Archive | janeiro, 2016

Gigantes buscam energia sem fio

Já há alguns anos se fala em wireless charging, um conceito genérico para dispositivos que permitem a transmissão de energia por via magnética, sem necessidade de fios. Todo mundo que já ficou sem bateria no celular, notebook ou tablet sabe bem como essa é uma questão crítica; mais ainda hoje, com as pessoas querendo estar conectadas o tempo inteiro. Os cientistas sabem que é possível, sim, transmitir carga elétrica pelo ar, mas ainda não a custos comercialmente viáveis.

Nesta sexta-feira, o site Bloomberg Business revelou detalhes do plano da Apple para liderar esse segmento a partir do ano que vem. Citando fontes que não quiseram se identificar, a notícia diz que a Apple está trabalhando com parceiros, nos EUA e na Ásia, para lançar um sistema de recarga sem fio para iPhones e iPads em 2017. Lembra que Samsung, Sony e Google já colocaram algo do gênero no mercado, mas são soluções ineficientes: a quantidade de energia liberada depende muito da distância entre os aparelhos, o que acaba eliminando a vantagem da conveniência (fica mais prático usar o carregador tradicional ligado à tomada).

Se parece notícia velha, é porque a Apple registrou sua primeira patente para carregamento sem fio lá em 2010: era um processo de indução magnética a partir de um computador iMac; no ano passado, os primeiros iWatch da empresa vieram com recurso desse tipo, mas ainda exigindo distância curtíssima (alguns milímetros) para funcionar. Houve também uma tentativa de fazer a indução elétrica através da capa de alumínio do iPhone, usando ondas de RF, mas parece que não evoluiu.

wipowerBem, agora dois fabricantes importantes de chips – Broadcom e Qualcomm – estão anunciando novidades na área. Só pra variar, essa inovação por enquanto esbarra na multiplicidade de protocolos para fabricação dos aparelhos que permitiriam recarga elétrica sem fio (já são três padrões diferentes). Mesmo assim, a Broadcom informa ter desenvolvido o que chama de PMU (Power Management Unit), compatível com os três protocolos.

Já a solução da Qualcomm, chamada WiPower, seria baseada também num invólucro metálico do smartphone, com um chip interno se comunicando em frequência específica com a fonte de energia (não informa a distância necessária).

De qualquer forma, parece que estamos chegando perto.

Quem topa defender bandidos?

“A democracia é um péssimo sistema político. Mas todos os outros são piores”, dizia Winston Churchill, líder político britânico durante a 2a. Guerra e um dos maiores frasistas de todos os tempos. Lembrei da frase ao ler, durante as férias, o artigo reproduzido abaixo, de autoria do cineasta José Padilha, autor de Tropa de Elite, Narcos e outros sucessos polêmicos. Saiu publicado na Folha de São Paulo em novembro e, como tantos outros, estava guardado aqui no meu computador.

Em mais uma semana repleta de denúncias de corrupção, é difícil fugir do tema. Já se passaram dez anos que o país vive essa tormenta, e pela primeira vez as pesquisas apontam que a maioria da população se preocupa. Parece que, finalmente, está percebendo a relação existente entre os desvios de dinheiro (que todo mundo sempre achou tão “normais, fazer o quê?”) e os problemas econômicos. Afinal, não é fácil perder o emprego, ou ter que cortar comida da mesa dos filhos, enquanto se assiste pela TV às barbaridades que esses políticos vêm cometendo.

Tenho amigos de diversas crenças políticas, e alguns se dizem “decepcionados” com o PT, que supostamente teria surgido para combater essas práticas (a propósito, leiam este outro artigo, do escritor Luiz Ruffato); outros amigos simplesmente fogem do assunto; e há aqueles, acreditem, que ainda se dispõem a defender os bandidos do PT, sob a alegação de que os bandidos dos outros partidos são piores. Lamento por todos!

