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Oficinas congestionadas

Norberto Mensorio, presidente da ABRASA (Associação Brasileira das Empresas de Assistência Técnica de Eletrônicos), me manda link para reportagem do Estadão que mostra o congestionamento de aparelhos para conserto nas oficinas. Seria conseqüência indireta do aumento nas vendas de TVs e outros aparelhos: o usuário orça o conserto de um aparelho usado e descobre que o custo chega a 60% ou 80% do valor de um modelo novo; então, abandona o velho na oficina e nunca mais aparece. É uma forma de se livrar do chamado “lixo eletrônico”.

Mensorio, que não conheço, é dono de uma oficina na zona leste de São Paulo. Queixa-se da rápida obsolescência dos aparelhos atuais, e das dificuldades para reciclagem. Sua entidade estima que existam cerca de 2 milhões de aparelhos parados nas oficinas de todo o País, entre TVs, monitores de computador etc. Haveria, inclusive, displays de plasma, LCD e até os novíssimos LED-LCDs, cujo conserto é caríssimo. Segundo Mensorio, um complicador – que eu desconhecia – é que, enquanto os aparelhos produzidos em Manaus têm isenções tributárias, as peças de reposição não têm. “O aparelho desmontado custa de quatro a oito vezes o valor do produto montado”, disse ele ao jornal.

Resultado: o custo do conserto torna-se inviável. Vamos apurar melhor essa história. O jornal foi ouvir Helio Mattar, do Instituto Akatu, conhecido por suas ações em defesa do meio ambiente, e ele acusa a indústria de incentivar a troca indiscriminada dos aparelhos. Uma perigosa generalização: com certeza existem produtos descartáveis no mercado, mas estes nem de longe são maioria. Ou são?

Celulares inquebráveis

A próxima geração de celulares terá telas inquebráveis. Nem com marteladas você será capaz de abrir sequer uma mísera trinca! Quem promete é a Samsung, que mandou até fazer este vídeo para provar. O segredo está numa resina plástica que servirá de base (o chamado substrato) para as telas AM-OLED que a empresa promete lançar comercialmente até 2.012. Como se sabe, displays AM-OLED (OLED de Matriz Ativa) já são usados em smartphones há algum tempo. Mas o vidro que lhes serve de base é, digamos, convencional. Com a tal resina, consegue-se fabricar bases mais resistentes. Duvida? É bom levar a sério. Como comentei aqui recentemente, a Samsung encara a tecnologia OLED como “o futuro dos displays”. Futuro, no caso, é coisa para quatro ou cinco anos. Tanto que está montando na Coreia uma fábrica de US$ 2,2 bilhões exatamente para isso.

TV por assinatura: quem não quer?

Entra no ar hoje o hot site “TV por Assinatura“, produzido pela equipe da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL como complemento ao encarte especial (ao lado) que circula com a edição de agosto. Esta, por sinal, está sendo distribuída aos visitantes da ABTA 2010, principal evento do setor, que acontece esta semana no Transamerica Expo Center, em São Paulo.

Nada disso é coincidência. Como já comentamos aqui algumas vezes, o mercado de TV paga no Brasil está “bombando”, para usar uma gíria da hora. Apesar do custo da assinatura ainda ser considerado alto, nunca tanta gente adquiriu a sua em tão pouco tempo (foram mais de 1 milhão de novos assinantes só no primeiro semestre). Poderíamos ficar aqui horas discutindo as causas do fenômeno, mas acho que o mais importante é o consumidor brasileiro ter descoberto que pode se libertar da TV aberta. Claro, 8,4 milhões de assinantes (número que aparece no levantamento mais recente da Anatel) representam menos do que todo o mercado argentino, por exemplo. Se no Brasil existem cerca de 40 milhões de residências com televisão, estamos ainda longe de uma massificação da TV paga. Mas esse processo já começou.

Confesso que me surpreendi durante a pesquisa para esse trabalho, ao constatar a quantidade de canais já disponíveis na TV fechada e a variedade de conteúdos oferecidos. C0ntamos 127 canais, sendo 12 deles transmitidos em alta definição. Mesmo considerando que aí se incluem os canais públicos (TV Câmara, TV Senado e TV Justiça), um canal de televendas (Shoptime) e quatro religiosos, é seguro afirmar que a TV paga brasileira atende a praticamente todos os tipos de público.

