Archive | junho, 2017

iPhone: dez anos que abalaram o mundo

Nesta quinta-feira 29, completam-se exatos dez anos do lançamento do iPhone, talvez o produto mais revolucionário da indústria eletrônica até hoje. Steve Jobs havia antecipado algo do gênero quatro anos antes, mas o impacto da notícia ainda deve estar na memória de muita gente. Lembro que estávamos num evento com especialistas em São Paulo, quando um dos palestrantes ligou seu laptop para exibir ao vivo a tradicional conferência da Apple. A imagem de Jobs acionando a telinha touch (acima) virou ícone da inovação. Os mais jovens talvez não saibam, mas todo celular até então possuía teclas. Jobs quebrou esse paradigma, como faria diversas vezes em sua vida, consolidando a era dos compartilhamentos em tempo real.

Num post de 2008, sob o título “O suspense acabou”, comentávamos sobre a estratégia de marketing da Apple no lançamento da segunda versão do aparelho (em 2007, ainda não tínhamos este blog). Agora, em meio às retrospectivas e comemorações, duas notícias se destacam. Uma, da própria Apple, anunciando para outubro o iPhone 8 (foto ao lado), no clima de “esquenta”. Os rumores são de que terá comunicação 5G, tela curva OLED (aliás, fornecida pela Samsung) com 5,8″ e – pela primeira vez – abolindo a famosa “tecla HOME”, tão copiada (neste link, alguns detalhes).

Alan Wolf, colunista do site Twice, foi quem melhor resumiu o sentimento de toda uma geração a respeito do produto: “Meu filho adolescente teve problema com seu iPhone 6S e percebi sua aflição. Fui com ele a uma assistência técnica e vi que estava mais desesperado do que seu eu próprio estivesse indo para o hospital… Para eles, é difícil imaginar um mundo em que não existia iPhone”.

O problema, lembra Wolf, é que hoje a Apple não está sozinha nesse mundo. Precisa enfrentar concorrentes como a chinesa Lenovo, que comemora outra data marcante: os 25 anos do ThinkPad, primeiro laptop de uso pessoal, lançado pela IBM em 1992. Desde que compraram a marca, em 2005, os chineses perseguem a meta de superar Apple, HP e demais gigantes com algo revolucionário. O “laptop do futuro” foi apresentado em Nova York ontem: chama-se Transform (acima) e deve chegar ao mercado internacional no fim do ano. Terá 5G, com gabinete dobrável, recursos de IoT, e será capaz de reproduzir imagens de realidade virtual. 

Ah! Sim, para os saudosistas, a Lenovo promete lançar também uma “edição de colecionador” do ThinkPad original. Alguém aí lembra como era?

Em tempo: agradeço o amigo Julio Cohen, agora um cidadão quase-americano, me manda o link para um vídeo que mostra em detalhes o que seria (será?) o iPhone 8. Para quem está curioso, está aqui.

SBT, Record e RedeTV agora valem centavos

Dois dos mais bem informados colunistas especializados no mercado de televisão revelaram nos últimos dias que está prestes a sair um acordo entre as operadoras de TV paga e as três emissoras que querem cobrar por seus conteúdos (Rede TV, Record e SBT). Daniel Castro informou na semana passada que a audiência das redes despencou quando o sinal deixou de ser liberado aos assinantes da NET/Claro, Sky e demais operadoras. Por isso, as emissoras sentiram-se “acuadas” e baixaram os valores em negociação. No domingo 25, Ricardo Feltrin – especialista nos bastidores da TV – contou sobre um documento em que as redes pedem que seus sinais sejam mantidos na praça de Goiás, onde seriam cortados a partir do último dia 22. 

O desfecho dessa novela vai se mostrando como previsto nos primeiros capítulos. Para quem não acompanhou, desde 29/03 – quando aconteceu o desligamento das transmissões analógicas no estado de São Paulo – as operadoras foram obrigadas a cortar os sinais daquelas três redes. Estas queriam cobrar algo em torno de R$ 15 para cada assinante; a NET/Claro, só para citar um exemplo, teria que lhes pagar mais de R$ 150 milhões. Com a recusa das operadoras (a Sky nem quis negociar…), começou um jogo de ameaças que prejudicou os telespectadores fãs dos três canais.

Menos de três meses depois, numa trama que envolveu até o governo Temer, parece que a disputa não valeu a pena: as emissoras já aceitam menos de R$ 1 (isso mesmo: centavos)!!! O acordo está próximo. Talvez assim essa novela acabe de vez.