E aí é que, a meu ver, entra José Padilha para lembrar que democracia não significa apenas voto. Não importa em quem você vota, ou votou. Democracia precisa ir muito além, tem que ser praticada no dia a dia. Sua importância deve ser ressaltada e repetida milhares de vezes, quantas forem necessárias, principalmente para jovens e crianças que nunca viveram sob uma ditadura, para que as pessoas a incorporem. Em tempo: esses infelizes que vão às ruas pedir a volta dos militares também não caberiam na definição de bandidos? Enfim, com a palavra o Padilha:

“A maioria das pessoas acredita que a democracia é a melhor forma de se escolher um governante. A maioria está errada, posto que alguns facínoras, como Hitler, foram eleitos democraticamente. A democracia não se justifica como um processo de escolha, mas sim como uma forma pacífica de se promover alternâncias no poder.

“Como observou o filósofo Karl Popper, onde não há democracia os maus governantes ficam no trono até serem afastados de forma violenta, a um enorme custo social. Assim, a democracia é fundamental.

“Além disso, a democracia incorpora a metodologia da ciência à atividade política. Nos países com partidos de ideologias claras, a população pode avaliar os resultados práticos das políticas públicas e votar ou não pela permanência desta ou daquela ideologia no poder. A repetição desse processo tende a selecionar a forma de governo mais adequada para determinada sociedade.

“Em suma, a democracia confere vantagens competitivas significativas para quem sabe aplicá-la, e não é à toa que as sociedades mais desenvolvidas têm aparatos legais destinados a preservar seu bom funcionamento. Monopólios, oligopólios e leis inadequadas para o financiamento de campanhas desvirtuam o processo democrático. Concentração de mídia e riqueza promove distorções nas campanhas eleitorais.

“A corrupção é especialmente danosa. Nos países em que grupos políticos hegemônicos a praticam de forma sistêmica, cria-se um círculo vicioso. O sucesso eleitoral garante o vilipêndio dos recursos públicos e o vilipêndio dos recursos públicos garante o sucesso eleitoral.

“Nesses países ocorrem dois fenômenos. Em primeiro lugar, há pouca alternância de poder. Em segundo, as alternâncias acontecem depois de crises econômicas agudas, quando o estrago da corrupção chega a tal ponto que nem as vantagens conferidas por ela garantem mais as próximas eleições.

“O custo social e institucional desse processo é elevado. Político que rouba para financiar campanha comete crime ainda mais grave do que o político que embolsa “pixuleco”. Fraude à democracia não é atenuante, é agravante.

“Existem ainda formas indiretas de fraudar a democracia. Um governante que frauda a Lei de Responsabilidade Fiscal de um país, seja pela emissão descontrolada de moeda ou por artifícios contábeis, para ganhar eleições imputa o custo de sua campanha a toda a população.

“Além de viciar o processo eleitoral e de gerar crises econômicas agudas, a impede que a democracia promova a correta avaliação das políticas públicas.

“Por exemplo: ao votar no PT, os brasileiros escolheram manter a estatização da exploração do petróleo. Hoje, apesar de monopolista, a Petrobras tem uma dívida de R$ 500 bilhões e suas ações se desvalorizaram incrivelmente. Isso significa que o petróleo não pode ser estatizado? Não necessariamente, posto que o PT promoveu um tal nível de corrupção na Petrobras que é difícil separar os efeitos da estatização dos efeitos negativos da corrupção.

“Quando uma democracia se torna extremamente corrupta, como aconteceu no Brasil, o melhor que os agentes sociais podem fazer é colocar suas divergências ideológicas temporariamente de lado e unir forças para punir exemplarmente quem corrompeu o país e o processo eleitoral.

“Defender políticos sabidamente corruptos por questões ideológicas, –ou para não dar o braço a torcer– é trabalhar contra a democracia. Aqueles que não têm a grandeza de espírito para colocar a lisura do jogo democrático à frente das preferências ideológicas lutam pela escravidão pensando estar lutando pela liberdade.”

Quem é que entende o Netflix?

narcosBarry Enderwick, um ex-executivo da Netflix, hoje consultor na área de mídia, escreveu há poucos dias que a maioria das redes de televisão americanas, e as empresas de mídia em geral, ainda não entenderam a verdadeiro revolução que está por trás desse serviço. Netflix, diz ele, não veio para competir com nenhum canal de TV, mas para “substituir” a própria televisão.

