Archive | julho, 2013

Netflix quer acabar com os “TVs burros”

dumb TVCerca de um ano atrás, publicamos aqui um comentário sobre a resistência de muitos usuários diante dos smart TVs (“TVs inteligentes”). Foi a propósito do que um jornalista americano chamou de dumb TV (“TV burro”), ou seja, um aparelho com poucos recursos, apenas uma excelente imagem. Alguns leitores defenderam a ideia de que os fabricantes deveriam se preocupar menos com aplicativos e design, e mais com a qualidade de áudio e vídeo. Dissemos então que isso era utopia: na prática, as pessoas buscam produtos pela aparência e pela quantidade de recursos, mesmo que não precisem.

Bem, volto ao tema devido a uma reportagem do site americano GigaOm, especializado em tecnologia, cujo título já diz muito: “Por que a maioria dos smart TVs ainda são burros”. Sim, “TVs inteligentes” podem não ser tudo isso, e quem afirma é a Netflix, simplesmente a empresa mais poderosa da atualidade no mercado mundial de entretenimento. “Duvido que haja alguém que goste de usar um smart TV”, diz Scott Mirer, diretor de parcerias da gigante da internet.

Na sua opinião, as pessoas hoje compram esses TVs porque não há opção – quase todos os TVs são smart. Leia-se: carregados de aplicativos sem maior utilidade, com menus complicados e navegação mais ainda, deficiências no processamento de tanta informação. E o mais grave, segundo Mirer: “São aparelhos desenhados para a TV linear. Mudaram as tecnologias, os apps, surgiram YouTube, Netflix e outros serviços que as pessoas querem acessar, mas os televisores continuam a funcionar exatamente da mesma e antiga maneira.”

O exemplo mais contundente citado por ele – e também o mais fácil para se entender o conceito – está nos tablets e smartphones: você desliga no meio de um vídeo, por exemplo, e quando religa lá está o aplicativo no mesmo ponto onde parou. Se fizer o mesmo no seu TV, terá de encontrar de novo aquele filme e localizar onde havia parado. “É incrível que nenhum fabricante ainda tenha lançado um TV com modo SLEEP”, diz Mirer. “Além de facilitar a vida do usuário, isso permitiria o acesso a outros serviços, que poderiam ser fornecidos por provedores.”

Mirer cita ainda o controle remoto, com sua enxurrada de botões, como exemplo de que os fabricantes de TVs não estão conseguindo acompanhar a evolução. Sua explicação é de que nessas empresas os ciclos de desenvolvimento dos produtos são muito longos, ao contrário da indústria de software, onde os aperfeiçoamentos ocorrem “on the fly”, ou seja, durante o próprio uso dos aparelhos. Por isso é que a Netflix decidiu ser mais agressiva: está procurando cada um dos grandes fabricantes para convencê-los a simplificar as interfaces dos TVs. E mais: criar apps realmente atraentes. “Precisamos de outros cinco ou seis como Netflix”, diz Mirer. “Aí, sim, o consumidor irá procurar aquele TV que ofereça esses apps.”

Os desafios da TV por assinatura

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Como é vender conteúdo de televisão num país em que a programação da TV aberta (e, portanto, gratuita) é motivo de adoração nacional?

Esse era, para resumir numa única frase, o desafio dos pioneiros que começaram o negócio da TV por assinatura no Brasil lá atrás, em meados dos anos 1980. Ao contrário de outros países (a Argentina é o caso mais próximo), a televisão aberta foi adotada pelos brasileiros desde quando nasceu, em 1950. Nossos hermanos tinham – e ainda têm – uma TV aberta tão ruim que trataram de comprar logo os primeiros pacotes, quando a TV paga se instalou por lá.

Aqui, a história é bem outra. Com o crescimento da população, a TV aberta foi se tornando, a partir dos anos 60, um vício e, também, um poderoso instrumento de integração. Os mais jovens não devem saber (isso não se ensina nas escolas), mas durante os governos militares a televisão foi fundamental no processo de formação política que se buscava, incluindo programas ufanistas – como os de Amaral Neto – e acordos tácitos com todos (isso mesmo: TODOS) os proprietários das redes.

Que bom saber que esses tempos ficaram para trás! Hoje, operadoras e programadoras de TV por assinatura têm receita mais alta do que as redes abertas, na proporção de quase 2-por-1. Enquanto caem as verbas publicitárias que sustentam a TV aberta, um fenômeno mundial, a TV fechada consegue crescer apoiada quase que totalmente na venda de assinaturas (digo “quase”, porque neste ano 7% do faturamento do setor virá de publicidade, segundo o Ibope). Certamente, se tivéssemos de novo um governo ditatorial (toc, toc, toc…), este teria muito mais dificuldade para impor suas vontades ou fazer acordos com todas as empresas envolvidas no negócio da TV paga.

Em almoço para jornalistas hoje, a diretoria da ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura) apresentou oficialmente a edição de sua feira e congresso, que acontecerão na próxima semana em São Paulo. E mostrou estatísticas que confirmam a visão daqueles empreendedores citados no primeiro parágrafo. O público, que até recentemente endeusava a TV aberta, hoje demonstra alto índice de satisfação com a TV paga. E a melhor prova é que o setor continua crescendo mais do que qualquer outro na economia brasileira: ao quebrar a barreira dos 17 milhões de assinantes, em junho último, dobrou de tamanho em relação a junho de 2010.

Cumprindo o seu papel, a ABTA divulgou vários outros dados que reforçam a importância da TV paga no Brasil de hoje. Por exemplo: são 97 mil empregos (diretos e indiretos), contra apenas 24 mil em 2004; operadoras e programadoras se adaptaram com rapidez à Lei do SeAC, aprovada em setembro de 2011, aumentando significativamente a quantidade de conteúdos nacionais em suas grades, o que também contribui para gerar empregos; e, apesar de geralmente se dizer o contrário, o preço da assinatura no Brasil está abaixo da média mundial (mais detalhes aqui).