LG aumenta aposta nos TVs OLED

Na semana passada, estivemos participando do InnoFest, evento internacional que a LG organiza em vários países, a convite da empresa. Dessa vez, foi em Punta Cana, um dos destinos mais badalados do Caribe, reunindo jornalistas e revendedores de toda a América Latina. Além de estreitar seu relacionamento com formadores de opinião (eram cerca de 400 convidados), o encontro serviu para a LG exibir produtos inovadores em TV, áudio, IoT e linha branca. Incluiu um dia inteiro de demonstrações e palestras, fechando com um animado show de música caribenha.

Ficou claro que, apesar das incertezas econômicas, o grupo coreano continua apostando muito na América Latina e no Brasil. Nosso país ainda é seu terceiro maior mercado mundial, atrás apenas dos EUA e da própria Coreia, e a frequência dos lançamentos comprova. Só neste evento, foram apresentados nada menos do que 20 modelos de TVs, sendo metade deles com a tecnologia de painéis orgânicos (OLED). Vimos também refrigeradores, lavadoras e aparelhos de ar condicionado de última geração, além do robô SmartThinQ, que na verdade é um pequeno/grande hub capaz de executar diversas tarefas dentro do conceito Internet das Coisas.

“Mais do que nunca, nosso objetivo agora é levar o consumidor para dentro do ponto de venda”, resumiu o vice-presidente comercial da LG, Roberto Barbosa, sintetizando as mensagens dos principais executivos coreanos do grupo. Cesar Byun, presidente para A.Latina com base em São Paulo, acrescentou que a empresa quer ter produtos para todas as faixas de público, o que inclui desde um TV 4K de 86″ até um monitor de 22″. 

No caso dos TVs, sem dúvida OLED é o grande diferencial da marca, incorporando avanços como os processamentos de vídeo HDR10, Dolby Vision, HLG e o upscaling de conteúdos para HDR. “Esses TVs têm 25% mais brilho nos pixels, que são processados individualmente”, explicou o gerente de produto, Igor Krauniski. Além disso, são os primeiros com áudio Dolby Atmos, incluindo a opção de uma soundbar integrada ao painel de TV, como na foto acima.

Esses TVs OLED devem competir agora com os QLED da Samsung, que comentamos aqui semanas atrás. A intenção declarada da LG é que o consumidor veja ambos em demonstração nas lojas e confirme a superioridade do OLED. Mas estes continuarão sendo mais caros que os LED-LCDs. O outro trunfo da empresa está nos TVs Nano Cell, também exibidos no evento, cujo maior diferencial está no tamanho menor das partículas que compõem o painel – seriam menores que os Quantum Dots da concorrente e, portanto, mais eficientes na reprodução de cores e nuances da imagem.

Bem, tudo isso será conferido na prática quando fizermos os devidos testes com todos esses TVs. Por enquanto, as amostras foram excelentes. Mais detalhes aqui.

Kaleidescape: a estrela renasce

Um dos cases mais interessantes da indústria eletrônica nos últimos anos é o da Kaleidescape, empresa do Vale do Silício que revolucionou o hábito de ver filmes no final da década passada. Como numa saga cinematográfica, seus criadores foram ao céu quando a inventaram, caíram no inferno ao enfrentarem na Justiça os estúdios de Hollywood e, contrariando todos os prognósticos, renasceram com a mesma força de antes.

Na semana passada, o CEO e co-fundador do grupo, Cheena Srinivasan, anunciou uma nova geração de servidores de mídia, compatíveis com conteúdos em 4K. O “milagre” se deu, diz ele, graças à fidelidade de milhares de usuários que anos atrás adotaram a plataforma Kaleidescape e não deixaram que a empresa fechasse suas portas. “Fomos abençoados”, disse ele ao site CE Pro, que reconstituiu a saga, digna mesmo de um case.

Comentamos um pouco sobre a história da empresa há cerca de quatro anos. Foram eles que aperfeiçoaram o conceito de media center: em vez de centenas de filmes gravados em disco, por que não ter tudo armazenado num aparelho só e acessar todos eles pelo controle remoto? A Kaleidescape desenvolveu os gravadores e players para isso, além de um sistema operacional, com menus, capas dos títulos e uma navegação que antecipou em alguns anos a revolução do Netflix. O próprio usuário podia copiar seus discos no sistema.

Foi aí que a ideia travou. Os estúdios, representados pela DVD Copy Control Association, foram à Justiça para impedir as cópias. Depois de muitas negociações, chegou-se a um acordo: as cópias não seriam mais permitidas, mas a Kaleidescape foi autorizada a implantar serviços de streaming inclusive para filmes recentes, algo que nem o Netflix conseguiu. Foi uma vitória para os três sócios fundadores, que no entanto deram o passo seguinte muito maior que suas pernas: anunciaram streaming com a qualidade de Blu-ray sem ter finalizado o software para tanto. Muitos clientes se decepcionaram, as vendas de players caíram e o dinheiro acabou.