Exagero? Vamos lá. O artigo cita que o atual diretor de conteúdo da Netflix, Ted Sarandos, foi de certa forma arrogante ao afirmar que a série Narcos, se fosse exibida por uma emissora convencional, teria mais audiência do que Game of Thrones, hoje o maior sucesso da TV paga mundial. Narcos, como se sabe, é uma série bancada pela Netflix e só ali pode ser assistida. Sarandos não falou em números: a empresa não divulga quantas pessoas assistem a seus conteúdos. Por isso, logo foi contestado por dois executivos de emissoras, que acusam o serviço de “falta de credibilidade”.

O artigo original, em inglês, está aqui. Mas tomo a liberdade de reproduzir partes abaixo, lembrando que essa polêmica está apenas no início. Netflix é tão contestado nos bastidores da TV quanto é o Uber entre os taxistas, mas nada existe que possa ser feito a respeito. No entanto, é valioso analisar os dados utilizados pelos dois lados (o autor do texto claramente se coloca contra as redes de TV), e observar como estas planejam reagir.

“É interessante ver os executivos das redes de TV, ainda atrelados aos velhos métodos de medição, entrarem numa discussão do tipo o-meu-é-maior-que-o-seu. O que Sarandos fez foi simplesmente extrapolar a audiência do Netflix e tirar uma conclusão sobre o que isso significa para a audiência global. Mas esses caras não estão entendendo: só conseguem pensar em sucesso em termos de tamanho da audiência.

“O problema é que Netflix não é TV tradicional. As redes de TV, sim, precisam comprovar seus números e conhecer o perfil do público para poder cobrar dos anunciantes. Netflix não se baseia nesses critérios. Sua receita vem da venda de assinaturas, tanto faz se o público é mais jovem ou mais velho. Se esta ou aquela série é mais assistida por uma determinada faixa de pessoas, não faz diferença. Eles analisam se a série ou filme irá conquistar a atenção dos assinantes e levá-los a sugerir esse conteúdo a outros possíveis assinantes.

“Netflix não precisa que uma determinada série bata recordes de audiência.  Na prática, o serviço redefiniu o próprio conceito de “sucesso”. E está crescendo no mundo inteiro com conteúdos apropriados aos gostos individuais de seus assinantes.

“Graças ao uso inteligente dos dados dos usuários, Netflix está conseguindo não apenas produzir conteúdo original de boa qualidade, mas produzir uma incrível quantidade de conteúdos que estão disponíveis no mundo inteiro. Enquanto os executivos das redes discutem quem tem mais audiência na faixa de 18 a 49 anos (vejam aqui), Netflix está trabalhando em algo muito maior; não está tentando substituir este ou aquele canal, mas substituir a própria televisão.”

“Em tempo: infelizmente, não tenho mais nenhum vínculo, nem interesse financeiro, com a empresa Netflix.

TV Digital: switch-off fica para 2023…

Como se previa, saiu nesta 2a feira a portaria do Ministério das Comunicações adiando o prazo do switch-off, desligamento dos transmissores de TV analógica. A cidade-piloto de Rio Verde (GO), onde o cronograma deveria ter começado em novembro, fica agora com a data de 15/02; Brasilia vai para outubro; São Paulo e Rio aparecem com data de 2017, e todas as demais para 2018.

O documento saiu no Diário Oficial da União, mas do ponto de vista prático não tem  a menor importância: tudo depende ainda de um decreto a ser assinado pela presidente da República, que não tem data marcada. Daí porque o texto é vago e disperso, anulando outras cinco portarias anteriores do mesmo Minicom. Saiu apenas porque pressão é grande por parte das operadoras de celular 4G, que no ano passado pagaram R$ 5,85 bilhões pelas frequências da faixa de 700MHz, hoje ocupada pelos canais de TV analógicos (UHF). Ela têm toda a pressa do mundo.

Dentro do próprio governo, a data de 15/02 provoca risos… O pessoal de Rio Verde não deve ter grandes esperanças. No mercado, a ideia em discussão é fazer logo o switch-off em São Paulo, Rio e Brasilia, onde há maior interesse econômico (representam quase metade dos usuários do país), e deixar o restante para uma segunda etapa. Assim, essas regiões metropolitanas receberiam primeiro as novas redes de 4G. As emissoras concordam e já dão como certo que o cronograma só se completará por volta de 2023.

Mas essa é mais uma encrenca política, entre tantas, que o governo terá de administrar.

