Tentando reinventar a política

21 de julho de 2017

Num cenário de terra arrasada, como é a atual política brasileira, abrem-se várias portas para aventureiros. Vale lembrar o que aconteceu nos anos 1980, a chamada “década perdida”: a situação social e econômica era tão caótica, com a inflação rondando os 80% ao mês (e você não leu errado: 80%!!!), que a primeira eleição presidencial pós-ditadura, em 1989, expeliu da cena figuras tradicionais – Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mario Covas – e levou ao segundo turno dois novatos: Fernando Collor e Lula. O que sobreveio é História.

Hoje, não temos mais aquela inflação, mas o desemprego – que na época não era quantificado – e a falência de empresas provocam caos parecido com o de 30 anos atrás. E quase todos os políticos estão desmoralizados. Para quem não se conforma com essa realidade, e teme pelo pior em 2018, é indispensável repensar seus conceitos sobre como escolher os candidatos. Valho-me aqui de um interessante artigo do consultor Rodrigo Tavares, publicado semanas atrás na revista Época, sob o título “A Reinvenção da Política”. 

Tavares acha que as coisas só mudarão no Brasil se houver mais engajamento das pessoas, reduzindo a distância que hoje separa os políticos dos eleitores. Estes têm que ser mais responsáveis ao votar, e isso obriga todos a se informar melhor antes das eleições, para depois cobrar dos eleitos aquilo que foi dito em campanha. Temos o hábito de votar como “obrigação”, na crença de que nada vai mudar. Mas, como diz o consultor, a tecnologia hoje propicia novas formas de participação política – e não estou falando apenas de posts no Facebook ou no Twitter.

Infelizmente, talvez, os partidos políticos continuam sendo a única forma de organizar essas ações num regime democrático. Sim, eles nos roubam o tempo todo, mas há, por exemplo, um projeto de lei para acabar com o Fundo Partidário, que é o que os sustenta (detalhes aqui). O artigo de Tavares descreve algumas das medidas que deveríamos apoiar, e que transcrevo abaixo, para controlar mais de perto os atos dos políticos e dos governantes:

“Por que não usar a tecnologia em nome da causa pública? Cidadãos terão acesso imediato à informação isenta e rigorosa, diminuindo o papel intermediador da mídia, e poderão participar diretamente na tomada de decisões, diminuindo o papel de partidos políticos.

“A tecnologia conhecida como civic tech (tecnologia cívica) transformará eleitores em cidadãos engajados. São plataformas e aplicativos voltados para a transparência e a prestação de contas dos governos, o combate à corrupção e o acesso dos cidadãos à atividade política e a serviços públicos de qualidade.

“Na Islândia, após a crise de 2008-2009, o governo criou uma ferramenta gratuita pela qual todas as pessoas podem, por meio de um aplicativo no celular, propor e discutir políticas. As propostas mais apoiadas pela população são avaliadas pela administração, que mantém os cidadãos informados sobre os resultados do processo. Centenas de iniciativas populares já foram implementadas.

“Hoje, a maioria das pessoas gosta de se diferenciar por raças, religiões, nacionalidades ou outros interesses. Mas a tecnologia ajuda a perfurar essas muralhas psicológicas e a encontrar pontos em comum. Seres humanos têm medo da diferença. Máquinas, não. Em Taiwan, a plataforma pol.is – que tem projetos em cerca de dez países – recebeu crédito por ter ajudado na resolução de um conflito entre estudantes e o governo nacional em 2014.

“No final de 2016, começaram a ser organizados encontros no Vale do Silício, na Califórnia, liderados por empreendedores seriais, sobre a criação de um novo tipo de partido político, fundado em redes sociais, Big Data e machine learning.

Utopia? Pode ser. Mas vale sempre lembrar a frase do grande escritor inglês Arnold Toynbee: “O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados por aqueles que se interessam”.

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