Em agosto do ano passado, a Kaleidescape chegou anunciar que estava fechando. Mas – aí o milagre – Srinivasan e seus parceiros conseguiram financiamento de um fundo, mantiveram parte dos engenheiros que trabalhavam no projeto e, enfim, renasceram quase das cinzas. Numa incrível demonstração de transparência, relataram toda a história e agradeceram aos clientes, endinheirados capazes de pagar até US$ 3.200 por um media server e verem em seus TVs telas parecidas com a da foto acima. São cerca de 11 mil filmes e 2 mil episódios de séries, ao alcance de um clique.

De olho nos podres poderes

O desfecho do julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral joga o pano que faltava sobre a credibilidade do Poder Judiciário brasileiro. Pode-se agora afirmar que nossos três poderes estão podres, variando apenas o grau de podridão. Caberá à população vigiá-los cada vez mais de perto.

A razão invocada pelo presidente do TSE, Gilmar Mendes, de que era preciso acima de tudo preservar a “estabilidade” do país, não se sustenta, pelo fato óbvio dos crimes cometidos, e com excesso de provas. Estaria o presidente da República isento de cumprir a lei como todos os cidadãos? O sempre lúcido Fernando Gabeira questionou brilhantemente o argumento em recente artigo. Vejam este trecho: 

“Estranha estabilidade a que nos oferecem os defensores da presença de Temer. Nos tribunais as provas não valem. Durante as investigações também pouco importam: em vez de se defenderem, os acusados passam a atacar os investigadores. A máquina do Estado volta-se contra as instituições que realmente estão trabalhando com seriedade, desvelando o esquema continental de corrupção”.

Se há instabilidade, e há mesmo, o maior responsável hoje é o presidente, com suas amizades suspeitas. A lista de amigos e colaboradores investigados, alguns já presos, é de tirar o fôlego. Neste sábado, o próprio Temer, anunciando que irá processar o ex-amigo dono da JBS, confirmou o conteúdo da famosa conversa noturna gravada – gravação esta que seus advogados até agora desmereciam alegando ter sido manipulada! De fato, estranha estabilidade…

Curioso que um ano atrás tornou-se consenso que Dilma era ingovernável e, portanto, insustentável. Ela e seu sucessor somam-se a um rol de mandatários que insistem em intimidades com bandidos, incluídos os cinco últimos presidentes (salvo, talvez, Itamar Franco) e muitos dos atuais governadores e prefeitos. O problema deles é que sociedade já não admite mais essas práticas.

Mas a praga se alastra perigosamente para o Poder Judiciário, como vimos na célebre sessão do TSE. Foi patético, para dizer o mínimo, o desfile de excelências rechaçando as provas fartamente coletadas e descritas pelo relator Herman Benjamin. O baixo nível desses magistrados, alguns sem conseguir construir uma só frase sensata em seus longos discursos, justifica o repúdio que se seguiu.

Nesse aspecto, tristemente, o Judiciário acaba se equiparando aos outros dois poderes. Só que os políticos serão julgados nas próximas eleições. Já certos juízes, e como terão chegado a seus postos (que, aliás, são vitalícios), talvez mereçam uma outra Lava Jato.

A “morte” oficial do MP3

Aos 22 anos de idade, foi declarado oficialmente “morto” o formato de gravação mais popular do século até agora. O MP3, invenção do Instituto Fraunhofer, da Alemanha, não terá mais suporte técnico nem atualizações, o que significa que a partir de agora haverá cada vez menos aparelhos compatíveis. O anúncio foi feito pelo próprio Instituto, em seu site, com uma retrospectiva do que aconteceu desde 1987, quando começaram os estudos.

É uma das histórias mais interessantes da tecnologia. E o site presta um merecido tributo à equipe que idealizou o formato. Lembra que, nos primeiros anos, os cientistas por trás da ideia chegaram a ser ridicularizados em eventos públicos. Vale lembrar que então o CD, lançado comercialmente em 1983, era considerado o meio mais confiável de armazenar e distribuir música – a internet ainda era um sonho de poucos. O pessoal do Fraunhofer desenvolveu o algoritmo OCF (Optimum Coding Frequency), uma forma de salvar os sinais de áudio em arquivos dez vezes menores, que podiam ser transmitidos até por linha telefônica.

Em 1998, surgiu o primeiro player MP3, modelo Rio 100, da fabricante americana Diamond Multimedia, fundada por um chinês. Em sua reconstituição, o Fraunhofer não dá o crédito, mas foi a Apple – com o iPod e a loja iTunes, lançados em 2001 – que detonou de vez a revolução na indústria musical a partir do MP3.

