Archive | fevereiro, 2016

Apple vs FBI: por que isso é importante

apple_fbi-600x300Há muito não se travava na Justiça uma batalha tão decisiva quanto essa da Apple contra o FBI pela proteção à privacidade dos usuários. Mostrando que aprendeu bem com seu mentor e antecessor Steve Jobs, o CEO da empresa californiana, Tim Cook, agiu rapidamente para passar aos seus milhões de clientes a imagem de que a Apple sempre irá defendê-los.

Para quem não está acompanhando, um resumo: na semana retrasada, o FBI conseguiu de um juiz federal uma ordem para que a Apple ajude a destravar um iPhone que pertencia a Syed Farook, tido como responsável pelo ataque terrorista que em dezembro matou 14 pessoas na cidade de San Bernardino. Os agentes querem verificar os contatos de Farook, morto pela polícia e suspeito de ligações com o Estado Islâmico. Mas a Apple se recusa a liberar o código de destravamento, alegando que isso abriria precedente para que o FBI acesse todos os demais iPhones existentes (vejam os detalhes neste link).

No mesmo dia em que saiu a ordem judicial, Tim Cook publicou no site da Apple uma “mensagem aos clientes”, na qual explica que concordar com o pedido do FBI seria abrir uma backdoor – em informatiquês, algo como “escape”, ou “armadilha”, que permite a invasão de um sistema criptografado. “Não temos nenhuma simpatia por terroristas”, escreveu Cook. “E temos grande respeito pelos profissionais do FBI.  Mas o que eles estão pedindo é que criemos um novo sistema operacional. Isso colocaria em risco todos os nossos usuários, cujos dados poderão ser violados” (leiam aqui a íntegra da mensagem).

A questão é interessante por vários aspectos. Se a ordem do juiz for confirmada pela Suprema Corte, a Apple simplesmente não terá alternativa a não ser acatar o pedido das autoridades. Talvez os usuários de iPhones fiquem satisfeitos com a postura da empresa, mas na prática todo mundo sabe que “abrir” o aparelho é a única maneira de descobrir as conexões do terrorista morto. O que o FBI irá fazer de posse dessa backdoor, não há como saber. Mas quem está preocupado com isso, é porque tem outras intenções. Ou não?

Por fim, dois detalhes que não devem passar em branco. Em sua mensagem, o CEO da Apple em nenhum momento afirma que “não irá cumprir” a ordem do juiz; ele apenas diz que isso seria perigoso para os usuários, e sugere que todos se unam para “refletir” a respeito. Outra curiosidade: gigantes da tecnologia – Google, Microsoft, Facebook e outras – divulgaram comunicado defendendo que “empresas de tecnologia não devem ser obrigadas a criar backdoors”; garantiram também que estão “comprometidas a auxiliar as autoridades e zelar pela segurança de seus clientes”. Mas não citaram o caso Apple. E Bill Gates, o “pai de todos” na matéria, defende a posição do FBI.

TV aberta x TV paga: uma decisão polêmica

Uma estranha decisão do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) foi rebatida nesta quarta-feira. Estava para ser liberado o licenciamento conjunto das redes SBT, Record e Rede TV para as operadoras de TV paga, seguindo orientação do Superintendente do Cade, Eduardo Rodrigues. Mas a relatora Cristiane Schmidt votou contra, e agora o projeto terá de ser rediscutido, como informa o site Telesíntese.

Em resumo: as três redes querem poder negociar em conjunto para ceder seu sinal às operadoras, enquanto Globo e Band já negociam em separado. Com a TV analógica, isso não acontece: todos os canais devem ser distribuídos gratuitamente. Mas, no mundo digital, a legislação permite que as emissoras cobrem pelo sinal. Negociando em conjunto, as três teriam maior poder de barganha, o que – na opinião da relatora – seria uma ameaça não à Net ou à Sky, mas às pequenas e médias operadoras.

Na verdade, esse item da lei sempre foi polêmico, porque coloca as emissoras numa posição questionável: além de faturar com a publicidade que as sustenta, elas podem impor condições à TV paga; podem até impedir que seu sinal seja veiculado, embora seja difícil imaginar que alguma delas venha a cometer essa insanidade.

“Concorrentes não podem se juntar só para fixar preços”, ensinou a conselheira Cristiane, como se fosse necessário relembrar um dos mais consagrados anátemas do capitalismo. Sabe-se lá por que, a direção do Cade estava querendo autorizar a irregularidade.

