Archive | janeiro, 2018

Desemprego e a “culpa” da tecnologia

Não é de hoje que vêm sendo divulgados estudos internacionais sobre a relação entre tecnologia e desemprego. Neste domingo, o jornal Folha de São Paulo acrescenta mais um detalhado levantamento a respeito. Como de costume, relaciona-se a redução nas vagas de trabalho à evolução dos equipamentos, especialmente computadores e sistemas de automação. Nesse contexto, a figura do robô – tão simpática nos tempos de séries como Perdidos no Espaço ou, mais recentemente, Star Wars – ganha contornos sinistros.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o número de robôs em uso no mundo vem crescendo 9% ao ano desde 2010. Nesses oito anos, estima-se que o número de desocupados (pessoas que não conseguem encontrar trabalho) tenha chegado a 850 milhões; é impossível saber o número exato, especialmente numa época em que muitos decidem trabalhar por conta própria e outros tantos acabam sendo obrigados a aceitar sub-empregos. 

Um aspecto cruel desse processo é que a tecnologia reduz os custos de produção, levando a maioria das empresas a investir em máquinas para produzir mais em menos tempo e, assim, sacrificar a mão-de-obra que não é qualificada. As maiores vítimas são, portanto, as populações de baixa renda e com baixo nível de instrução. Embora esteja entre as dez maiores economia dos planeta, todos sabemos que o Brasil é um vexame na matéria, com índices educacionais que alguns especialistas consideram piores do que 20 ou 30 anos atrás.

Mas, mesmo entre os trabalhadores com curso superior e boa formação profissional, os desafios são severos. Algumas profissões simplesmente estão desaparecendo, como mostra este link, enquanto a própria tecnologia criar novas atividades: professor freelancer (que pode dar aula presencial ou online), fazendeiro urbano (cuida da produção e distribuição de alimentos orgânicos em áreas urbanas), designer 3D, instalador de sistemas smart (nem tudo será plug-and-play), técnico em telemedicina, gestor de comunidades digitais, operador de drones e – não poderia faltar – mecânico de robôs! A lista foi extraída de um estudo da Associação Brasileira de Química, que pode ser conferido aqui.

Nesse contexto, por mais que pareça odioso, reformas como a trabalhista – aprovada pelo Congresso no final do ano passado – são não apenas necessárias como inevitáveis. Empresas e trabalhadores têm que se adaptar à nova ordem mundial do trabalho, pelo simples fato de que não há alternativa. E, nesse aspecto, talvez seja melhor pensar na tecnologia como uma aliada, já que permite a qualquer profissional (ou mesmo estudante) aprender novas habilidades em tempo muito mais curto e a custo infinitamente mais baixo.

Vale a pena lembrar aqui os cases da Khan Academy, pioneira no ensino de matemática e outras disciplinas a distância, que no Brasil é associada da Fundação Lehman; do Senac/Senai, especialistas em cursos técnicos profissionalizantes; da USP, que mantém atualizado um programa de cursos gratuitos online em diversas áreas; e da própria Universidade Harvard, a mais famosa do mundo, onde também é possível estudar de graça (clique aqui para saber como, desde que você domine o inglês).

Mais do que nunca, aprender é preciso. Aprender para sobreviver. 

Sessão nostalgia: cassete e vinil

 

Em meio a tantas inovações tecnológicas, às vezes é bom dar uma respirada. Que tal esta notícia? As vendas de fitas cassete de áudio – isso mesmo, como essas que você vê na foto – subiram 35% nos EUA em 2017. Foram mais de 174 mil delas, o que não acontecia desde o longínquo 2012, diz uma pesquisa da Nielsen sobre o mercado musical. 

Querem mais? As vendas de LPs continuam subindo desde 2005 e hoje representam 14% de todas as gravações comercializadas em mídia física. E, se você não sabia, CDs e DVDs de shows e concertos continuam indo bem, obrigado. 

