High-end: conceitos e modismos

vinyl-records-recordUm artigo que publicamos recentemente na revista HOME THEATER & CASA DIGITAL (leia na íntegra aqui) vem provocando intensa curiosidade entre os leitores. O título original, provocativo, era “Você sabe o que é high-end”? Visava justamente aos usuários com menos de 40 anos, que não tiveram o prazer de consumir a música analógica. No campo do áudio, a expressão “high-end” surgiu na década de 1950, provocada exatamente pelo público audiófilo que, além de boa música, se extasiava com gravações bem executadas e bem reproduzidas. Com o tempo, passou a designar os equipamentos de alto padrão, geralmente mais caros e refinados, hoje um nicho de mercado que se contrapõe aos produtos de massa.

A reação de alguns leitores me faz voltar ao tema, até porque sei que muitos dos que nos lêem aqui não são daquela época. As tecnologias evoluem, mas alguns dados – que são da natureza – não se alteram. Exemplo: para acostumar os ouvidos a um som de boa qualidade, nada substitui a música ao vivo. Assistir a concertos e shows acústicos ajuda a aprimorar o sentido da audição, principalmente quando o espaço é bem dimensionado. Em SP, os dois melhores são a Sala São Paulo e o Teatro Alfa. Já as chamadas “casas de shows” em geral mais atrapalham do que ajudam a vida dos artistas, que naturalmente se submetem por questões financeiras.

Quem não pode frequentar lugares como esses deve investir em boas gravações e bons equipamentos de reprodução. Como já comentamos aqui algumas vezes, a praticidade do áudio portátil acabou roubando da geração nascida a partir dos anos 80 as referências quanto à qualidade da música que se consome. Mas não foi mero modismo. Contribuiu para isso também a postura um tanto arrogante dos fabricantes especializados, que se recusavam a adotar os formatos de compressão, em nome de uma “pureza” que nem existe nos discos de vinil (embora muitos pensem o contrário). Só há cerca de cinco anos é que grandes marcas de áudio high-end aderiram ao áudio digital.

Há poucos dias, trocando emails com Robert Harley, meu “guru” na matéria, comentamos sobre discos lançados ou relançados nos últimos dois anos que servem (ou deveriam servir) como padrão a quem quer ouvir música bem gravada. Harley edita a prestigiada The Absolute Sound (TAS), mais tradicional publicação do áudio high-end, e com base nas análises de sua equipe me sugeriu os títulos abaixo. Servem tanto para quem precisa fazer demonstrações com equipamentos de alto padrão quanto para aqueles que querem apenas se emocionar com boa música.

Apreciem sem moderação:

Jazz

Keith Jarrett, Testament: Paris/London (ECM) – Concerto de piano-solo ao vivo de um dos grandes improvisadores do gênero. Suave e delicado.

Scott LaFaro, Pieces of Jade (Resonance) – LaFaro, que foi baixista do trio de Bill Evans, arrasa como solista. Para ouvir com caixas torre de bom alcance, capazes de captar a essência dos graves acústicos.

Erudito

Hölst: The Planets, Paavo Järvi, Cincinnati Symphony Orchestra (Telarc) – Gravação recheada com variações de clima, que supera a original de Zubin Mehta.

Mendelssohn Discoveries, Riccardo Chailly & Leipzig Gewandhaus (Decca) – Uma das melhores gravações orquestrais dos últimos anos, capta as sutilezas do grande compositor romântico alemão.

Pop/Rock

Leonard Cohen, Live at the Isle of Wight 1970 (Columbia/Legacy) – Registro histórico do cantor canadense, com sua folk music contagiante, a reedição consegue transmitir todo o clima do evento ao vivo.

Julie London, Julie is Her Name (Boxstar) – Outra gravação antológica, de 1955, com a cantora de voz hipnotizante. Robert Greene, crítico da TAS, assim a definiu: “Ela tem a voz que toda mulher teria, se o mundo fosse perfeito”.

Paul Simon, Graceland (Warner) – Ponto alto da carreira-solo de Simon, de 1986, unindo pop e ritmos africanos com extremo bom gosto. A TAS recomenda a versão recém-lançada em LP 45rpm.

David Bowie, The Next Day (Columbia) – Tanto em CD quanto em MP3, o mais recente álbum de Bowie é um show de instrumentação pop.

Um comentario para High-end: conceitos e modismos

  1. WALTER ANDRADE CARNEIRO 25/03/2014 at 10:37 pm #

    Orlando, achei interessante o trecho de sua frase que diz:…”em nome de uma “pureza” que nem existe nos discos de vinil”. Realmente, o termo “pureza” pode muito bem ser aplicado aos velhos LPs no sentido de que neles, às vezes, pode faltar um som isento de ruídos, chiados, clics, pops, quando um excelente LP já foi reproduzido mais de algumas vezes. Mas a necessária “fidelidade sonora”, que é o que realmente importa, costuma, sim, estar presente nos sulcos analógicos dos excelentes LPs replicados com essa intenção, quando reproduzidos em equipamentos projetados em extrair toda a gama sonora dessas mídias “jurássicas”… Mas também concordo que hoje existem “codecs” de áudio que ombreiam em qualidade sonora com aqueles LPs ditos “high-End”, em destaque o “exclusivíssimo” sistema da SONY “DSD” (SACD), que por falta de bom senso comercial, a própria SONY nunca deu apoio ao seu excelente sistema nem mesmo nos seus produtos destinados às massas, ficando essa tarefa por contas de terceiros, a exemplo da OPPO e poucas outras, mas cuja boa intenção ainda esbarra no preço proibitivo, e raro, dos seus discos SACD, com temas apenas destinados aos “críticos de plantão” e “sábios musicais”… (Em tempo: sou apreciador de Jazz, Clássicos, mas também do bom POP e do Rock com expressão)

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