Um enrolado negócio de US$ 6 bilhões

sharpNesta quinta-feira, o conselho diretor da Sharp Corporation finalmente concordou em aceitar a proposta feita pela taiwanesa Foxconn: cerca de US$ 6 bilhões para assumir o controle do grupo. As negociações vinham desde o ano passado, e nas últimas semanas o mercado concluiu que esse era o melhor caminho para salvar a marca japonesa e seu enorme patrimônio. Mas faltava a concordância do board, que teve uma importante ajuda do governo japonês, interessado em estancar essa agonia.

Infelizmente, diz o The Wall Street Journal, se esqueceram de um “pequeno” detalhe: o Foxconn pode voltar atrás. Há uma lista de aproximadamente 100 dos chamados “itens de contingência”, o que é comum nesse tipo de negócio. Além dos US$ 6 bilhões, os taiwaneses teriam que assumir dívidas que somam mais US$ 3,1 bi, o que não tinha ficado claro antes. Assim, o negócio pode não ser concretizado: a diretoria do Foxconn pediu mais tempo para pensar.

O acordo com a Foxconn foi confirmado pelo ministro da Indústria do Japão, Motoo Hayashi. Reproduzo abaixo os principais itens da reportagem do WSJ, baseada em “fontes próximas ao assunto”, como eles costumam identificar. Quem escreveu foram três correspondentes do jornal no Japão, que geralmente são muito bem informados:

“… Embora o Foxconn tenha prometido resolver a pendência rapidamente e fechar o negócio, essa reviravolta é simbólica de como são complexas as negociações quando um investidor estrangeiro deseja adquirir o controle de um grupo japonês, em disputa com setores do governo local, que formaram um fundo para que o país não perca uma de suas marcas mais veneradas.

“O negócio vem sendo observado de perto, não apenas por suas implicações políticas (o Japão costuma proteger suas empresas contra tentativas de compra por grupos estrangeiros), mas também porque marca o fim de uma geração tecnológica: fundada há 103 anos, a Sharp foi pioneira no desenvolvimento da televisão e das calculadoras de bolso; a Foxconn, que tem apenas quatro décadas de existência, cresceu e se tornou gigante de US$ 120 bilhões graças a sua eficiência na produção e montagem de smartphones.

“Até o mês passado, a Foxconn – que tinha o nome de Hon Hai Precision Industry – era vista na mídia japonesa como “azarão” na disputa pela Sharp, bem atrás do INC (Innovation Network Corp), fundo criado pelo governo local em 2009 com o objetivo de salvar empresas de tecnologia em dificuldades financeiras. Mas os executivos da Sharp foram convencidos pela Foxconn, particularmente por seu presidente e maior acionista, Terry Gou. Além de oferecer mais dinheiro, ele visitou pessoalmente as fabricas da Sharp no Japão, conversou com banqueiros e acionistas, e garantiu que não haveria demissões e que o controle da tecnologia permaneceria em mãos japonesas.

“Depois de longas negociações, que começaram em 2012, em 30 de janeiro último Gou se comprometeu também a manter a Sharp Corp intacta, ao contrário do INC, que pretende dividi-la em várias empresas. Mas o relacionamento entre  Foxcon e Sharp vem sendo turbulento, com os japonesas inclusive acusando Gou de “falsidade”, quando anunciou que tinha prioridade na compra.”

Apple pode ser concorrente do Netflix

A imprensa americana está divulgando que a Apple trabalha na produção de uma série em vídeo estrelada pelo cantor/produtor Dr. Dre. Teria o título de Vital Signs, com roteiro baseado na vida do artista, que saiu das ruas pobres de Los Angeles para se tornar astro do hip-hop (segundo a Forbes, foi o mais bem pago de 2014). O projeto é seguir o modelo Netflix: a série só poderá ser assistida através de dispositivos Apple, como iPhone, iPad, Apple TV e computadores Macintosh.

Claro que é um balão de ensaio, como já tivemos, no início de 2015, a notícia de que a empresa fundada por Steve Jobs lançaria um serviço próprio de streaming – projeto que acabou sendo engavetado. Mas faz sentido, porque os indicadores são de que o iTunes já não é mais o sucesso de antes. Em 2014, teve uma boa queda de vendas (ainda não há dados sobre 2015) e, afinal, o modelo de venda pura e simples de filmes e séries de TV tende a perder espaço (como já ocorreu no segmento de música). Há duas semanas, a Apple anunciou que não terá mais o serviço de gratuito de rádios online pelo iTunes, passando adotar o formato de assinaturas mensais (Apple Music).