Bem, o fim do suporte ao MP3 não quer dizer que todos aqueles nossos arquivos armazenados há tantos anos deixarão de tocar. Mas é bom convertê-los para formatos mais novos, antes que alguém chame você de “velho”. 

 

 

Educação, igualdade e oportunidade

Talvez não seja coincidência: duas entrevistas publicadas nos últimos dias, em veículos diferentes, tratam da educação no Brasil. Foram concedidas por dois especialistas que, se o país valorizasse seus melhores cérebros, estariam em posições de comando: os economistas, professores e escritores Eduardo GianettiRicardo Paes de Barros. Infelizmente, suas palavras quase caem no vazio porque, definitivamente, educação não é prioridade para a maioria dos brasileiros. Mesmo assim, cliquem nos nomes e leiam com atenção.

Falando para a Folha de São Paulo, Barros – que foi um dos responsáveis pela implantação do Bolsa Família, ainda no governo Lula – defende que a escola estimule mais a curiosidade e o pensamento crítico dos alunos, especialmente as crianças, em lugar de apenas ensinar (mal) o básico de português e matemática. Ideia polêmica, sem dúvida, mas que remete a avanços já praticados em países como Coreia do Sul e Finlândia, segundo o entrevistado. “Se você estimular a criatividade, o pensamento crítico, a curiosidade, pode dar um salto, porque o cara com essas características quase aprende sozinho”, afirma.

E mais: “Não só temos pouca escolaridade, mas a escolaridade que temos é completamente dependente do ambiente familiar, o que é um absurdo… Se a escola ensina para o aluno que o mundo é diverso e flexível e que ele precisa ter autoconfiança e persistir, ela elimina o impacto do ambiente familiar”, acrescenta. “O ensino de habilidades socioemocionais na base  curricular é uma aposta de que isso poderá nos fazer ganhar uma década”.

Já o prof. Gianetti, que é também filósofo e tem uma dezena de livros a respeito, acaba de lançar “Trópicos Utópicos”, obra em que avança nas possibilidades que enxerga para o país sair da armadilha de ser o eterno “país do futuro”. Em entrevista ao site da Livraria Cultura, Gianetti reflete sobre os alarmantes déficits educacionais brasileiros, tanto no ensino fundamental quanto no médio e no superior. “As pessoas acham que têm ensino fundamental completo, ensino médio completo, superior completo e, na verdade, essas credenciais não têm realidade, são diplomas vazios”, comenta.

Como tantos outros pensadores, o economista, que também dá aulas há 30 anos, considera a educação o maior desafio do Brasil na rota para se tornar um país “civilizado”. Mas adverte que as questões emergenciais – como a atual crise de representação política – acabam se sobrepondo. “Os alunos brasileiros são treinados desde o início a reproduzir nas provas o que aprenderam em aula”, analisa. “Mas não são estimulados a pensar por conta própria, a buscar o conhecimento, a ter um pensamento lógico, a fazer perguntas. Se você perguntar em prova o que foi dado em aula e o que está no manual, ele é um excelente aluno. Mas, se você sair um pouquinho do que foi dado em aula, ele fica completamente perdido”.

Bem, recomendo entusiasticamente a leitura das duas entrevistas, além de várias outras que ambos vêm concedendo nos últimos anos, como cabeças privilegiadas que são. Para quem tiver preguiça de ler, uma boa alternativa é assistir às entrevistas de Ricardo PB e Eduardo Gianetti no Roda Viva, da TV Cultura.

TV de 100 polegadas, visto de perto

Esta semana, a Sony apresentou em São Paulo sua nova linha de TVs, com destaque para o gigante da foto. São 102kg, com tela de 100 polegadas, que mede mais de 2m de largura. Um brinquedinho de R$ 349 mil reais, que a empresa define como “o melhor TV já produzido”. 

Além do tremendo impacto visual de um TV desse porte e das especificações técnicas de primeira linha (vejam aqui), chama a atenção o nível de contraste do modelo XBR-Z9D, raro em aparelhos com painel LCD. A explicação, segundo Walter Sinohara, gerente de produto da Sony, está na maior quantidade de leds do novo backlight. Há praticamente um elemento luminoso para cada 10 mil pixels, com blocos de diodos comandados por um processador extremamente rápido atuando como uma espécie de dimmer. Nos backlights comuns, os leds se acendem ou apagam totalmente; aqui, a intensidade luminosa varia em cada bloco de leds conforme a cena. Vale lembrar que são mais de 8 milhões de pixels, na resolução UHD (3.840 x 2.160 pixels).

