Archive | setembro, 2013

Guardem este nome: home gateway

multitelas (modelo)Durante a IFA, um mês atrás, notamos a proliferação dos aparelhos chamados genericamente de media players. Seriam os sucessores dos atuais decoders de TV paga, pequenas caixas capazes de armazenar zilhões de dados, receber e distribuir sinais de áudio, vídeo e um enorme etc. Gigantes como Sony, Samsung e Philips exibiram seus protótipos (na verdade, a primeira até já lançou um no mercado americano – vejam aqui), e havia também dezenas de produtos chineses do gênero. Semana passada, na CEDIA Expo, feira dos profissionais de sistemas eletrônicos residenciais, realizada em Denver (EUA), as caixinhas voltaram a se destacar. Só que os americanos utilizam outra definição, que considero mais adequada: home gateway.

Pode-se perfeitamente apostar que, como naquele famoso anúncio, um dia você também vai ter um. Home gateway é, na prática, a síntese de um computador que acumula as funções de modem (para internet), roteador e receptor de TV. Dentro dele estão processadores e/ou conversores para todo tipo de sinal: áudio, vídeo (que podem ser de baixa, média, alta ou altíssima definição), internet, telefone, televisão, dados, fotos… o quê mais? Além de três ou quatro conectores físicos, o conceito inclui compatibilidade com todos os protocolos de comunicação sem fio, que podem ser utilizados simultaneamente. Da mesma forma, as saídas de sinal são múltiplas, podendo alimentar displays ou amplificadores de áudio em vários pontos de uma casa. Mais: com HD interno poderoso, pode ser usado como gravador multimídia e armazenar horas e horas de conteúdo, que o usuário acessa tanto através de seus vários TVs quanto de celular, tablets, notebooks etc.

Quase é possível usar o jargão “caixinha mágica”. O que faz tudo isso funcionar é o software, nossos já conhecidos aplicativos, e é aí que entra a parte chata (para quem já estava pensando que essa maravilha sairia de graça). De nada adianta ter todos esses recursos se não houver um ou vários apps para gerenciá-los e permitir que os usuários tenham acesso. Este, claro, será controlado por operadoras e/ou provedores, num modelo não muito diferente daquele que existe hoje. Alguém terá de montar uma rede (com ou sem fio) capaz de transportar todas as informações até nossas casa. E nós, se quisermos acessá-las, teremos que pagar por isso.

Pelo menos, é nisso que trabalham atualmente os grandes grupos de mídia, em parcerias com a indústria eletrônica, reunidos num consórcio chamado HGI (Home Gateway Initiative). E eles têm a força.

Integradores vs Instaladores

Parashooter_by_r0balOs americanos usam termos diferentes para designar os profissionais especializados em áudio/vídeo, automação e sistemas eletrônicos em geral. Lá, instalador é o responsável pelo trabalho de campo, aquele que “põe a mão na massa”: passa fios, monta racks, sobe no teto etc. Designer é quem faz o projeto, faz cálculos, especifica e aprova o resultado final. Aquele que faz as duas coisas – e além disso negocia com clientes e fornecedores – é geralmente chamado de integrador.

No Brasil, não sei dizer por que, esta última definição só é aplicada aos profissionais que lidam com projetos comerciais, ou corporativos, não com os especialistas em instalações residenciais. Sim, aqui é muito mais comum a figura do “faz-tudo”: vende, negocia, desenha, calcula, especifica, instala… Mais do que ninguém, esse profissional deveria, sim, ser chamado integrador, não importa o tipo ou a complexidade do projeto, residencial ou corporativo. Quase sempre, o trabalho envolve mais de uma tecnologia, quando não várias, e o desafio é saber integrá-las para que tudo funcione de acordo com o que espera o usuário final.

Quis fazer essa introdução para abordar um tema que está causando polêmica nos EUA e que pode render boas discussões por aqui também. Nos últimos meses, diz a revista Commercial Integrator, vem crescendo a insatisfação com o que está sendo chamado de “invasão dos batedores de portamalas” (trunkslammers). É dessa forma nada lisonjeira que alguns profissionais de tecnologia corporativa – incluindo alguns redatores da revista – se referem a seus colegas da área residencial. Seriam algo como “turistas acidentais” ou, como se diz no Brasil, “paraquedistas”; gente sem qualificação técnica, que ousa invadir o território dos que são verdadeiramente preparados.

Claro, há uma enorme carga de preconceito aí. E é bom dizer que já ouvi afirmações do tipo também entre profissionais brasileiros. O artigo lembra que o problema por lá se tornou mais grave com a crise, a partir de 2008, que resultou em menos projetos para todos. O pessoal do home, sem trabalho, teve que ir buscar oportunidades dentro das empresas, que assim deixaram de terceirizar certos serviços. Começaram a ser tratados como concorrentes desleais. Como se vê, lá também existe quem não goste de concorrência.

A revista conclui que o fenômeno não apenas é real, mas muito bem-vindo, pela troca de experiências que pode proporcionar. Difícil discordar, num momento em que tanto se fala em “convergência”. Mais do que nunca, as tecnologias – áudio, vídeo, automação, cabeamento, comunicação sem fio, segurança, elétrica, acústica, ar condicionado, iluminação, motores, software – estão se integrando. Cabe aos profissionais dominá-las ou, caso não consigam, recorrer a parcerias para oferecer o melhor serviço integrado (convergente). Isso vale tanto numa casa quanto num prédio ou dentro de uma empresa.

Quem escolhe trabalhar com tecnologia deve saber que, sozinho, jamais chegará a lugar algum; e que precisa estar disposto a aprender sempre, porque todo dia tem alguém ensinando a alguém. E sem preconceito, pois este só faz mal à saúde de seu portador.

