Archive | março, 2014

O fantástico mundo dos apps

Logietch-Harmony-Link-1-e1316539686771“Já é possível eliminar o controle remoto”?, pergunta o site CE Pro, dirigido a profissionais de áudio, vídeo e automação. E a resposta é: sim. Graças à evolução do software e à criação de uma infinidade de aplicativos, qualquer pessoa pode hoje dispensar seu velho companheiro de sofá (dica: melhor não jogar fora, deixe guardado numa gaveta para possíveis emergências).

Os apps, lançados por quase todos os fabricantes, podem ser baixados num tablet ou smartphone, de tal forma que este passa a ser o único controle usado na casa. Parece ótimo, não? Menos, menos. De tanto ouvir seus clientes dizerem que não queriam mais controle algum, já que tudo poderia ser embutido num único aparelho, um projetista de nome Leon Shaw, da empresa AudioAdvice, de Raleigh (Carolina do Norte), decidiu tirar a prova. Guardou todos os controles que tinha em casa, inclusive o “super” que havia programado pacientemente para aprender as funções dos demais, e ficou alguns dias tentando usar apenas seu tablet.

O relato de Shaw pode ser decepcionante para os adeptos do faça-você-mesmo. Primeira descoberta: nem todos os apps são automáticos, ou seja, não ligam o aparelho; há casos em que é preciso ir até o painel e fazê-lo manualmente, coisa que irrita qualquer usuário acostumado com controles. Segunda descoberta: por mais que pareçam amigáveis, como se costuma dizer, as telas dos tablets (Shaw diz que experimentou vários) são mais difíceis de acionar que as de um controle; este, além de tudo, ainda oferece teclas físicas, justamente para essas emergências.

Terceiro ponto (e a meu ver o mais grave): baixar vários apps num tablet ou smartphone é quase como utilizar vários aparelhos ao mesmo tempo; no caso, faz lembrar aquelas situações em que é preciso acionar os controles que se amontoam sobre o sofá ou a mesa de centro. As telas dos aplicativos possuem layouts diversos, anulando a maior vantagem de um controle, que é o acionamento intuitivo. E há o tempo que cada app leva para se comunicar com o respectivo aparelho para o qual, afinal, foi criado!

Por fim, Shaw se convenceu de que nada supera a comodidade de ter um único controle remoto, devidamente programado para acionar o máximo possível de aparelhos com o mínimo possível de comandos. Sim, programar corretamente um controle é trabalho para profissionais, que devem ser pagos por isso. É o que Shaw tem dito a seus clientes. Quem quiser, claro, pode baixar seus apps e tentar usá-los. Mas é bom estar preparado para algumas surpresas nada agradáveis.

Seu futuro num pen-drive. Ou quase.

Chromecast_35823617_02_1_610x436

 

 

 

Todo mundo que usa ou já usou um pen-drive deve ter passado pelo aborrecimento de constatar que os dados salvos ali por algum motivo não são aceitos pelo computador, projetor ou outros aparelhos de reprodução. Alguns, como eu, têm coleções de pen-drives, de procedências diversas, que às vezes “decidem” não cooperar. Mas receio que esse seja o nosso futuro: depender daquele pedacinho de plástico com um chip dentro.

Pelo menos, é isso que deu a entender a Google ao lançar o Chromecast, minúsculo acessório que serve para fazer streaming via redes Wi-Fi e jogar o conteúdo num display. Em vez do tradicional USB dos pen-drives, o Chromecast possui conector HDMI para permitir a transferência de áudio e vídeo de alta definição.

Roku_2Pois agora a Roku, dona de um dos serviços de streaming mais utilizados pelos americanos, está lançando seu streaming stick, um quase-pen-drive semelhante ao da Google, só que com os dois tipos de conector: USB e HDMI. Ao plugar o Roku stick, o usuário ganha acesso a uma série de serviços de áudio e vídeo, incluindo Netflix, Hulu, YouTube etc., comandando tudo com seu smartphone ou tablet.

 

Cada “brinquedinho” desses custa entre 30 e 50 dólares nos EUA, ou seja, vão virar febre. Mais um pedacinho de plástico para as pessoas se divertirem.

