O primeiro acidente a gente nunca esquece

21 de março de 2018

“O carro saiu na manhã de domingo. Saiu com estrondo espalhando o panico entre os pacatos moradores da Rua de Olinda, com seus roncos, com os seus bufos e o estridor das ferragens (…). E lá ia o monstro. Quando aquillo passou pelo Cattete, um fragor espantoso, desencravando os parallelepipedos da rua, como se as proprias pedras fugissem…”

Assim seguia o texto do jornal carioca Correio da Manhã, publicado em 1906 pelo jornalista Coelho Neto, relatando o que se acredita ter sido o primeiro acidente de trânsito ocorrido no Brasil. Para quem quiser saber mais detalhes, revelo que no carro iam, a 6km/hora, o poeta Olavo Bilac e o político José do Patrocínio, que acabara de trazer o Serpollet (esta a marca da máquina, na verdade um triciclo a vapor) de uma viagem à França. A história completa está neste link
Lembrei do caso ontem, ao ver a notícia do primeiro atropelamento (com morte) registrado com um carro autônomo do Uber. Aconteceu domingo passado numa cidade do Arizona, e a imprensa mundial registrou. Da mesma forma que os jornais cariocas no início do século 20, quase todos os comentaristas internacionais condenaram a Uber pelo acidente, levando a empresa a suspender as experiências com carros sem motorista que vinha fazendo em algumas cidades.  

Nesta terça, a delegada encarregada das investigações levantou a suspeita de que “a culpa foi da vítima”. Explicou: Elaine Herzberg atravessou a rua de repente, sem olhar, e em tal velocidade que, segundo a delegada, mesmo se houvesse no carro um motorista este não teria tido tempo de frear. Ou seja, não dá – pelo menos por enquanto – para decretar falha técnica (as investigações continuam). Este vídeo, divulgado há poucas horas, levanta mais dúvidas. 

O que há, e muito por lá, como se sabe, são estatísticas. Num extenso levantamento, o site Wired revela que cerca de 40 mil pessoas morrem no trânsito dos EUA a cada ano, sendo 6 mil delas pedestres. O que dá 16 mortes ao dia. Mas carros com motorista atropelam “apenas” 1,16 pedestre a cada 100 milhões de milhas. E o carro autônomo da Uber já fez sua primeira vítima tendo percorrido apenas alguns quilômetros!!!

O que nos reserva esse futuro tão inovador? Boa pergunta, que também deve ter sido feita pelo pessoal lá de 1906. 

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