TVs: comparando o incomparável

Nos últimos meses, temos nos dedicado a analisar, em nossa modesta sala de testes, uma série de TVs de tela grande que vêm chegando ao mercado. Por ali já passaram modelos de quase todas as marcas disponíveis, e ultimamente temos recebido também alguns da categoria Ultra-HD (também conhecida como 4K). Primeiro, testamos – ainda em novembro do ano passado – o TV de 84 polegadas da LG, que nos causou grande impacto. Afinal, nenhum de nós tinha visto até então uma imagem com aquela profundidade e detalhamento, a não ser em feiras internacionais; o tamanho do aparelho só fez aumentar a sensação. Infelizmente, não nos foi enviado o modelo da Sony, também de 84″, lançado na mesma época. Só recentemente recebemos o de 65″, cujo teste será publicado em breve (aqui, um vídeo sobre ele).

local dimmingNesse meio-tempo, chegou o Samsung 85″, maior e mais luxuoso de todos (também o mais caro). Foi analisando esse produto (vejam o vídeo) que me ocorreu um velho ensinamento: não se deve comparar coisas incomparáveis. Ao trocar ideias com os colegas sobre qual dos três aparelhos seria o melhor, a constatação foi unânime: Samsung. E isso tem uma explicação: o painel de backlight. De todos os TVs 4K lançados até agora no Brasil, é o único que utiliza painel do tipo Local Dimming (acima), aquele em que os leds internos são distribuídos pela superfície do painel, produzindo uma luminosidade homogênea sobre toda a área de visualização da imagem.

edgelitOs demais utilizam painel Edge-lit (representado ao lado), cujos leds ficam nas laterais, projetando a luz para a área interna. Por melhores que sejam esses leds, não há como obter a mesma uniformidade de brilho. Não tivemos ainda a oportunidade de colocar dois TVs 4K lado a lado para medir a diferença entre os paineis, mas nos TVs convencionais é visível. Os TVs Edge-lit apresentam vazamentos de luz nas laterais, principalmente nos cantos da tela, o que é fácil de observar quando há uma imagem muito escura. Isso prejudica o detalhamento e faz cair a taxa de contraste.

Há alguns dias, encerramos os testes do TV Sharp de 90 polegadas, o maior à venda no Brasil, que não é 4K, e procuramos observar melhor o funcionamento do backlight. Essa empresa, que fornece displays LCD para diversos outros fabricantes, criou uma terceira via: o painel Edge-lit Full-Array. Nele, os leds estão espalhados por toda a superfície, mas comandados por uma espécie de dimmer localizado na lateral. O resultado, como vimos, foi bem superior ao dos TVs com Edge-lit convencional; mas ainda assim abaixo do Local Dimming.

Conclusão: quem é detalhista e exigente deve dar preferência a TVs dessa última categoria, lembrando que sempre serão mais caros. Além da maior quantidade de leds internos, exigem processadores mais eficientes para acioná-los quando necessário. Mesmo na era do 4K, esse detalhe faz uma boa diferença.

Num próximo post, comentaremos as diferenças, que também existem, entre os paineis Edge-lit. Como a maioria dos TVs LED-LCD é desse tipo, vale a pena prestar atenção desse detalhe. Aguardem. Enquanto isso, este artigo ajuda a entender a questão.

Hoteis debaixo d’água: um luxo só

Não é a toda hora que podemos tratar desse assunto aqui. Afinal, não se sabe de muitos locais como os mostrados nas fotos abaixo. São hotéis construídos no mar – não sobre, mas sob, as águas. O site da CNN listou seis deles, sendo que dois já estão funcionando (um em Key Largo, Flórida, e outro na Suécia). Os outros quatro estão sendo construídos, mas um deles ainda na fase de projeto. Os três abaixo devem ser inaugurados entre 2014 e 2015, se nenhum tsunami atrapalhar. Pelo inusitado, mas também pelo que se pode imaginar da sensação de dormir, comer – até mesmo ficar sem fazer nada – num lugar assim, acho que merecem alguns minutos de atenção. Confiram:

underwater-fijiO Poseidon Undersea Resort está sendo erguido numa ilha particular do arquipélago de Fiji com o máximo de luxo que um projeto desse tipo admite. Coisa para gente fina. A diária é estimada em US$ 15 mil, dando direito a extras como mergulhar nas redondezas e até pilotar um submarino. Se você ficou interessado, é bom se apressar: a lista de espera para quando for inaugurado já registra mais de 150 mil pessoas.

underwater-maldivesIthaa Undersea é o nome do restaurante acima, que faz parte de um hotel 6 estrelas (o Rangali Islands, da rede Hilton) nas Ilhas Maldivas. O prédio foi construído sobre uma barreira de corais, e não se preocupe: ninguém dorme debaixo d’água; somente o restaurante é que fica no “subsolo aquático”. O hotel oferece também (sem informar o preço) o espaço para festas de casamento, com os pombinhos – no caso, peixinhos – tendo direito a um mergulho a sós no Oceano Índico. Não é romântico?

underwater-dubaiNesse show de extravagâncias, Dubai não poderia faltar. Os sheiks locais estão financiando mais esse monumento, que pretende ser o maior hotel subaquático do planeta (de qualquer planeta). Sim, a ideia é que pareça mesmo um disco voador, transformando-se depois em franquia para outros semelhantes pelo mundo afora. A parte inferior terá apenas 21 suítes, além de lobby e sala de treinamento para mergulho. Como está virando moda por lá, será mais um mar no deserto.

TVs 4K, caindo de preço

sharp ultrahd-1lAcabou de sair nos EUA o primeiro TV 4K com certificação THX (mod. LC-70UD1U, da Sharp, foto ao lado). Tem 70 polegadas e vem sendo muito bem avaliado pelos sites especializados. Não sei se chega ao mercado brasileiro, onde a prioridade da Sharp no momento é colocar seus modelos Full-HD, com tamanhos de 60″, 70″, 80″ e 90″, numa boa quantidade de revendas especializadas. Mas o aval da THX é um bom trunfo da empresa para enfrentar Sony, LG e Samsung, que lançaram antes seus modelos 4K.

