Archive | dezembro, 2017

Disney dá a senha para o futuro

Disse um repórter do site americano Digital Trends que é a “união de Mickey com Wolverine”. Talvez se possa falar ainda em lobo mau e os zumbis de Walking Dead. Ou Star Wars, ratatouilles e todos os super heróis da Marvel. Fato é que a compra da Fox pela Disney, confirmada esta semana (embora ainda pendente de aprovação pelas autoridades americanas), marca uma nova etapa da indústria de mídia e entretenimento. É o tipo de negócio que tende a mexer com diversas forças, obrigando todo mundo a se reposicionar daqui por diante.

As informações oficiais são de que a Disney irá pagar US$ 66 bilhões para assumir o controle das divisões de cinema e vídeo do grupo Fox, incluindo os canais FX e National Geographic, além de 39% da operadora europeia Sky. Ficam de fora Fox News, Fox Sports (canais pagos) e Fox TV (rede aberta dos EUA). A Disney passa a ter ainda 94% das ações do Hulu, serviço criado pelos estúdios de Hollywood para enfrentar o Netflix e que hoje tem pouca expressão fora do mercado americano.

Como se sabe, recentemente a Disney começou a retirar seus conteúdos do Netflix, preparando o lançamento de um serviço próprio de streaming, previsto para estrear em 2019. Além de Mickey, Darth Vader e toda a “família Disney”, sairão as produções da Fox, Pixar e Marvel. Pelo visto, o único super herói sobrevivente será o próprio Reed Hastings, dono do Netflix… A Disney também é dona da ESPN e já anunciou que terá um serviço de streaming exclusivo de esportes em 2018. 

Tudo isso é parte da reação de Hollywood à expansão da internet. Os donos de conteúdo (Disney, HBO, Turner e mesmo a Globo brasileira) não querem correr o risco de se tornarem escravos de Netflix, Amazon, Google, Facebook etc. A tendência é termos mais serviços de streaming competindo pela preferência do consumidor, como vêm fazendo desde sempre os canais de TV.

Como diz o Digital Trends, bem-vindos ao admirável mundo novo do streaming! Para quem quiser saber mais detalhes sobre o alcance do negócio Disney Fox, eis aqui um bom resumo em português.

Abaixo o vale tudo

Aproveito aqui uma dica do excelente boletim Canal Meio para ilustrar uma ideia que já comentei algumas vezes: para vencer, vale tudo? Não, errado. Nem tudo. Seja na vida, na política ou no esporte, como mostra a história contada pelo jornal espanhol Marca. Aconteceu em 1992, em Tóquio, um encontro entre dois grandes do futebol: o brasileiro Telê Santana (então técnico do São Paulo) e o holandês Johann Cruyff (do Barcelona). Num café, véspera do jogo em que os dois times decidiriam o Mundial de Clubes, Telê e Cruyff tiveram um diálogo ao mesmo tempo comovente e enriquecedor. Transcrevo abaixo o texto:

Johan Cruyff e Telê Santana puseram as mãos direitas uma em cima da outra para pactuar que, se naquele 13 de dezembro de 1992, algum jogador do São Paulo ou do Barcelona se descontrolasse, ou não correspondesse ao bom futebol que eles praticavam como religião, seria substituído. “Fechado”, disse Cruyff, entusiasmado. É o que conta hoje o ex-árbitro argentino Juan Carlos Loustau, escalado para dirigir aquela partida, referindo-se ao momento que testemunhou, o mais maravilhoso pacto secreto que o futebol já conheceu.

Foi na madrugada de 11 de dezembro, num hotel em Tóquio. Quase quatro horas de conversa sem pausa haviam transcorrido, muitas xícaras de café foram consumidas, e o holandês não parava de fumar. É insólito nos tempos de hoje pensar que 25 anos atrás, na véspera da final da Copa Intercontinental de Clubes, o Barcelona dirigido por Cruyff e o São Paulo de Telê se hospedavam no mesmo hotel.