Normas técnicas em discussão

No próximo dia 18, começa em São Paulo a quarta edição do Programa de Certificação Home Expert, que iniciamos em 2011. Será mais uma série de encontros técnicos entre novos profissionais do mercado de sistemas eletrônicos residenciais (e alguns de outros segmentos que estão de olho num upgrade) e nossa equipe de instrutores. Já temos um belo grupo de quase 40 inscritos, e é provável que esse número aumente nas próximas semanas (a inscrição pode ser feita a qualquer tempo, no homexpert.com.br.

Desde a primeira edição, já foram certificados cerca de 100 profissionais, e este ano, como sempre, uma das preocupações dos instrutores será reforçar a questão das normas técnicas existentes, algo que infelizmente nem todos os profissionais em atividade respeitam. Poucos se dão ao trabalho de consultar as publicações da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) ou do InMetro/ConMetro (Instituto e Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), que elaboram normas para todos os setores da atividade industrial. Essas normas têm força de lei na área de projetos e serviços.

Refiro-me ao assunto após a notícia de que Infocomm está trazendo ao Brasil suas normas para o segmento audiovisual, já consagradas nos EUA e em alguns outros países. São normas derivadas dos padrões ANSI (American National Standards Institute), entidade que em 2008 credenciou a Infocomm do “desenvolvedora de padrões” para esse setor. Segundo me disse Nelson Baumgratz, responsável pela filial brasileira da Infocomm, essas normas não têm paralelo no Brasil. Seu trabalho, neste momento, é divulgá-las entre os profissionais e procurar outras entidades, inclusive a própria ABNT, visando oficializá-las.

Nesta terça-feira, haverá em São Paulo um primeiro encontro nesse sentido. Discutir e entender as normas é imprescindível para todo profissional. Por ora, as da Infocomm não são impositivas – precisam ser endossadas pela ABNT e homologadas pelo ConMetro. Não há o risco, por exemplo, de alguém ser processado pelo cliente caso se descubra que seu projeto não seguiu essas recomendações. Mas isso tende a mudar, já que o país não tem normas equivalentes. E, mesmo que não haja imposição por lei, todo profissional sério e responsável deve usar normas técnicas como referência.

Como reconciliar os dois Brasis?

maracanaO título acima é de um texto primoroso publicado pela revista americana Sports Illustrated, que recentemente enviou ao Brasil o repórter Grant Wahl para cobrir os preparativos para a Copa do Mundo. Wahl fez o que todo repórter deveria fazer: viajou, conversou com pessoas na rua, entrevistou especialistas e membros do governo, analisou estatísticas, “sentiu o clima”. E premiou seus leitores com sua visão do que chamou de “dois Brasis”, confrontados entre a euforia do futebol e do populismo político e o desalento das diversas injustiças que nos castigam. Será que algum dia esses dois países conseguem se transformar numa nação de verdade? Confiram aqui uma síntese: 

         Se é que existem dois Brasis, um deles está aqui, num barzinho da Praça São Salvador, a alguns quarteirões da praia, no Rio de Janeiro. Vestindo uma camiseta cinza, óculos escuros e um anel caveira, Alan Fragoso, 27 anos, toma um gole de sua caipirinha. Ele era um publicitário que vendia produtos para a classe emergente do país. Um dia, decidiu parar. “O que quero mesmo é trabalhar com projetos em que acredito, não investir em consumismo”, diz.

         Fragoso entrou para uma startup que cresceu mais rápido do que o Facebook: os movimentos de protesto no Brasil. As manifestações de junho de 2013 começaram pequenas (e quase sem violência), em resposta a um aumento nas tarifas de transporte. Mas a polícia militar reagiu de forma exagerada, usando gás pimenta, balas de borracha e excesso de força, em frente às câmeras de TV que espalharam as imagens pelo mundo afora. Isso provocou protestos em massa contra uma série de problemas do país: corrupção no governo, baixos níveis de educação e saúde, remoção forçada de favelados e os gastos públicos (estimados em US$ 22,8 bilhões) com a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

         O dia 20 de junho foi o que Fragoso chama de “o melhor dia político da minha vida”. Ele se uniu a mais de 1,5 milhão de manifestantes irados que marcharam pelas ruas do Rio, São Paulo e outras 80 cidades brasileiras. Os protestos coincidiram com a Copa das Confederações, um “ensaio” para a Copa do Mundo. Dez dias depois, na final entre Brasil e Espanha, Fragoso estava à frente de outro grupo, com cerca de 5 mil manifestantes, seguindo para o Maracanã.