Curioso também é que esse Dr Dre (cujo nome verdadeiro é Andre Young) foi o pivô de um processo judicial bilionário, que ainda corre na Justiça americana. O artista tinha assinado contrato em 2009 com a Monster, fabricantes de cabos, fones e equipamentos de som, para lançar os fones de ouvido “Beats by Dr. Dre”, que chegaram a fazer sucesso. Menos de dois anos depois, fundou uma empresa de nome Beats Eletronics e a vendeu para a Apple, em 2014, por US$ 3,2 bilhões – de quebra, Young tornou-se “CEO” da nova marca Beats by Dre. Ou seja, sócio da maior empresa do mundo. Nada mau!

Enfurecido, Noel Lee, fundador e presidente da Monster, que cansou de aparecer em fotos ao lado de Dre, quer agora uma indenizaçãoalegando que o cantor roubou dados técnicos estratégicos e não lhe pagou nem um centavo daqueles 3,2 bilhões.

Big data da corrupção brasileira

“Podemos seguir, de vazamento em vazamento, como se tivéssemos nas mãos um controle remoto de TV ou uma tecla do computador. E dormir, em seguida, como fazemos todas as noites. A visão é, ao mesmo tempo, um privilégio ou uma armadilha. Depende da nossa escolha.”

O parágrafo encerra mais um brilhante artigo de Fernando Gabeira sobre a situação do país. Claro que não pedi autorização a ele, mas mesmo assim reproduzo a íntegra abaixo. Vale como reflexão. Gabeira, jornalista de profissão e eterno militante político, sempre dá o que pensar – embora eu particularmente não concorde com muitas de suas posições, nem goste de seu programa de TV. No caso, a reflexão é: o que estamos fazendo nós, diante das denúncias que não param?

Há um big data dos trambiques, que precisa ser decifrado pelos brasileiros. Como pano de fundo, amizades de décadas já foram desfeitas pelo clima de rancor e preconceito que parece ter tomado conta da sociedade. Ofensas se tornaram rotina nas redes sociais, como as placas de “aluga-se” ou “vende-se” em casas e edifícios. A crise é econômica (ainda que amplificada pela mídia) e também moral (no sentido de que acusar e mentir, repetidamente, virou o esporte mais praticado no país). Já temos tanta violência, e pessoas decentes se apequenam a ponto de propor mais violência ainda!!!

Fico me perguntando o que será menos defensável, do ponto de vista ético: participar de um delito, depois se arrepender e denunciá-lo? Ou não participar, mas compactuar e tentar encobri-lo? Quem quer ser o primeiro a responder?

Agora, com a palavra, Fernando Gabeira:

“O primo do ex-deputado pernambucano Pedro Correia foi visitá-lo na prisão em Curitiba. O relato da visita, numa entrevista ao programa “Geraldo Freire”, é interessante. Clóvis Correia, o primo, é também juiz de direito. Ele sempre aconselhou Pedro a fazer delação premiada. Os advogados não queriam. O primo constatou, com alegria, que Pedro, finalmente, decidiu fazer uma delação premiada, contando tudo o que sabe, desde o período Sarney.
“Segundo o visitante da cadeia de Curitiba, os policiais e procuradores trabalham sem parar porque há uma fila de delatores, inclusive alguns que virão de outros escândalos, como o publicitário Marcos Valério. Ainda não houve tempo para ouvir as histórias de Pedro. O primo Clóvis afirma que, apesar das barbaridades do PT, seria interessante ele contar tudo para se traçar um panorama da corrupção desde a retomada da democracia.
“Um dia, Pedro falará e ficaremos sabendo, aos pouquinhos ou de uma vez só, tudo o que ele fez e conseguiu ver ao longo dos anos em que esteve perto do poder. A entrevista do primo de Pedro me faz voltar à suposição original de que já temos muitas informações sobre os escândalos no Brasil. Não só falta tempo para processá-las, cruzando atenciosamente os dados, como para completá-las, pois o fluxo não cessa com a fila de delatores e o desdobramento de suas confissões.
Nunca se soube tanto. Até as chances de alguém ter feito a fortuna que Eduardo Cunha declarou foram calculadas: uma em 257 septilhões. É possível demonstrar matematicamente que Eduardo Cunha é mentiroso. Jamais me daria a esse trabalho.
“Para quem ouviu falar no Big Data, este oceano de informações que o mundo digital proporciona, fica sempre o temor de que a atração do jogo de dados acabe ofuscando os objetivos. Pode-se trabalhar indefinidamente, com números, conexões, novas hipóteses. Mas as grandes empresas são pragmáticas. Toda vez que ligo o computador aparecem na timeline anúncios de produtos que pesquisei como comprador.
“É inegável que trabalhar com uma grande quantidade de números e relações entre eles pode sempre levar a novas descobertas. Mas é preciso não se perder na floresta. Os dados da Lava-Jato nos chegam aos pedaços. O PT usa isso para afirmar que são vazamentos seletivos. Mas, em termos de partidos, eles já alcançaram quase todos os grandes, inclusive o PSDB. Não se passa um dia sem que algo seja acrescido. As informações se bifurcam, se entrelaçam, iluminam com sua pequena centelha outros cantos escuros da sala.
“Temo que tenham se tornado uma distração. Tenho vontade de perguntar aos procuradores: se as chances da fortuna de Cunha forem apenas uma em 300 septilhões, vocês o prenderiam? É preciso um número redondo para fechar a conta? Para que servem os dados se não levam às consequências? No caso mais amplo do Petrolão é fantástico supor uma quadrilha organizada apenas por José Dirceu.
Acossado pelo processo do Mensalão, preso durante algum tempo na Papuda, é preciso imaginar um vilão de história em quadrinhos para supor que José Dirceu coordenou sozinho o assalto à Petrobras. Onde estão os outros? Onde está Lula, onde está Dilma, onde está o restante da cúpula do PT?
“Um dos grandes problemas do acúmulo de dados é a maneira de associá-los, de buscar as conexões corretas para responder aos enigmas. O computador não resolve sozinho. Se Janot precisa demonstrar que as chances de Cunha não ser bandido são uma em 257 septilhões, quanto septilhões precisaremos para enquadrar Dilma e Lula?
“Sérgio Moro, que não é suspeito de partidarismo como Janot, já disse que não há nada contra Lula, embora os vazamentos, aqui e ali, indicam que há quase tudo contra ele, desde a escolha dos dirigentes da Petrobras à própria montagem do esquema de rapina. O último vazamento foi a delação de Cerveró. Uma cópia, segundo as notícias, teria sido encontrada na gaveta de Delcídio Amaral.
“Não só as delações premiadas como o avanço na tecnologia nos enchem de dados novos. Em tese, posso concluir através deles que, em 22 % dos contratos os corruptos celebraram tomando o vinho Angelica Zapata ou que suas mensagens eletrônicas cresciam 46 % no horário noturno. E daí? Se não tentamos responder às perguntas certas vamos mergulhar nos dados com a mesma alegria com que o velho time do América tramava seus ataques diante do gol. Lindas e complexas jogadas. Ninguém chutava para marcar.
“Isso vale para todos nós. Muitos divulgaram que Cerveró denunciou Wagner por ter financiado sua campanha construindo um prédio da Petrobras em Salvador. Ninguém foi lá saber que empreiteira construiu o prédio, se é correta a indicação de Cerveró. Um novo vazamento ofuscou o primeiro. Agora é um negócio entre Wagner, OAS e fundo de pensão dos funcionários da Caixa.
“Podemos seguir, de vazamento em vazamento, como se tivéssemos nas mãos um controle remoto de TV ou uma tecla do computador. E dormir, em seguida, como fazemos todas as noites. A visão é, ao mesmo tempo, um privilégio ou uma armadilha. Depende da nossa escolha.”

Governo dos EUA incentiva OTTs

Tom Wheeler, diretor-geral da FCC (Federal Communications Commission), equivalente americana da nossa Anatel, anunciou na última segunda-feira o que muitos já previam: todo apoio aos serviços de vídeo online, conhecidos pela sigla OTT (over-the-top). O comunicado oficial propõe, por exemplo, “… derrubar as barreiras anticompetitivas e abrir caminho para softwares, dispositivos e outras soluções inovadoras concorrerem com os receptores que a maioria dos consumidores hoje aluga junto às operadoras.”

Não é uma mudança qualquer. A ser aprovada pela Comissão, a nova legislação permitirá que o usuário escolha entre ter um serviço de assinatura convencional, com a famosa caixinha (set-top box), e baixar aplicativos em seu TV, computador, tablet ou smartphone para ver os mesmos conteúdos. Na visão de Wheeler, todos os provedores de conteúdo – lá chamados MVPDs: Multichannel Video Programming Distributors – devem poder competir em igualdade de condições, tentando oferecer a melhor experiência ao usuário.

Pesquisa da FCC indica que uma família americana média paga 231 dólares por ano em serviços de TV, valor que vem subindo devido à falta de concorrência. A medida, se aprovada, não vai acabar com os atuais pacotes, nem forçar o cancelamento de assinaturas. E os conteúdos continuarão sendo bem protegidos – pelo menos, é o que promete Wheeler. Mas o acesso poderá ser feito via qualquer dispositivo, inclusive um TV Smart. E o consumidor poderá decidir o que lhe for mais conveniente.