Quer dizer que está tudo bem? Não, longe disso. Continua havendo problemas no atendimento de algumas operadoras, o sinal de certos canais é precário, diversas regiões do país ainda têm, quando muito, uma única prestadora e – para complicar – temos um governo que, por não conseguir entender a natureza do serviço, vive atrapalhando. Para este último item, não vejo saída antes das eleições do ano que vem. Já para os demais, a solução envolve mais investimentos e a cobrança constante por parte dos usuários.

Dito isso tudo, tentem voltar ao passado e pensar como era o panorama há 30 ou 40 anos, quando só existia TV aberta. Fica difícil acreditar que chegamos até aqui.

A hora das construções inteligentes

A expressão anda meio gasta, de tanto que vem sendo usada com intenções, digamos, menos nobres. Mas conhecer e utilizar aparelhos e tecnologias “inteligentes” é quase uma obrigação, numa época em que pessoas e empresas lutam para controlar seus custos e manter um padrão de vida mais saudável. O conceito que nasceu, se não me engano, no final do século passado – apenas como referência a produtos dotados de recursos digitais – ampliou-se para agregar nosso próprio estilo de vida, que hoje pode (e deve) ser mais “inteligente” do que tem sido. Isso inclui, só para citar alguns exemplos, os carros que dirigimos e as casas (ou prédios) onde vivemos e trabalhamos.

Aproveito o convite que recebi do amigo José Roberto Muratori, da Aureside (Associação Brasileira de Automação Residencial), para enfatizar a importância dessas novas tecnologias. Nesta terça-feira, a entidade organiza em São Paulo mais um encontro do Projeto Conectar, cujo tema é “Automação para Edificações Eficientes”. O evento é indicado a engenheiros, arquitetos, pesquisadores e todo mundo que trabalha com automação residencial ou predial e sistemas de energia. Entre dados do mercado e discussão de casos, o programa prevê a apresentação das novas oportunidades de negócio que estão surgindo na área. Mais informações neste link.

Como sei que vários profissionais do setor nos lêem, acrescento ainda alguns links que podem ser muito úteis para saber a quantas anda no Brasil a questão do uso inteligente da tecnologia. Tem a ver com segurança, conforto, praticidade e muito, mais muito mesmo, com racionalização de custos e de hábitos. Visitem, analisem e compartilhem:

Sessão brasileira da PES (Power and Energy Society)

Smart Grid – a rede elétrica do futuro (Siemens)

Fórum Latinoamericano de Smart Grid

Arquitetura sustentável

Conselho Brasileiro de Construção Sustentável

 

Tablet ou TV: a escolha é sua

TV-on-tabletDesde que os tablets surgiram, há três anos, é comum alguém dizer que esses aparelhos irão roubar audiência da TV. Os mais empolgados chegaram a afirmar – e escrever – que, finalmente, o telespectador iria “se libertar” da ditadura das redes de televisão. Nunca acreditei nessas previsões, que lembram o poema “Quadrilha”, de Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo…” Adaptado para a evolução tecnológica, seria algo como: “A internet acabou com a TV, que acabou com o cinema, que acabou com o teatro…”

Como se sabe, nada acabou (até os discos de vinil, cuja morte foi decretada quando surgiu o CD, voltaram). E querem saber mais? Os tablets estão aumentando a audiência da TV. O YouTube, que na prática é hoje a maior rede de televisão do planeta, induz as pessoas a procurarem cada vez mais conteúdos de vídeo. E, apesar de todas as críticas às emissoras, grande parte dos melhores conteúdos estão justamente nos canais de TV, especialmente TV fechada.

Não sou eu quem está dizendo. Um estudo divulgado recentemente pela NPD DisplaySearch, dos EUA, mostra que 85% dos usuários de tablets e 65% dos que possuem smartphones assistem nesses aparelhos a programas de TV. “Mesmo assim, as vendas de TVs a partir de 30 polegadas não estão sendo afetadas”, diz Riddhi Patel, diretor da NPD. Os usuários, segundo ele, se queixam que é incômodo assistir a filmes e programas longos num tablet, por exemplo. Além disso, têm consciência de que, para ver imagens de melhor qualidade, é preciso recorrer ao TV.

Os pesquisadores dizem ter feito 15 mil entrevistas em 15 países. Nos emergentes (são citados Brasil, China e Índia), a porcentagem dos que assistem a conteúdos de TV nos tablets e smartphones chega a 72%! E os adeptos da chamada “segunda tela” (usar esses aparelhos enquanto assistem TV) já são 88%, na média internacional.

Conclusão dos patrulheiros da TV: a “ditadura” vai continuar.

TVs: uma viagem no tempo

TVs velhosSe no comentário anterior falamos de TVs esperados para o futuro, aqui iniciamos uma volta ao passado da tecnologia, que também é fascinante. Um amigo pelo Twitter me mandou o link do site iO9, especializado – pelo jeito – em bugigangas e aparelhos estranhos. Vejam as maravilhas que esse pessoal descobriu: aparelhos de TV, ou quase isso, de todos os tipos, tamanhos, desenhos. O mais antigoé de 1929 (na verdade, nem é um TV, mas um projetor); mas há joias até dos anos 80 que, confesso, nem lembrava que tinham sido lançadas. A peça acima é um anúncio de revista publicado na Inglaterra em 1968: um TV que funciona pendurado no teto!

Divirtam-se clicando aqui.

