XX, o século que não acabou

17 de novembro de 2018

2018 tem sido um ano de grandes recordações e algumas comemorações. Dias atrás, líderes políticos de vários países se uniram para festejar os 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial – que, aliás, só se tornou “primeira” porque duas décadas depois estourou a “segunda”, bem mais letal.

Como se costuma dizer que 1968 foi “o ano que não terminou”, título do famoso livro do jornalista Zuenir Ventura, 2018 só poderia mesmo marcar o cinquentenário de fatos históricos, no Brasil e no mundo, que aconteceram durante aqueles doze meses. Exemplos clássicos são as revoltas estudantis na França, replicadas em diversos países; os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy nos EUA, onde também aconteceram os primeiros grandes protestos contra a Guerra do Vietnã; o movimento libertário na Tchecoslováquia, que ficou conhecido como “Primavera de Praga”, esmagada pelos tanques soviéticos; a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, em protesto contra a ditadura militar; o primeiro acordo de não-proliferação de armas nucleares; e, claro, a edição do AI-5 no Brasil.

Como se vê, nem tudo é para ser comemorado. Mas 2018 está nos dando também a oportunidade de festejar um evento único, pelo menos para os fãs de música clássica: os 120 anos da Deutsche Grammophone, a mais antiga e mais importante gravadora do gênero. Além de diversos eventos na Europa, China, Japão e América do Norte, a celebração inclui o lançamento de uma caixa contendo 120 CDs que trazem as melhores gravações do selo. E, mesmo sendo tantos discos, dá para imaginar como foi árduo o trabalho de seleção em meio a tamanha quantidade de obras-primas.

OK, você não gosta de música clássica e faz anos que não ouve um CD. Tudo bem. Ainda assim, a data deve ser comemorada porque não é toda hora que uma empresa que produz cultura chega aos 120 anos. E também porque a DG é um belíssimo case sobre como focar em produtos de alta (altíssima) qualidade mantendo um público fiel – e cada vez maior – no mundo inteiro, mundo esse, aliás, infestado por subprodutos, quando não mero lixo cultural. 

Na verdade, a DG – famosa pelo selo amarelo de seus discos – deve ser a gravadora que editou mais coleções até hoje. Mas foram caixas com 5, 10 ou 20 discos, CD e vinil; houve também a célebre “Coleção da História da Música”, lançada em Portugal com 100 fascículos impressos e 101 CDs, e que pode ser adquirida neste endereço pelo equivalente a 750 euros!!!

Mas esta DG120 é insuperável, até porque resgata gravações até do primeiro ano de existência (1898) do selo criado em Hannover (Alemanha) por Emil Berliner – para quem não sabe, ele próprio o inventor do gramofone, avô do toca-discos de vinil. Como é de lei na empresa, foi destacada uma equipe de especialistas para vasculhar todo o catálogo à procura de falhas técnicas e, claro, eliminá-las.

Sobre a qualidade musical, basta um briefing dos nomes incluídos: Karajan, Bernstein, Barenboim, Pollini, Kempff, Ozawa, Pavarotti, Kissin, Lang Lang, Dudamel, Abbado, Horowitz, Segovia, Rostropovich. Todos, evidentemente, executando todos os estilos, do barroco à vanguarda. 

A lista completa das gravações incluídas na caixa, mais a programação de eventos, que começou em outubro, está neste link. Veja também um vídeo especial de apresentação no YouTube.

E, para quem não consegue mais ouvir CDs, a boa notícia é que a coleção está disponível em serviços de streaming como Spotify e Google Music. 

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