Business Tech, a continuação

capa_central_3É mais ou menos como nas séries de cinema e televisão: encerrado o primeiro episódio, parte-se logo para o segundo com a proposta de fazer melhor. Nossa equipe está exatamente nessa fase da produção da Business Tech #2, que circula no final do mês. O #1 foi lançado em novembro, para surpresa de muitos que não acreditavam no projeto, apresentado em maio do ano passado, durante a feira TecnoMultiMedia InfoComm Brasil 2015. Agora, trabalhamos na edição de Fevereiro, mas já com um olho no #3, que sairá em maio próximo, a tempo para a edição 2016 da Feira.

Para quem não acompanhou, Business Tech é um projeto multimídia dedicado ao segmento de áudio/vídeo profissional e sistemas eletrônicos corporativos. Além da revista trimestral, que circula em versões impressa e eletrônica, o projeto envolve um website, uma newsletter e uma série de ferramentas de comunicações online, incluindo a distribuição de conteúdos via redes sociais. Procuramos levar informação qualificada aos profissionais desse mercado, com o apoio de marcas reconhecidas e que queiram ampliar sua visibilidade.

Quando se fala em “profissionais do mercado”, é preciso ampliar o conceito. Como se sabe, um projeto corporativo – seja numa escola, hospital, indústria, centro de convenções, sala de reunião ou de treinamento – exige a participação de vários especialistas. Trata-se de desenhar a área física, dimensionar a rede de cabeamento e comunicação, distribuição dos sinais (áudio, vídeo, voz e dados), controles, segurança, acústica etc. “Integrador” é a denominação genérica do profissional que reúne ou coordena tudo isso e que, portanto, precisa se manter atualizado com cada uma dessas tecnologias.

Business Tech – a revista e seus complementos multimídia – fala para esses profissionais, mas também para os usuários dessas tecnologias. Em alguns casos, eles são chamados CIO (do inglês chief information officer); em outros, são diretores ou gerentes de TI (do inglês IT = information technology); e há ainda o pessoal que realmente põe a mão na massa e trabalha no dia a dia com os equipamentos e sistemas integrados. São técnicos, cientistas, professores, médicos, engenheiros, arquitetos, construtores, consultores, administradores etc., que colhem os benefícios do uso da tecnologia e sabem, melhor do que ninguém, a importância dessas informações.

Todos são muito bem-vindos. Afinal, informação qualificada e confiável é a matéria-prima mais valiosa no mundo de hoje. E mais ainda no mundo corporativo. Comentários? Sugestões? Críticas? Troca de ideias? Este é o canal: [email protected].

TV 3D: agora é o fim?

3D TV

 

 

Saiu no site coreano ET News: Samsung e LG estão abandonando a produção de TVs 3D. A explicação é que o público já não se anima com esse recurso e que compensa mais destinar investimentos às tecnologias 4K e de realidade virtual. Nenhuma das duas empresas confirma oficialmente; as informações vêm de fornecedores, por exemplo, dos polêmicos óculos que afastam tantos usuários. Um representante da LG admitiu, porém, que a partir deste ano irá diminuir a produção de TVs 3D, até porque a quantidade de conteúdos nesse formato continua limitadíssima.

Faz sentido. As próprias fontes citadas concordam, como já comentamos aqui, que as imagens gravadas em 4K proporcionam tal nível de profundidade que às vezes podem ser confundidas com o 3D que se tem com os tais óculos. Agora, com aprimoramentos como HDR (High Dynamic Range) e WCG (Wide Color Gamut), veremos cada vez mais conteúdos envolventes, sem necessidade de óculos.

oculos ps4

 

Quanto à realidade virtual (VR), trata-se de outro segmento de mercado. Não tem tanto a ver com dispositivos como o da foto, cujo consumo comercial não deve ter grande expressão, mas com uma série de aplicações profissionais (medicina, por exemplo) e até científicas. Os fabricantes consideram esse um grande mercado potencial – bem maior que o 3D, enquanto este ainda depender de óculos.

Lei de incentivo à pilantragem

Toda crise, por mais dura que seja, traz algum efeito positivo. Podemos colocar nessa categoria à volta do debate sobre a Lei de Incentivo à Cultura, mais conhecida como Lei Rouanet, em “homenagem” ao ministro da Cultura que a aprovou, em 1991 (governo Color). Poucas leis no Brasil foram tão deturpadas em seus objetivos, servindo a uma variada leva de enganadores autoidentificados como “produtores culturais”.

Dois exemplos divulgados recentemente: o Fluminense (isso mesmo, o clube de futebol) conseguiu usar os benefícios da Lei Rouanet para produzir um documentário sobre a história do clube (detalhes sádicos aqui). E a empresária Ana Luiza Trajano obteve R$ 512 mil em incentivos para publicar…. um livro de receitas (a moça é herdeira da rede Magazine Luiza).