OLED Panasonic, feito pela LG

Retomando aqui as atrações da última CES, vamos comentar sobre a tecnologia OLED, que continua sendo uma espécie de “menina dos olhos” da indústria eletrônica. Já sabemos que a LG é a única grande fabricante investindo pesado nesses painéis orgânicos. Lançou alguns modelos de ótima qualidade em vários países e, na Coreia, está construindo a maior fábrica de OLED do mundo. A maioria dos demais parece não apostar, ou acha que o custo (ainda alto) não vale o investimento.

Quase todos os especialistas confirmam que esses TVs superam de longe os LED-LCDs, embora ainda haja dúvidas, por exemplo, em relação à durabilidade dos painéis, que precisará ser testada na prática – e isso leva alguns anos. Na CES, mais uma vez, a LG reinou soberana no campo dos TVs OLED, com a mais variada linha do evento. Ao contrário de alguns de seus modelos LED-LCD, os OLED contam com a homologação da Ultra HD Alliance, que comentamos na semana passada. São, portanto, TVs OLED 4K, uma combinação que – pelo menos na teoria – parece hoje insuperável.

LG oledOs modelos G6 e E6 (acima), exibidos em Las Vegas, além de um novo tipo de vidro (apenas 2,57mm de espessura), são os primeiros com painel que a empresa chama de Pixel Dimming: cada pixel que forma a imagem é controlado individualmente. Nos painéis atuais, são usados dois tipos de backlight: Edge-Lit, com leds nas bordas; e Local Dimming, com grupos de leds iluminando determinadas zonas do painel. Naturalmente, estes últimos apresentam melhor desempenho, mas o desafio dos fabricantes está no custo-benefício: quanto mais leds existirem, maior a quantidade de luz sobre os pixels.

No caso de TVs OLED, não há necessidade de backlight: cada led (portanto, cada pixel) emite luz própria, de intensidade bem mais alta. O que a Panasonic exibiu na CES, com razoável repercussão entre os experts, foi um TV OLED (mod. 65CZ950) cujo painel é fornecido pela mesma LG. Já tinha sido mostrado na IFA, em setembro, mas agora a empresa japonesa garante que não é apenas protótipo; chega ao mercado internacional por volta de abril (vejam a foto).

pana oled-A diferença para o concorrente coreano estaria, diz a Panasonic, no tipo de processamento de sinal, baseado em normas da THX e desenvolvido em conjunto com produtoras de Hollywood. O conceito, com nome comercial de 4K Pro, é adotar na produção desse TV recursos profissionais de correção de cores.

Taxi sem motorista está chegando

Was8763944Em tempos de Uber, com toda a polêmica que esse serviço já está causando mundo afora, a GM anunciou nos EUA uma experiência audaciosa. Vai financiar uma rede de taxis sem motorista na cidade de Austin, Texas. A gigante dos automóveis já colocou US$ 500 milhões no serviço Lyft, concorrente do Uber, mas no Salão do Automóvel de Detroit informou que a ideia é montar uma “rede controlada” de carros comandados a distância e que atinjam velocidade máxima de 30km/hora. Os veículos serão versões mais avançadas de modelos como Volt e Chevy, com eletrônica totalmente digital. “Se a pessoa estiver cadastrada no Lyft, o carro irá reconhecê-la antes mesmo de abrir a porta”, promete o presidente do serviço, John Zimmer, entrevistado pelo New York Times. “O carro já chega no endereço do solicitante com tudo ajustado, inclusive suas músicas preferidas para ouvir no caminho até o destino”.

Austin foi escolhida para esse projeto-piloto porque já é uma das cidades tecnologicamente mais desenvolvidas do mundo. Ali já estão instaladas empresas de primeira linha no setor, como Dell, Astrotech, Sonic Healthcare, Visa, Crytech, 3M, AMD, Qualcomm etc. Quase todo mundo que reside ou trabalha em Austin sabe (tem certeza) de que o futuro dos transportes passa por serviços de inteligência, com redes compartilhadas na linha do Uber e do Lyft. Dificilmente haverá na cidade algum protesto de taxistas contra a ideia.