Neste artigo, uma explicação mais detalhada sobre essa questão dos backlights.

Estamos aguardando a confirmação para fazer o teste do TV Sony Z9D (há uma versão de 75″, já encontrada em algumas – poucas – lojas). Mas a primeira impressão foi excelente.

Neste vídeo, mostramos o aparelho bem de perto e por vários ângulos.

Governo pressiona a favor das emissoras

Mais um furo do colega Samuel Possebon, editor do site Tela Viva, e este com alto potencial explosivo: setores do governo Temer estariam pressionando por uma solução favorável às redes Record, SBT e RedeTV na disputa com as operadoras de TV paga. Os detalhes podem ser conferidos aqui. Antecipo um resumo da escabrosa trama:

1.Atacado pela Globo (como comentamos no início da semana), Temer precisa de apoio das outras emissoras. Estas se oferecem para ajudar, em troca de ajuda nas negociações sobre a venda de seus sinais à TV paga.

2.Ministros de Temer, inclusive Gilberto Kassab, das Comunicações, pressionam a Anatel a se posicionar no caso; o presidente da Agência, Juarez Quadros, que não é político (embora já tenha sido ministro e seja referência internacional em telecom), não quer tomar partido, preferindo seguir sua área técnica, que está estudando a questão e rejeita interferências políticas.

3.Nas negociações, as operadoras assumiram posição intransigente contra o pagamento pelo sinal. A Simba, empresa criada para negociar em nome das emissoras, já baixou dez vezes sua pedida inicial, de R$ 15 para R$ 1,50; esse seria o custo por assinante, que nas contas de Possebon totalizaria cerca de R$ 320 milhões por ano. As pesquisas feitas pelas operadoras indicam que pouquíssimos assinantes sentem falta dos três canais em suas grades.

4.Entra em cena a Secretaria Nacional do Consumidor, órgão do Ministério da Justiça, onde é grande a influência do notório deputado Celso Russomano, que vem a ser apresentador da Record e, claro, defende a cobrança.

Vale citar também o site RD1, especializado em televisão, que cita dois episódios nada edificantes:

*O vice-presidente da Record, Douglas Tavolaro, foi apanhado em grampo negociando com o senador Aécio Neves um patrocínio da Caixa Econômica Federal em troca de apoio a Temer (isso, claro, antes de Aécio aparecer nas gravações da JBS);

*Temer recentemente deu entrevistas exclusivas ao SBT e à RedeTV, que apoiam abertamente suas reformas trabalhista e da previdência.

Esse nível de discussão pode causar enjôos, como de resto a maior parte das discussões políticas atuais. Mas o caso pode até ter influência na campanha eleitoral de 2018, dado o peso da Record junto à bancada evangélica no Congresso.  É bom ficar de olhos bem abertos.

Amazon já vale dois Walmarts

A respeito do comentário publicado aqui anteontem, sobre a disputa Apple x Google x Amazon, duas outras notícias recentes merecem registro.

A Amazon acaba de lançar seu primeiro televisor (foto), cujo nome comercial é Fire TV. Claro, não é a Amazon quem produz. Vem da fabricante chinesa TongFang, a mesma que comercializa em vários países a marca Element, com TVs de baixíssimo custo. Quem comprar “ganha” de presente todos os recursos da plataforma Amazon, sem necessidade de adaptador ou acessório para internet. Como Android e iOS, a loja Fire oferece uma infinidade de apps e jogos. E, reforçando o que dissemos anteriormente, o TV também vem com Alexa, a plataforma da Amazon para comandos de automação por voz. O site americano CNET dá mais detalhes.

A segunda notícia sobre a Amazon é ainda mais impressionante: na semana passada, as ações da empresa ultrapassaram a histórica marca de 1.000 dólares (e você não leu errado). Isso eleva seu valor de mercado para US$ 478 bilhões, segundo o site Mashable, mais que o dobro da Walmart, maior varejista do planeta.

O texto de Jason Abbruzzese no Mashable é perfeito ao sintetizar: na verdade, o mundo é da Amazon, e nós apenas estamos vivendo (e comprando) nele!

Vivo transmite jogos da Seleção no celular

Ainda a propósito do tema anterior: a Vivo anunciou que a partir de agora irá transmitir a seus assinantes de celular os jogos amistosos da Seleção Brasileira de Futebol, da qual é patrocinadora. Para isso, está criando um serviço chamado Vivo Futebol. Com mais de 74 milhões de clientes, a operadora dispõe de uma respeitável “audiência cativa”. O primeiro jogo será sexta-feira, Brasil x Argentina, só que às 7h da manhã, direto da Austrália. 