De um lado, Stoichkov, Michael Laudrup, Pep Guardiola, Ronald Koeman e cia. De outro, Raí, Palhinha, Muller, Cafu, Zetti… e, no centro desse quadrilátero imaginário, Telê e Cruyff conversavam como amigos, sem se preocuparem que dois dias depois estariam disputando um título.

“Eles estavam convencidos de que perder jogando bem não é fracassar, e de que numa partida leal, respeitando os princípios que os haviam levado até ali, não há vencedores nem vencidos”, diz Loustau. O argentino, na época considerado o segundo melhor árbitro do mundo, já havia dirigido jogos da Copa de 1990, na Itália, e fora indicado para apitar a final em Tóquio. “Em 40 anos de carreira, nada me tocou mais do que ter sido testemunha privilegiada daquela conversa entre Telê e Cruyff”, conta ele. “Eles falavam de futebol como se fosse algo sagrado. Diziam que interromper um jogo simulando contusões, esconder a bola ou fazer cera não era válido. Foi a coisa mais enriquecedora que o futebol me deu”. 

Loustau lembra que Cruyff lhe perguntou com certo espanto por sua experiência de 1989, no Maracanã, quando apitou um jogo entre Brasil e Chile em que o goleiro chileno Roberto Rojas fingiu ter sido ferido por um sinalizador atirado pela torcida. “Cruyff e Telê queriam ganhar, mas não de qualquer maneira, não com artimanhas. Tinham argumentos muito parecidos. Por exemplo, falavam com entusiasmo sobre o desafio de combinar a velocidade com a precisão para surpreender o rival”.

Naquela noite, Loustau entendeu que os dois nunca consideravam que perder fosse um fracasso, como o holandês havia perdido a Copa de 1974 para a Alemanha e o brasileiro fora derrotado pela Itália na Copa de 1982. “Eles queriam vencer com suas crenças e concordavam que respeitar isso era a base de qualquer êxito. Bastava ver suas equipes para perceber que os jogadores faziam exatamente o que os dois treinadores apregoavam”.

Jogadas inúteis eram rechaçadas pelo brasileiro e pelo holandês. “Não se cansavam de falar sobre futebol, até que lá pelas 3hs da manhã surgiu o pacto, uma aposta pelo jogo limpo”, acrescenta o ex-árbitro. Como que tocado por uma varinha mágica, Loustau subiu naquela noite ao seu quarto de hotel meio que embriagado de futebol. Estava convencido de que teria pouco trabalho no jogo. “O tempo de jogo corrido foi enorme, com muitas chances de gol e sem segundas intenções”, recorda. 

Nunca mais se encontraram, nem para tomar mais uma xícara de café. Telê faleceu em 2006, aos 75 anos; Cruyff aos 69, em 2016. E a testemunha privilegiada continua lembrando, como se fosse hoje, a madrugada em que pôs sua mão para ajudar a selar um belo pacto. 

Investimentos chineses e o medo da China

Nos últimos dez anos, governo e empresas da China investiram cerca de US$ 80 bilhões no Brasil. Os números assustam os mais conservadores: o medo do que isso possa significar no futuro para a chamada “soberania nacional” equivale ao que se ouvia, anos atrás, sobre as “multinacionais”, em particular as americanas. Aqui mesmo no mercado de eletroeletrônicos, é comum é grita contra essa “ameaça”, inclusive agora que o presidente Temer foi à China em busca de investimentos. Aqui, um bom exemplo.

Esta semana, um artigo do especialista Tulio Cariello no site brasileiro do jornal El País analisou o tal “medo da China”, lembrando que os laços entre os dois países há anos são bem mais fortes do que se pensa. Na verdade, não é só o Brasil: os chineses avançam em várias regiões do mundo, especialmente aquelas onde os ativos são mais baratos. Vêm crescendo na África, América Latina e em países menos desenvolvidos da Ásia. Souberam aproveitar a crise americana/européia e pretendem continuar esses movimentos.

Aqui, têm investido em fusões, aquisições e joint-ventures nas áreas de agronegócio, energia e tecnologia. Não será surpresa se ficarem também com um bom pedaço na futura privatização da Eletrobrás, o que já arrepia os cabelos de muita gente, como se vê neste link.