A lista de aberrações é enorme (algumas foram listadas neste site). Esta semana o Tribunal de Contas da União decidiu proibir o uso dessa lei para financiar eventos com fins lucrativos, pois é exatamente isso que vem acontecendo. Parece tão óbvio, mas o Ministério da Cultura continua autorizando o uso de um trambique chamado “Fundo Nacional de Cultura” para empresas, entidades e artistas que não precisam. Segundo o ministério, foram mais de R$ 5 bilhões de renúncia fiscal nos últimos quatro anos! Vale lembrar que esse fundo foi criado para apoiar artistas e produtores que não têm como financiar seu trabalho. Como tantos outros fundos públicos, perdeu-se pelo caminho…

O exemplo referido pelo TCU não poderia ser mais emblemático: o Rock in Rio, um dos eventos mais badalados do planeta, captou nada menos do que R$ 6 milhões em patrocínios, sendo que um terço desse valor pode ser deduzido do imposto de renda dos patrocinadores.

Teles decidem ir à briga contra o governo

Tudo bem, no país das liminares nunca se tem garantia jurídica total. Mas, após uma intensa guerra de bastidores, as operadoras de telecom e TV por assinatura – hoje unidas num mesmo sindicato, o Sinditelebrasil – conseguiram nesta 3a. feira uma marcante vitória da Justiça. Um juiz de Brasilia concedeu liminar para livrar as empresas do pagamento da Condecine, taxa que serve para financiar os produtores de conteúdo nacional através da Ancine. É a primeira vez que se tem uma sentença desse tipo, desde que entrou em vigor a chamada Lei do SeAC, em 2011.

Claro, como toda liminar, esta pode ser derrubada a qualquer momento, mas o contexto hoje é bem diferente do que era quando a lei foi aprovada. As teles conseguiram convencer o juiz de que quem paga a Condecine, na prática, é o consumidor. Para cada celular ativado, por exemplo, a operadora precisa recolher à Ancine R$ 4,14 (o valor era de R$ 3,22 até outubro, quando a presidente Dilma Roussef autorizou reajuste). O recolhimento também é obrigatório quando a operadora monta uma estação rádio-base de banda larga fixa para atender a uma cidade de até 300 mil habitantes. São R$ 1.549 pagos por ano, por estação.

Somando tudo, a Ancine arrecadou em 2015 um total superior a R$ 900 milhões, somente até outubro (os dados do ano ainda não estão concluídos). Três anos atrás, houve um acordo entre as teles e o Ministério das Comunicações para que a Condecine fosse “embutida” no recolhimento do Fistel (Fundo de Fiscalização das Telecomunicações), que rende ao governo cerca de R$ 5 bilhões por ano. Pela lei, esse dinheiro deveria ser reinvestido no setor, mas as pedaladas vêm roubando (qual seria a outra palavra?) mais de metade da quantia.

Agora, com a crise, as operadoras decidiram peitar o governo, principalmente depois que a presidente concedeu o reajuste. Pelo menos na opinião do juiz, não cabe aos usuários – via prestadoras de serviço – pagar essa contribuição, mas sim aos produtores de filmes e vídeos. O colega Samuel Possebon, do site Teletime, um dos que mais entendem do assunto no Brasil, destrinchou o tema neste artigo, mostrando que a decisão da Justiça pode ter várias consequências. Com certeza, a Ancine e o próprio Ministério irão recorrer. Justamente agora que ganhava corpo a ideia de sobretaxar Netflix, YouTube e outros serviços de vídeo online, o corte da Condecine causa pânico entre os produtores – especialmente aqueles que não conseguem (ou não querem) se sustentar sem verbas públicas.

Ainda vamos falar muito desse tema.

Blu-ray 4K, à venda a partir de hoje

sams bluray 4KA Samsung escolheu uma rede de lojas especializadas da área de Los Angeles para colocar à venda o primeiro player Blu-ray 4K (mod. UBD-K8500). Como antecipamos aqui, o aparelho (foto) chega junto com um primeiro lote de discos da distribuidora Fox, entre eles Perdido em Marte, sucesso atual nos cinemas, que foi filmado em 4K e já poderá ser assistido com a codificação HDR (High Dynamic Range).