Na IFA, duas semanas atrás, a Panasonic também apresentou um modelo THX, de 65″, com previsão de lançamento antes do final do ano. A LG é outro fabricante que já lançou, no passado, TVs (LED-LCD) com o logotipo da empresa fundada por George Lucas. Mas, para a maioria dos consumidores, a pergunta que não quer calar é se vale a pena investir agora num TV 4K, cujos preços giram em torno de 50% a mais. Já houve uma queda significativa nos valores desde que os primeiros modelos foram lançados, e – como comentamos aqui – nos EUA ninguém mais esconde a guerra de preços.

Quando esteve em São Paulo, no início do mês, Jon Cielo, da THX, nos contou sobre a preocupação da indústria quanto à falta de conteúdo 4K, tema que será discutido num evento nos EUA em outubro, como mencionamos aqui semana passada. Uma outra preocupação refere-se aos fabricantes chineses, que já começaram a inundar as lojas mais populares, nos EUA e em alguns países europeus, com TVs 4K de baixíssimo custo (quase o mesmo de um Full-HD do mesmo tamanho). Vimos alguns deles na IFA – todos com aspecto descartável, apesar das belas imagens.

Vamos ver se o consumidor, principalmente o americano, cai nessa armadilha. Se não cair, a tecnologia 4K até que tem bom futuro.

Os números (não) mentem (jamais) sempre

Já comentei aqui que é sempre bom desconfiar do que se lê. A quantidade de notícias publicadas, e a velocidade das mídias, dificulta uma apuração detalhada. Mais do que isso, há uma tendência generalizada à superficialidade, especialmente nas mídias online. Quando se trata de números, então, os cuidados devem ser reforçados. Nos últimos oito dias, recebi tantas referências a estatísticas e pesquisas que decidi colecioná-las. Algumas delas:

Apple vende 9 milhões de unidades do iPhone 5 em apenas três dias

Vendas do game GTA passam de US$ 1 bilhão em três dias

Mercado de aplicativos atinge 100 bilhões de downloads em 2013

São números difíceis de se acreditar, não só por serem estratosféricos mas porque não há como checá-los. Sabendo disso, as empresas divulgam, a mídia publica e os leitores ficam espantados. Em países sérios, a manipulação desse tipo de dado pode levar à prisão, quando as empresas envolvidas têm acionistas e negociam nas bolsas de valores. No Brasil, ninguém liga (neste artigo, explico melhor o fenômeno).

Ao ver estatísticas jogadas ao vento dessa forma, sempre me lembro de um anúncio de televisores que circulou anos atrás. Fazia referência à quantidade de cores que o aparelho seria capaz de reproduzir. Na época, era comum fabricantes divulgarem que seus TVs tinham capacidade para 200, 300 ou até 500 milhões de cores diferentes. Um deles saiu-se com esta frase primorosa: “Este TV reproduz 8 bilhões de cores. Pode contar.”

E ninguém falou mais no assunto.

Jornalista: como virar celebridade

JournalistAlguém de mau gosto já disse que os números, quando bem torturados, confessam qualquer coisa. Pois é, lembrei da frase ao ver, nos últimos dias, uma série de estatísticas sobre empresas de tecnologia. O novo iPhone teria vendido 9 milhões de unidades em apenas três dias, o videogame GTA faturou US$ 1 bi também em três dias. É mais ou menos como nos filmes de Hollywood: a produção custou US$ 200 milhões e faturou US$ 700 milhões. Uau! Como é que calcularam?

O fato de a mídia divulgar esses números assim, sem preocupação com sua veracidade, tem a ver com a superficialidade dos tempos atuais, em que as pessoas replicam como papagaio as informações que recebem, sem sequer pensar que podem ser manipuladas, ou mesmo mentirosas. Se isso é ruim quando se trata de uma conversa entre duas pessoas, mil vezes pior quando sai num jornal ou site, não? Divulgam-se, sem apurar, fatos, estatísticas, previsões, boatos e até declarações. Um velho adágio do jornalismo diz que a objetividade não existe. OK, só que poderiam, pelo menos, nos poupar de perder tempo com bobagens e, pior, mentiras.

Após 40 anos de jornalismo, uma das coisas que aprendi foi que toda notícia traz consigo o interesse (nem sempre claro) de alguém ou de alguma instituição. Da forma como são feitos jornais, revistas, sites e telejornais atualmente, com poucos repórteres (de verdade), muito sensacionalismo e “opinionismo”, recomenda-se ao leitor redobrar a atenção. Quase 100% do que se publica atende a alguma empresa, governante, sindicato, igreja, grupo de pressão, partido político, ou a vários desses segmentos em simultâneo. Sem falar nas facções que, até de modo legítimo, atuam dentro desses organismos. Checagem e apuração detalhada – que são, ou deveriam ser, tão importantes quanto a própria notícia em si – passam longe dessas publicações.

Sim, há muita leviandade nas redações, como de resto em todo lugar. Mas lembro bem que, quando comecei na profissão (e resisto aqui a usar o termo “antigamente”), a grande estrela das redações era o Repórter – assim mesmo com “R” maiúsculo. Convivi com alguns dos melhores. É uma espécie hoje em semi-extinção, em parte pelas necessidades financeiras dos grupos de mídia, mas também pelas facilidades da era digital. Nas redações atuais, as estrelas são os colunistas, promovidos ao status de celebridade, e os assessores de imprensa. Muitos jornalistas que poderiam estar trabalhando como repórteres (conheço alguns excelentes) foram ganhar a vida assessorando empresas, entidades e até políticos. E dali “criam” as notícias que a mídia irá publicar e repercutir.

Na época das grandes reportagens, lutávamos pelos “furos”, as informações exclusivas, obtidas depois de muita batalha nos bastidores. Só para citar um exemplo: na década de 70, o jornalista Caco Barcellos (hoje na TV Globo) trabalhou dois meses como operário na usina nuclear de Angra dos Reis para depois escrever uma brilhante reportagem sobre os perigos ali contidos. Foi a forma que encontrou para investigar, já que a entrada no local era proibida pelo governo militar. Antes da ousadia, porém, Caco muniu-se do máximo possível de informações sobre energia nuclear e sobre a usina. Com seu talento, produziu uma das mais memoráveis peças jornalísticas de todos os tempos.