TV 3D sem óculos: quais as chances?

glasses-free-3d-tvFilmes em 3D continuam fazendo muito sucesso – nos cinemas. Mas dez entre dez executivos da indústria já chegaram ao consenso de que, enquanto for necessário usar óculos, o conceito 3D at Home não irá decolar. Com isso, fizeram tocar um sinal de alarme em Hollywood, onde era grande a aposta. Segundo o jornal Hollywood Reporter, agora é interesse de todos correr atrás de uma solução e viabilizá-la comercialmente o mais rápido possível.

Depois que a ESPN decidiu tirar do ar seu canal exclusivo 3D (como comentamos aqui), o tema passou a ser discutido com mais ênfase. Logo após encerrar as transmissões em 3D do Torneio de Tênis de Wimbledon, no início do mês, a BBC inglesa também anunciou que irá interromper os investimentos nessa tecnologia. Restam agora sete canais de TV 3D ao redor do mundo: 3net (parceria entre Sony, Discovery e Imax, disponível apenas nos EUA), BSkyB (Reino Unido), Sky (Alemanha e Itália), NHK (Japão), CCTV (China) e Al Jazeera (financiada pelos emirados árabes).

“As pessoas desistem quando têm de usar óculos”, explicou Andy Quested, diretor de conteúdos 3D da BBC, após dois anos com o canal no ar. Ele é um dos que acham que esses serviços só vão se pagar – isto é, atrair mais audiência e publicidade – quando não for necessário o acessório. Uma solução talvez esteja na empresa Stream TV Networks, que patenteou o sistema UltraD, um 3D sem óculos baseado em displays 4K. Recentemente, a empresa fez uma demonstração em Londres, onde surgiram rumores de um acordo com a LG para colocar o produto no mercado ainda este ano.

O conceito é converter imagens Full-HD em Ultra-HD (4K) para depois exibi-las em 3D. Como se sabe, 4K apresenta resolução de 3.840 x 2.160 pixels, o que, dividido por dois (uma imagem para cada olho), resulta em 1.920 x 1.080. “Nosso software calcula a diferença entre as imagens e libera a quantidade de pixels necessária”, explica, assim vagamente, o CEO da Stream Networks, Mathu Rajan. O homem ainda vai além: “Se entrar um sinal 4K, o software o transforma em 8K”.

Claro, sabemos que esse tipo de conversão (upconversion) não costuma dar bons resultados. É um processo por demais artificial. Lendo a entrevista, descobri que essa Stream Networks é sócia da SeeCubic, empresa fundada na Holanda por ex-técnicos da Philips. Conheci alguns deles três anos atrás, na IFA, quando demonstraram um sistema de 3D sem óculos e explicaram que saíram do grupo justamente para investir nessa tecnologia – coisa que a Philips não quis bancar; a mesma Philips que, agora associada aos chineses da TPV, se juntou à Dolby para desenvolver o que está sendo chamando de Dolby 3D, com apoio de gente como o cineasta James Cameron. Na época, o que eles mostraram não era muito convincente: só ficando bem de frente ao TV para perceber os efeitos tridimensionais.

Talvez agora o processo esteja mais avançado. Veremos isso na IFA 2013, em setembro. Em Hollywood, tem muita gente torcendo para que dê certo.

Aos interessados, mais dois textos a respeito:

O dilema da tecnologia 3D

Indústria do 3D faz sua autocrítica

TV paga: mercado esquentando

A uma semana da ABTA 2013, principal evento do mercado de TV por assinatura, que acontece em São Paulo nos próximos dias 6 a 8 de agosto, uma enxurrada de notícias – algumas boas, outras nem tanto – chegam do setor. Coletando dados para a edição especial da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL que irá circular no evento, fizemos um filtro nessas informações.

Interpretando o último balanço da Anatel, de maio, fontes do mercado apontam a coerência entre a queda nas vendas de assinaturas e a situação econômica do país. Ao mesmo tempo em que a inflação sobe, cresce também a inadimplência: muita gente que havia realizado um de seus sonhos de consumo – tornar-se assinante de TV – teve que recuar diante das dívidas acumuladas na compra de outros bens. Com isso, dificilmente teremos este ano a repetição do crescimento na casa dos 30%, que vem desde 2010. Devido ao problema com a Sky, o número total de novos assinantes em maio caiu, em vez de subir (35.260 a menos); e, na soma dos cinco primeiros meses do ano, foram 150 mil a menos do que em 2012. Resultado: 4,6% de expansão, o que projeta para algo em torno de, no máximo, 20% até dezembro.

Outro fator que deve estar pesando é a indefinição da Vivo/Telefônica, que parece ter tirado o pé do acelerador em relação à TV por assinatura. A empresa não se manifesta oficialmente; numa rara entrevista, o diretor-geral da operadora, Paulo Cesar Teixeira, disse ao site Pay-TV que a ideia agora é concentrar esforços na praça de São Paulo e admite ter perdido assinantes desde o ano passado. Estrategicamente, isso está na contramão de todas as demais do setor, que focam na TV por satélite para fora dos grandes centros.

Enquanto isso, seu maior concorrente, o grupo mexicano América Móvil, divulgou esta semana o balanço do ano até agora, só com números positivos. A receita com TV paga subiu 22% no segundo trimestre, e a de celular, 17,8%. O trio formado por Embratel (telefonia fixa e TV por satélite), Net (cabo, telefone fixo e banda larga) e Claro (TV e celular) cumpre assim o que foi determinado por Carlos Slim, principal acionista do grupo, de buscar a liderança em todos esses segmentos. Para isso, falta definir apenas como se dará, na prática, a integração entre as três empresas, prevista para este ano (todos os assinantes teriam uma conta única e ganhariam benefícios para utilizar os quatro serviços).