Fabricantes se adaptam à nova realidade

Nesta quinta, o grupo TPV, dono das marcas Philips e AOC, anunciou que está fechando sua fábrica de monitores em Jundiaí (SP), onde trabalham cerca de 600 pessoas, e transferindo a produção para Manaus. Lá, deverão ser contratados 250 para aumentar o contingente atual de 800 funcionários, diz a empresa em comunicado.

É mais um efeito da recessão que cortou quase pela metade as vendas de eletrônicos entre 2014 e 2015. Curiosamente, a mesma Philips havia anunciado na semana passada que passa a produzir monitores de vídeo 4K em Manaus (detalhes aqui). Esse, no entanto, ainda é um mercado de nicho. Todos os fabricantes estão tendo que se adaptar à nova realidade, imposta pela economia. Esta tabela, atualizada até dezembro último, mostra como vem sendo a evolução do segmento de TVs no país, conforme os dados oficiais da Suframa.

Conselhão e os fundos de telecom

Não deixa de ser curioso que o governo tenha convidado o presidente da América Móvil, José Felix, para integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que volta a se reunir no próximo dia 28, exatamente no momento em que se volta a discutir a questão dos fundos de telecomunicações. Felix, como quase todos os principais executivos do mercado, sempre foi crítico do mau uso desse dinheiro, já denunciado neste blog. Terá ele chance de mudar alguma coisa fazendo parte do “conselhão”?

Para quem não se lembra, o Conselho foi criado na época de Lula presidente (chegou a ter quase 100 integrantes). A ideia era reunir representantes de variados setores de atividade para refletir e apresentar sugestões ao governo. Já lá se vão 13 anos… Lembro de um conhecido, então executivo importante, que foi convidado, participou de duas ou três reuniões e diz que nunca conseguiu sequer trocar palavra com alguém do governo. Serviu, quando muito, para fazer espuma e roubar tempo de quem precisava trabalhar.

Não por acaso, o Conselho caiu em desuso após o Mensalão e demais denúncias de corrupção; com Dilma, nem houve mais encontros protocolares. Agora, que o governo precisa atrair os empresários, alguém surgiu com a genial ideia de reativá-lo. Faz lembrar a frase de um velho político mineiro: quando não se quer resolver um problema, basta convocar uma reunião.

Piadas à parte, um bom tema para discussão no grupo seria a gatunagem em cima do Funtel (Fundo Nacional de Telecomunicações) e do Fistel (Fundo de Incentivo ao Sistema de Telecomunicações. Denúncia do Tribunal de Contas da União, revelada ontem, indica que o desvio desses recursos – recolhidos a partir de cada conta de telefone, internet ou TV por assinatura para pelos usuários – é um dos mais “escandalosos” já apurados pelo órgão. Os dados do Tesouro e da Anatel a respeito não batem, e a diferença não é pequena. Os dois fundos foram criados, há quase vinte anos, para financiar investimentos na infraestrutura de telecom mantida pelo governo. Só que o dinheiro recolhido (há cálculos de que ultrapassa R$ 80 bilhões) foi surrupiado pelo Tesouro para outras finalidades.

Enquanto isso, os planos de expansão da banda larga e da TV Digital, para citar apenas dois, vivem sendo adiados por falta de dinheiro.

Olimpíada 2016 e o efeito 7×1

O amigo e colega Luiz Ruffato, premiado escritor, não foi nada irônico ao escrever no site do El País que a maior herança que a Copa de 2014 nos deixou foi, talvez, o zika vírus. Foram os turistas estrangeiros que o trouxeram naquele ano, segundo o então ministro da Saúde. Pode ter sido exagero. Há outros legados.

Quem consulta os dados oficiais pode ficar animado, como neste exemplo. Mas, como no caso do estádios da Copa, as contas não estão fechando. A Prefeitura entrou em disputa judicial com uma das construtoras contratadas, que atrasou obras e demitiu funcionários. Os valores envolvidos ainda terão que ser apurados pelos órgãos de fiscalização, mas provavelmente só depois do evento, como geralmente acontece. Este levantamento dá uma boa ideia do alarme.