Não é coincidência que, como citamos aqui recentemente, as operadoras brasileiras de telecom fizeram chegar ao governo sua preocupação com a possibilidade de uma concorrente chinesa assumir o controle da Oi. Aliás, essas coisas nunca são coincidência. Mais detalhes aqui.

Previdência: (de)formando opiniões

Como não sou especialista em Previdência, evito comentar o tema. Não estou seguro de que a reforma atualmente em discussão será mesmo positiva para o país, ainda mais em sua versão desfigurada pelo governo Temer e seus aliados. Pelo que já li, ouvi e pesquisei, caminhamos céleres para uma falência geral de órgãos públicos, que chegará tanto mais rápido quanto mais demorarmos a encarar a realidade do envelhecimento da população e suas consequências.

Deixo a critério dos leitores formarem sua opinião a partir do trabalho (que considero admirável) de especialistas como José Pastore, Ricardo Amorim, Mansueto de Almeida, Samuel Pessoa e o grande prof. Wladimir Novaes Martinez, autor de vários livros a respeito, entre muitos outros. Cada um deles tem vários artigos e entrevistas publicados, que recomendo sem moderação a quem quiser – mesmo – entender e opinar sobre a questão previdenciária.

Mas o ponto aqui é outro. Em meio à polêmica da reforma, é natural que muitos se manifestem, às vezes de forma ardorosa, contra e a favor. Existem os que não concordam e apontam erros neste ou naquele ponto, e há também os grupos de interesse, que criticam porque podem vir a perder benefícios e privilégios. Em princípio, todas as manifestações são legítimas. Que a população leiga discuta, comente e critique, é igualmente saudável. Difícil é ver, ler e ouvir supostos formadores de opinião acionando seus ventiladores para espalhar excrementos de ideias sobre o tema sem se darem a um trabalho mínimo de pesquisa e análise.

Este, aliás, é um dos problemas na atual era das fake news. Ficou difícil distinguir aqueles que, de fato, estudam para analisar e ajudar a formar opiniões (a meu ver, a única tarefa relevante de quem atua em comunicação); e aqueles que nadam na onda mais conveniente, aproveitando-se de seus espaços na mídia. Infelizmente, vem sendo assim no Brasil há décadas, e agora com a ajuda da internet.

A propósito, imperdível a reportagem da BBC Brasil sobre os criadores de perfis falsos na web brasileira. Entre eles estão vários “formadores de opinião”.  

A “viúva” e a Lei de Informática

“Desburocratizar, simplificar e modernizar a Lei de Informática” – essas foram as justificativas do governo federal para conceder um novo mimo à indústria. Atendendo a pedidos, o presidente Temer editou medida provisória cancelando juros e multas aplicadas a empresas que no passado foram beneficiadas pela Lei. Algumas das multas têm mais de dez anos e não foram pagas… O site Telesíntese dá mais detalhes. 

Para quem não se recorda, a Lei de Informática foi criada para incentivar indústrias brasileiras do setor eletroeletrônico: elas ganham descontos no IPI e se comprometem a reinvestir os valores em “pesquisa e desenvolvimento” (P&D). A última versão da lei, aprovada em 2014, prorroga os benefícios até 2029 (vejam aqui). A medida provisória agora assinada só vem confirmar o que já se sabe: ninguém está preocupado com P&D.

No fundo, todo mundo adora criticar o Estado, inclusive reinvindicar cortes nos gastos públicos, mas ninguém abre mão dos incentivos estatais pagos com dinheiro “da viúva” (como gosta de dizer o grande Elio Gaspari). Não custa lembrar o episódio do ITA, em 2015 (governo Dilma).

Pirataria: Justiça condena youtuber

Pode ser um marco a decisão da Justiça de São Paulo, que na semana passada mandou remover conteúdos ilegais do canal Café Tecnológico. Como centenas de outros, é um canal que se dedica a comentar e compartilhar conteúdos sobre tecnologia e entretenimento no YouTube e Facebook. Após algum tempo sendo monitorado, a decisão judicial – para ação movida pela ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura) – diz que o objetivo do canal não era apenas comentar, mas “guiar os frequentadores… auferindo vantagens com remuneração”. Boa parte dos conteúdos são de propriedade da NET/Claro, Vivo e outras operadoras e programadoras.