Lei de Gerson na espionagem

maxwellsmartSei que não vou afirmar nada de novo, mas a rapidez e a desfaçatez com que o governo do Rio de Janeiro criou uma lei para espionar cidadãos mostram bem o caráter (na verdade, a falta) do político brasileiro. Os protestos de junho, parece, não entraram na cabeça dessa gente, que continua tentando agir como se fossem donos do país. A dificuldade, para eles, é que hoje a democracia também é digital: as chances de serem descobertos aumentaram significativamente.

Governantes e parlamentares que não entenderem essa nova realidade, e não souberem se comportar de acordo, correm o risco de ser – como dizia o velho Ulysses Guimarães – contrariados pelos fatos. Em meio a toda essa discussão sobre privacidade na internet, ainda falta muito para chegarmos, por exemplo, ao nível de países como Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, onde até no parlamento promovem-se discussões sobre o tema, transmitidas ao vivo por sites e canais de TV. Aqui, a maioria das pessoas não parece preocupada se algum agente da CIA está escutando seus telefonemas ou lendo seus emails. Mas já demos um belo salto.

A Lei de Acesso à Informação, aprovada no final de 2011, é um ótimo exemplo. Permite que qualquer cidadão solicite informações de seu interesse aos órgãos públicos, que não podem se negar a fornecer. Os espertinhos aboletados no poder, claro, criam os maiores obstáculos. Mas terão de se acostumar. Aliás, já que está na moda falar mal da imprensa, lembro aqui que, até onde sei, a Folha de São Paulo tem sido o único grande jornal a usar essa lei para obter informações de interesse público. Várias denúncias das últimas semanas – entre elas, os já célebres casos envolvendo jatinhos da FAB – surgiram a partir dessa iniciativa do jornal.

Sim, alguém pode argumentar que é apenas uma lei, entre tantas que não são cumpridas. Pois cabe à sociedade lutar por outras medidas que sigam a mesma filosofia, de respeito ao cidadão e ao contribuinte. Só assim teremos menos Cabrais, Renans, Lulas, Serras, Kassabs, Sarneys e outros tantos especialistas em usar a velha lei de Gerson.

O canastrão do Grande ABC

lula-pensativoLula é um ator. Canastrão, talvez, mas ainda assim um ator. Tudo o que fala ou faz é estudado minuciosamente pelos seus guias de marketing, até as explosões de “raiva” nas (cada vez mais raras) aparições públicas. Nos últimos meses, a ordem marqueteira indicou-o para o papel de vítima. Foi a saída encontrada pelos roteiristas para tentar desvincular sua figura mitológica da crise em que se envolveram o governo e os políticos em geral.

De repente, sumiu o Lula que estava quase todo dia na mídia – em inaugurações ao lado de sua (ex)protegida, dando ordens a políticos que ajudou a eleger, discursando para acólitos do partido que lhe pertence, entrevistado por jornalistas amigos, recebendo homenagens de instituições estrangeiras. Os fatos de junho geraram um novo personagem, saído da mente criativa dos marqueteiros. Agora, é alguém que nada tem a ver com a dura realidade de 2013 e em cujo mandato conduziu o país a momentos de glória que nunca antes etc. etc. etc.

Não, o enredo não é original. Lembremos que Lula não teve nada a ver com o Mensalão (embora tenha na época até pedido desculpas ao povo brasileiro, em rede nacional de TV). Não ajudou a ressuscitar politicamente eminências como Renan Calheiros, José Sarney e Paulo Maluf. Não abençoou os gastos da Copa, nem deixou de cuidar da saúde, educação etc., direcionando o dinheiro dos contribuintes para empresários amigos. Também não participou das articulações espúrias com os partidos aliados. Abalado por uma doença grave, afastou-se da política. Aqui e ali, a mídia noticiou encontros semi-secretos com Dilma, o marqueteiro e/ou os bajuladores de sempre; dessas reuniões, saíram até algumas críticas, jamais confirmadas, a decisões da presidente. Nada mais.

O Brasil conheceu assim esse novo personagem, o Lula dos bastidores. Um líder sem liderados, já que estes parecem ter evaporado na fumaça dos protestos de junho. Um ex-operário que não pode sair às ruas, sob pena de ser premiado com ovos na cabeça, ou coisas até piores. Um pré-candidato à presidência da República (assim o querem vários segmentos da sociedade) que, de novo seguindo o roteiro dos “criativos”, nega essa hipótese veementemente. Enfim, uma caricatura de estadista, pretenso criador de “postes” que, ou foram avariados, ou não iluminam mais nada.

Foi esse personagem que reapareceu nos últimos dias. Primeiro, num artigo para o jornal The New York Times, assinado por alguém que paira, soberano, sobre uma realidade da qual teima em se esconder. O texto que lhe deram para assinar evoca um Brasil idealizado, do qual Lula parece não fazer parte; os erros foram todos de outros (das instituições políticas, que permaneceram “analógicas” enquanto o mundo se tornou “digital; dos partidos, inclusive o PT, que precisa se modernizar evitando o “paternalismo”); os acertos estão na primeira pessoa (“nós”), recorrendo pela enésima vez ao discurso de que o Brasil nasceu em 2003. Até mesmo os protestos são consequência de sua política: só aconteceram porque hoje os jovens pobres têm dinheiro para comprar carro e também sofrem com os congestionamentos. Antes, quando andavam de ônibus, não sofriam.

