Archive | janeiro, 2014

TV digital acaba com o Ginga

“TV nipo-japonesa”: é como se refere o jornalista Gustavo Gindre ao padrão da televisão digital brasileira (SBTVD), derivado do japonês ISDB-T. Num belo artigo publicado esta semana no também excelente blog Notícias da TV, Gindre afirma que acaba de ser eliminado o único traço de brasilidade existente no padrão: o middleware Ginga, que permite recursos de interatividade pela TV. O governo federal, único que poderia obrigar a implantação, simplesmente desistiu. Foram demais as pressões das emissoras abertas, essas capitanias que controlam tudo no bilionário mercado brasileiro de televisão.

A notícia não chega a ser propriamente nova. Comentamos sobre isso aqui algumas vezes, a última delas em fevereiro de 2012. Estava claro então que o Ginga era, na prática, uma enganação. Ou, explicando melhor, uma forma (capenga, é verdade) de justificar a adoção do padrão japonês, após uma disputa onde houve de tudo – de chantagens a manipulação criminosa de dados, e sabe-se lá mais o quê. Na versão oficial, decantada pelo então presidente Lula, o Ginga seria a grande contribuição brasileira no mundo da tecnologia de televisão: um sistema operacional desenvolvido no Brasil, altamente eficiente, a ser copiado por todos os outros países.

Membros da Academia, pesquisadores independentes e desenvolvedores acreditaram, e se animaram a produzir uma série de aplicativos baseados naquela joia. Descobriu-se depois que seu custo era inviável, já que rodava sobre Java, patente da americana Oracle. Ainda assim, o governo obrigou os fabricantes a embutir Ginga em todos os TVs, o que hoje ocorre em 80% dos modelos produzidos no país (até 2015, serão 100%).

Enfim, um delírio completo. Como já afirmavam vários especialistas que entrevistamos a partir de 2008, quando começaram as transmissões do SBTVD, interatividade na TV não foi levada a sério em nenhum país do mundo. Japoneses, alemães e americanos, que desenvolveram cada um seu padrão para TV digital, sequer se preocuparam com isso. Não há por que, quando se sabe que o destino da TV é se conectar à internet, onde o usuário dispõe da máxima interatividade possível e imaginável!

Fica agora a pergunta no ar: quem vai ressarcir as centenas de pequenas empresas que acreditaram na palavra do presidente da República e investiram no Ginga? Alguns desses empreendedores aplicaram todas as suas economias no projeto. Foram ludibriados, mais ou menos como os poupadores da caderneta no governo Collor, até hoje à procura da devolução de seu pobre dinheirinho.

Lamentavelmente, o Ginga é apenas um, entre inúmeros exemplos de como ciência e tecnologia são (mal)tratados no Brasil, e cada vez mais. Péssimo exemplo do que acontece quando política e tecnologia se misturam. A conta, pagamos eu, você e todos os que ainda insistem em ser contribuintes.

CES vem para São Paulo

A direção da CEA (Consumer Electronics Association) anunciou nesta terça-feira seu calendário para este ano, incluindo pela primeira vez uma parada em São Paulo. São os eventos que a entidade batizou CES Unveiled, algo como “CES Descoberta”, que até o ano passado aconteciam sempre no mês de junho em Nova York. É um encontro de um ou dois dias, em que alguns dos expositores promovem uma “pré-estreia” dos produtos que irão exibir na grande feira de janeiro, em Las Vegas. Nada grandioso, apenas algumas pílulas para atiçar a curiosidade geral.

Agora, o projeto está se espalhando pelo mundo. A CEA percebeu que, com a internet, o alcance da CES se ampliou consideravelmente para fora dos EUA (mais de 30% dos visitantes este ano vieram de outros países). O calendário prevê quatro eventos desse tipo: Shangai (em abril), Varsóvia (junho), São Paulo (setembro) e Paris (outubro); além de Nova York, agora remarcado para novembro.

Em breve teremos mais notícias a respeito.

3D, agora só sem óculos

glassesfree3DangleAinda como resíduo da CES 2014, vale a pena lembrar que a Vizio, hoje uma das marcas de TV mais vendidas nos EUA, anunciou que não irá mais comercializar modelos 3D. Curioso é que quase todos os outros fabricantes que vimos no evento mantêm esse recurso, mas com o mínimo de divulgação; parece que ser 3D tornou-se apenas mais um item, ou obrigação, dos TVs atuais.