A rede Video & Audio Center anunciou que terá o player nas prateleiras de suas quatro lojas nesta 6a. feira à tarde. O aparelho também toca discos Blu-ray convencionais, além de CDs e DVDs, fazendo upscaling para a resolução Ultra HD. Pode se conectar a redes Wi-Fi e acessar a internet via plataforma Smart da Samsung, embora um pouco limitada em relação às dos TVs Smart (são “apenas” 300 aplicativos). Preço de lançamento: US$ 399. Não foi anunciado, mas é quase certo, no entanto, que o produto estará à venda em outras lojas dos EUA na semana que vem.

Curiosamente, essa mesma rede de lojas anunciou parceria exclusiva com a LG para demonstrar, neste domingo, os novos TVs OLED 4K. Cerca de 150 clientes estão sendo convidados para assistir ao Super Bowl, a final do futebol americano, em telas de 65 e 77 polegadas que oferecem, sem dúvida, a melhor qualidade de imagem possível com a tecnologia atual.

Segurança de redes: a porta do Batman

obama amxUm pequeno escândalo estourou no final da semana passada no mundo da automação corporativa: aparelhos para controle de redes AV usados na Casa Branca e até nas Forças Armadas dos EUA contêm uma falsa porta de segurança, por onde hackers podem se aventurar. A denúncia partiu de uma empresa especializada da Áustria, que fez o estudo e apontou os responsáveis: a AMX, hoje maior fornecedora desse tipo de equipamento ao governo americano.

A notícia saiu no site Ars Technica e repercutiu em quase toda a mídia (não apenas a especializada). Claro que é assunto essencialmente técnico, mas as implicações políticas são de interesse público. O aparelho citado é um controlador da linha NetLinx, mod. NX-1200. Ao examiná-lo, técnicos da SEC Consult, que trabalha com redes, identificaram uma porta de comunicação que adiciona automaticamente uma conta privilegiada à lista de clientes com acesso autorizado. “Alguém com conhecimento de redes pode perfeitamente entrar por ali, reconfigurar um sistema inteiro e disparar ataques”, explicou um dos técnicos.

Verdade ou não, espalhou-se pânico entre centenas de empresas que também utilizam o aparelho. Para se ter ideia, a montagem acima saiu no site da CNN, fazendo o link com a já espinhosa questão da segurança nacional em tempos de internet: o presidente Obama e assessores estariam sendo “vigiados” por um aparelho desses!!!

Segundo o próprio site da AMX, entre os usuários do NX-1200 incluem-se nomes como 20th Century Fox, EDS, JD Edwards, Unilever, diversas universidades, hospitais e redes de hotéis ao redor do mundo – fora dezenas de órgãos governamentais. O estrago não seria pequeno se houvesse alguma invasão.

O problema maior, que a AMX até agora não esclareceu, é que a empresa foi avisada em março sobre a tal “porta secreta”, que tinha até um nome sugestivo: Black Window (“viúva negra”). A SEC, que havia solicitado correção da falha, esperou dez meses e, como não teve resposta, decidiu avisar oficialmente seus clientes e o mercado em geral. Em comunicado, AMX informou que havia instalado uma outra porta, chamada Batman, e que a denúncia não tem fundamento.

Mas o assunto continua sendo debatido entre profissionais da área.

Tendências para 2016: atenção, integradores

Como faz todo começo de ano, o site americano CE Pro apontou na semana passada as cinco principais tendências para 2016 em projetos eletrônicos residenciais. Quem puder ler o original, em inglês, com certeza vai acrescentar muito ao seu negócio e à forma de relacionamento com clientes e fornecedores. Nos próximos dias, publicaremos uma versão em português. Estou me referindo, é claro, a integradores e profissionais de projetos eletrônicos em geral. Com ou sem crise, estar informado e atualizado é cada vez mais essencial. Sim, são apenas tendências, não quer dizer que acontecerão de fato. Mas, partindo de especialistas como esses, e considerando que o mercado americano está aos poucos saindo de uma crise que devorou milhões de empregos, como a nossa agora, convém prestar atenção. Abaixo, um resumo:

1.Redes de baixa voltagem – É bom se preparar para o uso mais intensivo de equipamentos LV/DC (low-voltage/direct-current), que é como são alimentados todos os dispositivos de automação, roteadores, termostatos etc. Nos próximos anos, haverá uma enxurrada deles no mercado, sem falar (ainda) das baterias recarregáveis do tipo Powerwall, que vão demorar uns dois anos para atingir escala comercial. Isso combina com as redes elétricas PoE (Power over Ethernet), tendência que cresce em paralelo.

