Por que não me ufano do meu país

9 de fevereiro de 2014

Sou de uma geração a quem a palavra “ufanismo” sempre causou arrepios. Ao Aurelio: Ufanismo – Orgulho desmedido de seu próprio país; patriotismo em excesso. Faz recordar os tempos negros da ditadura e seu “milagre brasileiro”. Patriotismo, ufanismo, nacionalismo são, segundo Einstein, “doenças infantis”, males que só dificultam a compreensão real dos fatos. Não à tôa, são usados frequentemente por políticos e governantes, incluindo ditadores e caudilhos de esquerda e de direita, enquanto abusam da ignorância de seus governados.

Nunca levei a sério aquela história de “soberania nacional”, tantas vezes alardeada e que já serviu de pretexto para crimes bárbaros. Daí por que me incomoda muito voltar a ver e ouvir argumentos nacionalistas para justificar o injustificável. Refiro-me, claro, à campanha arquitetada pelo governo para que a população prestigie a Copa do Mundo. Está nos jornais: para tentar impedir que as manifestações, espalhadas por todo o país, ofusquem o brilho do evento e prejudiquem a candidatura oficial à Presidência, os marqueteiros do PT querem apelar ao patriotismo da população. Vem aí, portanto, um festival de publicidade oficial tentando convencer que, sim, todos devemos apoiar aquela que será a “Copa de todas as Copas”.

A campanha tem o objetivo de apagar da memória coletiva os escândalos das verbas desviadas, das promessas não cumpridas, das obras não entregues e das mortes de operários na construção dos estádios. Há o temor de que os protestos do ano passado voltem com mais intensidade e repercutam no Exterior. Se isso ocorrer, não haverá como impedir que a mídia e as redes sociais amplifiquem o estrago, aumentando a insatisfação geral contra um governo que falhou em praticamente todas as suas promessas até agora.

Se até o final de 2013 a presidente e seus ministros ainda ousavam falar em “legado da Copa”, referindo-se às prometidas obras de infraestrutura que não saíram da prancheta, hoje essa expressão não faz o menor sentido. Até então, buscava-se uma imoralidade: vender a ilusão de que belos estádios (e, se tudo correr bem, a vitória da seleção brasileira) compensariam o lastimável estado do país em áreas como saúde, educação, segurança e transportes. A quatro meses da Copa, nada deve irritar mais as pessoas do que saber que bilhões foram gastos sem seu consentimento, enquanto filas, descaso, congestionamentos, violência e falta de educação continuam batendo recordes.

Seria injusto, por certo, atribuir a Dilma, Lula e o PT toda a culpa por esse descalabro. Todos os governantes de plantão, alguns mais do que outros, são cúmplices. Todos gostariam de posar para fotos ao lado dos jogadores em caso de vitória, assim como fugirão deles se vier uma derrota. São assim os políticos, não importando partidos ou correntes políticas a que pertençam. Mas, sabendo-se da sujeira que já corre debaixo dos tapetes do futebol e contra a qual o governo nada tem feito (ao contrário, Lula sempre atendeu as demandas dos cartolas, incluindo na lista os chefões João Havelange e Ricardo Teixeira), é justo, sim, responsabilizar o PT e seus aliados.

Há quem diga que de nada adianta, agora, condenar os gastos da Copa e a própria realização do evento, que é inevitável e, portanto, deve ser apoiado. A meu ver, além de conformista, essa atitude equivaleria a roubar o carro de uma pessoa e depois convidá-la a “dar uma voltinha” no banco traseiro! Desmandos, superfaturamento, contratos sorrateiramente aditivados etc. devem ser denunciados, criticados e investigados tanto agora como depois da Copa, e mesmo que a seleção brasileira consiga o desejado hexa.

Sim, todos os que criticarem correm o risco de ser chamados de antipatriotas ou até, quem sabe, inimigos da soberania nacional. É bom estarmos preparados. A “doença infantil” de Einstein está longe de ser curada.

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