Definitivamente, a indústria chegou ao consenso de que aqueles óculos são um obstáculo intransponível à adoção da novidade, por mais que haja bons conteúdos para ver (e nem são tantos assim). Ou seja, a solução é acelerar o desenvolvimento dos TVs 3D glassless, também chamados “autoestéreo”, ou autoestereoscópicos, que não exigem o acessório. “Muitos usuários, e até revendedores, acham que a TV 3D foi um fracasso, já que nenhuma emissora deu certo”, analisa Nicholas Routhier, presidente da Sensio, empresa que oferece vídeos 3D via streaming. “Foi criada uma expectativa exagerada, como se fosse possível assistir a tudo em 3D. Não é isso que as pessoas querem.”

Routhier lembrou, e com razão, numa entrevista ao site Variety, que muitos consumidores nem sabem que seus TVs podem funcionar em 3D… Falta, portanto, maior conhecimento do público sobre esse recurso e, claro, maior quantidade de conteúdos – especialmente filmes – para ver. Na CES, algumas empresas demonstraram sistemas 3D sem óculos, mas nenhuma realmente convincente. Não se consegue a mesma profundidade, e qualquer mudança de posição prejudica a imagem.

Em suma, é algo para mostrarmos na CES 2016 ou 2017, quem sabe.

Ultra-HD sem fio: uma boa promessa

Ouvi muito sobre tecnologias sem fio durante a CES, e em breve vamos explorar melhor o tema aqui. Mas é fora de dúvida que a maioria dos usuários anseia pelo dia em que não precisará mais passar cabos entre seus aparelhos. Bem, é quase uma utopia, mas a empresa californiana Silicon Image (SI) promete ser a primeira a lançar uma solução sem fio para conexões de ultra-alta definição (nosso já famoso 4K). No evento, eles demonstraram como funciona, embora sem contar o segredo. Um TV UHD recebia imagens de um gerador de sinal instalado a cerca de 10m de distância; olhando, ninguém diria ser uma ligação sem fio. Mas atrás do TV estava o pequeno receptor da SI, funcionando na frequência de 60GHz e com taxa de transmissão da ordem de 8Gbps, segundo os demonstradores.

Quando chegará ao mercado? Ninguém sabe, nem eles.

Vale lembrar que a LG também demonstrou algo do gênero (foto), mas baseado na tecnologia NFC (Near-field Communication), de curtíssima distância.

LG_Wireless_UltraHD

Fabricantes de OLED fazem as contas

Se no ano passado a tecnologia OLED dividiu as manchetes com os TVs 4K, desta vez – como comentamos durante a CES – foi uma goleada. Mas isso não quer dizer que os displays orgânicos estão esquecidos, nem que deixaram de ser “a TV do futuro”. Uma pesquisa divulgada esta semana nos EUA estima que em 2014 serão vendidos em todo o mundo cerca de 50 mil TVs OLED – a previsão é de 10 milhões em 2018!

A maior parte desses painéis, por enquanto, sairá das fábricas da LG, o único fabricante que está, de fato, investindo pesado na tecnologia, e com pretensões de curto prazo. Sim, na CES vimos modelos também da Samsung, Panasonic e uma série de marcas chinesas, incluindo as gigantes Hisense e TCL. A maioria eram TVs de 55 polegadas, e isso tem uma explicação: quase todo mundo – inclusive os chineses – está comprando os painéis internos da própria LG (exceção, claro, é a Samsung).

LG-OLED-TV-16x9_118262316x9-1024x576Segundo o site especializado Advanced Television, a estratégia da LG para dominar essa fatia do mercado é dividi-lo em dois: uma linha de aparelhos mais refinados, incluindo os de tela curva, a ser distribuída através de lojas especializadas; e outra com produtos mais “populares”, buscando aumentar os volumes a curto prazo. Na CES, a empresa exibiu OLEDs de três tamanhos: 55″, 65″ e 77″, sendo que o primeiro e o terceiro estavam em demonstração também nas versões de tela curva; um deles, inclusive, permite que o próprio usuário regule a curvatura através do controle remoto (este vídeo, feito no estande da Samsung, mostra como funciona). Já comentamos também que a LG é a primeira a montar esse tipo de TV no Brasil.

Vale lembrar que a LG utiliza um tipo de painel diferente de Samsung e Panasonic, por exemplo: o chamado WOLED, ou “OLED branco”, que tem custo inferior (mais detalhes aqui).