2.Distribuição de vídeo 4K – Pode parecer heresia falar disso no Brasil, onde nem o HD está totalmente implantado (vejam como está a transição da TV analógica), mas no Primeiro Mundo a distribuição de sinal com definição mais alta está em todas as conversas. Já não se discute mais se o 4K será realidade, apenas quando. E aqui não estamos falando da mera troca de display: está surgindo um ecossistema para dar suporte a essa tecnologia. Emissoras, produtoras de vídeo e estúdios de cinema já adotam 4K como rotina; serviços de streaming, como Netflix, YouTube e Amazon, estão aumentando a oferta de conteúdos em 4K; e ao longo deste ano teremos, enfim, os discos Blu-ray 4K.

3.De olho na porta – Já conhecem o Airbnb? Trata-se de um serviço online onde se pode alugar casas, apartamentos, vagas em pousadas, chácaras etc. diretamente com o proprietário. Existem similares, e todos crescem rapidamente, a ponto de já se desenvolver um subproduto: aumenta a demanda por sistemas de segurança eletrônicos, que podem ser um ótimo diferencial na hora de fechar um negócio como esse. Fechaduras e campainhas inteligentes, câmeras IP, cortinas e persianas elétricas e por aí vai.

4.Análise de áudio e vídeo – No caminho inverso da automação como conhecemos, devem surgir este ano os sistemas de análise de dados com base em informações de som e imagem. Microfones serão capazes de separar os sons e identificar, por exemplo, o choro de um bebê, o vazamento de um cano ou o barulho de um tiro; câmeras térmicas conseguirão detectar um rosto estranho, ou o risco de fogo. Parece coisa de espionagem.

5.Todo poder ao usuário – Essa não é nova: cada vez mais as pessoas querem ter controle sobre o que vêem e ouvem. Empresas como Crestron e Savant já oferecem dispositivos com essa finalidade, mas vem muito mais por aí. O segredo está na chamada “arquitetura” do sistema. Numa rede convencional, é complicado permitir que cada usuário altere as configurações na hora em que bem entende. A nuvem resolve o problema, centralizando todos os códigos de tal modo que, estando conectado, você tem mais poderes. Essa, aliás, é a palavra em inglês: empowerment.

Direita e esquerda, volver!

A esta altura do campeonato mundial, parece haver pouca dúvida de que, no campo das ideias, o planeta está perdido, não? Que me lembre, a última – digamos assim – grande causa que inventaram foi a do meio ambiente. Isso lá pelos anos 60, mas aí veio o pessoal do marketing e empacotou tudo para consumo rápido. OK, o ser humano nunca foi mesmo de olhar em torno e notar o estrago que vem fazendo há séculos. Só que passaram-se 50 anos e o máximo que se constata é que existe mais comida orgânica (já li que faz mal, ou não faz tão bem quanto se dizia).

Agora, quando se fala em ideias, difícil pensar em dois conceitos mais desacreditados do que “direita” e “esquerda”? Saí do cinema pensando nisso após assistir a Trumbo, o filme sobre a vida de um dos maiores roteiristas do cinema americano. Além de ótimos roteiros (alguns geniais: Spartacus, Johnny Vai à Guerra, Papillon, O Homem de Kiev), Dalton Trumbo entrou para a história como principal perseguido pelo macarthismo, campanha que assolou Hollywood no final da década de 1940.

Joseph McCarthy, senador que liderou o movimento e acabou lhe dando o nome, acusava os comunistas de querer “destruir a América”. Trumbo, que pertenceu ao Partido Comunista americano, criticava abertamente o sistema capitalista, embora se beneficiasse dele cobrando caro por seus roteiros. O filme é ótimo e, dizem, o livro é melhor ainda. Brian Cranston, aquele do Breaking Bad, está magistral no papel-título, e seus coadjuvantes idem, especialmente Helen Mirren no papel da jornalista Hedda Hopper, que enxerga esquerdistas até debaixo da cama.

Naqueles tempos, sabia-se muito bem: “comunista” era de esquerda, e “capitalista”, obrigatoriamente, de direita. Hoje, será? Fidel Castro, o ditador que está há mais tempo no poder, será mesmo “de esquerda”? Lula, após tantas mutretas, também? Mas a esquerda não surgiu, com Marx, justamente para libertar os pobres e oprimidos? E Putin, o ex-agente da KGB que manda envenenar desafetos: direita ou esquerda? Obama, que reatou relações com Cuba e com o Irã e retirou as tropas do Iraque e do Afeganistão: de que lado está? E o Mandela, que liderou a reconstrução (capitalista) do país mais rico da África? A lista é enorme.

Quando ouço ou leio alguém se dizer “de direita”, e vociferar contra o PT, só não caio na gargalhada porque temo que esse pessoal volte a ter os poderes que teve no passado. Mas, diante de quem se define como “esquerdista, por uma questão de convicção”, só consigo pensar em trambique.