O pessoal da Nielsen, ouvido pelo site Digital Trends, explica que milhões de jovens estão sendo atraídos a buscar gravações antigas (leia-se: anos 80 e 90) devido ao sucesso de séries como Stranger Things e filmes como Guardiães da Galáxia, cujas trilhas sonoras foram lançadas em fita cassete e vinil. Será só isso? No caso das fitas, até pode ser. Mas o vinil voltou à moda há uns 15 anos, ou seja, já deixou de ser “moda”.

Não, os serviços de streaming não vão acabar. iTunes, Spotify e similares são hoje a maior fonte de receita das gravadoras, e não há sinal de que isso vá mudar tão cedo. Mas sempre haverá lugar para a nostalgia.

Pós-CES: mais uma guerra de displays

Ainda a CES (e certamente falaremos muito do evento nas próximas semanas): nosso enviado especial JULIO COHEN produziu diversos vídeos, mostrando especialmente a enorme variedade de TVs que desfilaram em Las Vegas (vejam aqui). E, embora alguns sejam protótipos, já é possível delinear as tendências daqui para frente.

Basicamente, há hoje cinco tipos de display:

LCD – É o mais antigo e domina o mercado mundial, mas aparentemente não tem muito o que evoluir. Para facilitar o marketing, a indústria adotou a denominação “LED”, referência ao painel de iluminação interna desses TVs (antes, eram lâmpadas). Talvez seja mais correto manter “LED-LCD”, ou “LCD-LED”.

OLED – Está em expansão e, no momento, é considerada a tecnologia com melhor performance. Substitui os leds comuns por elementos orgânicos, que produzem a própria luz e, por isso, dispensam o tal painel interno. 

Pontos Quânticos – Sem dúvida um aprimoramento em relação ao LCD: embora ainda dependendo de iluminação interna, utiliza nanocristais para formação da imagem. São os QDs (Quantum Dots), elementos inorgânicos com altíssima sensibilidade para transformar impulsos elétricos em variações de luz. Samsung e TCL utilizam a marca “QLED”, mas Sony e LG também possuem TVs desse tipo.

Laser TV – Aqui, é preciso cuidado para evitar confusão: o “TV” é, na verdade, um conjunto composto por tela e módulo de projeção. Neste, uma unidade óptica à base de laser projeta luz de altíssima intensidade sobre um painel interno de LCD; com lentes especiais, a imagem é direcionada a uma tela também ultra-sensível.

MicroLED – A novidade exibida na CES pela Samsung propõe uma alternativa ao OLED, da rival LG. Os elementos que formam a imagem são microscópicos, emissivos e inorgânicos, ou seja, emitem a própria luz e teoricamente possuem maior estabilidade e durabilidade.

Essa última característica foi muito realçada pela Samsung durante o evento, com base no fato de que os TVs OLED se deterioram com o tempo, o que ainda está por ser provado. Toda tecnologia nova exige um período de maturação, e somente após alguns anos a experiência prática confirma (ou não) esse tipo de deficiência. Teremos que ver isso daqui a alguns anos, tanto nos OLED quanto nos MicroLED e nos QLED.

Em futuros posts, comentaremos aqui outros detalhes dos TVs MicroLED, que chamaram muito a atenção dos visitantes da CES, especialmente com o gigante de 146 polegadas que a Samsung demonstrou (vejam o vídeo). Enquanto esse produto não chega ao mercado, vale lembrar que o OLED da LG foi o TV mais premiado da Feira (mais detalhes aqui). 

Show de tecnologia em Copacabana

Na semana passada, acompanhamos ao vivo um grande espetáculo tecnológico. O centenário Copacabana Palace, no Rio, emprestou sua fachada para a exibição do Video Mapping Challenge, competição internacional de projeção mapeada promovida pela Epson. Oito projetores a laser foram montados em torres erguidas sobre a areia da praia, bem de frente para um suntuoso edifício, construído há quase 100 anos – foi inaugurado em 1923. Em terra, um sofisticado equipamento da empresa sueca Dataton rodava o software WatchOut, criado justamente para projeção mapeada. No computador, o designer cria a imagens sobre uma réplica do prédio; ao serem projetadas, tem-se um show de cores e luzes, irresistível até para quem estava na praia, como mostra este vídeo.