Se fosse hoje, o “repórter” receberia um press-release da assessoria da Usina, talvez entrevistasse um ou dois diretores e até participasse de uma “visita guiada” às instalações. Se escrevesse sem cometer erros de português, provavelmente ganharia até um prêmio jornalístico, entre tantos que existem.

Pensem nos grandes feitos da imprensa nos últimos anos. O ex-presidente Collor só caiu porque brigou com seu irmão e este, por vingança, decidiu revelar a um jornalista as maracutaias que levaram a família ao poder. O escândalo do mensalão só foi descoberto porque um de seus principais integrantes, o ex-deputado Roberto Jefferson, se desentendeu com José Dirceu e quis se vingar contando tudo a uma jornalista. O recente caso Siemens ia muito bem camuflado até que alguém na empresa (ainda não está claro o motivo) vazou para um repórter detalhes dos trambiques envolvendo funcionários do governo paulista. Alguém que não gosta de Dilma Roussef repassou a um jornalista supostas distorções sobre sua formação universitária, que colocavam em dúvida seu currículo: virou manchete. Uma empresa que perde uma licitação entrega à imprensa documentos confidenciais, apenas para melar o processo, e o jornal publica.

E assim a imprensa vai se desmoralizando. Com as novas tecnologias, os copycats do jornalismo têm as portas abertas. Dá-se mais valor a quem copia um press-release, esconde um gravador no bolso ou instala uma câmera oculta num gabinete do que ao profissional que pesquisa determinado assunto, estuda, compara dados e opiniões, conversa com as pessoas certas e entrevista questionando (não simplesmente transcrevendo). Pelo visto, as teclas CTR+C valem mais do que o cérebro. E, com um pouco de sorte, podem transformar repórter em editor ou colunista, quem sabe até celebridade.

Áudio de alta resolução. Será?

high res audio formatsEstá no ar mais uma polêmica envolvendo audiófilos, MP3 e a indústria eletrônica. Durante a IFA, a Sony anunciou o lançamento de uma linha de equipamentos de áudio com performance high-end, incluindo players, receivers, caixas acústicas, fones de ouvido e até um conversor DAC modular (mais detalhes aqui). Esta semana, a CEA (Consumer Electronics Association) oficializou o início do que parece ser uma campanha de marketing em defesa do HRA.

Essa nova sigla, mais uma entre tantas no jargão tecniquês, refere-se a High Resolution Audio. É como a entidade propõe que sejam chamados, a partir de agora, os aparelhos para reprodução de música que fujam das limitações do MP3 e proporcionem uma “experiência auditiva mais próxima da gravação original.” Por mais belas que sejam essas palavras, a iniciativa nada mais é do que um apelo para que usuários do mundo inteiro passem a escolher melhor a música que ouvem. Só que isso exige, além de bons ouvidos, um bom investimento em players, amplificadores, caixas (ou fones) etc. E aí a campanha bate de frente com o mercado, que hoje – feliz ou infelizmente – busca mais conveniência do que qualidade.

A campanha tenta convencer o consumidor fazendo analogia com os conteúdos de vídeo. Da mesma forma que HD significa “alta definição” de imagem, claramente superior ao padrão anterior (SD), HRA seria “alta resolução” de som. Só que vídeo e áudio são conteúdos bem diferentes. Mesmo um observador leigo dificilmente irá confundir uma imagem HD com uma SD. É consenso entre os especialistas que quem se acostuma com essa qualidade de imagem não aceita dar um passo atrás – voltar a assistir a filmes ou TV no padrão standard. Já com música, são poucas as pessoas que conseguem discernir entre MP3 e FLAC, só para citar um dos formatos de alta resolução existentes.

Segundo a Sony, o formato HRA abrange gravações com frequência e taxa de amostragem superiores às do CD (44,1kHz, 16bit). Os padrões do mundo high-end começam em 48kHz e chegam até 192kHz, em 24bit, e o HRA seria compatível com todos os arquivos de música situados dentro dessa faixa. Problema: iTunes, Amazon, Pandora e outros serviços de música fornecem pouquíssimos arquivos com essa qualidade, que na prática se traduz em melhor detalhamento sonoro. E isso porque arquivos gravados dessa forma são muito mais pesados e, portanto, demoram para carregar (quanto mais para download).

Independente dos números, basta olhar para a tela e conferir as diferenças. Em música, não basta ter um bom fone de ouvido, ou um excelente conjunto de caixas. E, para a maioria das pessoas, isso nem faz diferença.

Cinquentenário de uma velha companheira

cassette-tape-with-pencil-to-rewindNo último dia 7 de setembro, feriado nacional no Brasil, em vários outros países houve um tipo diferente de comemoração. Foi o Cassette Store Day, que marcou os 50 anos do lançamento da fita cassete. Segundo o site da CNN, que fez ampla pesquisa a respeito, foi em setembro de 1963 que a Philips colocou à venda, na Holanda, os primeiros exemplares dessa invenção que revolucionou a forma de se consumir música pelo mundo afora.

Difícil explicar isso a um jovem de hoje, mas sem a fita cassete (“cassette”, que em francês, alemão e holandês quer dizer “caixinha”) não haveria o iPod. A história é toda contada pela equipe da CNN neste link, inclusive com imagens cheirando a mofo, provavelmente fornecidas por algum colecionador. Há até a foto de Lou Ottens, engenheiro da Philips que dirigiu a equipe responsável pela façanha de registrar música numa minúscula fita magnética que girava dentro de uma caixa plástica; Ottens, inclusive, faz pose com uma C-60 original da época (esse era o código que identificava as fitas pela metragem, ou “minutagem”, no caso 60 minutos de duração).

O slideshow montado pelos pesquisadores da CNN equivale a uma viagem no DeLorean, o carro de Michael J. Fox em De Volta para o Futuro (será que a moçada de hoje assistiu a esse filme, de 1985?). Lembra, por exemplo, que o grupo de rock californiano Grateful Dead, célebre nos anos 60, chegou a convidar os fãs para registrar, com seus gravadores cassete, o áudio de um show. A prática, condenada pelas gravadoras, claro, foi quase tão comum, em certa época, quanto são hoje os downloads piratas. E graças a isso, aliás, pudemos ter acesso, bem mais tarde, aos famosos bootlegs, gravações piratas de shows ao vivo, uma paixão da qual nenhum fã de rock escapou.

