Archive | março, 2016

Mais um gênio se vai…

andy-groveNesta segunda-feira, morreu Andy Grove, reconhecido como um dos homens mais importantes na história da tecnologia. A morte foi anunciada oficialmente hoje, no site oficial da Intel, empresa que ele ajudou a transformar numa usina de inovações. Só para se ter uma ideia, Marc Andreessen – criador do Netscape e cérebro por trás de diversas empresas que dominam o setor atualmente – escreveu no Twitter: “Foi o melhor administrador que o Vale do Silício já viu e que provavelmente jamais verá.”

Grove, que nasceu na Hungria e conseguiu fugir de lá em 1956, após enfrentar a dureza do nazismo e do comunismo, fundou a Intel em 1968, em sociedade com Gordon Moore e Robert Noyce, este o coinventor do microprocessador (ambos aparecem com ele na foto da parede; Grove é o de bigode). Grove ocupou a presidência da Intel de 1979 a 2004, período em que a empresa se transformou na maior fabricante mundial de chips. Idolatrado por figuras como Steve Jobs e Bill Gates, foi ainda conselheiro de várias corporações. E escreveu pelo menos dois livros obrigatórios no mundo do marketing e do empreendedorismo: “High Output Management” (de 1995) e “Só os Paranóicos Sobrevivem” (96), este um clássico (este texto antigo dá algumas pistas sobre seu estilo de gestão).

Sobre militantes e foras-da-lei

A palavra “militante” vem do verbo “militar” – do latim militare, derivado de militis, que é como os romanos chamavam seus soldados. Como estes, todo militante se define pela disciplina e obediência a um comandante. E quanto mais disciplinados e obedientes, maiores chances terão na carreira: medalhas, promoções, um emprego público aqui, uma mordomia ali…

Lênin, talvez o maior líder revolucionário da História, costumava chamar os operários e camponeses russos de “soldados”, para fazer contraposição ao sanguinário Exército do czar Nicolau II. Criou a primeira versão moderna de “milícia” (militia: em latim, “a arte da guerra”), grupos armados que já existiam na antiguidade, mas ao longo do século 20 ganharam o sentido de algo fora da lei.

Tudo isso para dizer que militantes político-partidários são aqueles que obedecem quase cegamente. Não importando as razões do chefe, estarão sempre ali, seguindo suas ordens. Citei Lênin de propósito, porque se atribui a ele a adaptação da famosa frase de Maquiavel – “Os fins justificam os meios” – na raiz dos movimentos que levaram à Revolução Russa de 1917. Valia tudo para derrubar o czar.

Não fosse por seus militantes, Lênin não teria chegado nem perto da Praça Vermelha, em Moscou. Como estrategista, não era grande coisa, mas teve o mérito de conquistar a massa literalmente “no grito”, por anos a fio, com voz firme e vibrante (e sem TV nem internet). Contou, claro, com a decadência do regime czarista, que ninguém aguentava mais. Talvez por falar tanto, e tão bem, não percebeu que um colaborador (Stálin) conspirava para tomar o poder, o que acabou se concretizando em 1922, quando Lênin caiu doente (sua morte, dois anos depois, até hoje rende suspeitas).

Mas é justo afirmar que, não fosse por Lênin, aqueles trabalhadores que fizeram a maior revolução do século 20 talvez não chegassem muito longe. É preciso que alguém fale pelos militantes, embora o líder, quase sempre, diga que fala “em nome do povo”. Como se sabe, militantes são apenas uma minoria, cega, embora barulhenta, que exerce o trabalho braçal: carregar cartazes, tomar chuva, repetir palavras de ordem (sempre as mesmas), pendurar retratos do líder nas paredes, essas coisas. Hoje, também ocupam as redes sociais.

Quem estuda a história dos últimos 100 anos percebe que todas as ditaduras tiveram seus militantes e/ou milícias, dispostos a tudo pelo chefe. Mao, Hitler, Franco, Perón, Getulio, Fidel, Khomeini, Chavez… há quem tenha saudade deles. Mas esses grupos não se formam apenas em regimes autoritários. No Brasil democrático, o exemplo mais vivo de militante é o dos petistas renitentes, aqueles que não debandaram após a vergonha que seu líder supremo os fez passar.

Custa a crer que alguém estudou durante anos, com inúmeras chances de compreender a História, e ainda se deixe levar assim, caninamente. Se camponeses e operários humildes costumam cair na conversa de um orador corrupto e inescrupuloso, não há desculpa para intelectuais que o fazem (outra do latim: intelectus, “inteligência”, “entendimento”). O educadíssimo povo alemão paga até hoje os dividendos afetivos de ter apoiado Hitler. E não vamos, por enquanto, falar de Donald Trump, na torcida para que esse seja apenas um hype de temporada.