         “Os que estavam fora do estádio foram cercados e bombardeados com gás pimenta e balas de borracha”, recorda ele, que havia emprestado sua máscara antiga e naquele dia teve que cobrir o rosto com uma bandana umidecida com vinagre para enfrentar a fumaça. “Mesmo estando longe, o cheiro do gás chegou até dentro do estádio”.

         Ninguém sabe se os protestos (que terminaram com seis mortes) irão se repetir durante a Copa do Mundo. Desde junho, as manifestações têm sido menores, mas muitas vezes violentas, colocando frente a frente policiais e os anarquistas do Black Bloc. Mas agora, a quatro meses da Copa, Fragoso tem planos ambiciosos: 64 jogos, 64 protestos.

         

“Cantar o hino naquele dia

foi uma forma de demonstrar solidariedade

aos manifestantes das ruas,

não de se opor a eles.”

 

         O outro Brasil está aqui, num hotel de praia na Bahia, onde as emergentes classe média e média-alta passam cada vez mais tempo e gastam cada vez mais dinheiro. Certa noite, dois turistas americanos chegam ao restaurante do hotel carregando a Brazuca, bola oficial da Copa de 2014 produzida pela Adidas. É uma linda bola, com detalhes em azul, verde e laranja, e faz pensar por que o Brasil é o país do futebol.

         A bola é uma celebridade. Todo mundo quer tirar uma foto com ela: mães carregando seus bebês, pais com seus filhos de dez anos, um grupo de meninas que não para de rir e gritar. Também os funcionários do hotel querem posar com a Brazuca, segurando-a como se fosse uma amiga íntima. O chef, mesmo com seu uniforme de trabalho, brinca como se estivesse dançando com a bola. Todo mundo sorri, e não apenas quem é das classes endinheiradas.

         No dia seguinte, quando os dois turistas americanos levam a bola para conhecer o estádio da Copa, próximo a Salvador, até os trabalhadores da obra parecem encantados. Tratam a bola como um ídolo, juntando-se para uma foto com ela. Um mero passeio com Brazuca numa praça quase provoca tumulto.

         A FIFA diz que os brasileiros já adquiriram 7 milhões de ingressos e que a maioria é a favor do evento. “Existe algum receio de que o governo e os partidos políticos possam se beneficiar, e há uma atitude pessimista de alguns”, admite o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. “Mas a grande maioria acha que a Copa e a Olimpíada serão ótimas para o país.”

         Se você perguntar aos brasileiros o que acontecerá durante a Copa, prepare-se para respostas bem variadas. “O Brasil é bipolar”, diz Mauricio Savarese, jornalista baseado em São Paulo que cobre política e esportes. “Você pode encontrar pessoas muito, muito entusiasmadas e outras muito, muito pessimistas”. Ele acha que pode haver alguns protestos, até com certa violência, mas duvida que atingirão os níveis de junho passado. Fora isso, nem ele nem ninguém acredita que a Copa pode não acontecer no Brasil. “Acho que tudo sairá razoavelmente bem. No final, as pessoas dirão ‘Bem, até que não foi tão ruim’. Pode até ajudar os políticos, como se eles tivessem feito um trabalho melhor do que realmente fizeram.”

         Outros analistas discordam. Juca Kfouri, decano dos jornalistas esportivos brasileiros, argumenta que haverá dois tipos de ambiente durante a Copa – um dentro dos estádios, alegre, e outro nas ruas, que estarão mais caóticas e agressivas do que em junho último. A razão, diz ele, é simples: a mair parte das reivindicações da população no ano passado não foram atendidas, e isso é particularmente desagradável considerando que o Brasil construiu estádios de alto padrão, muito superiores aos hospitais, escolas e sistemas de transporte.

         O que nos traz de volta à questão: como reconciliar os dois Brasis? Talvez seja impossível. Mas Kfouri está convencido de que a seleção nacional tem o poder de unir aqueles que estiverem dentro dos estádios com os que forem protestar do lado de fora. Enquanto as tensões tomavam conta das ruas em junho de 2013, algo fascinante acontecia sempre que a seleção brasileira jogava, na Copa das Confederações, especialmente antes da final contra a Espanha. O hino nacional brasileiro tem duas partes, mas antes dos jogos apenas a primeira era tocada nos estádios. Naquele dia, porém, o estádio lotado se uniu aos jogadores brasileiros para cantar a segunda parte sem acompanhamento, com uma energia que pareceu abalar até a cobertura do Maracanã.