Video Mapping, garantem os especialistas, começa a se transformar no recurso técnico de maior impacto para espetáculos ao vivo. Quem frequenta shows de música já deve ter visto. Este link mostra slideshow com alguns belos exemplos. Quando se une tecnologia a uma paisagem como aquela, revela-se até onde pode ir a criatividade humana.

TVs agora atenderão comandos de voz

Um colega americano, no site Twice, teve a grande sacada: “Os fabricantes de eletrônicos estão ouvindo vozes”. Sim, vozes de revendedores e integradores pedindo produtos compatíveis com os chamados assistentes de voz: Alexa (da Amazon), o mais usado até agora; Assistant (Google) ou Siri (Apple). Pelo visto, ninguém escapa. O que se viu na CES de Las Vegas esta semana confirma que os PAs (Personal Assistants), como chamam os americanos, estão tomando de assalto o mercado de tecnologia.

Há cerca de um ano, comentamos aqui sobre a disputa entre Google e Amazon nesse campo. Ao longo do ano, a Amazon consolidou sua liderança, mas a Google não se conteve, dando início a uma estratégia agressiva no último trimestre. A presença da empresa na CES, com estande e tudo, foi o sinal mais eloqüente de que a briga é pra valer. Curiosamente, a Apple – primeira a lançar um assistente de voz, o hoje desprezado Siri – ficou para trás nessa corrida. 

Agora, temos pelo menos mais três concorrentes bem dotados para brincar nessa praia. Em Las Vegas, a Samsung estreou sua plataforma Bixby, apresentada como capaz de conectar qualquer produto da marca, dos TVs aos eletrodomésticos. Chegou também o ThinQ, da LG, com mais ou menos o mesmo conceito. E a Microsoft tenta entrar no segmento com o Cortana, em meio a uma avalanche de críticas a sua performance. 

Para quem ainda não sabe o que faz exatamente um assistente de voz, talvez seja uma boa assistir a este interessante vídeo promocional da Google. Ali estão a maior parte dos recursos do Assistant, e que podem se encontrados nas demais plataformas. Trata-se de simplificar uma série de atividades diária e acabar (será muita pretensão?) com os eternos problemas de incompatibilidade e os erros de configuração e acionamento que travam os aparelhos definidos como smart.

Não será surpresa se outros assistentes de voz surgirem nos próximos meses, mas por enquanto a tendência os fabricantes de equipamentos se ajustarem aos gigantes já estabelecidos. Na CES, empresas como Philips e Sony demonstraram TVs integrados ao Google Assistant, enquanto a LG, por exemplo, anunciou que suas próximas linhas virão com Alexa. Alguns fabricantes preferirão até oferecer ambos, deixando a escolha para o consumidor.

Já deu pra perceber que teremos muita novidade em assistentes pessoais daqui por diante. Vejam a reportagem de nosso Julio Cohen, direto dos corredores da CES, e aguardem os lançamentos para o mercado brasileiro, que estaremos acompanhando aqui. 

Globo chega à era de Game of Thrones

Acaba de estrear a nova superprodução da Globo: Deus Salve o Rei, que ocupa a faixa das 19h, é provavelmente a mais cara telenovela da história (a emissora não fornece números). Com certeza, é a que exige maior complexidade em termos de cenários, figurinos, iluminação etc. Ambientada na Idade Média, a trama envolve castelos suntuosos, duelos com espadas e uma dramatização diferente das novelas que retratam situações atuais. Depois de ter produzido novelas na Grécia (Belíssima, 2007), Índia (Caminho das Índias, 2009) e Turquia (Salve Jorge, 2013), entre outras locações distantes, a Globo desta vez preferiu economizar nas viagens: somente uma parte da equipe técnica foi à Espanha, Escócia e Islândia, para captar imagens de castelos, vilarejos e paisagens que lembram a era medieval. Enquanto isso, no Rio de Janeiro foi montada uma cidade cenográfica de aproximadamente 1.800m2, com externas gravadas no processo chroma key convencional. 