Outra reaparição, esta física, aconteceu numa faculdade do ABC, próxima a sua casa. O trajeto curto certamente serviu para evitar o contato “com as ruas”, justamente um dos temas de sua fala aos estudantes. Segundo Lula, cabe aos jovens que discordam dos partidos políticos fazer como ele fez, nos anos 70, e criarem novos partidos. Ao PT, sugere que se reaproxime dos “movimentos sociais”, provavelmente os mesmos que pagaram meia dúzia de desempregados para desfilarem no 11 de julho. “Não reneguem a política nem os partidos”, ensinou. Nenhuma palavra sobre o projeto recentemente patrocinado pelo governo e seus aliados – e engavetado após os protestos de junho – de brecar a criação de novos partidos para concorrerem às eleições de 2014.

Nos apartes a sua fala, estudantes levantaram questões daquelas que políticos adoram para se desviar do que de fato interessa, como a espionagem do governo americano aos brasileiros, a reforma política e até a Faixa de Gaza. Conforme o roteiro, saiu aplaudido e voltou rapidamente para casa.

Enfim, um ator. Talvez coubesse bem numa dessas telenovelas mexicanas.

Wi-Fi para todo mundo (na Coreia)

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Nesta quinta-feira, o governo da Coreia do Sul deu início às obras para implantação de 12 mil hot spots espalhados pelo país. O projeto deve levar quatro anos – hoje, há 2 mil deles, a maioria (53%) na região metropolitana de Seul. O mais espantoso é que todas essas conexões são gratuitas. E o presidente Park Geun-hye determinou que assim seja para toda a população até 2017.

Segundo o site Telecom Asia, será dada prioridade a centros comunitários e de atendimento a pessoas carentes, além de hospitais, ambulatórios, bibliotecas públicas, museus e delegacias de polícia. Também terão preferência as regiões mais afastadas e as mais pobres. Haverá ainda 4 mil hot spots particulares, construídos pelas três maiores operadoras coreanas, onde as conexões serão pagas.

Claro, é de dar inveja. Deve-se considerar que a Coreia tem o tamanho de um estado como Santa Catarina, e que lá convivem cerca de 50 milhões de pessoas. A densidade populacional, uma das mais altas do mundo, contribui para o compartilhamento das redes. Mas a questão não é essa. Todo mundo sabe que o principal fator de crescimento do país nos últimos 40 anos foi o investimento em educação de base, receita que hoje países como China, Austrália e Chile tentam copiar. Não fosse a visão de seus dirigentes após a Guerra da Coreia, que nos anos 50 dividiu o país em dois, deixando ambos arrasados, hoje os sul-coreanos não poderiam se dar ao luxo de falar ao telefone (celular) até mais do que os japoneses…

Aqui, um depoimento pessoal. Quando estive na Coreia, em 1997, época em que celular no Brasil ainda era só para alguns privilegiados, percorri o país de alto a baixo, de ônibus, junto com um grupo de jornalistas latinoamericanos, a convite da LG. Fiquei espantado certa vez quando um executivo da empresa nos apresentou um celular minúsculo, pedindo que ligássemos dali mesmo para nossas casas. Cada um de nós fez a sua ligação. Todos conseguimos completar as chamadas na hora e ouvir as vozes de nossos familiares, claras e nítidas como se estivessem ao nosso lado. Isso com o ônibus em movimento, em pleno interior do país.

Mais de quinze anos depois, eles partem para as conexões gratuitas e democraticamente distribuídas a toda a população. Enquanto nós, aqui, pagamos uma fortuna para conseguir (às vezes) falar dentro de uma mesma cidade. Mas o mais revoltante nessa notícia é o detalhe, perdido no meio do site asiático, de que  o presidente Park, com esse projeto, está simplesmente cumprindo uma promessa de campanha. Igualzinho aos políticos brasileiros.

Netflix, de olho nos pequenos

O ótimo site IPNews, especializado em telecom, divulgou recentemente uma raridade: notícias sobre a Netflix. Esta é uma das empresas mais fechadas do mundo, seguindo a “tradição” de outras gigantes da tecnologia, como Apple, Amazon e Oracle. A não ser o que divulgam (por força de lei) em suas assembleias de acionistas ou em esparsas entrevistas, pouco se sabe sobre elas.

No caso da Netflix, que começou a operar no Brasil há cerca de dois anos e já é, de longe, a maior fornecedora de conteúdo digital sob demanda no país, os segredos são ainda mais bem protegidos. Mas Flavio Amaral, executivo brasileiro que atua na área técnica da empresa, participou de um evento em São Paulo, em junho, e revelou parte da estratégia para crescer no mercado brasileiro. Segundo ele, a Escandinávia – região composta de cinco países: Suécia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Islândia, que somam pouco mais de 20 milhões de habitantes – consegue gerar mais tráfego, em gigabytes, do que o Brasil inteiro. “A Escandinávia mostra que um provedor pequeno pode prover acesso bom ao conteúdo, e essa é uma realidade que temos que mudar no Brasil”, disse Amaral.

Apesar da infraestrutura sofrível (54% dos usuários brasileiros só têm acesso a, no máximo, 2Mbps), Amaral acredita no potencial do país. E, para expandir os negócios aqui, pretende intensificar parcerias com pequenos e médios provedores. A Netflix se propõe a fornecer um servidor, que atualiza os conteúdos diariamente, e o provedor deve se comprometer com conexões de fibra óptica para seus clientes, que teriam velocidade de 10Gbps.

Que o número de provedores médios e pequenos está crescendo, já se sabe. Mas as grandes operadoras estão investindo pesado, e tudo indica que teremos nos próximos dois ou três anos um enorme salto de qualidade nesse setor, apesar das barbeiragens do governo. O desafio para a Netflix, portanto, é chegar nos locais certos antes de Net, Vivo, Oi, GVT etc. Difícil? Claro, mas também é difícil imaginar momento mais oportuno para quem quer conquistar o mercado.