Na prática, como vem sendo provado, líder e militante se merecem e se necessitam. Um não existiria sem o outro. O que os une não são ideias, mas a própria necessidade de mandar e de obedecer. Na inapetência para discutir e agir democraticamente, o líder dá ordens, entre palavrões, ameaças, mentiras e preconceitos; e os militantes cumprem, pois não conseguem pensar por conta própria.

Quando o líder se for, nada terão para colocar em seu lugar. Talvez não sobrem nem os retratos na parede.

Netflix no Palácio do Planalto

frank-underwood

 

 

As gravações contendo diálogos entre altas figuras do governo, inclusive a presidente, mostram que não estamos muito longe do ambiente de House of Cards. O diabólico Frank Underwood se materializa em personagens reais, talvez até mais maquiavélicos do que o próprio. Não é mera coincidência que a Netflix, para promover a recém-lançada 4a Temporada da série, venha usando teasers referentes ao noticiário político. Nesta quinta-feira, vimos mais um: o perfil da série no Twitter exibe Underwood “assistindo” sorridente à cobertura dos acontecimentos em Brasilia (vejam aqui).

Para não recorrer ao surrado “seria cômico se não fosse trágico”, lembro que algumas das trapalhadas do Planalto têm lá um quê de Brancaleone. Vejo amigos petistas constrangidos como nunca antes neste país, diante de tramoias como essa de arranjar um cargo para Lula no ministério tentando salvá-lo da prisão. E, pior, tentar pateticamente escondê-la!!!

Sim, é dramático, considerando o caos a que esse pessoal nos levou. Mas tenho esperanças de que, quando tudo passar e Dilma estiver bem longe de Brasilia, daremos boas gargalhadas, como fazemos hoje com nosso amigo Frank.

Para quem ainda não ouviu os citados diálogos gravados pela PF, aqui estão alguns deles.

Dia histórico para a democracia

Veterano da luta contra a ditadura militar e de eventos marcantes como o comício das Diretas Já (16 de abril de 1984, Praça da Sé, São Paulo), saí orgulhoso da Avenida Paulista neste domingo 13 de março de 2016. Passaram-se 32 anos até que a sociedade brasileira, enfim, se reencontrasse com um sentimento de revolta que é fundamental para a democracia de qualquer nação.

O que aconteceu nessas três décadas se assemelha a uma espécie curiosa de letargia. Voltamos, sim, a ter eleições diretas para presidente da República, mas elegeu-se em 1989 um dos maiores mentirosos da história. Na sequência, conseguiu-se conter o monstro da inflação (1994), o que foi saudado por quase todo mundo; e, no entanto, a estabilidade momentânea da moeda gerou certa euforia, que foi captada por um líder sindical midiático para, associado a fortíssimos setores da elite política tradicional, chegar ao comando do país (2002).

O resultado está sintetizado na crise dos últimos meses: governo e partidos políticos totalmente desacreditados, com as pessoas indo às ruas sem saber exatamente o que querem, mas manifestando vivamente aquilo que não querem. Pela primeira vez em 500 anos, os brasileiros conseguem fazer a ligação entre a corrupção e os dramas de sua rotina diária. Ficou dolorosamente claro que o dinheiro que some nos meandros de partidos, órgãos estatais e grandes empresas é o mesmo que falta em escolas, hospitais e na vergonhosa estrutura de serviços públicos.

Se houve ilusão na época em que um real equivalia a um dólar, artificialismo símbolo dos anos FHC, e quando do infeliz “espetáculo do crescimento” (Lula, 2006-2010), o amadurecimento da sociedade brasileira não deixa mais espaço a falsos milagres. O que se viu nas ruas no já célebre 17/03 foi não apenas um “basta” à corrupção, mãe de todos os descalabros perpetrados em nome do povo, mas um sonoro “xô” para práticas políticas que, desgraçadamente, nos acompanham há décadas, séculos.

Lula, Dilma e seus asseclas estão desmoralizados e talvez nem sobrevivam para disputar as eleições de 2018, mas isso não é suficiente para a maioria dos que participaram das manifestações de hoje. Quem ocupar o malcheiroso espaço deixado por eles terá de se comportar de modo muito diferente. Conchavos, que certamente continuarão existindo, estarão agora sob o olhar clínico e implacável da comunicação online. Mensagens instantâneas, compartilhamentos, selfies e até memes na prática neutralizam a ação dos políticos tradicionais. E a mídia, também ela acossada pelas novas tecnologias, já percebeu que só sobreviverá se souber se adaptar a esse mundo de pernas menos curtas.