Há também problemas trabalhistas, que só vêm se agravando com a crise econômica, como mostra esta reportagem da BBC Brasil. Infelizmente, nada disso é novidade. Porém, se a Copa ainda ocorreu num momento de ilusória euforia, alimentada por certos governantes e uma parte da mídia, a Rio-2016 terá que acontecer num ambiente completamente diverso. Talvez não tenhamos um novo 7×1, mas, com tanta notícia ruim, quem se arrisca a dar palpite?

Japoneses estão na encruzilhada

Notícia desta quinta-feira no The Wall Street Journal revela detalhes de uma negociação para compra da Sharp Corporation pela taiwanesa Hon Hai (Foxconn). Negócio de US$ 5,3 bilhões. Um grupo de investimentos japonês, chamado INC (Innovation Network Corp), já tinha oferecido US$ 3 bi, mas os acionistas da Sharp relutam. A diferença em dinheiro é significativa, mas há pressões até do governo para que o grupo seja mantido em mãos japonesas. Uma decisão está prevista para dia 04/02.

É uma encruzilhada. Ceder o controle para um grupo de Taiwan bate forte no coração nipônico, até por razões históricas, ainda que a Hon Hai prometa não trocar a diretoria da Sharp. Ao mesmo tempo, os resultados financeiros são preocupantes. Em maio passado, a Sharp negociou um acordo com dois grandes bancos (Mitsubishi e Mizuno) para receber cerca de US$ 4 bilhões, dívida que deveria ser paga agora em fevereiro. Mas o ano fiscal, que fecha em março, aponta para um prejuízo na casa de US$ 1,5 bi. Como pagar?

Vale a pena ficar atento aos desdobramentos. Se os japoneses toparem ser incorporados pelo “inimigo”, outros acordos semelhantes virão.

Em tempo: a chinesa HiSense já adquiriu o controle da marca Sharp no mercado americano de TVs. Detalhes, aqui.

Brasileiro, profissão: Esperança

O título acima é de uma peça teatral de sucesso nos anos 60/70, escrita por Paulo Pontes, então casado com a grande Bibi Ferreira. Em plena ditadura militar, ele criou uma série de metáforas para descrever o povo brasileiro e sua eterna crença de que, se Deus quiser, tudo se arranja. Vivíamos o auge do “país do futuro”, esse mesmo futuro que até hoje não chegou.

Lembrei da peça ao ler um ótimo artigo da jornalista Eliane Brum no site brasileiro do jornal El País. Sob o título Em defesa da desesperança, ela analisa o ano de 2015, e projeta 2016, com olhos de quem embarcou na canoa furada do lulismo e hoje se arrepende. Se o brasileiro sempre acreditou, é hora de lutar mesmo sem ter mais esperanças de que as coisas mudem, ensina a autora. Se acreditou em seus políticos, tanto que os colocou no poder como aí estão, seria agora tempo de deixar que as coisas se resolvam, talvez naturalmente. Afinal, Lula e o PT eram a “última esperança”.

Quis escrever este primeiro post do ano tratando do assunto (esperança) na pretensão de me reanimar para o ano novo, já que o velho foi desanimador. E também porque, nunca tendo votado em Lula (no PT, somente uma vez), não guardo desilusões. Não vejo, portanto, motivos para aposentar a expectativa, e o desejo, de que nosso país forje um destino diferente. Ao contrário, com todos os pesares, os últimos anos revelaram algo que foi um sonho da minha geração: a força da Justiça, ainda que aos trancos.

Até 10 ou 15 anos atrás, ninguém imaginaria que um político ou empresário importante pudesse ser preso (e permanecer na cadeia). É, ainda faltam muitos, mas não custa lembrar que pessoas assim já atuavam descaradamente há décadas, séculos, e raramente foram incomodadas. E que, se antes a palavra final era dos generais, hoje temos que nos curvar a juízes. É um salto e tanto (a propósito, leiam esta carta da Associação dos Juízes Federais, divulgada no fim de semana).

Para encarar este ano, e os próximos, tomo emprestado um pensamento de Millôr Fernandes: fora do ser humano, não há salvação. Brasileiros, com ou sem esperança, mãos à obra!

Audiência na favela? Quem mede?

Recém-instalada no Brasil, a gigante alemã GfK, especializada em pesquisas de audiência e análise de mercado, está começando a entender como as coisas funcionam aqui. Concorrente direta do Ibope, que reinou soberano durante décadas no setor de medição de audiência de TV, a GfK emitiu nota ontem desmentindo notícia do UOL sobre um suposto assassinato numa favela do Rio.