Ou seja, já não vale mais aquela visão – que eu mesmo usei aqui no passado – de que ter um TV de boa qualidade era um luxo restrito a poucos. Com tanta coisa para assistir, um bom televisor é fundamental. Mesmo para quem detesta a TV aberta.

Google: quando tudo dá errado.

Lembram-se de quando todo mundo falava mal da Microsoft? Pois é, agora parece que o esporte preferido da moçada mais antenada é criticar o Google. Depois que a empresa foi pega em flagrante tentando dominar o universo, e com métodos nada convencionais (leia aqui), a maré virou. E começou uma fase de problemas que, pelo visto, não tem fim.

Nas últimas semanas, a Google Inc. voltou atrás em seu projeto de lançar um smartphone próprio, o Nexus, pessimamente recebido pelos especialistas e principalmente pelas operadoras – a ideia era vendê-lo diretamente ao consumidor, pelo próprio site do Google. Também foi engavetado o projeto Google Wave, lançado em maio de 2009 como o “e-mail do futuro” e no qual muitos embarcaram. Outro erro estratégico grave – típico de alguém quem se julga superior a seus semelhantes – foi a tentativa de acordo com a operadora Verizon, segunda maior dos EUA, para obrigar os produtores de conteúdo a pagar para aparecerem no site de buscas mais consultado do mundo. Pegou mal, muito mal.

Agora, o Google está sendo humilhado publicamente pelos governos da Alemanha e da Coreia do Sul, que simplesmente mandaram a polícia invadir as sedes da empresa em Berlim e Seul. Motivo: invasão da privacidade dos usuários. Aqui, não se costuma dar muita importância a isso, mas na Coreia é crime utilizar dados pessoais de alguém sem autorização. Só a Justiça pode fazê-lo. Pois o pessoal do Google fez exatamente isso. Agora, teve de pedir desculpas.

Na Alemanha, o problema é o StreetView, programa associado ao Google Maps que filma determinados locais de uma cidade para facilitar a localização. Há tempos que grupos de defesa da privacidade vêm condenando essa ferramenta, com um argumento difícil de contestar: “se eu não quero que filmem minha casa, esse é um direito meu”. Grupos assim existem não só na Alemanha, mas também na Itália, Austrália, EUA e na própria Coreia, só que os alemães estão em vias de obter uma proibição formal da Justiça.

É o que dá querer dominar o mundo!

TV Digital no celular é grátis!!!

“Teles lançam TV digital no celular a R$ 30 por mês”, diz a manchete da Folha de São Paulo hoje. O leitor menos avisado – a maioria – deve achar um grande negócio, sem saber que assistir aos programas das emissoras abertas pelo celular (ou pelo notebook, ou vários outros dispositivos portáteis) é algo que muitos já fazem no Brasil desde o ano passado, em sem pagar nada. Felizmente, o texto do excelente repórter Julio Wiziack explica a coisa direitinho; o erro foi de quem fez a tal manchete.

A novidade é que as grandes operadoras de celular – Oi, Tim, Vivo e Claro – chegaram à conclusão de que o conteúdo da televisão pode ser um forte atrativo aos usuários de celular. E prometem lançar até outubro esse serviço, com tarifas na faixa de R$ 30 mensais. Prometem, não: quem está divulgando isso é a M1nd, empresa de software que tenta vender a novidade para as operadoras. A Oi, por exemplo, já desmentiu em nota oficial. De qualquer forma, o que estaria disponível via celular não é o conteúdo das redes abertas, e sim o da TV paga, mais precisamente 30 canais escolhidos pelas operadoras, incluindo BBC, Bloomberg, Discovery, Cartoon e outros.

A plataforma da M1nd permite oferecer até pay-per-view e video-sob-demanda (VOD) pelo celular. Vamos ver como funciona. Só espero que a introdução dessas novidades não congestione ainda mais as redes, que já funcionam de modo precário. Só um comentário adicional: se as teles investissem na melhoria dos serviços uns 10% do que gastam em propaganda, teríamos as conexões mais eficientes do mundo.

PlayStation 3, agora sim, aqui!