O detalhe é que será a primeira vez, em décadas, que um jogo da Seleção não será exibido na Globo. Até agora, a emissora detinha um virtual monopólio junto à CBF, consolidado nos áureos tempos do hoje denunciado Ricardo Teixeira. O caldo entornou com as negociações sobre direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, que alguns clubes acabaram fechando – apoiados pela CBF – com o Esporte Interativo. Estrategicamente, a Globo decidiu se afastar dos dirigentes da entidade, quase todos enredados em falcatruas. 

A emissora continua dona dos direitos para transmitir os jogos oficiais da Seleção e, claro, as duas próximas edições da Copa do Mundo: 2018, na Rússia, e 2022, no Qatar.

Política da Globo mira na próxima década

Como vem acontecendo há décadas, de tempos em tempos as Organizações Globo são acusadas por sua posição política. A diferença é que agora as condenações não se dão a propósito de alinhamento com o governo de plantão, como quase sempre ocorria, mas justamente pelo motivo oposto; de repente, parece que o grupo de mídia mais poderoso do país virou oposição!

É o que se revela nas entrelinhas dos discursos anti-Globo, desconfiados de que haveria algo por trás da cobertura jornalística. Se antes eram as esquerdas que demonizavam a emissora do Jardim Botânico, hoje o papel é desempenhado por tucanos e peemedebistas. Tudo porque foi o jornal O Globo que detonou a mais recente crise política, ao divulgar o conteúdo da já célebre gravação entre o presidente Temer e seu ex-amigo Joesley Batista.

Há um cheiro de inveja no ar: qual jornal ou revista não gostaria de ter sido o autor do “furo”? Mas esse é mero detalhe, que só interessa aos jornalistas. Vale mais tentar entender por que houve (se é que houve) uma mudança de postura na empresa dos Marinho. Sem deixar de registrar que, no episódio, as demais emissoras cumpriram seu eterno papel de figurantes, com quase nada a acrescentar, dando mais motivos para seus telespectadores trocarem de canal.

Aqui mesmo neste blog já apontamos, algumas vezes, como a liderança da Globo, realçada toda vez que um fato mobiliza a opinião pública dessa maneira, pode ser danosa para o país. Mas, sejam quais forem as métricas – entretenimento, refinamento da produção, qualificação de repórteres e apresentadores, tecnologia – a distância em relação aos outros grupos de mídia chega a ser constrangedora. E, se alguém neste momento fala em “monopólio”, é porque desconhece o funcionamento da mídia (especialmente a televisão) em países como Japão, México e Itália. Tema para outro artigo.

Com seu poderio, a Globo consegue cumprir uma lição de casa que talvez nem esteja nos sonhos dos concorrentes. Paga altos salários, não aluga seus horários, incentiva o aperfeiçoamento técnico de seus profissionais, contrata pesquisas e investe em experimentos de linguagem e de formato como poucas redes no mundo. Mesmo com a queda de receitas nos últimos anos, fenômeno multinacional e inevitável, mantém acesa a chama da criatividade, na condição de maior produtora de conteúdos da América Latina.

Há tempos o desafio da Globo deixou de ser a luta contra a concorrência, para se tornar algo bem mais complexo: manter-se forte na mente de uma nova geração de telespectadores que busca outros tipos de tela. É provável que 90% (se não mais) da população brasileira atual tenha crescido diante do plim-plim. Mas é igualmente plausível que metade desse contingente hoje não queira mais assistir TV no modo tradicional, a ponto de tornar o controle remoto um acessório quase descartável.

Pois bem, os irmãos Marinho perceberam isso há mais de dez anos, quando decidiram renovar todos os postos diretivos do grupo. Assumiu o comando uma geração de “profissionais de TV” que combina talentos técnicos com jornalistas e comunicadores egressos do marketing. Parte deles recebeu a missão de estudar as novas formas de mídia e as mudanças de comportamento do telespectador/leitor/consumidor. Nesse meio tempo, o grupo retirou-se do mercado de operação de TV por assinatura (até por força da nova legislação, para a qual, aliás, contribuiu decisivamente). E concentrou-se naquilo que sabe fazer melhor: produzir conteúdo.

O detalhe – que talvez tenha escapado aos críticos – é que as formas de distribuir conteúdo evaporaram ao sabor da internet e das tecnologias correlatas. Não basta produzir com qualidade; é preciso esse rigor também ao fazer chegar as produções ao distinto (e fragmentado) público. Se tanta gente critica a Globo há tantos anos, e ainda assim continua dando-lhe recordes de audiência na grade linear, significa que novelas, séries e jornalismo podem ser atraentes também nas segundas e terceiras telas, que fatalmente dominarão as próximas décadas.

