Moderadamente otimista

29 de janeiro de 2017

Paulo Francis por paffaro blog

A mineiríssima expressão acima cabe bem ao momento atual. Ouvi outro dia e me lembrei do grande jornalista Paulo Francis (ele mesmo, aí ao lado), cuja morte completa 20 anos no próximo dia 3. “O otimista não passa de um mal informado”, repetia ele a quem quisesse ouvir, realçando sua descrença na espécie humana. Ainda assim, acho que não devemos cair na tentação de maldizer “tudo isso que está aí”, mas nos concentrarmos nos sinais animadores.

No momento em que o maior país do mundo tem em seu comando um demagogo e/ou irresponsável de fazer inveja aos latino-americanos de décadas passadas, não deixa de ser positivo ver o Brasil mexendo em suas entranhas. Discute-se desde a igualdade de gênero até o direito ou não de se pixar muros. Racistas, traficantes e donos de alvos colarinhos resistem, mas no fundo estão com medo.

De certa forma, a Operação Lava Jato eleva-se como símbolo de uma nova atitude. A maior parte da sociedade, tantas vezes enganada e alienada, apoia. Depois da ditadura militar e da impunidade que reinou nos últimos 30 anos, é saudável constatar que hoje a palavra mais ouvida é a de juízes, não a de generais.

Não, juízes não são infalíveis, e ainda bem… Mas somente um judiciário cioso de cumprir a lei – que deve valer para todos – pode brecar os desvios da política. E só uma sociedade atenta é capaz de coibir os excessos dos juízes. Estamos testemunhando a primeira vez na história brasileira em que as pessoas são capazes de relacionar a corrupção a tragédias como as dos presídios e do atendimento médico, para ficar só em dois exemplos do noticiário recente. Os servidores públicos do Rio de Janeiro, ao ver imagens de seus ex-governadores presos, com certeza percebem que os atrasos em seus salários têm a ver com os desmandos dos últimos anos. E, por todo o país, os desempregados e os falidos hão de notar que sua situação está diretamente relacionada às políticas governamentais.

Nada acontece por acaso. Aqueles que votaram em Lula e Dilma devem ter consciência de tudo que resultou de sua enganação. Idem para quem elegeu os governadores dos vários partidos (quase todos, afinal) que agora pedem socorro como se fossem inocentes. E os eleitores que rejeitaram o PT em outubro último precisam saber como fiscalizar os novos prefeitos. Assim caminha a democracia.

Prisões como as de Sergio Cabral, Eduardo Cunha, Marcelo Odebrecht e Eike Batista (esta ainda não consumada, no momento em que escrevo) ilustram, para os governantes atuais, algo que pode vir a ser o seu (deles) futuro, se não abrirem os olhos. Os sinais de que a economia brasileira começa a sair do buraco ainda são fluidos, sutis, e portanto é preciso atenção e paciência. Um rombo do tamanho que fizeram não poderá ser corrigido em dois ou três anos. Teremos ainda que trabalhar dura e longamente para ver, quem sabe, nossos filhos resgatando um país mais digno.

Bem, um ano atrás isso era uma miragem. Agora, podemos ser pelo menos levemente otimistas. Desde que bem informados.

Em tempo: a ilustração acima é do grande artista Paffaro e foi produzida para a primeira edição do Almanaque do Fantástico. 

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