OK, OK, dirão os leitores, mas por que estamos aqui falando de novela? Deus Salve o Rei é também um marco por ser a primeira produção do gênero gravada com áudio imersivo. O telespectador não vai perceber isso na transmissão pela TV aberta, mas talvez o consiga no Globo Play, serviço on-demand da emissora. O áudio é codificado em Dolby Atmos, processamento que já pode ser captado quando se assiste pela internet. Aqui, uma boa explicação.

Vale lembrar que Dolby Atmos já foi utilizado pela Globo, por exemplo, na transmissão do Rock in Rio, no ano passado. É, de fato, uma tendência mundial, considerando a quantidade de produtos compatíveis exibidos esta semana na CES de Las Vegas. Deverá ser usado também nas próximas séries da Globo. Aliás, para reforçar o impacto, a emissora fez a pré-estreia da novela num cinema, devidamente equipado com caixas acústicas espalhadas pelo teto para realçar os efeitos sonoros.

Acidentes de Primeiro Mundo

Outro dia foi o aeroporto JFK, em Nova York, que inundou: uma falha hidráulica acabou trazendo para cima dos passageiros e de suas bagagens, até mesmo na área de desembarque, a água gelada vinda das nevascas lá fora (só vendo o vídeo para acreditar).

Hoje, visitantes e profissionais que cobrem a CES, em Las Vegas, levaram um susto quando caiu a energia dos pavilhões Central e South. Centenas de equipamentos desligados abruptamente, inclusive as enormes telas espalhadas por uma área de aproximadamente 2 mil metros quadrados. Celulares com flash passaram a ser instrumentos valiosos, como se vê na foto.

Nos dois casos, houve pedidos de desculpas das autoridades responsáveis (pelo menos isso; se fosse no Brasil…). Definitivamente, a América de Trump não é mais aquela!

Neste vídeo, nosso correspondente Julio Cohen mostra o espanto nos estandes da CES em meio à escuridão.

Fabricantes tentam antecipar tecnologia 8K

Aos poucos, vamos tentando destrinchar as novidades da CES 2018, cuja cobertura detalhada pode ser acompanhada em nosso hot site. Desta vez, são inúmeras, certamente puxadas pela necessidade da indústria eletrônica se reinventar em velocidade cada vez mais alta. O problema é quando essa postura atropela inovações que ainda estão sendo assimiladas pelos consumidores.

Vejam o caso do 8K. O pessoal que trabalha com broadcast e produção de vídeo já sabe que esse é o futuro. Para boa parte deles, 4K não passa de uma ponte aguardando as devidas experiências e regulamentações do 8K. Claro, é exagero: não há como passar de 2K (Full-HD) para 8K diretamente, pois a complexidade e a diferença em termos de desempenho são estratosféricas. E no entanto… isso mesmo, alguns fabricantes estão exibindo displays 8K na CES (não é a primeira vez) e já anunciando que esses aparelhos estarão à venda ao longo do ano!

Posso estar errado, mas não dá para levar muito a sério esses anúncios. Samsung e LG, por exemplo, estão demonstrando 8K mais como uma forma de reafirmar sua liderança tecnológica (anos atrás, a Sharp também o fez). Antes que algum leitor mais empolgado já saia por aí procurando, vale lembrar que, ao contrário do 4K, lançado há cerca de quatro anos, os conteúdos 8K inexistem por ora. E talvez demorem muito, porque, se já é complicado (e custoso) produzir com 8 milhões de pixels, que dizer de 32 milhões?

