Dois olhos, duas telas e uma canção

15 de maio de 2018

Quase dois mil brasileiros entrevistados pelo Ibope em abril admitiram: estão se habituando a assistir TV e acessar a internet ao mesmo tempo. O percentual divulgado é de 95%, ou seja, 1.900 dos que responderam aos pesquisadores, sendo 81% o fazem com o celular. Eram 65% em 2015, ou seja, estão conseguindo atrair amigos e parentes para a “dupla jornada”. Quer dizer que seus olhos vivem “navegando” entre a tela grande e a pequena. Os restantes 12% utilizam seus tablets ou notebooks. 

Nunca confiei muito em “pesquisas de mercado”. Tenho a sensação de que as pessoas respondem o que lhes dá na cabeça, porque em geral não querem se dar ao trabalho de pensar. Mas, vendo os números, fiquei pensando – sem conhecer os detalhes da pesquisa – o que estará fazendo tanta gente se arriscar a envesgar os olhos entre duas telas.

Ah! Sim, a programação da TV é uma lástima, com raras exceções, mas a maioria nem se dá ao trabalho de zapear pelos 80 e tantos canais de seu combo à procura de atrações interessantes. Enfim, nem bem assistem TV nem seus neurônios – pelo visto, poucos – conseguem assimilar os zilhões de mensagens trocadas ao celular.

Receio que, para quem cultiva esse hábito, não há mais salvação: seus neurônios estão com os dias contados. Sem falar no risco de que os dois olhos se acostumem com a brincadeira e se tornem inimigos para sempre. Como naquela canção “Tanto Amar”, de Chico Buarque, que achava esquisitos os olhares da namorada: “… tem um olho sempre a boiar, e outro que agita” (aqui, a letra completa). 

Depois, vão dizer que a culpa é da tecnologia.

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