Bastaria esse fato para colocar a fita cassete entre as grandes invenções tecnológicas do século 20. Mas houve muito mais. Nos anos 60, quase todo mundo tinha em casa seu toca-discos de vinil e sua coleção de LPs. Não era raro alguém colocar vários desses discos embaixo do braço para ir a uma festa na casa de um amigo. Operação de alto risco, considerando as dificuldades de transporte (quantos tinham carro?) e a fragilidade do material. Quando apareceu a fita, o problema acabou: podíamos gravar as músicas preferidas de cada disco e, com elas, encher várias fitas, que levávamos no bolso para onde quiséssemos.

Para muitos, a sensação de liberdade que isso representou só se compara, talvez, e para usar outra imagem atual, à montagem de playlists que alguns sites de música oferecem. Em certa medida, a fita cassete foi a mãe, ou avó, do hoje celebrado VoD: cada um podia fazer a sua própria programação, para ouvir quando e como lhe fosse mais conveniente.

A história da tecnologia registra que a fita cassete, com 3,8mm de largura, abriu o caminho para as fitas magnéticas mais largas, como as U-Matic (1/2 polegada) e as VHS (3/4), capazes de armazenar não apenas áudio mas também vídeo. Foi a era do videocassete, que muita gente ainda usa.

Como se sabe, nossa velha companheira foi covardemente derrotada, junto com o LP e o VHS, pelas mídias digitais, a começar do CD – e, aos que se preocupam com a passagem do tempo, lamento informar que isso já foi há cerca de 30 anos. Descobrimos então, com tristeza, que as fitas que “produzimos” com tanto carinho não suportavam o peso dos anos, praticamente derretiam sob altas temperaturas, acumulavam pó e se desgastavam a cada execução. Isso quando não se perdiam nos descaminhos do player, enrolando-se desordenadamente e exigindo a “alta tecnologia” de um lápis – isso mesmo, um lápis ou uma caneta bic – para corrigir seu rumo rebobinando os rolos da caixinha plástica.

Com os CDs, e mais tarde o MP3 e os downloads, tudo isso ficou para trás. As músicas que cabiam em centenas de fitas podem hoje ser carregadas num pen-drive, esse moleque que, desrespeitosamente, nem nos dá o direito de se mostrar por dentro como faziam nossas queridas. Pior: as músicas que levávamos horas, dias até, para gravar na sequência que nossos corações pediam, agora nem precisam ficar conosco; podem ser guardadas na “nuvem”, que a gente nem sabe onde fica, com a promessa de que, com um clique, iremos ouvi-las onde estivermos.

Será mesmo? Pode ser, mas confesso que até hoje não encontrei utilidade melhor para um lápis.

As curvas que as telas dão

Curved-UHD-TVs-that-Aren-t-OLED-Based-381203-5Ainda falando sobre a IFA (aqui, o link para nosso hot site), não tive chance de comentar aqui sobre os polêmicos TVs de tela curva. Há no ar um cheiro de que pelo menos um fabricante (LG) irá lançá-los no Brasil antes do fim do ano. Se e quando isso acontecer, os leitores poderão tirar a prova com os próprios olhos: o impacto visual é inegável.

Na IFA, os três maiores fabricantes (LG, Samsung e Sony) demonstraram esse tipo de TV. Todos impecáveis. Como não estavam lado a lado, é impossível compará-los. Mas, com base no que vimos e ouvimos de executivos das três empresas no evento, podemos aqui fazer um, digamos, balanço de características e especificações, para o leitor ir se acostumando à novidade.

Antes, um registro: a grande vantagem de um TV de tela curva é para quem tem família grande, ou quem costuma assistir televisão em grupo. Quem está bem de frente ao centro da tela não irá notar muita diferença; aliás, os TVs são tão bonitos que essa pessoa talvez se distraia admirando o design, e não a imagem exibida.

Os fabricantes (todos) dizem que a curvatura se baseia nas telas de cinema 3D, que por sua vez foram inspiradas nas antigas Cinemascope. Haveria maior imersão e, no caso de um bom sistema de home theater, maior envolvimento, como se a imagem estivesse rodeando o espectador. Sinceramente, não pude conferir essas sensações durante as demos a que assisti na IFA, até porque eram dezenas de TVs por metro quadrado!

LG e Samsung já lançaram TVs de tela curva em alguns países, ambos de 55 polegadas e com display OLED (neste vídeo, o modelo da LG). A princípio, pensava-se que somente essa tecnologia permite construir TVs curvos, pela maior flexibilidade dos painéis. Mas a Sony surpreendeu a todos mostrando na IFA um TV curvo LCD, com backlight de leds, de 65″, prometido para chegar ao mercado internacional já em outubro (seu preço seria na casa dos US$ 4 mil). Para efeito de comparação, os OLEDs Samsung e LG têm preço sugerido de US$ 9 mil.

No entanto, a Samsung escondeu até o último momento uma outra surpresa: o primeiro TV OLED de tela curva e com resolução 4K (foto acima). Na verdade, eram dois modelos, de 55″ e 65″, tamanhos que aparentemente vão se tornando padrões na indústria. Claro, exibindo imagens 4K, esses aparelhos foram muito mais apreciados pelos visitantes da IFA – embora a empresa coreana tenha dado poucas informações sobre eles. Seria uma maneira de demonstrar superioridade técnica sobre os concorrentes? “Todo mundo sabe que é muito mais difícil produzir um TV de tela curva do que um de tela plana, mesmo que este seja OLED”, comentou o vie-presidente da empresa, Hyun-suk Kim. “Mostramos que podemos produzir ambos.”

Surgiu a suspeita de que os dois aparelhos tenham sido produzidos apenas para o evento e nem chegarão ao mercado, mas a empresa não comentou. A conferir.