Isso mesmo: a melhor forma de entender o tamanho do problema é calcular a quantidade de pixels, os elementos que formam a imagem:

2K (Full-HD) – 1.920 x 1.080 = 2,073 milhões de pixels

4K (Ultra HD) – 3.840 x 2.160 = 8,294 milhões de pixels

8K (Super HiVision) – 7.680 x 4.320 = 33,177 milhões de pixels

Para quem quiser entender melhor essa história, temos um post antigo explicando. 

Em Las Vegas, lançamentos e polêmicas

Nosso JULIO COHEN já está a todo vapor na “cidade do pecado” para cobrir a CES 2018. Oficialmente, o evento abre na 3a feira, mas neste sábado ele já pôde entrar no clima, como se vê no hot site que criamos especialmente para o evento

Aqui, na retaguarda, acompanhamos não apenas os lançamentos mas também os “bastidores virtuais” da CES. Aliás, a Feira não seria a mesma – que cobrimos desde 1997 – se não fosse as fofocas e polêmicas de bastidor. Mais ainda em tempos de Trump: o homem parece ter enlouquecido de vez ao propor algo que a sagrada Constituição americana (escrita e cumprida há quase 250 anos) proíbe terminantemente: a censura.

Trump não gostou de algumas revelações de um ex-assessor, que alimentou o jornalista Michael Wolf para escrever o livro Fire and Fury: Inside The Trump White House (em português, algo como “Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca de Trump”). Quis impedir a circulação, mas lá – ao contrário daqui, por exemplo – isso nem é levado a sério. Lançado no dia 5, o livro já é o mais vendido na Amazon, sucesso que deve se repetir conforme forem saindo as traduções pelo mundo afora. Aqui, detalhes do livro.

Se quiser, Trump terá que processar Wolf judicialmente e aguardar o resultado. Como o presidente já se indispôs algumas vezes com o setor de tecnologia, há entre visitantes e expositores da CES uma “discreta torcida” para que se cumpra uma das previsões de Wolf: seu livro pode derrubar o presidente.

2017: balanço, análises e tendências.

A edição de janeiro da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL, que chega às bancas esta semana, traz uma retrospectiva focada nos produtos que nossa equipe avaliou durante o ano. Selecionamos aqueles que mais se destacaram em cada categoria e trazemos um resumo das respectivas avaliações. São 13 aparelhos que retratam o mercado residencial e podem ser recomendados sem susto. A revista – em edição impressa ou digital – também pode ser solicitada no hometheater.com.br.

Aliás, junto com a primeira edição do ano os assinantes da HOME THEATER recebem também seu exemplar gratuito do anuário HOME THEATER BEST 2018, com uma seleção de excelentes projetos visitados pela equipe ao longo do ano. Lançado em 2001, o anuário acaba de atingir a “maioridade”, consolidando-se como referência para consumidores, integradores, arquitetos e designers. 

Trump, CES e neutralidade da internet

Já está virando um péssimo costume: o chefe da FCC, equivalente americana da nossa Anatel, cancela na última hora sua participação da CES. Tudo estava agendado para dia 8, quando Ajit Pai daria sua primeira entrevista no evento (ele assumiu em março). Mas, cinco dias antes, e sem maiores explicações, a direção da Consumer Technology Association recebeu o aviso de que ele não irá a Las Vegas. 

A dedução imediata de quem acompanha esse mercado foi que Pai não queria enfrentar o público da CES, quase 100% formado por defensores ardorosos da chamada neutralidade das redes. É impossível escapar do trocadilho com o nome do executivo, o “pai” do projeto do governo Trump de acabar com essa conquista dos usuários de internet em todo o mundo. Em setembro, a FCC anunciou que iria rever a legislação, uma das promessas de Trump: as operadoras ficariam livres para tarifar e regular o acesso como bem entenderem, seja para uma Netflix ou para um anônimo usuário individual.