Não, a internet não está imune à demagogia e à empulhação. Mas escancara essas práticas à enésima potência, desnudando supostos carismas e segundas intenções. Posso estar sofrendo de otimismo excessivo, e espero não ter de corrigir este comentário em futuros posts. Mas o grito das ruas agora reverbera em frequências digitais. E esse é um ótimo motivo para ter esperança.

8K e realidade virtual nos Jogos Olímpicos

RioA Olimpíada Rio 2016, evento que o mundo inteiro aguarda com expectativa, tem tudo para entrar na História. Problemas de organização, infraestrutura deficiente e custos inflacionados são esperados, e a conta será paga pela população brasileira. Não vou falar sobre os aspectos esportivos, dos quais conheço muito pouco, mas com certeza na área de tecnologia serão dados enormes saltos (sem trocadilho) no evento.

Na semana passada, a OBS (Olympic Broadcasting Services), empresa contratada pelo Comitê Olímpico Internacional para cuidar de todas as transmissões em rádio e TV do evento, divulgou um detalhado relatório sobre as inovações tecnológicas que serão adotadas nos Jogos. Será literalmente a maior Olimpíada de todos os tempos, com 42 modalidades disputadas em 32 locais diferentes (não apenas no Rio), e atletas representando 206 países; uma outra empresa, chamada Atos, será responsável pela distribuição dos dados referentes às competições, e promete fazer isso em tempo real para cerca de 6 bilhões de pessoas.

Voltando à OBS, os sinais serão transmitidos de cada estádio ou ginásio para uma central, localizada na Barra da Tijuca, e daí enviados para as emissoras que adquiriram os direitos, em 220 países. Serão mais de 7 mil horas de transmissão ao vivo, com vídeo em HD (1080i) e áudio em surround 5.1 canais. Além das competições, haverá câmeras espalhadas por vários pontos do país, produzindo imagens ilustrativas com essa mesma qualidade.

Mas esses serão os sinais, digamos, oficiais. Em paralelo, equipes da rede japonesa NHK estarão em ação para captar imagens olímpicas em resolução 8K (Super Hi-Vision). Pouquíssima gente terá acesso a esses sinais, pois os receptores 8K só são vendidos hoje no Japão, e a preços da ordem de US$ 130 mil!!! A tecnologia 8K SHV atinge resolução 16 vezes mais alta que o atual Full-HD: 7.680 x 4.320 pixels. E, como já aconteceu na Copa 2014, os japoneses usarão transmissores de “áudio 3D”, com 22.2 canais.

Segundo a OBS, serão registradas 130 horas de conteúdos desse tipo, mas não de todas as modalidades, somente natação, judô, atletismo, futebol e basquete – além, é claro, das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos. Para algumas emissoras, será fornecido também sinal 4K, convertido a partir do 8K (downconverted).

Vale lembrar que o Japão decidiu “pular” o padrão 4K nas transmissões de televisão, apostando que vale mais a pena investir no 8K. Seu plano é usar a Rio 2016 como plataforma para lançar oficialmente as transmissões em 8K na Olimpíada de 2020, que será realizada em Tóquio.

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Outra novidade que será testada nos Jogos do Rio é a realidade virtual (VR). Usando óculos 3D, o usuário poderá assistir às competições como se estivesse “dentro do estádio”, ao lado dos atletas. Serão usadas câmeras do tipo 360 graus como essa da foto, que também foram testadas na Copa de 2014 e nos Jogos de Inverno de Sochi, na Rússia (2014), e de Lillehammer (Noruega), este ano.

Skype, fora dos TVs smart

skype

 

 

Quem tem um TV com acesso à internet já deve ter notado a chamada: a partir de junho, não será mais possível fazer ligações de vídeo via Skype usando esses TVs. É uma decisão muito discutível da Microsoft, que em 2011 comprou a empresa fundada em 2003 pelo sueco Niklas Zennström e pelo dinamarquês Janus Friis. Um ano antes, o serviço – primeiro a desafiar o domínio das operadoras telefônicas – estava sendo usado por mais de 600 milhões de pessoas mundo afora.