Afogando em espionagem

É impressionante a capacidade que têm os agentes públicos de criar dificuldades para depois vender facilidades. Se essa é – como dizem alguns – uma característica cultural do povo brasileiro, então podemos dizer que os distintos parlamentares e burocratas do governo estão nos representando bem. Em meio à infinidade de bobagens que vêm sendo ditas e escritas sobre a questão da “espionagem” americana, uma das ideias mais cretinas que acaba de chegar de Brasilia é a de obrigar todas as empresas a manter em território brasileiro seus bancos de dados.

Isso mesmo: toda empresa que atua no país teria que armazenar os dados de seus clientes (pessoas físicas e/ou jurídicas) em algum lugar do mapa brasileiro. Haveria exceções, mas estas não foram expressas no texto enviado pelo governo à Câmara Federal, que estuda o chamado Marco Civil da Internet. Segundo o site Tela Viva, após a aprovação da lei haveria a famosa “regulamentação”, onde todos os detalhes seriam incluídos. Como se sabe, essa é uma pegadinha instituída pelos políticos para fazer uma lei pegar ou não pegar. Inúmeros projetos já foram aprovados e não são cumpridos simplesmente porque não foram regulamentados.

Nada disso é novidade. Vê-se mais uma vez o Estado querendo bisbilhotar a vida de cidadãos e de empresas. O texto divulgado pela Câmara cita, por exemplo, “provedores de aplicações de internet que exercem essa atividade de forma organizada, profissional e com finalidades econômicas”! Quem não for organizado, portanto, estaria fora da obrigatoriedade? Quem vai julgar? Mais: quem vai fiscalizar os milhares de provedores existentes no país? E como? E o que fazer quando um provedor (exemplos: AOL, eBay, Hulu) não possui filial no Brasil mas atende a usuários brasileiros?

Sim, claro, essa lei foi criada para controlar as grandes multinacionais do setor, como Google, Facebook, Microsoft e Amazon. Isso para responder à denúncia do espião Edward Snowden, que citou o Brasil entre os países que os EUA monitoram online. Essas empresas seriam colaboradoras do governo americano e, por isso, precisariam de um freio. Espertamente, os autores do projeto não especificam que tipo de punição seria aplicada a elas. Claro, nem eles sabem…

Mais incrível ainda é a desfaçatez de propor uma lei dessas num país que possui o fisco mais atuante do planeta, capaz de cobrar centenas de taxas e impostos, roubando das pessoas (físicas e jurídicas) quase 40% do que ganham. Se são tão eficientes, é porque já possuem informações detalhadas sobre todos nós. Farão o quê com os dados armazenados pelo Facebook e congêneres? Só se for porque não querem concorrência: fazem questão de ser os únicos espiões.

Temporada de TVs 4K

4K sharp 70 baixa
Como se esperava, está aumentando a oferta de TVs 4K no mercado internacional (e também no Brasil). Esta semana, a Sony começou a distribuir a algumas revendas brasileiras os primeiros modelos da nova safra, de 55 e 65 polegadas, bem mais em conta do que aquele de 84″ lançado no final do ano passado e que custa mais de R$ 100 mil. Os novos saem, respectivamente, por R$ 12.999 e R$ 22.999. Aguarda-se agora a chegada dos modelos Samsung e LG, com os mesmos tamanhos, o que deve acontecer por volta de setembro.

Nos EUA, as duas coreanas já estão começando a distribuição. Na semana que vem, chegam às principais lojas os da Samsung, com preços de US$ 5.500 (para o modelo de 55″) e de US$ 7.500 (65″). Para não ficar atrás, a LG antecipou seus planos e também promete colocar à venda até o fim do mês seus dois modelos equivalentes, por preços ligeiramente mais altos (US$ 5.999 e US$ 7.999, respectivamente). Houve até um evento, numa loja de Santa Monica, na Califórnia, a primeira a receber os aparelhos, na semana passada.

Outra que está entrando nessa disputa – não no Brasil, por enquanto – é a Sharp, que anunciou para agosto nos EUA o primeiro TV 4K de 70″ (foto acima). Segundo o site americano The Verge, será também o primeiro com certificação THX.

Para os fãs da Panasonic, a notícia mais recente – divulgada pelo site japonês Digitimes, mas não confirmada pela empresa – é de que seu primeiro TV 4K não será um plasma. Seria um LED? A resposta fica no ar… É bom lembrar que a Panasonic está desenvolvendo, em parceria com a Sony e a chinesa AU Optronics, uma linha de TVs 4K OLED, exibida como protótipo na CES, em janeiro.

Tenha seu bafômetro particular

teste alcoolEstava demorando. Os japoneses estão sendo os primeiros (só pra variar) a testar um acessório para iPhone que pode ser muito útil: o bafômetro. Isso mesmo. Se você bebeu algumas doses a mais e não sabe se está em condições de dirigir, o smartphone responde. Basta acoplar o acessório que está na foto, lançado pela empresa Thanko pelo equivalente a 20 dólares, e assoprar. Em 20 segundos, aparece na telinha a fatal informação, na forma de números (que indicam a dosagem etílica no sangue) ou de cores (verde, amarelo ou vermelho). Segundo o fabricante, funciona também com as versões recentes do iPad e do iPod; no caso do iPhone, só com a versão 5.

Agora, pode beber tranquilo.

A vida (e a morte) de Amar Bose

boseAlguns detalhes bem pessoais distinguem Amar Bose, falecido na última sexta-feira aos 83 anos, de seus contemporâneos pioneiros da indústria eletrônica (e da maioria dos empresários). Mas talvez este seja suficiente: ao se retirar, em 2011, ele transferiu o controle de sua empresa para o MIT (Massachusetts Institute of Technology), provavelmente a mais respeitada instituição do mundo na área de ensino científico e tecnológico. A Bose Corporation, fundada em 1964, tornou-se assim um patrimônio da Humanidade – embora tenha sede nos EUA, o MIT é famoso por manter as portas abertas a estudantes e pesquisadores do mundo inteiro.

