A Era da Obsolescência não planejada

Por Alan Sircom* 

Até anos atrás, alguns adeptos das teorias de conspiração pareciam ter razão. Depois da reunificação da Alemanha, os historiadores foram pesquisar os arquivos da fábrica de lâmpadas Osram, onde encontraram as provas de que um cartel de indústrias havia combinado a suspensão da fabricação de lâmpadas com 2.500 horas de vida útil. A intenção era forçar sua substituição por modelos mais brilhantes, mas que duravam apenas 1.000 horas.

Esse foi o primeiro registro histórico da chamada “obsolescência programada”. E não foi o último. Fabricantes de vários setores se empenharam em criar demanda para produtos que tivessem de ser substituídos em ciclos mais curtos. Um caso notável foi o da indústria automobilística dos EUA, que nos anos 1950 passou a fazer pequenas mudanças de estilo nos carros a cada ano para convencer os consumidores a trocar seus modelos com mais frequência.

Durante algum tempo, isso funcionou. Só que as crises econômicas que vieram depois – especialmente a do petróleo, nos anos 1970 – tornaram impraticável a troca anual de automóvel. Mas foram as indústrias de informática e telecomunicações que conseguiram aperfeiçoar o conceito de obsolescência programada. Nós, consumidores, acabamos nos tornando também alegres agentes dessa política, ao concordarmos em comprar e recomendar sutis variações em produtos como tablets, smartphones e laptops, em parte devido às atualizações gratuitas.

Quando é lançado um novo celular, por exemplo, consumidores adoram comprá-lo simplesmente pela crença de que o modelo anterior poderá não ser compatível com as atualizações que virão a seguir. Já pensou ter no bolso um “dinossauro” que foi adquirido num passado distante (um ano atrás)?

Essa espiral de novos modelos e atualizações constantes não tem nada a ver com qualidade de áudio. No segmento high-end, já houve produtos imunes à obsolescência programada. Alguns deles começaram a ser produzidos 70 anos atrás, e continuam funcionando bem. Marcas como Audio Research e Musical Fidelity podem lançar um novo produto a cada dois ou três anos, mas a maioria deles permanece no mercado pelo menos por cinco anos. Fabricantes de caixas acústicas, então, não renovam suas linhas a toda hora.

Bem, isso está mudando. Com a importância crescente dos computadores em todos os ramos da eletrônica, e o uso cada vez maior de tablets e smartphones como reprodutores de música, a indústria do áudio agora tem de se mexer. Isso começa, naturalmente, com produtos digitais como os DACs USB, que estão mudando numa velocidade nunca vista antes.

A palavra “mudança”, aqui, é um eufemismo elegante para descrever o ciclo de vida útil dos produtos. Se antes o aparelho permanecia em catálogo por oito anos ou mais, hoje são cinco ou seis, no máximo. Na aparência, significa que um consumidor pode sempre estar à frente de seus amigos ao adquirir o modelo mais recente, que é compatível com o formato recém-lançado. Mas isso significa desvalorizar produtos com apenas alguns anos de uso. Aquele seu processador high-end comprado em 2011 pode ainda ter um som admirável, muito melhor que os atuais, mas vá tentar vendê-lo…

Os que defendem a teoria da conspiração acham, por exemplo, que os fabricantes é que forçam essa situação ao tentar seduzir os consumidores com ofertas tentadoras para trocar de equipamento a toda hora. Mas a realidade é mais complexa do que isso. Existem muitos fabricantes (incluindo alguns “reis” do mundo digital) que lutam para acompanhar o ritmo da demanda por especificações cada vez mais avançadas. Isso resulta numa enorme quantidade de produtos não vendidos, só porque não trazem a “última inovação”.

Acho que acabamos adotando aquela obsessão pelo upgrade que é característica da informática. Deixando de lado a questão do streaming, a verdade é que o mercado de áudio é pequeno e já maduro. Continuamos produzindo boas coisas, mas cada vez fica mais claro que são produtos de vida longa. Embora os aparelhos geralmente evoluam de uma geração a outra, essa evolução envolve uma enorme quantidade de homens-hora (ou homens-ano), num processo contínuo de design, produção de protótipos, audições e modificações.

Digamos que você seja a Apple desenvolvendo um novo chip em parceria com um determinado fabricante. Provavelmente você terá dezenas, talvez centenas de designers trabalhando juntos, de tal forma que um produto que levaria, digamos, dez homens-ano para ficar pronto pode ser lançado em questão de meses. Antes, aquela mesma equipe conseguiria criar, no máximo, um produto a cada década!

Agora, imagine que após 18 meses do produto lançado o mundo começasse a exigir sua versão 2.0. A empresa ficaria anos sem vendê-lo, até que o novo modelo ficasse pronto. Isso, mesmo considerando que aquela primeira versão era ótima! Pois é, antigamente se dizia que as coisas boas vêm para quem sabe esperar. Infelizmente, hoje essa frase parece que já não faz o menor sentido.

*Artigo publicado originalmente no site HiFi Plus. Clique aqui para ler o texto original.

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