No Brasil, até o passado é imprevisível

26 de outubro de 2018

O título deste artigo foi tirado de uma frase famosa do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, que por sua vez se inspirou em outro economista, Roberto Campos, ministro do Planejamento durante o regime militar. Sintetiza de forma primorosa o caos político brasileiro, que, como se vê, não é de hoje. É inacreditável que os dois candidatos que chegam ao segundo turno defendam abertamente ideias do passado, a maioria das quais, aliás, não deu certo. Parece que os eleitores se encantam com a possível volta de algo que o tempo deixou para trás, numa distorção do também desgastado “eu era feliz e não sabia”.

A charge acima, de Millôr Fernandes, deve ter sido publicada nos anos 70, mas cairia bem para o momento atual, não? Talvez Millôr adaptasse sua frase para “candidato mais mentiroso ou menos mentiroso”. Chegamos à insólita situação em que dois dos piores candidatos da temporada se classificaram para a final, antecipando que a crise ainda vai durar muito, não importa quem seja o vencedor.

Apesar das muitas pressões de amigos e familiares, de um lado e de outro, decidi votar nulo desta vez, repetindo minha opção de 1989 (Collor x Lula), da qual até hoje não me arrependi. Aconteça o que acontecer neste domingo, estarei na oposição a partir de segunda-feira, o que não quer dizer que isso me deixe feliz.

Não, não acredito que com Bolsonaro voltaremos à ditadura, nem que com Haddad seremos uma nova Venezuela. Patrulheiros e militontos berram essas coisas em seus zaps, tuítes e posts, alguns de forma acintosa e mal-educada, mas isso só faz reforçar minha opção. Que esbravejem e descarreguem nas redes seus rancores e frustrações, não há o que fazer a respeito. Apenas relembrar (e isso tem de ser feito antes da votação de domingo) que há motivos mais do que suficientes para rejeitar os dois candidatos, variando apenas o grau de enjôo diante de tantas mentiras, baixarias, acusações falsas e promessas inexequíveis. A conferir a partir de janeiro:

Caso Bolsonaro seja eleito, imagino que teremos:

*Mais agressões e violência, estimuladas pelo próprio e seus prepostos, contra opositores ou qualquer um que ouse questionar suas ideias(!)

*Mais acusações à mídia, no bom estilo Trump, para fazer crer que “tudo isso daí” é culpa de jornais, revistas e emissoras – claro, menos daqueles que só elogiam (alô TV Record e Jovem Pan). Jornalistas que queiram ser independentes, e suas famílias, serão ameaçados até fisicamente.

*Substituição de velhas raposas da política por raposas novas.

*Invasões de universidades à procura de “comunistas” até debaixo das carteiras e entre as estantes das bibliotecas.

*Aumento das agressões a homossexuais, sem punição aos agressores.

*Afrontas ao Poder Judiciário, com ameaças a juízes e procuradores que insistirem em fazer cumprir a lei.

*Mais pressões contra grupos que defendem o meio ambiente, mais incentivos ao desmatamento, rejeição dos acordos internacionais nessa área.

*Menos intervenção do Estado na economia, o que por si só é bem-vindo, a não ser nas áreas em que o “interesse estratégico” fixado nas doutrinas militares soe mais alto. Interesse estratégico nem sempre é o interesse verdadeiro da população.

*Dadas as relações de amizade da família Bolsonaro com membros do governo de Israel, o Brasil deixará de ser um país neutro nos conflitos do Oriente Médio.

Caso o vencedor seja Haddad, minhas previsões são:

*Soltura imediata, via indulto, do ex-presidente presidiário, em afronta à Justiça.

*Envio ao Congresso de projeto para regulação da mídia, que voltará a ser chamada de “golpista”.

*(Re)nomeação de companheiros e apadrinhados para os cargos de confiança que se abrirão com a troca de governo.

*Tentativa de voltar com o Imposto Sindical, ou algo equivalente.

*Aumento de impostos, e não apenas para os ricos.

*Troca do comando da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República para amenizar, discretamente, esse negócio de combate à corrupção.

*Revogação, via decreto, da PEC 55 (Lei de Corte de Gastos), medida que, por si só, terá o condão de adiar boa parte dos planos de investimento estrangeiro, estendendo a recessão.

*Suspensão dos estudos sobre a reforma da Previdência, “que não está em crise”.

*Manifesto em favor do governo da Venezuela e tentativa de reativar o falecido Mercosul.

*Retomada das conversações junto aos BRICS para pressionar o governo americano. Se não houver motivos para pressão, estes serão criados.

*Uso das reservas internacionais em dólar para financiar grupos privados que apoiem o governo.

Respondam: será que estou sendo muito pessimista?

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