Só o ódio desconstrói

Desconstruir: esse parece ser o verbo do momento na política brasileira. Após anos de um dualismo atroz, em que só se podia ser contra ou a favor, sem meios termos, surgiu aquilo que os cientistas políticos chamam de “terceira via”. E poucos, ao que parece, estavam preparados para lidar com o fenômeno. Assim como os protestos de junho de 2013 apanharam quase todo mundo no contrapé de suas falsas certezas, o surgimento de uma candidatura, digamos, fora do esquemão modorrento das últimas duas décadas move os dois lados hegemônicos na mesma direção: desconstruir a personagem que simboliza essa ruptura.

Era para ser Eduardo Campos, mas quis o destino que esse protagonismo coubesse a Marina Silva, figura desde sempre polêmica. O link entre Marina e as manifestações populares do ano passado é inescapável: nas ruas, as pessoas gritavam por uma “nova política”, algo que não se limitasse a repisar os hábitos danosos que, inertes, nos acostumamos a ver. Os partidos políticos e seus caciques, todos, viram-se à margem de um movimento que até hoje não nomeou líderes. Estes, se houve, simplesmente captaram no ar uma mudança de humor que agora desemboca na mais imprevisível campanha eleitoral das últimas décadas.

Marina está longe de ser desconhecida. Projetou-se desde a morte de Chico Mendes como herdeira de uma nova forma de enfrentar a questão ambiental. Acomodou-se no PT, o partido que então acenava com os horizontes mais promissores para levar essa luta adiante. Talvez ingenuamente, acreditou que Lula e seus asseclas falavam a sério quando prometiam platitudes como justiça social, fim da miséria, direitos humanos etc. Acabou escanteada no partido e, defendendo as cores do PV, obteve mais de 20 milhões de votos para presidente em 2010.

Sabendo de sua força, o PT fez o que pôde para evitar que ela se candidatasse novamente. E o plano talvez ficasse bem ajustado, não fosse aquele acidente de avião… A ordem agora, portanto, é apagar tudo de meritório que Marina possa ter feito no passado e vilanizá-la até onde possível.

Por esse script, não existe mais a ambientalista que combatia o desmatamento e defendia políticas de incentivo às energias limpas; talvez uma ativista aguerrida, mas confusa em seus métodos e sem jogo de cintura para negociar. Saiu de cena também a companheira batalhadora, de origem humilde e que subiu na vida por esforço próprio, alfabetizada já quase em idade adulta; em seu lugar, tentam colocar uma oportunista que traiu Lula e usou o partido como trampolim para suas ambições pessoais. Se Marina acena com a possibilidade de dar autonomia ao Banco Central, como fez Lula com Henrique Meireles, isso significa “entregar o país aos banqueiros”.

Assim, quase cirurgicamente, Marina Silva vai sendo desconstruída, num roteiro traçado pela pior espécie de marketing político, aquele em que não se vendem qualidades de um candidato (até porque, no momento, estas são quase inexistentes), apenas defeitos de seu adversário. Qualquer estudante de comunicação sabe que, do ponto de vista conceitual, trata-se de estratégia tão débil quanto arriscada. O fato de Marina ter entre seus assessores uma figura como a premiada educadora Neca Setubal, que até recentemente prestava assessoria ao PT, de repente é levado ao distinto público como ameaça. Afinal, dona Neca é herdeira do Banco Itaú!!! Difícil imaginar teoria mais desconectada da realidade. Custa crer que se queira enganar o público com esse tipo de desaforo.

Evidentemente, a palavra final caberá aos eleitores. Mas é sintomático que, 25 anos após a primeira eleição direta para presidente, o país ainda tenha que conviver com os mesmos métodos eleitorais. Se isso é tudo que os “dois lados” têm a oferecer (embora menos grosseiro e odioso, o PSDB não fica muito atrás nesta campanha), então será o caso de reafirmar-se a necessidade da tal terceira via. No mínimo, para que se mudem os odores políticos no ar. Os atuais são cada vez mais insuportáveis.

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