Fabricantes pressionam pelo 4K

4K-HDTV-relative-sizesNos próximos dias 22 a 24 de outubro, acontece em Hollywood o primeiro Simpósio 4K/UHD, como parte da conferência anual da SMTPE (Society of Motion Picture and Television Engineers). Para quem não está familiarizado, essa entidade é uma espécie de “ONU do cinema”, e na prática com muito mais poderes do que a ONU de verdade (que, pelo visto, é cada vez mais insignificante…). Você pode ver o logotipo da SMTPE nos créditos finais de todos os filmes americanos, tanto nos cinemas quanto em DVD ou Blu-ray. São esses engenheiros que definem os padrões técnicos de filmagem e pós-produção dos grandes filmes, com influência também sobre séries de TV, documentários, desenhos animados etc.

Bem, mas qual é a importância desse encontro de outubro? É que, pela primeira vez, o assunto “4K/UHD” entra na pauta pra valer (a indústria ainda não se decidiu por um dos dois nomes). Simboliza uma pressão, cada vez menos velada, dos fabricantes para que Hollywood resolva de vez aquele que, para quase todo mundo, é o maior problema dessa tecnologia: a falta de conteúdo. Esta, por sua vez, decorre da falta de padronização em relação a especificações como colorimetria, frequência de quadros, faixa dinâmica, níveis de compressão, proteção anticópia etc. Sem essas definições, os estúdios se recusam a investir na transposição de seus filmes do cinema para os formatos domésticos. A falta de padrão também impede que as emissoras de TV adquiram equipamentos para transmissão de conteúdos em 4K.

O problema não é novo. Aconteceu o mesmo com a tecnologia 3D, que até hoje não está devidamente especificada. Só que, ao contrário do 3D, a ultra-alta definição já é consenso no mercado. Mais do que isso, é uma evolução natural do HD, embora seja impossível prever quando uma será substituída pela outra. Definido o padrão, não apenas poderão ser lançados mais conteúdos em 4K (especialmente os grandes sucessos do cinema), mas as emissoras terão uma perspectiva de, num prazo não muito longo, iniciar as transmissões. E, claro, os fabricantes venderão mais aparelhos, já adaptados às novas especificações.

Em tempo: nos bastidores, a pergunta que alguns fabricantes fazem é se os estúdios de Hollywood realmente querem fazer decolar o 4K, ou se a falta de padrão é mero pretexto. Durante a IFA, ouvi de um deles que ninguém até agora conseguiu desenhar um modelo de negócio rentável para essa tecnologia – e Hollywood nada fará se não puder faturar alto.

Voltaremos a falar desse assunto em breve. Por enquanto, alguém aí tem sugestões a respeito?

Espionagem para boi dormir

Fiquei alguns dias desconectado da política brasileira e, de retorno, percebo que a campanha eleitoral de 2014 já começou. Ou melhor, foi iniciado o vale-tudo, em que qualquer detalhe, ainda que desimportante, pode ser usado eleitoralmente. É o caso, a meu ver, da “espionagem” americana sobre a presidente Dilma e as atividades da Petrobrás. Inacreditável que um governo incapaz de cuidar da segurança interna queira cobrar transparência de alguém.

A internet já existe na vida das pessoas há cerca de 20 anos e até hoje o Brasil não tem uma legislação a respeito – descobriram agora o tal do Marco Civil, que virou “prioridade” num passe de mágica. O país é um dos líderes mundiais em número de hackers, a pirataria (inclusive online) corre solta, os serviços de telecom são uma piada, ninguém controla os dados, por exemplo, do INSS e da Receita Federal, e dona Dilma vem dar lição de moral ao governo americano? Já comentei aqui que os EUA têm maior capacidade de operar e vigiar o uso da internet, simplesmente porque são o país tecnologicamente mais desenvolvido do planeta. Rússia, China, Alemanha, Reino Unido, França, Japão e outros também fazem suas, vá lá, espionagens, na medida de suas capacidades técnicas. O Brasil, indigente em tecnologia, desempenha papel inferior ao de coadjuvante nessa história.

Se fossem mesmo para valer as ameaças, bastaria o governo brasileiro tomar a decisão, tecnicamente muito simples, de conceder asilo diplomático ao espião Edward Snowden, como propõem o Wikileaks e vários setores libertários da chamada blogosfera. Seria, este sim, um duro golpe contra o governo Obama. O problema é que talvez não renda votos.

A propósito, sugiro a todos a leitura da entrevista feita pela Folha de São Paulo com Julian Assange, fundador do Wikileaks, que está asilado na embaixada do Equador em Londres. É uma aula de internet e de estratégia política online.

Mais um que se vai…

ray-dolbySidney Harman, Steve Jobs, Dan Engelbardt, Amar Bose… A lista de gênios da indústria eletrônica que estão indo embora aumentou nesta quinta-feira, com a morte de Ray Dolby. Um dos raros cientistas cujo sobrenome acabou se tornando sinônimo de excelência. Pense em nomes como Heinrich HERTZ, Camp GILLETTE, Enzo FERRARI, Michael DELL, Henry FORD, René DESCARTES, LOUIS BRAILLE… Pois é, em seu tempo e a sua maneira, Ray Dolby foi como esses inovadores, associando seu nome à própria atuação.

Nascido nos EUA (1933) e formado em Stanford, começou a se destacar na Ampex, onde contribuiu para desenvolver e tornar conhecida a fita magnética para registros de áudio (e depois de vídeo). Em 1957, decidiu retomar os estudos na Inglaterra, graduando-se em Física por Cambridge. Em 1965, fundou lá mesmo a Dolby Laboratories, que em 1976 transferiu para San Francisco, onde estaria em casa e mais perto de seus clientes potenciais (os estúdios de Hollywood). Dirigiu a empresa até 2009, quando se aposentou. Nesses quase 50 anos, registrou em seu nome nada menos do que 50 patentes, quase todas na área de áudio.