Na época, a compra – estimada em US$ 8,5 bilhões – foi tida como “uma loucura” do ex-CEO da Microsoft, Steve Ballmer, que três anos depois perdeu o cargo. Hoje, com dezenas de concorrentes (como Hangouts, FaceTime, Messenger, Viber, GoToMeeting e Uberconference, entre outros – veja aqui), o Skype não tem o mesmo apelo. Ainda assim, é muito útil a quem, por exemplo, tem parentes vivendo longe de casa e quer mantê-los em contato com a família toda. Foi, aliás, o que motivou todos os fabricantes a integrar o aplicativo em seus TVs smart.

Em comunicado divulgado na semana passada, a Microsoft anunciou que irá interromper o suporte ao Skype via TV, “convidando” os usuários residenciais a partir para a integração com serviços como Office e OneDrive. Quer dizer que não haverá mais atualizações e o aplicativo começará a travar; já para usuários corporativos, o Skype for Business seria aprimorado. Ou seja, a MS aposta que as pessoas estarão dispostas a pagar pelo uso de vídeo e que mais empresas se interessarão em adotar vídeo como ferramenta comercial.

Segundo o site especializado TechHive, a Microsoft tem pesquisas informando que a maioria das pessoas não quer se comunicar via tela grande para preservar a confidencialidade de seus contatos; tablet, notebook e principalmente smartphone seriam os meios preferenciais para isso. Vamos ver agora o que os fabricantes de TVs colocarão no lugar do Skype.

Business Tech 2 (e a caminho do 3)

CAPA BUSINESS TECH_CAPA BUSINESS TECHSaiu na última semana de fevereiro a edição #2 da revista BUSINESS TECH, que cobre o segmento de tecnologia corporativa. A revista, que tem circulação trimestral (impressa e eletrônica), conta com o apoio institucional da InfoComm e tem quatro grandes marcas como “apoiadoras”: Casio, Crestron, Kramer e TOA/Discabos. Outras empresas estão se unindo ao projeto, que na verdade vai muito além do que oferece uma revista.

Trata-se da primeira publicação multimídia do setor: a equipe que produz a revista é a mesma que faz o site businesstech.net.br; este, por sua vez, é replicado diariamente através das redes sociais (Facebook, Twitter e Linked In), e também por uma newsletter, enviada por email a milhares de profissionais da área. Acesse por este link. Com tudo isso, os conteúdos ganham muito mais visibilidade, assim como as empresas que divulgam seus produtos. E que, mais do que nunca, precisam navegar nesse mundo multimídia.

Estamos agora trabalhando na edição #3, que irá circular em maio e será distribuída durante a Expo TecnoMultimedia InfoComm Brasil, que acontecerá em São Paulo. A revista é “media partner” da feira, assim como da própria InfoComm e seu programa de cursos para profissionais brasileiros.

Previsões, apenas previsões…

Todo início de ano aparecem na mídia centenas de artigos do tipo “as principais tendências do mercado”. São especialistas – bem, alguns nem tanto – dando palpites sobre o futuro e, literalmente, viajando no tempo. Nós aqui mesmo às vezes nos dedicamos a esse agradável esporte, que é prever como o mundo irá evoluir. No caso da tecnologia, erramos com frequência. Mas somos insistentes.

A colega Julie Jacobson, do excelente site americano CE Pro, produziu recentemente uma brincadeira interessante com as previsões, dela mesma e de seus colegas, entre eles alguns dos mais competentes dos EUA. Entrando no clima, reproduzimos aqui o que eles imaginam será mais importante no mercado A/V este ano. Agora, algumas de suas previsões dos últimos quatro anos. Confiram:

2012

Sistemas de segurança automatizados

Luzes de led

Reprodução de áudio pelo computador

Comandos por voz e gestos

Nuvem

2013

Redes residenciais com características de empresa

Fones de ouvido

Áudio sem fio

Cortinas e persianas motorizadas

TV Ultra HD

2014

Áudio de alta resolução

Automação de baixo custo (vendida até em supermercados)

Sistemas de monitoramento pela nuvem

Sensores pela casa toda

Fechaduras eletrônicas

2015

Produção de vídeos em casa

Sistemas de entretenimento imersivos (com áudio e vídeo mais envolventes)

Maior uso da automação

Casa inteligente e segura

Redes em nuvem

Como “matar” marcas de peso

Nesta quinta-feira, a operadora Vivo comunicou oficialmente o fim da marca GVT. A empresa (originalmente, Global Village Telecom), fundada em 2000, foi adquirida no ano passado pelo grupo espanhol Telefônica, que então decidiu unificar todas as suas operações sob a marca “Vivo”. Segundo o comunicado oficial, no dia 15 de abril a marca GVT deixa de existir e todos os seus clientes serão automaticamente transferidos para a Vivo (mais detalhes aqui).