Atentos, os executivos da Globo notaram que as disputas políticas podem interferir nesse cenário. Não deve ser agradável ver repórteres sendo agredidos por manifestantes, carros de reportagem incendiados e até cabines de transmissão de futebol hostilizadas. No entanto, cabe à mesma Globo desbravar os caminhos das novas mídias, colocando suas produções em cartaz na internet, ou via celular, às vezes até antes da estreia na rede aberta, ainda que seja apenas para “testar” o público. O que fazer se os outros grupos de comunicação se mostram incompetentes para isso?

Após a repercussão de sua cobertura nos escândalos do Mensalão e do Petrolão, com juízes se elevando à condição de “estrelas do vídeo”, a Globo registrou – em números – que a população estava cada vez mais interessada na cobertura política. As denúncias de corrupção, se encavalando umas às outras, não fizeram cair a audiência como acontecia no passado. E, como no mundo inteiro, políticos corruptos (e seus bajuladores, sempre por perto) se defenderam condenando a mídia. Continuam a fazê-lo, como é o caso do atual presidente. 

No entanto, falar em mídia no Brasil é falar da Globo. É valioso notar que o mesmo jornal O Globo foi o único, até esta data, a pedir em editorial a renúncia de Temer. Por seus meios, a sociedade mostrou que está com a mídia (ou com a Globo). Pode-se aqui acrescentar um saudável vice-versa: mais do que em qualquer época da história brasileira, a mídia está indo aonde o povo está. Questão de sobrevivência. É preciso desnudar os poderosos, tarefa que vem a ser a razão de ser do Jornalismo, seja ele analógico ou digital, impresso ou eletrônico, em regimes democráticos. É um longo e conturbado aprendizado para todos os lados que queiram, de fato, aprender. A emissora que outrora se acomodava às conveniências do poder percebeu que seu papel tinha de mudar. 

O país é outro. E, para o bem ou para o mal, isso só se vê na Globo.

Apple contra-ataca Amazon e Google

 

 

 

 

 

Nesta segunda-feira, como esperado, a Apple anunciou o lançamento do HomePod (foto), sua versão para o produto eletrônico mais badalado da atualidade: a caixa acústica que responde a comandos de voz. Bem, não é simplesmente uma caixa acústica, pois serve para muito mais do que apenas ouvir música. Assim como o Echo, da Amazon, e o Google Home, esses aparelhos se propõem a revolucionar as atividades domésticas, do básico “atender telefone” ao controle simultâneo de diversos dispositivos espalhados pela casa.

O HomePod tem 15cm de altura e seis microfones embutidos. Atende às ordens do usuário, como “acender as luzes” ou “aumentar a temperatura da sala”, através do já conhecido aplicativo Siri. Alguns recursos podem ser acionados simplesmente encostando o dedo no aparelho. Um woofer voltado para cima se encarrega dos sons graves, como ao reproduzir música vinda do celular, por exemplo. E sete tweeters são montados para espalhar os sons em diversas direções, criando sensação de envolvimento.

Segundo a Apple, vai custar $349 quando for lançado, no final do ano. Fará parte da plataforma que a empresa desenvolveu para manter conectados todos os produtos de sua linha (iPhone, iPad etc), incluindo os acessórios HomeKit, que podem compor um sistema de automação de médio porte. 

O HomePod era o lançamento que faltava para acabar de vez com as dúvidas sobre que tipo de eletrônico irá dominar os ambientes domésticos num futuro cada vez mais próximo. Seu único problema está no fato de ser um Apple: se você não é adepto da marca, provavelmente vai preferir os concorrentes, até porque as plataformas Amazon Alexa e Google Assistant foram desenvolvidas para “conversar” com aparelhos de qualquer marca – menos Apple.

Será difícil resistir. 

O MP3 está morrendo. E agora?