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Suas mais famosas realizações foram o sistema de redução de ruídos (Noise Reduction), criado a partir da popularização das fitas cassete; e a série de padrões de processamento digital iniciada em 1972 com o Dolby NR para cinema, depois aperfeiçoado para Dolby Stereo, Dolby Pro-Logic Surround, Dolby Digital etc. A empresa ganhou uma infinidade de prêmios por suas inovações. Mas Ray Dolby teve ainda o mérito de saber transformar essas e outras invenções numa mina de ouro, ao cobrar royalties dos estúdios de cinema e instalar amplificadores e processadores nas salas de cinema. Como os produtos domésticos de hoje, esses sistemas precisam ser periodicamente trocados (a receita é a mesma usada por THX, DTS, SAP, Oracle etc).

E, assim, a cada inovação a Dolby é devidamente recompensada. E a cada exibição de um filme – seja no cinema ou na casa de alguém – tem lá sua parte da receita. Coisa de gênio.

 

Neurônios a todo vapor

De volta da IFA, após uma viagem meio conturbada, mergulhamos de cabeça em dois outros eventos que acontecem esta semana em São Paulo. Primeiro, o encontro “THX no Brasil”, promovido pela revista HOME THEATER & CASA DIGITAL em parceria com a Epson e com a Aureside (Associação Brasileira de Automação Residencial). Na terça-feira, ao final de mais uma etapa do Programa de Certificação Home Expert, recebemos Jon Cielo, engenheiro da THX, empresa fundada pelo cineasta George Lucas há mais de trinta anos e que se tornou referência em áudio para cinema e vídeo. Ontem, Cielo fez uma apresentação para cerca de 100 profissionais do mercado, enriquecendo a programação de palestras do Congresso HABITAR, da Aureside, que por sua vez acontece simultaneamente à ExpoPredialTec 2013, feira de automação residencial e tecnologias de áudio e vídeo.

Com a cabeça já bagunçada pelo (con)fuso horário, confesso que não foi fácil arranjar espaço nos meus dois neurônios para assimilar a “aula” de Cielo, que nos contou um pouco do que a THX faz e também dos planos da empresa para o mercado brasileiro (neste vídeo, ele nos deu um bom resumo). A ideia é trazer para o país os programas de certificação desenvolvidos nos EUA, com as devidas adaptações, a partir do ano que vem. Claro, a THX tem interesse também na venda de cada vez mais produtos certificados, como receivers, players, processadores, caixas acústicas e TVs. E está iniciando justamente agora um programa para certificação de aparelhos portáteis, como smartphones, tablets, notebooks e fones de ouvido.

Após o papo com Cielo, percorremos alguns estandes da ExpoPredialTec, que este ano tem cerca de 30 expositores. O mais interessante do evento, pelo que ouvimos deles, é o perfil dos visitantes: profissionais vindos de diversas partes do país e profundamente interessados nas novas soluções exibidas. Continua enorme a carência de informação pelo Brasil afora, pois são poucas as empresas que conseguem manter representantes em todas as regiões importantes. Uma feira com essa proposta é fundamental para que o mercado cresça em bases sólidas.

Hoje, estaremos lá de novo. E depois contamos as novidades.

Olhando a maçã de longe

GALAXY_Note_10.1_(2014)_1Nesta terça-feira, véspera do encerramento da IFA, a maioria das conversas era sobre a expectativa criada (pela enésima vez) em torno do lançamento da Apple – no momento em que escrevo, já sabemos que foi apresentado o iPhone 5S, trazendo quase todos os recursos comentados, na forma de boato, nos últimos meses. Como todo grande evento, os últimos dias são menos agitados na IFA; a maior parte dos jornalistas e os executivos mais importantes das empresas já foram embora. Mesmo assim, me arrisco a dizer que o evento (este aqui, não o da Apple) ficará marcado pela mudança de atitude dos grandes fabricantes, que agora não parecem mais, como pareciam anos atrás, ter medo da gigante americana.

Os tablets e smartphones exibidos aqui por Samsung, Sony e LG empolgaram os especialistas, prometendo uma dura disputa a partir deste final de ano. O Xperia Z1, por exemplo, me parece uma grande sacada: à prova d’água, com receptor de TV Digital (só no Brasil, por enquanto) e, mais do que tudo, com um jogo de lentes comandadas por um processador próprio. Este último detalhe, na prática, pode significar uma ameaça aos fabricantes de câmeras, como aliás a própria Sony – em cidades recheadas de turistas, como esta Berlim, é cada vez mais comum ver as pessoas fotografando com seus celulares e até tablets.

Já os novos Galaxy, da Samsung, estão sendo saudados por alguns experts como os melhores lançados até hoje. A empresa investiu pesado em software, especialmente na capacidade de executar várias tarefas simultâneas, algo que muitos usuários reclamam no iPad. E a LG entra nessa disputa com um aparelho de 8,3 polegadas que segue em quase tudo o conceito da Apple, até porque é ela mesma, a LG, quem fornece os painéis de toque para a americana.

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Temos ainda boas novidades da Lenovo, Asus, Acer e HTC, sem falar na Nokia, que agora deve se revitalizar após se unir à Microsoft. E, para quem gosta, o tablet 4K de 20 polegadas, da Panasonic (ao lado), que visa especificamente o público profissional. Será, quem sabe, a televisão do futuro?

A dança dos cabos

Aqueles que reclamam toda vez que precisam trocar seus aparelhos eletrônicos logo terão mais uma chance de desopilar seus fígados. Em Berlim, foi oficializada a revisão 2.0 do padrão HDMI, que deve estar no mercado até o início de 2014. O consumidor provavelmente nem vai sentir a mudança, a não ser aqueles que já estão navegando no mundo 4K.

Reclamar é um direito de todos, mas na verdade o HDMI 2.0 já estava previsto desde que o padrão existe; só não havia uma data marcada. O lançamento talvez tenha sido antecipado pela necessidade da indústria de fazer decolar a tecnologia 4K – e também por esta ter caído no agrado de usuários e profissionais, apesar da carência de conteúdo. Com uma certa licença poética, pode-se até afirmar que começa a se repetir o fenômeno da alta definição: quem experimenta não quer mais largar.