Imediatamente após o anúncio, mobilizaram-se as diversas entidades que defendem a neutralidade – na verdade, um conceito meio abstrato, pelo qual o acesso deve sempre ser livre. Incentivados por gigantes como Apple, Google, Facebook, Microsoft e cia., esses movimentos pressionaram a FCC a voltar atrás. Inútil: em dezembro, a Comissão votou conforme o projeto. A única esperança dos movimentos agora é que seja aprovado o impeachment de Trump, hipótese cada vez mais discutida nos EUA.

Mas, segundo Gary Shapiro, presidente da CTA, o motivo da ausência de mr. Pai na CES seria outro. Ele e sua família vêm sofrendo não só pressões, mas até ameaças de morte por causa de sua política na FCC, considerada muito favorável às grandes operadoras. Verdade ou não, este é o terceiro ano consecutivo em que o executivo-chefe da FCC (ou seja, a maior autoridade do país em telecomunicações) cancela presença na CES. Fica parecendo descortesia. Ou, quem sabe, medo de enfrentar as críticas.

Para quem se interessa pelo assunto, recomendo estas quatro visões diferentes sobre a neutralidade das redes:

Gigantes querem neutralidade da rede em benefício próprio

Pioneiros da internet defendem neutralidade

Teles tentarão acabar com a neutralidade das redes no Brasil

Neutralidade da rede deve permanecer intocada no Brasil

Como será a partilha da Oi em 2018?

Oi: este foi provavelmente o verbete mais buscado em 2017 entre os sites brasileiros de tecnologia. E também nos de notícias políticas e judiciais. O crescimento indecente da dívida, hoje passando dos R$ 65 bilhões, atraiu a mídia para a realidade da empresa. Trata-se do maior escândalo do gênero: como pôde dar errado um negócio financiado com dinheiro público (e muito), baixo risco, com tudo para ser uma máquina de lucros (já que possui a maior rede cabeada do país)? Algumas respostas aqui.

O ano terminou com advogados e consultores discutindo a viabilidade do Plano de Recuperação Judicial da Oi, mediado pela AGU (Advocacia Geral da União). Pouco antes do Natal, Eurico Teles, nomeado presidente temporário da operadora, afirmou que o plano visa deixá-la pronta para qualquer um que queira comprar. Com 63 milhões de clientes nos serviços de telefonia (fixa e móvel), banda larga e TV, o potencial de fato é reconhecido pela maioria dos especialistas. Seria atraente para qualquer investidor, e há pelo menos três candidatos: a egípcia Orascom e as chinesas China Telecom e China Mobile.

Os problemas começam quando se analisa a dívida da Oi, sua capacidade e a forma de pagá-la. O tal Plano propõe reduzir os R$ 65,4 bilhões para R$ 29,3, com os principais credores assumindo o controle na forma de ações. 

O site G1, aliás, listou os credores por ordem de grandeza (da dívida), com nada menos do que 13 mil razões sociais; alguns casos são ridículos, como o de uma empresa de serviços de Recife a quem a Oi deve – acreditem!!! – R$ 2,69. Isso mesmo, dois reais e sessenta e nove centavos. Aqui, os peixes grandes:

Bank of New York Mellon (EUA) – R$ 18,5 bilhões

Citicorp (Reino Unido) – R$ 15,7 bilhões

China Development Bank – R$ 2,4 bilhões

Itaú (Brasil) – R$ 1,5 bilhão

Acrescentem-se os valores devidos a órgãos do governo:

Banco do Brasil – R$ 4,3 bilhões

BNDES – R$ 3,3 bilhões

Caixa Econômica Federal – R$ 1,9 bilhão

Sem falar em aproximadamente R$ 10 bilhões de multas, não pagas à Anatel. Para saldar esses quase R$ 20 bi de dívida pública, a atual direção da Oi sugere parcelamento de R$ 8,3 bilhões, a serem pagos em 20 anos, ficando o restante para ser “discutido na Justiça”. Proposta indecorosa e, é claro, recusada pela Anatel e demais entes públicos envolvidos. O blog da Teleco traz mais detalhes.

