24-bit e entrada para cartão SD, útil para atualização de firmware.

A distribuição é feita no Brasil pelo casal Fabiana e Carlos de la Fuente, este irmão do diretor comercial da empresa, Manuel de la Fuente. E, claro, o produto não será encontrado em muitas lojas: a primeira a recebê-lo foi a Raul Duarte, uma das mais tradicionais de São Paulo. Para quem tem bom gosto e gorda conta bancária, sem dúvida vale a pena conhecer.

Voltaremos a falar dele quando tivermos a oportunidade de ouvi-lo atentamente.