Estamos vendo aqui na IFA a avalanche de displays 4K, nos mais variados tamanhos, a ponto de alguns estandes nem exibirem mais imagens Full-HD. Não é uma nuvem passageira, é o futuro chegando, digo, o futuro dos próximos dez anos (os japoneses já anunciaram para 2023 o início das transmissões em 8K).

Voltando ao HDMI 2.0, como disse, o consumidor não terá de se preocupar muito, por enquanto, porque a mudança será no processamento dos sinais. Pelos mesmos cabos atuais poderá trafegar vídeo 4K a uma velocidade 80% mais alta: dos atuais 10 Gigabits por segundo para 18 Gbps. Isso significa trafegar um filme em 4K a 60 quadros por segundo; hoje, é possível apenas quando o filme foi rodado a 30qps. Os produtores poderão inserir até 32 canais de áudio que, com um dos novos conectores, o usuário conseguirá reproduzi-los em casa – não com os receivers e processadores atuais, evidentemente.

Pode-se esperar que surjam, talvez ainda este ano, os primeiros aparelhos compatíveis com HDMI 2.0, todos capazes de trafegar vídeo 4K. Aqui na IFA, a Panasonic foi o primeiro fabricante a confirmar adesão, anunciando que seus novos TVs LED-LCD já chegarão às lojas com esse conector. Os demais devem fazer o mesmo. Vai ficar faltando apenas a colaboração dos estúdios de cinema, que – como sempre – hesitam em investir numa inovação tecnológica. Mesmo com muitos filmes já sendo rodados em 4K, sua transposição para mídias acessíveis ao consumidor continua empacada.

Falaremos disso mais à frente. Por enquanto, a sensação é de que estamos dando mais um passo na direção de tornar o padrão 4K universal. Um passo de tartaruga, sim, e de alto custo ainda, mas de qualquer forma um passo.

Guerra quente

A capa de uma revista francesa na manhã desta segunda-feira estampa uma charge simulando embate entre os presidentes dos EUA e da Rússia, com o título (literalmente) bombástico: “A Nova Guerra Fria”. Referência, é claro, ao fantasma que assombrou o mundo entre os anos 50 e 70 do século passado, quando as duas maiores potências militares do planeta viviam se ameaçando (e a nós todos) de um ataque nuclear que, felizmente, não se consumou.

Quem viveu aquele período sabe que os conflitos atuais nem chegam perto do clima daquela época, embora hoje talvez esteja morrendo mais gente. Mas a tensão torna as pessoas mais desconfiadas, estressadas, exceto quando estão diante de maravilhas como as que vemos em Berlim, na IFA. Parece incrível que o mesmo bicho capaz de produzir armas químicas de destruição em massa atinja prodígios como TVs ultrafinos de resolução 4K, relógios de pulso que obedecem a voz do dono e telefones que realizam tarefas de computador.

Qual dos dois animais irá vencer?

 

Será que o TV não é mais aquele?

A aparente desistência da Panasonic em relação ao plasma começou a fazer sentido nas duas apresentações posteriores, neste primeiro “dia da imprensa” na IFA. Tanto Sony quanto Samsung deram menos importância a seus lançamentos em TVs do que aos tablets e smartphones; a empresa coreana marcou um outro evento para esta quinta-feira, onde talvez se fale um pouco mais de 4K, OLED etc. Hoje, o dia foi dedicado às telinhas.

Samsung-Galaxy-Gear-SmartwatchE, delas, a que mais provocou suspiros entre os jornalistas presentes foi a menor de todas: a tela de 1,63 polegada do Galaxy Gear (foto), também chamado de smartwatch, embora esta marca seja da Sony. É uma espécie de “minicelular”, feito para se usar no pulso, claro, e que por acaso também marca as horas. Sozinho, não faz muito além disso: depende de sua conexão Bluetooth para se comunicar com um smartphone de verdade – e este tem que ser, necessariamente, um Galaxy da nova linha que a Samsung também apresentou hoje.

Já na apresentação da Sony, o destaque foi o Xperia Z1, com sua telinha de 5″ e uma lista tão grande de recursos que lembra as especificações de um computador. Tirando alguns exageros – como uma câmera embutida de 20,7 megapixels, suficiente para se imprimir um cartaz de outdoor -, é serio candidato a brigar com o iPhone. Pelo menos, é o que indica (e espera) a Sony. Só falta combinar com LG, Samsung e os demais concorrentes.

Essa briga de telinhas promete!

TV Panasonic de 65″. E não é plasma!

panasonicForam cerca de 45 minutos, com vários apresentadores, e em nenhum momento se ouviu a palavra “plasma”. Sim, aconteceu hoje à tarde aqui em Berlim, durante a conferência de imprensa da Panasonic. Quando dois executivos da empresa abriram uma porta, e dela saiu um TV 4K de 65 polegadas (foto ao lado), todo mundo pensou na tecnologia que a maioria considera a melhor, e com a qual a resolução 4K – pelo menos na teoria – combina à perfeição.

Não era. Discretamente, a Panasonic partiu de vez para o LCD, e agora o TV de 65″ é seu produto top de linha. Sim, havia um plasma (de 60″) no estande, mas quase ninguém notou. A ordem agora é se concentrar em 4K e tentar oferecer, em LED-LCD, coisas que os concorrentes ainda não oferecem. Exemplo: certificação THX e um tal de “canal 4K”, que é como a empresa chama uma série de serviços via internet em que o usuário de seus produtos (TVs, câmeras e players) poderá acessar conteúdos 4K – isso, claro, quando houver banda larga suficiente.

O novo TV traz ainda duas características que o diferem dos demais 4K vistos até o momento. Uma é a conexão HDMI 2.0, lançada oficialmente também hoje aqui na IFA e cuja principal vantagem é aumentar em cerca de 80% a velocidade de transferência dos dados. Outra é a capacidade de processar imagens 4K na frequência de 60 quadros por segundo (60Hz), quando os modelos já lançados limitam-se a 30Hz. Na teoria, faz muita diferença. Vamos tirar a prova quando pudermos testar um desses aparelhos.