Amazon também terá sua TV

amazon-primeA propósito do tema “TV paga vs internet”, acabo de receber, via Twitter, a notícia – ainda não confirmada – de que também a Amazon prepara sua entrada no segmento de TV por assinatura. Online, naturalmente. Emissários da empresa estariam negociando a compra de conteúdo junto a grandes grupos de mídia (leia-se: emissoras e estúdios). O simples boato já fez subir as ações da Amazon em 1,9%!

Na verdade, a empresa hoje oferece o serviço Amazon Prime, com assinatura anual (hoje, o valor é de US$ 79) dando direito a 41 mil filmes e séries de TV, entre outros benefícios válidos somente para quem reside nos EUA. Notícias sobre sua entrada “oficial” na operação de TV têm surgido desde 2012, sempre desmentidas. Mas, agora, até The Wall Street Journal aposta que é pra valer.

Como dissemos no comentário anterior, a Amazon é forte candidata a desbancar a Netflix como maior fornecedora de conteúdos de vídeo online do planeta; seu poder de negociação é estratosférico. Mas os mais ameaçados, no caso, seriam as operadoras tradicionais de TV paga: Comcast, Time Warner, AT&T, Dish etc. (claro, estamos falando, por enquanto, apenas do mercado americano). Se seus assinantes puderem ver os filmes e séries de sucesso a qualquer hora e lugar, e em qualquer aparelho, será difícil resistir.

Atualizando: nesta quinta-feira, a Amazon desmentiu a notícia. Mas o WSJ não costuma errar nessas coisas.

Quando o assinante quer fugir

Já comentamos aqui sobre o fenômeno que os americanos chamam cord-cutting. É quando o usuário de TV paga cancela sua assinatura para ficar com um dos serviços de filmes online, do tipo Netflix. Esse é um problema sério nos EUA, onde as redes de banda larga funcionam e a oferta de conteúdos de vídeo pela web é incrivelmente diversificada. Não é (ainda) no Brasil, por motivos óbvios.

Na sua incansável capacidade de simplificar as coisas, os americanos criaram também a expressão cord-shaving, referindo-se às pessoas que abrem mão dos pacotes mais caros de TV paga e os substituem por Netflix e congêneres, mas sem cancelar a assinatura. A diferença é sutil: enquanto uns não aceitam mais pagar pelos pacotes das operadoras, outros procuram conservar os dois serviços, mas com desembolso menor. Coisas do mundo capitalista, com aquela famosa lei que até hoje ninguém conseguiu revogar: oferta vs procura. Ganha quem oferece o melhor pacote de serviços pelo menor custo (se fosse aqui, talvez as operadoras já estivessem pedindo ajuda ao governo, mas essa é outra história…)

Importante é analisar por que os dois fenômenos acontecem – aliás, há ainda um terceiro grupo, chamado cord-nevers: são aqueles que jamais farão uma assinatura de TV (ou, pelo menos, dizem isso). O mais recente levantamento da empresa de pesquisas NPD, divulgado nesta terça-feira, revela que em 2013 houve queda de 6% no número de residências americanas que recebem algum serviço de TV paga, enquanto cresceu 4% o número de assinantes dos serviços chamados SVoD (Video-on-Demand por Assinatura).

Com isso, o maior mercado de pay-TV do mundo cai para 32%, que é o índice de penetração do serviço no país (número de assinantes sobre total de domicílios). Ou seja, chega bem próximo ao índice brasileiro, que pelos dados da Anatel referentes a novembro – ainda falta fechar o ano – está em torno de 30% (há países, como Argentina e Colômbia, onde esse índice supera os 80%).

A diferença, como sempre, está nos detalhes: no Brasil, segundo o Ibope, 57% dos assinantes usam a TV paga para ver os canais abertos (veja os detalhes). VoD, portanto, ainda é um nicho, preenchido – aparentemente muito bem – por serviços como Now. A maioria das tais 18 milhões de famílias que pagam uma assinatura ainda precisam aprender a diferenciar a Globo da Globosat, a Band da BandNews e assim por diante.

Copa corre o risco de “caladão”

telephone shutdownSei que os leitores deste blog não acreditam em Papai Noel e, portanto, nunca foram enganados pelas promessas do governo em relação à Copa do Mundo. Desde quando foi oficializado que o Brasil seria o país-sede, todos (digo, as pessoas bem informadas e sem interesses inconfessáveis) sabíamos que aquilo era puro marketing. Nunca houve, de fato, empenho do governo brasileiro em viabilizar as obras necessárias, até porque estas exigiam (e exigem) uma capacidade de planejamento que passa longe dos gabinetes de Brasilia.