         “Há coisas que a gente sente no ar”, diz Kfouri. “Você ouve e se arrepia. O hino naquele dia foi o combustível do estádio. Foi uma forma de demonstrar solidariedade aos manifestantes das ruas, não de se opor a eles. As duas coisas (patriotismo e protesto) são plenamente compatíveis.”

         Criticada por suas más atuações antes do torneio, a seleção brasileira abriu o placar logo aos 2 minutos da partida – foi a terceira vez em cinco jogos que o Brasil marcou nos primeiros dez minutos. O atacante Neymar, que havia agradecido aos manifestantes por lhe darem inspiração, foi brilhante mais uma vez. E vários órgãos de imprensa comentaram que aquele primeiro gol saiu ainda sob os efeitos do hino. “O hino havia perdido parte de sua importância como símbolo nacional por ser muito associado à ditadura”, diz Mauricio Barros, diretor da revista Placar. “Nunca tínhamos vivido uma experiência como aquela. Foi como se tivéssemos reconquistado nossos símbolos.”

 

“Justamente por ser torcedor,

me sinto mais determinado

ainda a questionar

a realização da Copa.”

 

         Surpreendidos diante dos eventos históricos de junho, tanto a FIFA quanto o governo brasileiro não perceberam uma verdade muito importante: para os brasileiros, é possível amar seu país, o futebol e a Copa do Mundo sem deixar de protestar contra a organização do evento. Ao conquistar o direito de sediar a Copa e a Olimpíada, pensava-se que o governo iria acelerar os planos de investir US$ 400 bilhões para melhorar a infraestrutura de aeroportos, estradas, metrôs e ônibus. No entanto, de 49 projetos previstos para conclusão antes da Copa, mais de um quarto foram retardados, cancelados ou reduzidos.

         A presidente Dilma Roussef prometera que um trem-bala ligando Rio e São Paulo (e seus aeroportos) estaria funcionando na época da Copa, mas a construção sequer começou. E sete anos após o anúncio de que o evento seria no Brasil, as reformas dos principais aeroportos continuam atrasadas. Na prática, o maior legado da Copa serão apenas os 12 estádios.

         A FIFA exigiu apenas oito estádios, mas o Brasil decidiu construir doze, por duas razões. A primeira, política, é que o partido de Dilma e do ex-presidente Lula queria premiar aliados em alguns estados, o que incluiu erguer um estádio em Manaus (cidade isolada no meio da Floresta Amazônica). O segundo motivo foi o turismo: o governo pretendia exibir aos turistas o máximo possível de cidades, num país que não está nem entre os vinte mais visitados do mundo.

         Embora tenham custado US$ 4 bilhões em dinheiro público, construções e reformas dos estádios não aconteceram de modo tranquilo. Seis deles não foram entregues a tempo, e seis operários morreram em acidentes durante as obras. E há os elefantes brancos: quando a Copa acabar, o que acontecerá com os estádios de Manaus (capacidade: 42.734 lugares), Brasilia (68.009) e Natal (42.086), cidades que nem possuem times nas principais divisões do futebol brasileiro?

         Christopher Gaffney, professor visitante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal Fluminense, é um cidadão americano que passou os últimos cinco anos no Brasil, estudando os preparativos para a Copa e as formas como a memória cultural poderia ser preservada nos novos estádios. “Quanto mais as pessoas olham, mais vêem como tudo está deteriorado”, diz ele. “Elas percebem que as promessas não foram cumpridas, e agora nem sequer podem assistir a um jogo de seu clube, porque os preços dos ingressos subiram 50% este ano. São os ingressos mais caros do mundo, considerando o salário mínimo.”