Já para a dívida internacional, a Oi aceita transferir aos credores cerca de R$ 6,3 bilhões, mandando para as calendas o restante (algo como R$ 40 bi). Se aceitasse os R$ 40 bi oferecidos pelos chineses, a empresa pagaria pelo menos a parte devida ao governo e metade do débito com os bancos. Mas, pagar? Claro que isso nem passa pela cabeça de seus executivos. 

CES 2018 dá a largada tecnológica

Tradição sagrada para quem trabalha ou consome tecnologia é a CES de Las Vegas, que este ano acontece de 9 a 12 de janeiro. A área de exposição continua sendo expandida, como vem acontecendo ano após ano, assim como a quantidade de empresas participantes e a variedade de segmentos representados no evento.

Foi-se o tempo em que as atrações se resumiam a produtos de áudio e vídeo. A edição 2018 tem nada menos do que 24 setores de exposição e demonstração, do tradicional áudio high-end ao robôs, IoT, realidade virtual etc. Sim, TVs continuam sendo o item que mais atrai visitantes, junto com os computadores de bolso, digo, os smartphones – a diferença é que um TV pode ser apreciado até de longe; enquanto ocorrem sempre na CES verdadeiras lutas corporais para colocar a mão num celular desses que parecem (mesmo) pocket-PCs.

Nas próximas duas semanas, e certamente nas subsequentes, estaremos comentando aqui os destaques da CES 2018. Lá em Las Vegas estará nosso colaborador Julio Cohen, incansável pesquisador, alimentando o hot site que estamos finalizando para levar ao ar a partir de sábado 06/01 – hospedado no hometheater.com.br

Como aperitivo, a foto acima, que mostra o TV OLED LG de 88″, o primeiro capaz de reproduzir imagens em resolução 8K. Algo como uma “Ferrari dos TVs”. 

Um ano para acelerar

Depois do período de festas, lá vamos nós para mais um ano. O desejo é que 2018 traga a todos os leitores mais notícias boas do que ruins, tanto no uso da tecnologia quanto na vida pessoal e nos destinos do país.

Sem entrar no marketing do “Avança Brasil”, campanha oficial do governo Temer, acho importante, antes de mais nada, reconhecer que o país está hoje ligeiramente melhor do que estava um ano atrás. Nada empolgante, mas agora existe pelo menos um fio de recuperação (digo, na economia). Voltaram os investimentos, reduziram-se os estúpidos índices de inflação e juros, e com isso a tendência natural é que negócios e projetos sejam retomados aos poucos, gerando empregos. Nada humilha mais um cidadão do que a falta de trabalho. Claro, foram mais de 12 milhões de vagas exterminadas no período de quatro anos; recuperá-las levará no mínimo mais quatro!

Como já aprendemos, o que está escrito acima resume as pré-condições para que voltemos a respirar sem a ajuda de aparelhos. O mercado de tecnologia, em particular, só pode ser reativado com melhores níveis de emprego e renda. E, nesse ponto, confesso-me mais otimista que a maioria das pessoas com quem tenho conversado. O fato de estarmos em ano eleitoral, sempre turbulento, não deve influir no ritmo da economia, porque criou-se um virtuoso consenso de que não há outro caminho a seguir. Seja quem for o próximo presidente, será obrigado a manter a política econômica atual.

Outra coisa, bem diferente, é aceitar o jogo político como vem sendo praticado. Me parece que a sociedade já sacou: os bilhões roubados via corrupção são exatamente os bilhões que faltam nos serviços básicos. Destruíram os sistemas públicos de saúde e educação, transformaram a criminalidade num grande negócio, e por aí vai. Este artigo, aliás, revela alguns números inquietantes. Temos em 2018 a chance histórica de tirar de cena pelo menos parte dos bandidos que assaltaram o Estado brasileiro, e assim começar a necessária faxina institucional através do voto.

Ao trabalho, portanto, que 2018 espera muito de todos nós.

Em tempo: parte das nossas ideias a respeito estão na seção Jeitinho Brasileiro. Leiam e comentem!