Arqueólogos e curiosos em geral costumam se perguntar como os velhos habitantes do Egito conseguiam cortar com precisão milimétrica grandes blocos de rocha para construir templos e pirâmides. Desconsiderando as hipóteses de que eram auxiliados por ETs, resta a constatação de que os habitantes da região, há milhares de anos, tinham técnicas bastante específicas e funcionais. Seja qual tecnologia usassem, ela se perdeu. Na história humana, a evolução costuma se dar com perdas só notáveis quando tarde demais. Mas talvez nesse exato momento estejamos vivendo um desses instantes de morte tecnológica – e poder observá-la ao vivo pode ser tão fascinante quanto triste.
A perda em questão é de uma tecnologia que começou a ser gestada lá no fim dos anos 1970 – a do MP3. O formato de arquivo digital que mudou tudo no cenário musical teve sua morte anunciada neste mês de maio de 2017 – 22 anos após seu nascimento oficial, no nem tão longínquo ano de 1995. O anúncio do possível fim desse jovem incendiário que balançou as estruturas da indústria da música foi feito pelo Fraunhofer IIS, o instituto de pesquisas alemão que é pai e mãe do MP3. Aliás, bem mais pai: a equipe de pesquisadores que o criou não tinha mulheres.
Em um comunicado nada emocional, o Fraunhofer disse que a última patente referente ao MP3 se esgotou em abril – e que não dará mais suporte ao formato, agora livre de copyrights. Na prática, quer dizer que mudanças que impactem o funcionamento do MP3 não implicarão em adaptações “oficiais” no conjunto de software feitas por seus pais. Só isso.
Pode não parecer muito, mas imagine que surja um novo sistema operacional totalmente diferente de tudo que existe. Pronto. O MP3 não terá mais uma casa aonde ir para se adaptar. Isso é ruim. Por outro lado, com patentes livres, qualquer um poderá mudar o padrão para adaptá-lo a um novo ambiente. Mas isso significa bagunça potencial. Quem usa computador com variantes do Linux sabe o que significa. Se cada um faz o que quer, por vezes as coisas não funcionam muito bem.
Uma coisa é certa: o mundo não foi o mesmo após o nascimento do MP3 e não será o mesmo após seu fim. Quem não viveu seu início, em 1995, não pode imaginar o que esse punhado de linhas de código significou. A possibilidade de gravar horas de música em arquivos digitais pequenos e portáveis, usando apenas um PC e um software como o histórico Nero Burning ROM, e depois transitar livremente esses arquivos pela então nascente internet, foi algo tão impactante quanto a invenção do disco de áudio por Thomas Edson. Se antes a música só podia ser usufruída crua, ao vivo, Edson permitiu que ela fosse fixada em um dispositivo móvel, o disco. Mas isso ainda exigia equipamentos e movimentação física do vinil – ou de fitas, CDs e outros invólucros físicos.
O MP3, que demorou quase 20 anos para ser desenvolvido pelos alemães do Fraunhofer, mudou essa lógica. A mobilidade se tornou virtual: de um só ponto no espaço-tempo era possível duplicar infinitamente uma música. Antes, a duplicação só se dava no um a um: eu copio um vinil em uma fita casette e ponto. Depois do MP3, os conteúdos musicais se democratizaram. Músicos deixaram de depender exclusivamente, para a distribuição, da indústria fonográfica, e consumidores sem dinheiro para adquirir um CD ou vinil puderam, de alguma maneira, ter acesso a seus conteúdos. Sim, isso significou pirataria a princípio – ma hoje é o que permite a você comprar uma faixa musical por poucos reais e tê-la na hora em seu celular ou computador.
Essa ideia já estava na cabeça dos pesquisadores que trabalharam no projeto do MP3. “Nossa visão, lá pela metade dos anos 90, era de que qualquer pessoa um dia poderia levar suas músicas em um dispositivo portátil”, relembra Harald Popp, um dos inventores do formato. “Mas naquela época muitos especialistas diziam que jamais existiria um aparelho portátil capaz de acomodar a complexidade do MP3.”
No fundo, estes descrentes não só duvidaram do MP3 como também não conseguiram pressentir toda uma indústria criada a partir dele para gerar novas maneiras de usufruir música. Empresas pioneiras como a Nero, fundada em 1988 e ainda hoje atuando no mercado de multimídia, ou mesmo fabricantes que usam o formato em seus equipamentos de áudio até hoje, como a Sony, não teriam avançado tanto quanto avançaram sem o MP3.
Mas, e agora? O que ocorrerá se o MP3 desaparecer assim como sumiram as técnicas de cortar rochas dos antigos egípcios? Bem, o fato é que embora revolucionário, o MP3 vem a cada dia perdendo espaço para arquivos mais interessantes – em tamanho ou em qualidade do áudio. Formatos como AAC e FLAC, já suportados por softwares de transcodificação e de execução, oferecem ambas as qualidades. Seus arquivos são menores e o som, melhor. O AAC, aliás, é filho dileto do MP3: foi criado pela turma da MPEG, entidade mundial que congrega fabricantes para criar padrões globais. Não por acaso, a MPEG foi, a partir do fim dos anos 80, uma das envolvidas na criação do MP3 – tanto que a sigla resume o nome completo do formato, MPEG Audio Layer-3. Ou seja, o MP3 pode até morrer – mas permanece em seu descendente. Ainda bem.
*FONTE: http://allameda.com/ws2011/index.asp