Educação, igualdade e oportunidade

Talvez não seja coincidência: duas entrevistas publicadas nos últimos dias, em veículos diferentes, tratam da educação no Brasil. Foram concedidas por dois especialistas que, se o país valorizasse seus melhores cérebros, estariam em posições de comando: os economistas, professores e escritores Eduardo GianettiRicardo Paes de Barros. Infelizmente, suas palavras quase caem no vazio porque, definitivamente, educação não é prioridade para a maioria dos brasileiros. Mesmo assim, cliquem nos nomes e leiam com atenção.

Falando para a Folha de São Paulo, Barros – que foi um dos responsáveis pela implantação do Bolsa Família, ainda no governo Lula – defende que a escola estimule mais a curiosidade e o pensamento crítico dos alunos, especialmente as crianças, em lugar de apenas ensinar (mal) o básico de português e matemática. Ideia polêmica, sem dúvida, mas que remete a avanços já praticados em países como Coreia do Sul e Finlândia, segundo o entrevistado. “Se você estimular a criatividade, o pensamento crítico, a curiosidade, pode dar um salto, porque o cara com essas características quase aprende sozinho”, afirma.

E mais: “Não só temos pouca escolaridade, mas a escolaridade que temos é completamente dependente do ambiente familiar, o que é um absurdo… Se a escola ensina para o aluno que o mundo é diverso e flexível e que ele precisa ter autoconfiança e persistir, ela elimina o impacto do ambiente familiar”, acrescenta. “O ensino de habilidades socioemocionais na base  curricular é uma aposta de que isso poderá nos fazer ganhar uma década”.

Já o prof. Gianetti, que é também filósofo e tem uma dezena de livros a respeito, acaba de lançar “Trópicos Utópicos”, obra em que avança nas possibilidades que enxerga para o país sair da armadilha de ser o eterno “país do futuro”. Em entrevista ao site da Livraria Cultura, Gianetti reflete sobre os alarmantes déficits educacionais brasileiros, tanto no ensino fundamental quanto no médio e no superior. “As pessoas acham que têm ensino fundamental completo, ensino médio completo, superior completo e, na verdade, essas credenciais não têm realidade, são diplomas vazios”, comenta.

Como tantos outros pensadores, o economista, que também dá aulas há 30 anos, considera a educação o maior desafio do Brasil na rota para se tornar um país “civilizado”. Mas adverte que as questões emergenciais – como a atual crise de representação política – acabam se sobrepondo. “Os alunos brasileiros são treinados desde o início a reproduzir nas provas o que aprenderam em aula”, analisa. “Mas não são estimulados a pensar por conta própria, a buscar o conhecimento, a ter um pensamento lógico, a fazer perguntas. Se você perguntar em prova o que foi dado em aula e o que está no manual, ele é um excelente aluno. Mas, se você sair um pouquinho do que foi dado em aula, ele fica completamente perdido”.

Bem, recomendo entusiasticamente a leitura das duas entrevistas, além de várias outras que ambos vêm concedendo nos últimos anos, como cabeças privilegiadas que são. Para quem tiver preguiça de ler, uma boa alternativa é assistir às entrevistas de Ricardo PB e Eduardo Gianetti no Roda Viva, da TV Cultura.

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