Pois é, o dr. Bose – como era chamado – não teve tempo de festejar os 50 anos da empresa que criou e que, ao longo das décadas, transformou em sinônimo de inovação. Um detalhe que sempre me chamou a atenção foi por que a Bose nunca participa dos grandes eventos internacionais de tecnologia, ao contrário de todas as suas concorrentes. Quando fiz a pesquisa para meu livro “Os Visionários – Homens que Mudaram o Mundo através da Tecnologia“, descobri que Amar Bose zelava religiosamente pela aura de pioneirismo e criatividade que sempre cercou a empresa. E mais: ficara possesso com seus colegas da indústria por terem, segundo ele, boicotado a empresa após o estrondoso sucesso comercial da caixa acústica Bose 901, em 1968.

Neste artigo do site Residential Systems, Amar Bose explica melhor essa sua obsessão. Entre outras contribuições para o desenvolvimento da indústria, incluem-se a criação do primeiro sistema de cancelamento de ruídos para fones de ouvido, em 1989; e os avanços na área de compressão de sinal, no final dos anos 1990, a partir da invenção do padrão MP3 (motivo que lhe valeu, em 2007, um lugar no hall da fama da Consumer Electronics Association).

Além da obsessão técnica, Bose tinha mais pontos em comum com Steve Jobs, outro visionário. Brigava para defender seus pontos de vista. Chegou a processar a revista Consumer Reports, que numa resenha desancou a caixa 901. Perdeu na Justiça, mas a sentença do juiz entrou para a história da indústria (e Bose adorava citá-la): “Tudo que a revista escreveu é falso, mas a Constituição protege a liberdade de expressão”.

A melhor prova da paixão de Amar Bose por sua atividade é que, apesar de ter se transformado num dos principais fabricantes de caixas acústicas do planeta, ele nunca aceitou abrir o capital da empresa e comercializar ações na Bolsa. Achava, e com razão, que um investidor sem o seu comprometimento poderia desvirtuar seus princípios. Preferiu ser menos rico (o que está longe de significar “pobre”), mas mantê-los, algo cada vez mais raro, convenhamos.

E, para quem quiser compará-lo a Jobs, Bose conta com um detalhe a seu favor: graduado e doutorado no MIT, sempre valorizou, mais do que tudo, a pesquisa e o estudo científico (este vídeo mostra uma de suas aulas no Instituto, em 1996). Confiava na intuição, mas não só. O slogan da empresa – Better Sound Through Research, algo como “som melhor a partir da pesquisa” – valia também para o dono.

O que se espera dos integradores

Foram lançados no final da semana passada mais dois volumes da Coleção High-Tech, série de trabalhos técnicos produzidos pela equipe da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL para distribuição online. Os novos títulos são: “O Novo Papel do Integrador” e “Fundamentos para Projetos de Áudio”. Nenhum dos dois esgota esses assuntos, que são vastíssimos, mas são fundamentais para quem trabalha com tecnologia, tanto em projetos residenciais quanto corporativos. O primeiro, particularmente, considero imprescindível para entender o que o usuário espera de um profissional neste momento de tantas mudanças tecnológicas.

Cliquem no link acima e aproveitem!

O suspeito de sempre

Neste momento em que tanto se discute a questão da privacidade online, temos aí um bom teste para avaliar até que ponto o Google zela por seus usuários. Um juiz paulista condenou a empresa americana a pagar indenização de R$ 300 mil ao empresário Olacyr de Moraes, antigo “rei da soja”. Tudo porque um blogueiro – que o Google não quer identificar – usou a ferramenta Blogger.com para publicar coisas que Moraes considerou ofensivas. Recusando-se a entregar o “criminoso”, a empresa assumiu a suposta culpa pelo crime (mais detalhes sobre o caso aqui).

Não é a primeira vez que isso acontece. Em outros países, o Google já sofreu processos desse tipo, que sempre terminaram em acordo – nunca com a identificação do usuário. É esse o maior álibi da empresa quando acusada de violar a privacidade das pessoas. Na prática, R$ 300 mil não significam nada para seus proprietários, nem para Olacyr de Moraes, que já foi o homem mais rico do Brasil. A questão aqui não é financeira. Vamos ver se a empresa preserva seu álibi.

O DVD morreu. Viva o DVD!

DvdDiscsPara a maioria das pessoas que se julgam bem informadas, o DVD já é quase uma relíquia. Alguns até têm seus velhos discos guardados, mas não tocam neles há anos. Se perguntados, provavelmente responderão como a maioria dos executivos da indústria de entretenimento: “O DVD morreu”. Pois é, mas a realidade talvez não seja tão simples para se definir numa frase tão curta. Apenas um dado atual: os velhos disquinhos ainda representam mais da metade do faturamento dos estúdios de Hollywood.

O número está numa reportagem da revista americana Forbes desta semana, cujo autor garante que, apesar de todas as (r)evoluções recentes, o DVD ainda não está pronto para ser declarado morto. Se está, trata-se de um lucrativo defunto, assim como o são os livros, os gibis e os seriados dos anos 70/80 que vivem sendo reprisados na televisão. O texto cita dados do DEG (Digital Entertainment Group), que analisa as tendências nos mercados de vídeo, TV, streaming, video-on-demand, ebooks etc. Em 2012, por exemplo, a receita mundial com a venda desses produtos somou pouco mais de US$ 18 bilhões; a venda de discos foi de 700 milhões de unidades, o que significa 30% a menos do que em 2004. E, no entanto, os tais US$ 18 bilhões eram praticamente os mesmos oito anos atrás.