Embora não seja prioridade num país tão carente, a Copa poderia, sim, ser uma ótima oportunidade de estimular investimentos na tão precária infraestrutura do país – era o mínimo que se poderia esperar. No entanto, trata-se de mais uma oportunidade perdida. Muito se tem falado sobre os gastos obscenos com estádios, pagos com dinheiro do contribuinte, mas esse talvez seja o menor dos problemas, pelo menos no que se refere à tecnologia.

Nesta terça-feira, ali pela hora do almoço, ouvi na rádio CBN entrevista com Eduardo Levy, presidente do Sinditelebrasil, entidade que representa as operadoras telefônicas. Sim, essas empresas estão entre as campeãs de rejeição junto ao consumidor e, por isso, é provável que suas queixas sejam ignoradas. Mas convém olhar um pouco mais à frente. “Não estão deixando implantar redes Wi-Fi nos estádios”, disse Levy, referindo-se aos administradores das arenas de São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Natal e Curitiba. Em São Paulo, onde acontecerá a abertura da Copa, a situação chega a ser vexatória: “Não temos nem uma sala reservada para instalar os equipamentos necessários”, reclama o executivo.

Depois do fiasco que foram os serviços de comunicação durante a Copa das Confederações, no ano passado, as cinco maiores operadoras do país (Claro, Nextel, Oi, Tim e Vivo) decidiram se unir numa espécie de “consórcio informal” visando à Copa de 2014. Seu raciocínio nada tem de benemérito: simplesmente, perceberam que qualquer problema será sempre atribuído a elas, as teles, a quem o governo e a Fifa delegaram a tarefa de equipar os estádios com redes decentes. Segundo Levy, a implantação demora em torno de 120 dias; estamos a 140 do início da Copa e em seis praças o trabalho sequer começou. Ou seja, o risco de um “caladão” para quem estiver vendo os jogos ao vivo é enorme.

E por que? Levy joga a culpa nos administradores dos estádios (no caso do Itaquerão, por exemplo, a direção do Corinthians). “Querem instalar redes próprias, para cobrar do torcedor”, acusa o representante das teles, que garante serviço Wi-Fi, 3G e 4G gratuitos nas arenas, se tudo ficasse, de fato, por conta das empresas. “No Rio, Brasilia e Salvador, estaremos com tudo pronto em fevereiro”, assegura.

A íntegra da entrevista pode ser ouvida neste link. Mas a pergunta que não quer (e não pode) calar é: o que têm a dizer Lula, Dilma, Blatter, governadores, prefeitos e ministros que, nos últimos anos, vêm alardeando o famoso “legado” da Copa? Não me cabe defender as teles, nem tenho a menor intenção de ir a qualquer jogo da Copa. Portanto, não me fará a menor diferença se celulares e internet estiverem ou não funcionando nos estádios. Mas essa falta de respeito com o cidadão que paga impostos já passou da hora de acabar, não é mesmo?

Philips deixa, de vez, o mercado de TVs

Também nesta segunda-feira, a direção do grupo holandês Royal Philips anunciou que está vendendo para os chineses da TPV os 30% de participação que ainda lhe restavam na joint-venture TP Vision. A TPV irá pagar US$ 67 milhões para ser controladora única do negócio e, segundo o próprio CEO da Philips, Frans van Houten, “ganhar agilidade e flexibilidade em relação às mudanças do mercado.”

O acordo prevê que a TPV irá pagar royalties de 2,2% sobre as vendas de produtos com a marca Philips, garantindo um mínimo anual de 50 milhões de euros (cerca de US$ 70 milhões). Segundo a agência de notícias Bloomberg, o anúncio fez subir as ações da Philips, mostrando que o grupo age bem ao concentrar-se, a partir de agora, em segmentos mais lucrativos: equipamentos médicos e de iluminação.

4K, à espera da padronização

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Os TVs 4K só serão um sucesso quando houver uma padronização técnica de ponta a ponta, envolvendo aparelhos, discos, software, transmissões por TV e internet. Quem diz isso é talvez o homem mais poderoso do setor atualmente: Mark Teitell, presidente do DECE (Digital Entertainment Content Ecosystem), mais um consórcio criado para defender interesses na indústria de tecnologia. No caso, seus 85 membros são principalmente estúdios de Hollywood e agregados, que controlam a distribuição dos conteúdos que todo mundo quer assistir.