Aguarda-se também para os próximos meses a “fusão” entre as marcas Net, Claro e Embratel, do grupo mexicano America Móvil. Ou seja, duas dessas marcas irão “morrer”. Esse é um processo recorrente – e irreversível – do capitalismo, especialmente em tempos de crise. Empresas se unem, geralmente uma assumindo o controle, e buscam concentrar suas estruturas e investimentos. A própria Telefônica fez isso com a TVA. Para que esse processo dê certo, é fundamental unificar o marketing. E marcas tradicionais podem ser vitimadas.

Vejam o caso da Motorola. A empresa entrou para a história, nos anos 1970, ao produzir o primeiro telefone celular. Derrubada pela Apple e pelas marcas asiáticas, entrou em crise e foi comprada pela Google – seus acionistas ainda se saíram bem, pois o negócio, em 2011, girou em torno de US$ 12,5 bilhões. Mas a Google só fez piorar as coisas, com suas ideias alucinantes. Acabou repassando a Motorola à chinesa Lenovo, em 2014, por “apenas” US$ 3 bi, ou seja, com US$ 9,5 bi de prejuízo.

Agora em janeiro, durante a CES, confirmou-se o que muitos já previam: a Lenovo irá “matar” a marca, que parece mesmo ter se tornado velha, e lançar os smartphones “Moto”, mais avançados, e “Vibe”, mais baratos. Até quando essas marcas existirão?

Telecom: sumiram R$ 90 bilhões?

Entre os anos de 2001 e 2015, o governo federal arrecadou cerca de R$ 90 bilhões no setor de telecomunicações (telefonia, internet e TV por assinatura). São os chamados “fundos setoriais”, que as empresas têm de recolher: Fistel (Fundo de Fiscalização dos Serviços de Telecomunicações), Fust (Fundo de Universalização das Telecomunicações) e Funttel (Fundo de Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações). Dá cerca de R$ 6 bi por ano. Some-se a Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento do Cinema e do Audiovisual), que incide sobre a comercialização de filmes, shows, programas de TV etc. em todas as mídias e que representa algo em torno de R$ 1,2 bilhão por ano. Os números são do site Telesíntese.

A decisão da Justiça Federal de suspender o recolhimento da Condecine está causando no setor uma polêmica que há muito tempo não se via. As operadoras estavam há anos brigando nos tribunais para reduzir essas taxações. A crise econômica, ironicamente, lhes deu a oportunidade: em dezembro, a presidente Dilma assinou medida provisória aumentando a alíquota da Condecine; a gritaria aumentou e foi concedida uma liminar em favor das empresas. Liminar essa que o governo agora tenta derrubar. O debate foi bem explicado pelo colega André Mermelstein, do site Teletime.

Por trás da controvérsia, estão duas velhas questões: a disputa entre Estado e iniciativa privada (simbolizada nos impostos mais altos do planeta) e o financiamento público aos produtores de cinema e vídeo. Com a crise, as empresas perdem faturamento e o governo arrecada menos; ambos, então, lutam por mais recursos, o que é plenamente compreensível – caberá à Justiça decidir quem tem razão.

O problema da Condecine é mais complexo. Não à toa, os ministros da Cultura e das Comunicações vêm procurando conversar mais com as operadoras, como relata o site converge.com. Pelo visto, bateu o desespero diante de dois lobbies tão atuantes. Os produtores não querem abrir mão da Condecine, que foi uma “conquista” deles quando tomaram o poder na Ancine a partir da aprovação da chamada Lei do Cabo (2012). Sob o pretexto de incentivar a produção de conteúdo nacional, distribui-se dinheiro aos “suspeitos de sempre”.

Já os tais R$ 90 bi, que pela lei deveriam ser usados para melhorar a infraestrutura de telecom no país, parece que evaporaram; na prática, foram surrupiados pelo Ministério da Fazenda para cobrir pedaladas e rombos fiscais (apenas 7% desse total foi de fato reinvestido no setor).

Parecem duas coisas diferentes – Condecine e fundos – mas são apenas duas faces da mesmíssima moeda: a privatização do Estado em benefício de grupos seletos. É justo lembrar que essa prática não começou no governo Dilma, mas na década de 80 (Sarney), foi interrompida por Collor, voltou à meia-força com FHC e ganhou peso com Lula. Como bem lembrou o cineasta Hector Babenco, que aliás nunca pediu dinheiro público para seus filmes, a suspensão da Condecine será uma “catástrofe” para esses amigos do poder. Mas talvez faça bem à sociedade brasileira.