A nota, porém, não teve grande valia. O site confirmou com outras fontes que um morador da favela foi assassinado, com um tiro na cabeça, quando concordou que um funcionário da GfK instalasse em sua casa um aparelho medidor de audiência. O atirador seria um traficante que atua na região, onde – como em tantas outras localidades do país – impera o “gatonet”. O fato teria ocorrido em maio do ano passado, provocando a demissão do diretor da empresa no Brasil, Ricardo Monteiro.

Em tempo: para convencer emissoras a comprar seu serviço de pesquisas, uma das ofertas da GfK foi justamente a medição em favelas, prática que o Ibope recusa por motivos de segurança.

OTT: contra e a favor

Como em outros países, o setor de tecnologia no Brasil se divide: parte é a favor de maior regulação sobre as empresas de internet, parte é contra. Alguns, radicalmente. Documento divulgado na semana passada pela Abinee defende que os chamados serviços OTT continuem desregulamentados, estimulando o crescimento da chamada “economia digital”. Como se sabe, instituir regras sobre empresas como Google, Netflix, Facebook etc. é uma reivindicação das operadoras de telecom e TV por assinatura, inclusive com ações junto ao Congresso e ao governo para obter isonomia tributária.

Quem está com a razão? Essa discussão, que ainda vai longe, é oportuna diante da crise econômica, em que todo mundo busca preços mais baixos (um dos trunfos dos serviços OTT). Durante a CES, no início do mês, a Netflix anunciou sua expansão global para mais de 190 países (hoje está em 60), tendo como modelo justamente o Brasil. O site Tela Viva detalhou o anúncio. Bate com a notícia do colunista do UOL, Ricardo Feltrin, de que o serviço já fatura mais no país do que o SBT, segunda emissora de TV aberta.

Aliás, o presidente da Netflix, Reed Hastings, chegou a dizer que está nascendo uma nova rede global de TV pela internet. “Você não precisa mais ver anúncios entre os programas”, proclamou, ideia que certamente causa desespero no meio publicitário.

E, então, Netflix é a solução? Vamos regulamentar ou desregulamentar? De que lado você está?

Blu-ray 4K: o que se pode esperar

the martianComo dissemos no post anterior, os players Blu-ray 4K foram atração na CES 2016. O lançamento comercial está previsto para este primeiro trimestre, e expectativa é grande. Samsung e Philips, por exemplo, anunciaram no evento que o preço poderia ser inferior a 400 dólares. Isso equivale, em média, a três vezes o que se paga atualmente no mercado americano por um modelo DVD com upscaling para 4K (que está longe de ser a mesma coisa). Na verdade, ambas – assim como a Panasonic, que também demonstrou sua versão – aguardavam a repercussão das demos na CES para decidir exatamente o que fazer. E continuam aguardando, para ver se os estúdios de cinema cumprem a promessa de colocar à venda boa quantidade de títulos compatíveis.

Perdido em Marte, ficção científica de Ridley Scott estrelada por Matt Damon (e indicada ao Oscar), é a primeira dessas produções que foi rodada em 4K e está chegando ao varejo (vejam aqui o trailer). Na Amazon, pode ser encomendado por US$ 30, e claro que com os impostos de importação esse custo pode subir bastante. Mas vale como referência inicial. Outros títulos prometidos (aqui, um resumo da lista) são lançamentos do cinema no primeiro semestre 2015 e alguns mais antigos. Será um bom começo, se de fato acontecerem.

O que está intrigando muitos especialistas é a falta de informação sobre esses discos. Na teoria, sabe-se que um disco Blu-ray 4K tem muito maior capacidade; a especificação é de no mínimo 66GB, chegando até 100GB, contra máximo de 50GB do Blu-ray que usamos hoje. Mas não estão sendo divulgados, pelo menos até agora, os detalhes técnicos das gravações, embora se saiba que os discos devem seguir as normas da UHD Alliance e da Consumer Technology Association, incluindo processamento de cores mais refinado (Wide Color Gamut), codec HEVC (para captar também sinal 4K da internet) e áudio 7.1 canais; vejam aqui essas normas no original.
Sem Título-1Em tempo: a própria Amazon abriu neste fim de semana as pré-vendas do player Samsung Blu-ray 4K (mod. UBD-K8500, foto), por US$ 399.

