Na (longa) era da incerteza

“A Era da Incerteza” (The Age of Uncertainty) é um dos mais belos e influentes livros do século 20. Foi escrito pelo economista canadense John Kenneth Galbraith (1908-2006), que até quase o fim da vida não cansou de criticar seus colegas de profissão pela enorme capacidade de errarem nas previsões. Para quem tem preguiça de ler, talvez ajude o link para este vídeo, que resume a adaptação feita pela BBC, que foi exibida no Brasil pela TV Cultura/SP. Lembrei-me da obra outro dia, ao ler um economista atual comentando a “incerteza” em que vivemos hoje, no Brasil, devido às idas e vindas da economia e da política.

A palavra cabe também ao setor de televisão, por mais que o Brasil tenha excelente conceito mundial nesse quesito. Refiro-me, claro, à TV Globo, que está entre as cinco maiores emissoras do planeta, e não é por acaso. Mesmo a todo-poderosa vênus platinada (era esse o apelido da emissora no século passado) sofre com as incertezas. Como se tem noticiado, o grupo todo vem passando por grandes reformulações, com a aposentadoria de uma geração de profissionais (tanto da área técnica quanto de conteúdo) que lá esteve durante décadas. São, quase sempre, mudanças que visam equipar a Globo para ser tão forte nas novas plataformas de mídia quanto é nas TVs aberta e fechada.

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Já comentamos aqui sobre a aposta da Globo (e de sua filha mais nova, a Globosat) na tecnologia 4K, como se viu na Copa do Mundo. Na semana passada, estreou a primeira série brasileira totalmente produzida em 4K, Dupla Identidade (foto ao lado), que independentemente de fazer ou não sucesso já é um marco na história da televisão. Mas, conversando com Raymundo Barros, diretor de Engenharia da empresa, fiquei com a sensação de que ainda é pouco. “Vivemos uma incerteza muito grande em relação a esse problema das interferências do sinal 4G sobre a TV Digital”, diz ele, referindo-se ao leilão das frequências na faixa de 700MHz, marcado para o próximo dia 30.

A incerteza, também já comentada aqui, se deve à ambiguidade do governo federal, através da Anatel e do Ministério das Comunicações, que não conseguiram sequer escrever um edital de convocação coerente para o leilão. Sem entrar em detalhes, Raymundo levanta a questão central: “A arrecadação do leilão deveria garantir ao consumidor um serviço de qualidade, tanto na televisão quanto na telefonia”.

Sim, deveria. Mas, de cada dez especialistas, nove duvidam disso. Basta dizer que, a menos de uma semana de distância, ainda se corre o risco de novo adiamento provocado por incertezas técnicas e/ou jurídicas. Infelizmente, o famoso padrão Globo de qualidade, outro lema que ficou célebre no passado, não foi copiado pelo governo nem pelas outras emissoras, que mal sabem o que farão com as novas frequências, muito menos com a tecnologia 4K. Esse padrão também está longe de espelhar o que vemos no Brasil como um todo, mais ainda quando se constata a falta de políticas públicas em vários campos (a tecnologia é apenas um deles).

2 comentarios para Na (longa) era da incerteza

  1. WALTER A. CARNEIRO 30/09/2014 at 6:49 pm #

    2K, 4K, 8K “mamma mia” aonde iremos parar mesmo? Tudo bem, eu já comparei minha fabulosa 65VT50b com uma SONY 65″ 4K e pude perceber avanços significativos nos detalhes finos da imagem, mas isso não é tudo para uma imagem ser considerada espetacular. A tecnologia LCD/Leds, por mais avançada que seja, com “local dimming”, 240hz e outros “truques” ainda não consegue exibir uma imagem numa TV 4K de 65″ ou superior com a beleza, sem ressalvas, que se compara a uma imagem de um TV de Plasma TOP (Panna 65VT50b, 65VT60b, Samsung 64F8500, por exemplo). Acredito que só vou ficar impressionado com uma imagem 4K em ecrãs acima de 60″ quando tal proposta vier da tecnologia OLED, com mídias acessíveis e reprodutores blu-rays com esse formato. Mas agora eu pergunto: qual será mesmo a vantagem visual de assistirmos aos inúmeros programas de futilidades tais como: novelas, Big Brother, A Fazenda, Pregações Bíblicas, Jornal Nacional e outros, etc. etc; e tal, da TV (aberta ou paga) com uma imagem super hiper detalhada em 8K, nos ecrãs de 32″, 42″, 50″, 65″ ou até mesmo 75″?

  2. Rubens 08/10/2014 at 12:48 am #

    Walter Carneiro escreveu:
    > Mas agora eu pergunto: qual será mesmo a vantagem
    > visual de assistirmos aos inúmeros programas de
    > futilidades tais como: novelas, Big Brother, A Fazenda,
    > Pregações Bíblicas, Jornal Nacional e outros, etc. etc;
    > e tal, da TV (aberta ou paga) com uma imagem super
    > hiper detalhada em 8K, nos ecrãs de 32″, 42″, 50″, 65″
    > ou até mesmo 75″?

    Mas você assiste a essas coisas, Walter, para se preocupar com isso?…
    .
    Eu estou para comprar um televisor 4K desde o final do ano passado (só nao comprei porque ate hoje nao foi lançada uma motherboard para PC com conector HDMI 2.0, para eu poder ligar o televisor a um HTPC montado com essa motherboard, HTPC que vai servir como fonte de videos para o televisor). E, sinceramente, nao dou a minima para o que a tv brasileira (aberta ou paga) exibe, ja que hoje eu ja nao as assisto. Me interessa tao somente o que vai aparecer de producao de cinema e series de tv estrangeiras (producoes dos USA, UK, paises nordicos, etc.). Alem de poder usar o Windows instalado no HTPC com uma interface em tela de 3840×2160.

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