Índio quer mito. Índio quer WhatsApp

17 de agosto de 2018

Mythos, em grego, remete a fábulas e enigmas da antiguidade. Uma das traduções aceitas seria “interpretação do mundo”, no sentido de se buscar explicação divina para algo que não se consegue explicar racionalmente. Um conceito tão próximo da religiosidade (pensem nos inúmeros deuses gregos…) que foi fortemente combatido pelos grandes filósofos daquele tempo (quatro ou cinco séculos A.C.), os inventores do racionalismo.

Pois é de mitos que estamos falando aqui hoje, em plena campanha eleitoral do século 21, confirmando a suspeita do jornalista Ariel Palácios de que grande parte das mensagens circulando pela internet parecem saídas do século 12.

Militantes, essa profissão que não à tôa ganhou a corruptela “militontos”, ocupam ferozmente as redes para promover seus mitos. Sempre que os leio, me vem à mente a etimologia da palavra – militar, do latim militare, tem a ver com disciplina, rigidez, atributos exigidos de soldados, daí por que, talvez, muitos posem de valentões sob a segura proteção da internet.

OK, alguns são pagos exatamente para defender seus mitos. Mas, prestando um pouco de atenção, percebe-se que mal sabem do que estão falando. Lembram bonecos de ventríloquo, só que sem graça e mal educados. Em suas entrelinhas, ouvimos gritos que servem para encobrir a falta de ideias. A mitificação exige nunca aceitar a troca de argumentos, partir desde logo para a agressão contra quem ouse questionar a mitologia.

Historiadores bem informados dão conta de que era assim que se discutia política na Idade Média, quando reis dominavam a maioria dos países, alguns deles tiranos, e o simples ato de reclamar equivalia a uma sentença de morte. De vez em quando rolavam até umas execuções em praça pública, com o reclamante sendo queimado vivo diante da multidão radiante. Belos espetáculos!

Fast-forward uns cinco ou seis séculos e cá estamos às voltas com mitos como aqueles. O Brasil, coitado, foi tomado por colonizadores europeus que só queriam surrupiar nossos ouros e se aproveitar das índias, nuas e maliciosas. Os indígenas, por sinal, eram indolentes, não gostavam de trabalhar, preferiam curtir a natureza. Depois, vieram os escravos africanos com sua malandragem, provavelmente aprimorada no contato com leões e rinocerontes, dos quais tinham que escapar.

Saímos assim, uma mistura mal feita que só podia ter dado errado. Para piorar as coisas, fomos invadidos pela praga do comunismo, que hoje domina as escolas, a imprensa e até as igrejas. Só um mito mesmo para nos salvar.

Não deixa de ser curioso lembrar que, oito ou dez anos atrás, o mito estava do outro lado, usando barba e sendo chamado de “o cara”. Seus seguidores tinham o mesmo comportamento “mitado”: propagar as virtudes do líder, que estava tirando milhões da pobreza e iria nos redimir dos 500 anos de domínio das elites brancas.

Segundo o dicionário, mito também significa “narrativa”, ou seja, alguém cria uma explicação conveniente para determinado acontecimento e os militontos passam a usá-la como incontestável. Foi assim, por exemplo, que Lênin e Trotsky convenceram os operários russos a se matarem nas ruas; e que Hitler seduziu os alemães com a ideia de vingança contra judeus, franceses e ingleses.

Mitos foram também Mao Tsé Tung, Fidel Castro, Getúlio, Perón, Chávez e… podemos parar por aqui. Todos tiveram seus militontos, com as armas de cada época. As armas de hoje (Facebook, Twitter, WhatsApp) são mais rápidas para espalhar agressões e ameaças, até porque mitos não sobrevivem sem cultuar o medo e a violência.

Só falta voltarem com as fogueiras.

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