“Tem de haver um padrão, se quisermos ver conteúdos 4K em todos os aparelhos e plataformas disponíveis”, disse Teitell ao jornal online The Hollywood Reporter. “Estamos estudando o tema, mas não se trata apenas de melhor resolução de imagem”, explicou. “Precisaremos definir padrões para itens como faixa dinâmica, profundidade e variedade de cores, além da taxa de quadros por segundo. Tudo isso combinado irá nos dar a próxima geração de vídeo.”

Tentando traduzir em poucas linhas: “faixa dinâmica” (dynamic range), em vídeo, refere-se à quantidade e complexidade das variações de brilho numa imagem, que às vezes precisam ser compensadas (ou corrigidas) na pós-produção. Quanto mais ampla a faixa dinâmica da câmera que capta a imagem, melhor o detalhamento e a clareza visíveis na tela. A variedade de cores (color gamut, também referida por alguns especialistas como color space) é uma especificação típica do vídeo digital, já que é possível traduzir cada elemento de cor numa expressão matemática. No caso do 4K, será preciso definir – e, portanto, padronizar – esse parâmetro para que todos os equipamentos sejam capazes de identificar essa “tradução”.

Por fim, a taxa de quadros (frame rate) tem a ver com o próprio funcionamento da câmera. Como se sabe, no cinema convencional utiliza-se a velocidade de 24fps (quadros por segundo); na transferência do filme para vídeo, normalmente aumenta-se essa taxa para 30fps. Com 4K, a proposta é dobrar essa frequência (60fps), o que duplicaria a acuidade da captação – cada quadro de imagem é lido 60 vezes por segundo.

Acrescentem-se a isso tudo as questões relacionadas à compressão do sinal de vídeo, fundamental para transmissão via TV ou internet, e percebe-se como a coisa é complexa. Não por acaso, Teitell acha que ainda levará um bom tempo até que as partes envolvidas concordem em todos esses pontos.

Áudio pela casa toda, e sem fio

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Muitos instaladores não gostam, mas o fato é que os projetos eletrônicos sem fio (ou apenas com os fios estritamente necessários) são uma realidade irreversível. Antigamente, existiam os assim chamados “passadores de cabos”, vistos com desconfiança; alguns foram forçados a sair do mercado; outros evoluíram e aprenderam a conviver com as novas tecnologias. Não é mero acaso que, na última CES, os produtos mais comuns tenham sido exatamente os wireless – controles, caixas acústicas, players e um longuíssimo etc (este site apresenta vários deles).

Pode-se afirmar que a indústria do áudio deve aos sistemas sem fio a sua ressurreição, embora em outras bases. Não, nada substitui um equipamento high-end bem dimensionado e calibrado. Mas a maioria – esmagadora – dos usuários busca mesmo é conveniência. Dizem as estatísticas que as vendas de produtos Wi-Fi e Bluetooth vêm crescendo aceleradamente (35% nos EUA em 2013), puxadas pela descoberta de que é possível espalhar som (e também vídeo) pela casa toda a custo mais baixo e sem os transtornos da passagem de metros e metros de cabos.

À revista Twice, o presidente do grupo B&W, Doug Henderson, disse que isso é ótimo porque está “ensinando (ou reensinando) as pessoas a ouvir música em espaços tridimensionais”; ainda que sejam espaços pequenos, lembra ele, são maiores do que os limites de um fone de ouvido. “E a tendência é que boa parte desses usuários migrem com o tempo para sistemas maiores.”

O problema, dizem os fabricantes, é a enorme quantidade de produtos ruins que estão chegando ao mercado, confundindo o consumidor. A reprodução de áudio via Bluetooth, por exemplo, não pode satisfazer o usuário com um mínimo de sensibilidade auditiva; já em Wi-Fi, as possibilidades são mais amplas, incluindo o tão sonhado multiroom. Foi curioso ver na CES a adesão de marcas nobres – Krell, Martin Logan, McIntosh, Cambridge – às tecnologias digitais. Quase todos os fabricantes de áudio high-end estão produzindo players, processadores e até amplificadores digitais (ou híbridos).

Definitivamente, nunca mais ouviremos música como antes.

Automação para todos os gostos (e bolsos)

samsung-lumenComo se sabe, a CES não é propriamente um evento de automação. Nessa categoria, há diversos outros mais importantes. Mas abriu de tal forma seu guarda-chuva sobre tantos segmentos da indústria eletrônica que não há como escapar: até pequenas empresas de projetos acabaram participando. Alimentados pelos consórcios que detêm os principais protocolos de conexão (Z-Wave e Zigbee), vários expositores demonstraram os avanços nessa área.