Conclusão: o público continua consumindo entretenimento com idêntica voracidade, só que agora distribuída entre diversos formatos. Claro, o consumo online é o que mais cresce, mas atenção para o que diz Bill Clark, presidente da Anchor Bay, uma das principais distribuidoras dos EUA: “Em qualquer análise que se faça, os discos físicos têm maior importância como fonte de receitas. Não há sinal de que as mídias online irão superá-los. Nosso desafio é fazer crescer o bolo como um todo.”

A seguir, seis razões pelas quais – pelo menos no mercado americano, o maior do planeta – o DVD é e vai continuar sendo fundamental nos próximos anos, segundo a Forbes:

1.As crianças precisam desses discos, especialmente em época de férias, e eles são mais práticos e mais baratos do que os Blu-ray;

2.Nos EUA, muitos estúdios ainda estimulam o uso de mídias físicas através do padrão UV (UltraViolet): ao comprar um disco, o consumidor “ganha” direito também à cópia online;

3.Muito além dos filmes, conteúdos de todo tipo são vendidos em bancas de revista, supermercados e até postos de combustível: música, esportes, ginástica, religião. Tudo em formato de disco;

4.Para quem busca a máxima qualidade de som e imagem, um disco ainda é melhor do que qualquer formato online; para os mais exigentes, o nome é BLU-RAY;

5.Se, no passado, foi difícil entender a “guerra dos formatos” (Blu-ray vs HD-DVD), muito mais complicada é essa história de nuvem… Para o consumidor leigo, nada como ter o disco na mão. iTunes, Netflix e outros serviços online são ótimos, mas para quem tem uma boa conexão de banda larga, o que não é o caso da maioria dos mortais.

6.E, para quem não vive nos grandes centros urbanos, o DVD continua sendo a forma mais prática e barata de ter acesso a uma grande quantidade de filmes. E nenhum distribuidor pode desprezar os milhões de famílias do interior – que, acrescento eu, existem tanto nos EUA quanto na Europa ou no Brasil.

Vai daí que… viva o DVD!

Espiões por todos os lados

Nesta segunda-feira, a Anatel anunciou que está investigando, junto com a Polícia Federal, se operadoras brasileiras de telefonia e internet violaram dados confidenciais de seus clientes. Foi um pedido do Itamaraty, após surgirem suspeitas de que o Brasil – assim como vários outros países – teria sido incluído no esquema de espionagem da NSA, agência de segurança americana, conforme denunciou neste fim de semana o jornal O Globo. Tudo na esteira das revelações do hacker Edward Snowden, hoje o homem mais caçado pelo governo dos EUA, e que até este momento continua confinado numa sala reservada do aeroporto de Moscou (de onde só pode sair se conseguir asilo diplomático em outro país).

Não vou me estender sobre as implicações políticas do caso, porque não sou especialista em política, muito menos em espionagem. Mas, até onde sei, a tentativa do governo brasileiro de cobrar explicações dos EUA sobre a violação de telefonemas e emails de brasileiros me parece inútil. Assim como não acredito em resultados práticos da ideia de propor à ONU a criação de “normas para proteger a privacidade de cidadãos em todo o mundo”. Segundo Snowden, os EUA fazem isso há cerca de dez anos, ou seja, antes que qualquer usuário leigo da internet sequer pensasse em invasão de privacidade e outros conceitos que hoje parecem tão abstratos.

Na prática, a possibilidade de espionagem via meios digitais é tão antiga quanto a própria internet. Esta nasceu, como todos devem se lembrar, justamente da necessidade de compartilhar informações, primeiro entre cientistas e órgãos governamentais, depois entre pesquisadores e universidades, história que conto em detalhes no livro “Os Visionários“. Tudo ia bem até surgirem Google, Facebook, Amazon, Yahoo, Apple e outros seguidores da filosofia Big Brother – este, aliás, mais antigo ainda, pois era o personagem central de 1984, livro profético do inglês George Orwell, escrito em 1948. Se permite gravar, copiar e distribuir textos, fotos, vídeos e o que mais você quiser, e se transporta uma enormidade de vírus entre um computador e outro, por que a internet haveria de ser imune à ação de profissionais que são pagos justamente para espionar?

O caso Snowden – que tem tudo para se transformar em filme já, já – pode servir de pretexto às mais delirantes e hipócritas acusações entre governantes. Mas querer negar o poder “invasor” da internet na vida dos usuários é, acima de tudo, uma estupidez. Os EUA são o país que mais pratica esse tipo dissimulado de investigação simplesmente porque foi lá que nasceu a internet e é lá que estão os equipamentos mais sofisticados para essa atividade. Brasileiros, alemães, chineses ou esquimós fariam o mesmo, se tivessem os meios. Aliás, o próprio Snowden, promovido a inimigo público número zero dos EUA, dá detalhes a respeito. Não por acaso, são americanas as maiores empresas do mundo que criam tecnologia para o mundo inteiro usar.

Foi também nos EUA que surgiu o ditado “Não existe almoço grátis”, que o economista Milton Friedman, prêmio Nobel, reeditou em 1975 reeditou para dar título a um de seus livros. Se alguém acha que tudo de bom que a internet nos traz é de graça, também deve acreditar em Papai Noel e na cegonha. E, se é que alguém ainda se preocupa com isso, não custa reafirmar que nossa privacidade – de todos nós, que usamos computadores – já foi invadida e esmiuçada há anos, e continua sendo, toda vez que acessamos um site. Não há como recuperá-la.