CES e o futuro da tecnologia

78-SUHD-TV-360Infelizmente, este ano não estivemos na CES de Las Vegas. Mas, repassando o material enviado por algumas empresas e a intensa (embora fragmentada) cobertura da mídia, é possível tirar algumas conclusões. Há um enorme esforço da indústria para convencer os consumidores a adotarem a tecnologia 4K. Mas, na prática, ainda são poucos os que de fato percebem os reais benefícios. Isso só deve ficar claro quando tivermos à disposição uma boa (mesmo) oferta de conteúdos em 4K, com preço acessível.

A maior novidade da CES 2016 foi a confirmação, já esperada, do lançamento do formato Blu-ray 4K. Discos e players dessa categoria estão previstos para chegar ao mercado americano e aos principais países da Europa em março. Ninguém, no entanto, falou em preço até agora. Três estúdios (Warner, Sony e Fox) apresentaram na CES uma série de títulos, incluindo sucessos recentes do cinema, em demonstrações que deixaram extasiados os visitantes do evento. Mas essas empresas ainda não sabem até que ponto é vantajoso investir nos novos discos e sua altíssima capacidade de memória; ou ceder aos encantos da internet (leia-se: principalmente Netflix) e seus preços baixos.

Enquanto isso, os fabricantes vão despejando TVs 4K no mercado mundial, numa enorme variedade de tamanhos e estilos. Os players Blu-ray 4K também fizeram sucesso na CES, mas por enquanto somente a Samsung anunciou data para lançamento: abril. Panasonic e Philips ainda estudam a data mais apropriada, enquanto LG e Sony dizem que não pretendem entrar nesse mercado tão cedo.

Enfim, teremos que aguardar mais. Nos próximos dias, comentaremos melhor o assunto e outras tendências vistas na CES. Por enquanto, fiquem com nosso hot site.

Começando de novo

Amigos leitores, cá estamos de novo, começando mais um ano e tentando, na medida do possível, nos conectar com tudo (ou quase) que acontece no mundo da tecnologia, especialmente áudio & vídeo. Pelos relatos disponíveis, a maioria teve um 2015 difícil e torce para que 2016 seja bem melhor. Mas não basta torcer. Teremos todos que pensar e trabalhar muito mais. O excesso de notícias ruins às vezes contamina a atmosfera, tornando mais complicado discutir novos projetos ou novas oportunidades de negócio. E elas existem. Estamos nos propondo este ano a falar menos de problemas, e mais de soluções.

De início, então, um ótimo ano para quem nos lê. E ao trabalho.

Sobre assuntos como economia, política, comunicação, confiram nossas opiniões e sugestões na seção Jeitinho Brasileiro.

Sobre o tema principal deste blog, quero começar o ano, com licença, advogando em causa própria. Este 2016 marcará os 20 anos da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL (antes, somente “Home Theater”), que lançamos em maio de 1996. Ainda falávamos de videocassete, CD e projetor de 3 tubos, entre outros avanços da época, quando iniciamos essa jornada. Foram, até agora, 236 edições impressas, mensais e consecutivas, além de uma série de especiais, mais o anuário “Home Theater Best”, que vem sendo publicado regularmente desde 2001.

Lembro com carinho da “Som Três”, revista mensal que fez a cabeça de muita gente, comandada nos anos 1970 pelo grande jornalista Mauricio Kubrusly, e de “Video News” e “Audio News”, que ajudamos a criar nos anos 80/90. Vem à mente uma série de outras iniciativas que ficaram pelo caminho, assim como tantos exemplos de publicações americanas e europeias que nos servem de inspiração. Infelizmente, o Brasil não é um país de leitores.

Isso, de qualquer forma, não impede nossas comemorações. Não é a toda hora que se fazem 20 anos. E, no caso de uma revista especializada num país com tantos problemas, o esforço é ainda mais gratificante. Estamos orgulhosos e só podemos agradecer a leitores, anunciantes, fornecedores, apoiadores e parceiros, além de prometer que – com ou sem crise – continuaremos nessa jornada.