Dos grandes, quem mais parece adiantada nesse campo é a Samsung, que exibiu em Las Vegas uma solução chamada Lumen, a ser comercializada na forma de um painel de parede ou de um aplicativo para smartphone e tablet. A ideia é que, ao comprar um aparelho da marca, o usuário possa integrá-lo ao seu módulo de controle. Isso valeria, por exemplo, para os refrigeradores e lavadoras de roupa que a Samsung apresentou na CES – a Feira agora está aberta também ao setor de eletrodomésticos.

Na teoria, o painel de toque Lumen pode comandar qualquer qualquer aparelho que possua sensor sem fio, como ar condicionado, lâmpadas de led smart, câmeras de segurança e até um aspirador de pó que percorria o estande da Samsung, com jeito de robô (sem falar nos aparelhos de áudio e vídeo, é claro). Não sem razão, funcionários da empresa chamavam o painel (que lembra um interruptor de parede comum) de “smart home controller”.

Um batalhão de gênios

A notícia – comentada aqui anteontem – de que a Google Inc adquiriu o controle da Nest Labs, empresa formada quase que exclusivamente por ex-funcionários da Apple, continua dando o que falar. O site ZD Net, por exemplo, chama atenção para o fato de que pelo menos 100 considerados geniozinhos fazem parte do pacote. São profissionais que, além de extremamente competentes e dedicados, conhecem muitos dos segredos da empresa da maçã.

Vai ver foi por isso que a Google aceitou pagar inacreditáveis US$ 3,2 bilhões por uma startup que, na prática, só lançou dois produtos até agora. Como já disse alguém (acho que foi o multimilionário Warren Buffett), não existe almoço de graça.

Brasil já produz TVs OLED

105'Curved_UHD_frontBrasil, China, Polônia e Tailândia foram os primeiros países (fora da Coreia) onde a LG decidiu produzir TVs OLED; o próximo será o México, de onde sairão os TVs destinados ao mercado americano. Significa que a fábrica brasileira, localizada em Manaus, irá abastecer toda a América Latina, uma das regiões do mundo onde o consumo de TVs mais vem crescendo nos últimos anos.

Segundo a LG, a ideia é aumentar a distribuição das telas curvas, inclusive as chamadas Flex OLED, em que o próprio usuário regula, via controle remoto, a curvatura do display. Desde o final do ano passado, já está à venda no Brasil um modelo curvo de 55 polegadas (vejam aqui), e nos próximos meses a LG promete trazer mais dois (65″ e 77″) que estiveram em exibição na CES.

Cada um na sua nuvem

cloud-computing-lek-leak-wolken1-450x2991A cada grande evento de tecnologia, fica mais clara a disposição dos principais fabricantes de tentar conquistar o consumidor pelo atrativo dos serviços, e não mais apenas pela qualidade dos produtos. O fenômeno das lojas de aplicativos, entre as quais a mais bem sucedida é a Apple Store, levou muitos a achar que todo consumidor de tecnologia tem seu lado “applemaníaco”, ou seja, tende a se identificar com uma marca e ligar-se a ela pela vida toda. Nada mais ilusório.

Nos últimos três anos, vimos o surgimento da nuvem e, com ela, redes como a PlayStation Network, criada pela Sony como uma espécie de “facebook dos games”; das plataformas smart dos principais fabricantes de TVs e das várias versões do Google TV. Nesta última CES, a própria Sony apresentou o serviço PlayStation Now (mais detalhes aqui), enquanto a Panasonic criou a primeira plataforma baseada em conteúdos 4K. Todas se baseiam no mesmo conceito: reunir usuários de cada marca e fazê-los interagir, de tal forma que se estimulem mutuamente a promover a marca.

Sim, foi exatamente isso que a Apple fez com seus “seguidores” há cerca de dez anos, bem antes do Twitter e das nuvens. Cada um deles acabou se transformando em “garoto-propaganda” – e, o melhor de tudo, sem cobrar um centavo por isso. A pergunta é: será que a maioria dos consumidores quer mesmo se vincular de tal forma a uma marca? Ou será que isso é coisa só de applemaníaco?