O juiz Fernando Henrique de Oliveira Biolcati, da 22ª Vara Cível de São Paulo, determinou a remoção dos conteúdos e pagamento de indenização à ABTA; o valor será calculado com base no que as empresas deixaram de ganhar devido à ação do canal. A ABTA informou que está monitorando outros canais, sites e contas em redes sociais que têm objetivos similares: divulgar conteúdos não autorizados, fornecer links para acesso gratuito e sugerir aparelhos destinados à pirataria. 

Curioso é que o proprietário do canal, que não se identifica, publicou áudio relatando seu trabalho e as ações que vem sofrendo. Admite que sua atividade “não é muito legal”, mas justifica-se pelo fato de empresas como NET e Vivo estarem entre as que têm maior número de reclamações. Seria esse, portanto, o pretexto para agir ilegalmente. 

Até hoje, a Justiça e as autoridades policiais têm dado mais atenção à pirataria de mídias físicas. Mas esta, como citamos aqui recentemente, perde espaço para a pirataria digital e online, muito mais difícil de combater. O caminho é longo, mas quem sabe a decisão do juiz estimule outras.

Lamentável também constatar que milhares de pessoas apoiam a ilegalidade e, ao mesmo tempo, criticam os políticos. Ganhar a vida honestamente, de fato, não é fácil.

Apenas atualizando: nesta 3a, a Receita Federal fez em Foz do Iguaçu mais um mutirão para destruição de receptores piratas de TV.

Uso de papel e o “fim” da imprensa

 

 

Ultimamente, é raro passar uma semana sem ver na internet alguém alertando para “a morte” da mídia impressa. O evento – tido como inevitável – há anos está prestes a acontecer, profecia que lembra Nostradamus e outros apocalípticos. As novas gerações não gostam de ler, afirma-se, como se as antecessoras tivessem esse hábito. Quantas vezes você já não ouviu que “a internet está matando os jornais”?

Bem, pode haver gente torcendo para isso, mas como diria Steve Jobs – aliás, copiando o escritor (e jornalista) Mark Twain -, essas notícias são “ligeiramente exageradas”. Nunca se venderam tantos livros impressos, e a tiragem de jornais e revistas, na média, é estável há alguns anos. O que vem caindo é o investimento em publicidade, e não apenas na mídia impressa mas também no rádio e na TV, todos afetados pelos fenômenos Google e Facebook.

Em tempos de fake news, como já comentamos aqui, é recomendável checar tudo que se lê e se ouve, procurando fontes distintas e independentes (até onde isso é possível). Para quem se interessa pela questão das mídias, uma dica interessante é o site twosides.org.br, que se dedica a mostrar, com farta pesquisa de dados, que o papel está longe, muito longe de ser abandonado pela humanidade.

Two Sides é o nome de uma organização criada por empresas de comunicação gráfica e que, portanto, se propõe à defesa das mídias impressas. Encomendou ampla pesquisa internacional sobre  a influência das mídias digitais nos hábitos de leitura e de consumo. Entre dez países avaliados, o Brasil é o terceiro com maior adesão ao papel. Aqui, diz o estudo, as pessoas não apenas confiam mais nas informações que lêem impressas como não gostam de receber faturas e boletos por meios digitais. 

Num universo de 1.040 entrevistados, 61% disseram preferir revistas impressas e 55% querem continuar recebendo suas contas, carnês, faturas e exames médicos em papel. Mais: 60% acham que os jornais impressos lhes permitem melhor entendimento sobre os fatos, sendo que para 57% essa mídia tem mais credibilidade; nesse ponto, por sinal, as redes sociais perdem feio: apenas 27% confiam. Os detalhes da pesquisa podem ser vistos aqui.

O trabalho da Two Sides é interessante também por desfazer mitos como o de que o uso do papel aumenta os níveis de poluição; na verdade, o principal inimigo do meio ambiente hoje é o chamado lixo eletrônico, já que poucos países têm políticas regulares para descarte e reciclagem (e a produção não para de aumentar).