         Gustavo Mehl, ativista social de 30 anos, mora próximo ao Maracanã. Cresceu indo assistir aos jogos com seu pai, carregando bandeiras e se misturando aos torcedores com seus cantos, coreografias e bumbos. “O Maracanã era um símbolo da participação pública no Rio”, diz ele. “Era o espaço mais democrático da cidade”. Mas o novo estádio, privatizado, não é o mesmo. Segundo Mehl, é muito mais caro, com acesso limitado para torcedores mais pobres, e a empresa hoje responsável deseja um comportamento “mais civilizado” por parte da torcida. “Esse novo Maracanã representa a morte cultural de nosso jeito de torcer. Se você é torcedor e participa de um movimento questionando a Copa, é uma contradição. Mas, na verdade, justamente por ser torcedor, me sinto mais determinado ainda a questionar a realização da Copa.”

         De fato, o novo Maracanã é de fazer inveja a alguns grandes clubes europeus. Sua reforma custou US$ 500 milhões, e depois o estádio foi privatizado através de um contrato de 35 anos com um consórcio liderado pela construtora Odebrecht. Gaffney diz que os organizadores poderiam ter gasto um quinto desse valor simplesmente reformando o sistema de drenagem do gramado e instalando novos assentos e camarotes. “Mas a forma como fizeram foi a mais invasiva, destrutiva e cara possível”, critica ele, lembrando que as autoridades tentaram até demolir o Museu do Índio. “Ameaçaram demolir também uma das melhores escolas públicas do Rio, vizinha ao Maracanã, e chegaram a destruir uma pista de atletismo que havia sido construída para os Jogos Panamericanos, em 2007. E isso numa cidade que irá sediar a Olimpíada. Só não o fizeram devido aos protestos de junho.”

         Os responsáveis, é claro, dizem que não. Para o ministro Rebelo, o Maracanã que era “a alma do Brasil” não existe mais. “Havia camarotes para os ricos e arquibancadas para os pobres, que assistiam aos jogos em pé. Os torcedores não podem ficar muito próximos do campo quando seus times são instrumentos de marketing. Há o risco de que o marketing elimine o encantamento que o futebol provoca no povo.”

 

“Quem está ganhando

com a Copa são só a FIFA,

os patrocinadores

e o governo.”

 

         Num ponto bem alto do Rio de Janeiro, não distante do Cristo Redentor, Santa Marta é uma das mais antigas favelas da cidade. Vitor Lira vive no alto do morro, representando a quarta geração de uma família que se assentou ali nos anos 1930. Santa Marta foi uma das primeiras favelas com UPP, e devido à intervenção do governo cerca de 6 mil moradores estão ameaçados de remoção. Um dos locais escolhidos para isso, a pequena favela Metrô-Mangueira, está sendo demolida para dar espaço ao estacionamento do Maracanã.

         “Estou na rua todos os dias resistindo à expulsão dos moradores de nossa favela”, diz Lira, durante um protesto no centro do Rio. “Esses grandes eventos são péssimos para nós, porque os pobres estão sendo expulsos desses planos de desenvolvimento e promessas de legado.”

         Os organizadores garantem que ninguém perderá sua casa em função das obras, mas os projetos urbanos exigidos pela FIFA já forçaram a remoção de milhares de pessoas em Porto Alegre, Recife e São Paulo, segundo Gaffney. Já Renato Cosentino, ativista da ONG Global Justice, conta que somente no Rio 65 mil pessoas perderam suas casas (os dados seriam da própria Prefeitura). “Os programas de remoção pagam valores ridículos, como US$ 1.250 por uma casa.”

         Lira aderiu ao Comitê Popular da Copa do Mundo e da Olimpíada, um grupo carioca que organiza eventos de protesto. Um desses eventos foi a “Copa dos Desalojados”, um torneio de futebol entre favelas ameaçadas de remoção. “Quem está ganhando com a Copa são só a FIFA, os patrocinadores e o governo”, diz Mario Campagnani, outro membro do Comitê Popular.”

         O que nos espera na Copa? Um fantástico gol de Neymar, Messi ou Cristiano Ronaldo? Uma grande festa, ou mais uma onda de protestos em massa de uma população revoltada? As manifestações de junho de 2013 mostraram que o Brasil é um lugar bem mais complexo do que a maioria imaginava. Existem dois Brasis. E, na medida em que junho de 2014 se aproxima, assistir a esses dois países interagindo será tão interessante quanto qualquer coisa que possa acontecer num campo de futebol.

        

*Texto publicado originalmente na revista Sports Illustrated. Clique aqui para ver o original em inglês.