Google, rumo à automação

Nest2Em 2011, poucos meses antes da morte de Steve Jobs, um de seus homens de confiança na Apple, Tony Fadell, decidiu sair da empresa. Fadell havia ficado conhecido como click-wheel man: foi dele a ideia original da tecla de comando do iPod (click-wheel), que segundo o próprio Jobs fora a maior inovação do produto. Talvez pressentindo que, sem o fundador, a empresa passaria por maus momentos, Fadell saiu para fundar, junto com um amigo, uma nova startup chamada Nest (“ninho”, em inglês). Sua ideia: investir num novo tipo de aparelho doméstico, capaz de fazer pelo consumo de energia aquilo que o iPod fizera pela música.

Pois nesta segunda-feira a Google Inc. anunciou a compra da Nest Labs pela mixaria de US$ 3,2 bilhões! É o primeiro passo concreto da gigante rumo ao segmento de automação residencial. Como se pode ver neste vídeo, a Nest – cujo principal produto é um termostato de parede com design que lembra as criações da Apple – parece trazer a criatividade em seu DNA.

A versão básica do aparelho (foto), sucesso nos EUA desde o ano passado, é ao mesmo tempo um sensor de temperatura e um medidor do consumo de energia; conecta-se à rede Wi-Fi e, portanto, pode ser monitorado a distância; numa versão mais avançada, inclui também detector de fumaça, emitindo alertas pela rede, e pode ser programado para desligar a rede elétrica ao identificar algum risco. “Cada pessoa nos EUA troca a temperatura de sua casa 1.500 vezes por ano”, calcula Fadell. “Isso representa metade da conta de energia. Nosso aparelho aprende as temperaturas que o usuário mais gosta e ajusta o ambiente de acordo, pelo seu sensor de presença. A economia é enorme.”

Certamente não era apenas nisso que o pessoal da Google pensava quando decidiu fazer a oferta de compra. A Nest tem acesso a dados sobre o consumo de energia em milhões de residências. Imaginem isso somado aos apps para Android, o uso do celular no automóvel e os investimentos da Google na área de robótica. Desse ninho devem sair muitos filhotes nos próximos anos.

Netflix, a dona da bola (cada vez mais)

Netflix-redesign4-578-80Uma das frases que mais ouvi em Las Vegas: content is king (em tradução literal, “conteúdo é rei”; em português para não deixar a menor dúvida, “quem é dono do conteúdo é o dono da bola”). A expressão, que teria sido criada por Bill Gates em 1996, já foi – digamos – reprocessada milhares de vezes. Um colunista da revista Forbes, por exemplo, ampliou a ideia em 2013: “Conteúdo é o rei, distribuição é a rainha”. A título de piada, mas falando mais do que sério, o publicitário americano Jonathan Perelman escreveu recentemente: “Conteúdo é o rei, distribuição é a rainha, e é ela quem usa as calças” (para ler o artigo original, acesse aqui).

Pois é, quem detém a capacidade de produzir conteúdo relevante leva grande vantagem neste mundo multimídia. Mas, se não fizer parcerias para levar esse conteúdo a uma quantidade respeitável de consumidores, corre o risco de ser ignorado. No Brasil, com nossa legislação ultrapassada e sujeita aos humores políticos, um único grupo – claro, Globo – consegue fazer as duas coisas: produzir conteúdo de qualidade e distribuí-lo através de seus múltiplos canais. Comentaremos isso nos próximos dias. No mundo civilizado, não há como isso acontecer. Os papéis são bem definidos e fiscalizados, os talentos podem se unir – sim, saber empacotar e distribuir os conteúdos também exige muito talento – e o usuário ganha muito mais opções de escolha.

Ainda assim, se há uma empresa que sai fortalecida desta CES 2014, ela atende pelo nome de Netflix. Citada como “parceira” por dez entre dez fabricantes de equipamentos e estúdios de cinema, a empresa fundada na Califórnia em 1997 não gastou nada para participar do evento e, mesmo assim, foi a mais vista pelos visitantes. Seu logotipo e seus conteúdos estavam em quase todas as telas de demonstração. Isso, é claro, tem a ver com seus mais de 30 milhões de assinantes em todo o mundo, mas também com a sigla mágica “4K”, que identifica os conteúdos em que a Netflix está se especializando.

Como já comentamos aqui, a maior parte dos TVs exibidos na CES eram Ultra-HD. E, enquanto estúdios e emissoras caminham lentamente, a Netflix já consegue oferecer a seus clientes essa qualidade de imagem, ainda que a oferta seja escassa, por enquanto. “Precisamos de um trabalho educativo”, disse o diretor de parcerias da empresa, Scott Mirer, durante um seminário na CES. “O consumidor já sabe que 4K é melhor, mas ainda não consegue enxergar os outros benefícios dessa tecnologia: maior gama de cores, mais brilho, mais quadros por segundo… Os fabricantes têm que promover essa conscientização.”