Guarda de rua que vê tudo

monitoramentoDez entre dez integradores de sistemas de automação residencial contam que segurança é a preocupação número um dos usuários. Não é para menos, considerando o país (e os tempos) em que vivemos. Com um vasto mercado a explorar, fabricantes e desenvolvedores têm que ser ágeis e criativos. O exemplo ao lado nos foi enviado pela assessoria da empresa sueca Axis, cuja filial brasileira deve encontrar aqui mais oportunidades de negócio do que em seu tranquilo país de origem.

Fundada em 1984, a Axis produz equipamentos de vídeo para vigilância e monitoramento. Um de seus integradores nos EUA, numa cidade chamada Glenwood, relatou a solução encontrada para monitorar vários pontos de um bairro com baixo custo e fácil controle. Chama-se SkyWatch e pode-se ver como funciona na foto: um conjunto de câmeras HD do tipo PTZ (pan-tilt-zoom), que podem ser movimentadas em 360 graus via controle remoto, fixadas no alto de um mastro com quase 10m de altura.

As imagens captadas, diz a Axis, são armazenadas num servidor instalado na própria unidade móvel e transmitidas – via antena Wi-Fi – para laptops e tablets localizados em outros pontos do bairro (por exemplo, em viaturas policiais que circulam pela região). Os “homens da lei” têm, portanto, a possibilidade de acompanhar visualmente qualquer movimento suspeito, ou monitorar eventos ou locais onde haja grande afluxo de pessoas. Se quiserem, podem até acionar um sistemas de luzes e/ou sirenes, também a distância.

Fica aí a dica: segurança, ainda mais quando planejada e executada de forma inteligente, nunca é demais. Para quem quiser saber mais detalhes, este é o link.

E agora, Bernardo?

Está armado o barraco entre os ministérios da Fazenda e das Comunicações, por causa do leilão da faixa de 700MHz para as operadoras de celular 4G, que já comentamos aqui, aqui e aqui. Os jornalistas Vera Magalhães e Julio Wiziack, da Folha de São Paulo, deram o furo nesta quinta-feira: o secretário do Tesouro, Arno Augustin, hoje a principal autoridade financeira do país, quer aumentar a arrecadação do governo com esse leilão. Até aí, nada de errado: essa é sua função. O problema é que Augustin escolheu uma péssima estratégia: desmoralizar o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, que é (ou deveria ser) o responsável pelas decisões na área.

O clima ficou tão tenso após o vazamento da notícia que Bernardo teve de vir a público, visivelmente contrariado, para apresentar sua versão (teoricamente, a oficial): “O Tesouro não está interferindo”, disse ele, segundo o site especializado Teletime. “O Arno deixou claro que tem interesse que a arrecadação seja a melhor possível. Agora, a definição técnica do modelo de leilão está sendo feita pela Anatel, e não está pronta ainda”, garantiu Bernardo.

É uma trombada típica de um governo que trabalha sem planejamento. Para quem não sabe, Augustin – homem de confiança da presidente – é o mesmo funcionário que nos últimos anos vem adotando a chamada “contabilidade criativa” nos números divulgados pelo Ministério da Fazenda (o ministro faz apenas o papel de porta-voz). Uma boa receita com o leilão do 4G ajudaria demais o Tesouro, num momento de descrédito após tanta maquiagem.

Para quem não está familiarizado com o tema: a faixa de 700MHz foi reservada pela Anatel para comportar as futuras redes de telefonia 4G, e as operadoras estão contando com isso; a rede atual, na faixa de 2,5MHz, é precária. No momento, está sendo preparado o edital (obrigatório por lei) do leilão, marcado para agosto. É o documento que define quais freqüências serão leiloadas e as obrigações das empresas vencedoras. Entre as exigências técnicas, devem ser definidas as áreas de cobertura, os prazos, as metas de qualidade (aquelas que nunca são atendidas, mas que ainda assim precisam constar do edital) e as respectivas responsabilidades legais. No caso do 4G, será fundamental, por exemplo, definir claramente quem irá arcar com os custos da implantação das redes, que não poderão causar interferências sobre os canais de TV digital, como temem as emissoras.