Mirer lembrou – como seu chefe, Reed Hastings, já havia feito nesta entrevista – que a Netflix está se preparando há anos para a “era do 4K”, aquela em que o consumidor irá, enfim, unir TV e internet como se fossem uma coisa só. Tão cedo não haverá transmissões de TV aberta em 4K, nem filmes e séries gravados em disco Blu-ray 4K: a revolução virá online, diz ele.

Mais do que nunca, todo mundo está de olho no que essa empresa irá fazer.

Ensinando a ouvir música

Conversando com técnicos da THX aqui em Las Vegas, surgiu um tema inevitável: a (má) qualidade do áudio que se ouve atualmente. Não por culpa dos aparelhos, é claro, mas pela falta de referência musical da maioria dos usuários. A empresa, além de seus vários programas de certificação e de treinamento, faz um trabalho pouco divulgado de consultoria a alguns fabricantes no desenvolvimento de produtos com melhor padrão (um deles é um amplificador compacto para mídias digitais, sobre o qual falaremos mais à frente).

Mas o assunto surgiu em função da grande quantidade de caixas acústicas compactas e fones de ouvido em exposição aqui na CES. Se, alguns anos atrás, a moda era produzir clones do iPod, parece que agora todo mundo decidiu reinventar a caixa acústica, colocando dentro dela um pequeno amplificador e passando a chamá-la de “sistema de áudio”. Para quem está acostumado a ouvir apenas iPod e congêneres, com fones comprados na esquina, o “upgrade” até que é razoável.

Só que as coisas mudam. Entidades como AES (Audio Engineering Society), WiSa (Wireless Speaker and Audio Association) e a própria CEA (Consumer Electronics Association), que organiza a CES, vêm divulgando pesquisas em que muitos usuários dizem já terem notado a diferença. Por isso, os fones de ouvido voltaram a ser bem vendidos, inclusive os de padrão high-end (dentro das devidas proporções de quantidade).

Essas pesquisas mostram, por exemplo, que os jovens até 25 anos – principais adeptos da música digital – são também aqueles que mais frequentam shows ao vivo. E é nessa hora que se pode perceber mais claramente as limitações de uma gravação mal feita, ou de uma reprodução abaixo da crítica. Como sabemos desde a infância, nada melhor para educar os ouvidos do que… isso mesmo: ouvir, ouvir muita música bem executada, bem gravada e bem reproduzida. Ao vivo, então, melhor ainda.

OLED, pra frente e pra trás

1PANA OLED copyOntem, estivemos no estande da Panasonic, que após a desistência do plasma decidiu mesmo embarcar na tecnologia OLED. Só que, pelo visto, bem à japonesa, discretamente. Num canto escuro e ser maiores avisos, um painel composto de seis displays de 55 polegadas, montados lado a lado, exibia imagens multicoloridas (em 4K), como em tantos outros estandes aqui na CES 2014. O detalhe do “show” – que mostramos neste vídeo – é que todas aquelas telas eram curvas. Ou assim pareciam. Três curvadas para dentro (côncavas, como os TVs desse tipo já lançados inclusive no Brasil) e três curvadas para fora (convexas), estas com aspecto meio exótico à primeira vista.

A Panasonic não divulgou detalhes – focou suas apresentações nas linhas 4K. Mas não há como desvincular as coisas. Sem o plasma – considerada pela maioria dos especialistas a melhor tecnologia de TVs – a empresa japonesa dificilmente terá como competir com as coreanas, as chinesas e com sua arqui-rival Sony; aliás, desfez há pouco a parceria que ambas criaram para desenvolver OLED (detalhes aqui). No estande da Sony, a palavra OLED mal foi pronunciada, deixando claro que todas as apostas são no aperfeiçoamento do LED rumo ao 4K e, em seguida, ao 8K.

Conclusão: se quiser usar a força de sua marca para encontrar investidores de longo prazo, a Panasonic pode, quem sabe, dominar a tecnologia OLED no futuro. O pequeno show aqui em Las Vegas confirma que os componentes orgânicos, capazes de tornar as telas flexíveis têm grande potencial. Talvez esteja começando uma nova corrida rumo a… quem tem a bola de cristal?