A idéia do secretário do Tesouro é que essas obrigações podem ser, digamos, flexibilizadas. Com isso, as operadoras se sentirão mais atraídas e aceitarão pagar mais pelas licenças para uso das freqüências. E, como sabemos, flexibilização no atual governo é um conceito – desculpem o trocadilho – por demais elástico. A estimativa atual é de arrecadar cerca de R$ 6 bilhões no leilão, mas com exigências menos rígidas pode-se chegar a R$ 12 ou até R$ 15 bilhões.

O ministro Paulo Bernardo e sua equipe sabem os riscos envolvidos. Para se ter idéia, uma das propostas em estudo é destinar o bloco de freqüências mais lucrativas a uma única operadora, que ficaria liberada para aumentar as tarifas dos usuários que demandarem velocidades mais altas. Tudo ao contrário do que vêm pregando a Anatel e o próprio ministro.

É bom ficar atento aos próximos lances dessa queda-de-braço. Para boa parte do governo, a última das prioridades é a qualidade do serviço prestado ao consumidor. Este só tem o direito de pagar a conta.

E o filme acabou em pizza…

oscar

 

 

 

Ainda um pequeno comentário sobre a festa do Oscar. A foto ao lado mostra ninguém menos do que Meryl Streep, a maior atriz do cinema, fartando-se com um pedaço de pizza que lhe foi servido pela apresentadora do evento, Ellen DeGeneres. A televisão e a internet exibiram apenas de relance, mas algum fotógrafo mais esperto cravou o flagrante. Diz meu amigo Julio Cohen que o dono da rede de pizzarias está faturando alto após a inesperada promoção. Jamais pensou ter estrelas de Hollywood como seus garotos-propaganda.

article-2574147-1C10074700000578-276_634x426Nesta outra foto, jogadores da seleção brasileira carregam um garoto sul-africano de 7 anos, que invadiu o campo ao final do jogo desta quarta-feira. Sem querer, o menino virou celebridade, abraçado por seus ídolos. Teve sorte: retido pelos seguranças, foi “salvo” por Neymar, para surpresa de seu pai, que acompanhava tudo à beira do campo e para quem, agora, o filho é “o grande ídolo da África do Sul”.

 

Será tudo isso obra do acaso? Ou será que o marketing criativo é capaz de transformar até o acaso em vírus comercial?

Dá para confiar no streaming?

ellenAinda a propósito da transmissão do Oscar no domingo à noite, alguns sites fizeram a “cobertura” em tempo real, com imagens da festa e comentários ao vivo. Dois queridos amigos experts em cinema, Miguel Barbieri Jr e Eliane Munhoz, por exemplo, acompanharam tudo em seus respectivos blogs e fizeram sucesso, com grande repercussão nas redes sociais. Entre sites internacionais, o Oscar foi, de longe, o grande campeão de audiência dos últimos meses.

Mas, se no Brasil o tema é para poucos (ainda mais este ano, quando teve que dividir as atenções com os desfiles de carnaval), nos EUA é tratado como megaevento. Como tal, nestes tempos online, acaba levando muita gente à internet para acompanhar a abertura de cada um daqueles envelopes. Não deu outra: as redes de banda larga travaram! Diz o site da ótima revista The Atlantic que poucos americanos conseguiram acessar os feeds, transformando o Oscar num evento “inassistível”.

Choveram reclamações no Twitter e no Facebook, enquanto mais de 1 bilhão de pessoas “normais” estavam assistindo tudo confortavelmente instalados em seus sofás. O site chegou a reproduzir tuítes irados de assinantes que não conseguiam receber o sinal estável. Sim, havia sites piratas com cobertura ao vivo, mas estes são difíceis de encontrar quando mais se precisa: o usuário em geral acaba “escravo” de algo (ou alguém…) que nem sabe onde está.

Tudo isso reflete a dura realidade de que a tal web TV, ou que nome se queira dar, ainda tem muito chão pela frente até se tornar, de fato, concorrente da televisão convencional. Já aconteceu outras vezes. Sempre que há um grande evento, e milhões de pessoas tentam acessá-lo ao mesmo tempo, as redes não suportam a demanda e acabam caindo. Sim, a emissora que pagou para ter o direito de transmitir o evento (no caso, a ABC) faz o possível para impedir que outros lhe roubem o sinal.

Mas, mesmo levando isso em conta, fica claro que vídeo online e eventos ao vivo são como água e óleo – não podem ser misturados. Pelo menos, não com a qualidade que o cinéfilo exige. Da próxima vez, muitos talvez prefiram ver um filme, em lugar de assistir à maior festa do cinema.

Superconector: quais as vantagens

Untitled-1Acaba de chegar ao mercado brasileiro o primeiro receiver para home theater que traz o badalado conector HDBaseT. Trata-se do DTR-60.5, da marca japonesa Integra, distribuída pela Som Maior (mais detalhes aqui). É um lançamento importante porque significa – ou pode significar – uma mudança de paradigma na forma como são desenhados e executados os projetos de áudio, vídeo e redes.

Até o momento, pensava-se no padrão HDBaseT como solução específica para projetos grandes, principalmente em espaços corporativos, e que envolvam cabeamento estruturado. Recorro ao amigo e colaborador Vinicius Barbosa Lima para explicar melhor o assunto. Conectores HDBaseT podem trafegar simultaneamente até cinco tipos diferentes de sinal: áudio, vídeo, dados, comando e energia. E isso tudo utilizando os tradicionais cabos de rede, do tipo UTP (par trançado), com conector RJ45.

Eu disse “energia”? Sim, já é possível transmitir a alimentação elétrica dos equipamentos através de cabos comuns. É a tecnologia chamada POE (Power Over Ethernet). Para quem vai instalar, basta uma matriz de áudio/vídeo distribuindo os sinais pela casa, já que automação e comandos podem ser incorporados a esse aparelho.

A partir do momento em que se pode utilizar um receiver com HDBaseT, suponho – posso estar enganado, ainda não fizemos os testes – que tudo fique mais fácil ainda. Certamente, é um aparelho mais caro que os receivers “comuns”, mas a simplificação de todo o projeto deve justificar a escolha. E é claro que trata-se apenas do primeiro: outros fabricantes de receivers devem estar preparando soluções similares.

Fato é que, após tantos anos de hegemonia do HDMI, com inúmeras queixas quanto à compatibilidade entre fontes diferentes de sinal (receptores de TV paga são os campeões de falhas), surge a perspectiva de um outro padrão de conexão, mais completo. Esperemos que seja também mais confiável.

Campeonato de marketing

oscarsA Samsung marcou um belíssimo gol na transmissão do Oscar, no último domingo. Diante de um público internacional estimado em mais de 1 bilhão de telespectadores, a apresentadora Ellen DeGeneres exibiu para as câmeras um smartphone Galaxy com o qual fotografava as diversas celebridades presentes à festa. A certa altura, reuniu várias delas para uma selfie, que acabou se tornando instantaneamente a imagem mais acessada nas redes sociais nos últimos anos (foto).

Selfie, para quem não sabe, é como são chamados os “autoretratos” captados com smartphones e que os autores em seguida jogam nas redes. Com a agilidade dos aparelhos atuais, milhões de selfies são divulgadas a todo momento. Mas nenhuma até hoje havia conseguido juntar, num único clique, nomes como Brad Pitt, Meryl Streep, Julia Roberts, Kevin Spacey, Jennifer Lawrence, Angelina Jolie etc. Patrocinadora do Oscar desde 2009, a empresa montou no salão de entrada do Dolby Theater, onde aconteceu a cerimônia deste ano, um videowall com nada menos do que 86 displays de vários tamanhos (TVs, tablets e smartphones) exibindo imagens dos filmes indicados.

Mas a ação não para aí. Nestes cinco anos, a Samsung já investiu US$ 24 milhões no patrocínio da transmissão do Oscar pela rede ABC, segundo a revista AdAge, especializada em publicidade. O que dá uma média de US$ 4,8 milhões por ano, ou seja, uma pechincha. Imaginem quanto custaria reunir aquele time de estrelas para um anúncio convencional…

Sacadas assim são notáveis, quando se pensa como é difícil hoje em dia para uma marca se diferenciar no mercado sem detonar todo o seu orçamento de marketing. Algo parecido está acontecendo neste momento aqui no Brasil. Impedida de associar sua imagem à Copa do Mundo (a concorrente Sony é um dos patrocinadores oficiais), a mesma Samsung decidiu se unir à CBF, patrocinando a seleção brasileira – que, por motivos óbvios, é a mais vista e comentada do evento. Resultado: seus anúncios podem exibir alguns dos principais jogadores brasileiros (Neymar é da Panasonic).

Outro gol de placa, em nome do marketing.