Muitos vão dar risada, mas o fato é que a Sony do Brasil finalmente decidiu lançar aqui o PS3, com tudo a que o fã de videogames tem direito. Já pode ser adquirido na loja virtual SonyStyle e em breve estará nos principais revendedores da marca. Estão à venda 23 jogos, e logo chega a versão 3D do hit Gran Turismo 5. Breve também virão as atualizações de firmware, um segredo estratégico quando se trata de games.

E o melhor, pelo que me disse Lucio Pereira, responsável pelo marketing da empresa: foi montado um detalhado plano de suporte ao consumidor e às revendas do PS3. Nas lojas, haverá aparelhos preparados para que o usuário experimente um jogo antes de adquiri-lo. O pessoal do SAC recebeu treinamento específico para responder as questões levantadas pelos usuários. O console tem garantia de um ano – claro, para quem comprá-lo de uma revenda autorizada brasileira – e existe uma preocupação de fazê-lo chegar a todas as regiões do País, inclusive aquelas onde nem o contrabando chega atualmente. Outro ponto que preocupa são as variações de voltagem, comuns no interior, que já detonaram muitos aparelhos importados. Os novos terão componentes com certificação do Inmetro.

O plano inclui ainda liberar no Brasil o acesso à PlayStation Network, rede mundial onde os PS3-maníacos podem trocar informações e até jogar partidas virtuais. Só não há, por ora, prazo para essa que é uma operação complicada.

Pergunta fatal: quanto vai custar o PS3 oficial? R$ 1.999. É muito? Sim, quatro ou cinco vezes mais do que no contrabandista mais próximo. Você escolhe.

Banco dos Grandes Grupos

Sim, proponho aqui a mudança de sigla: de BNDES para BGG, ou algo parecido. Levantamento do repórter Ricardo Balthazar, da Folha de São Paulo, mostra que 57% dos empréstimos do banco (que só existe para financiar projetos de desenvolvimento) são direcionados para alguns dos maiores grupos econômicos do País. A saber: as construtoras Andrade Gutierrez, Camargo Correia e Odebrecht; os conglomerados Vale, Votorantim e JBS (Frigoboi); as multinacionais Alcoa e GDF Suez; e as estatais Petrobrás e Eletrobrás. Tudo somado, esses grupos levaram mais da metade dos R$ 168 bilhões que o BNDES emprestou entre junho de 2008 e junho de 2010. Bonito, não?

Podemos voltar ao velho bordão: “Nunca antes neste país…” Os números estão disponíveis no próprio site do banco, que com a desfaçatez típica de quem está no poder justifica os empréstimos alegando que os grupos favorecidos são os que mais investem. Simples assim. João Carlos Ferraz, diretor de planejamento do BNDES, nem deve ter ficado vermelho quando disse ao jornal: “O capitalismo brasileiro está amadurecendo”.

É bom rememorar. Desde 2007, o governo decidiu reforçar o caixa do BNDES repassando recursos do Tesouro, ou seja, aquilo que todos nós pagamos em impostos e tributos. Só no ano passado foram R$ 180 bilhões. Para fazer isso, foi preciso emitir títulos do Tesouro, pagando juros altíssimos, o que contribui para aumentar os juros da economia em geral. Só que o BNDES empresta aos grandes grupos a juros subsidiados, ou seja, a diferença é um prejuízo incalculável, que nós pagamos!

Quando se analisa em detalhe a lista dos beneficiados, encontram-se os suspeitos de sempre: Oi, Light, EBX (empresa de Eike Batista, o homem mais rico do Brasil), CPFL, Usiminas – todas pertencentes ou ligadas aos grupos citados acima. E todas na lista de doadores de campanhas políticas igualmente suspeitas. Para explicar por que isso acontece, recorro aqui, mais uma vez, a um dos jornalistas mais competentes (e independentes) do País, Celso Ming: “O BNDES está distribuindo financiamentos a juros subsidiados com recursos levantados pelo Tesouro com aumento de dívida – e isso repete prática condenada do tempo do governo militar”. E mais: “O BNDES fornece financiamentos quase sempre para quem pode levantar recursos no exterior. Elege os beneficiários e sabota a livre concorrência”.

Até quando?

Convergência na TV paga

Infelizmente, devido a um pequeno problema de saúde não consegui ir ontem à abertura da ABTA, feira e congresso sobre TV por assinatura que acontece em São Paulo. Pena. Sei que muita coisa interessante está sendo mostrada e estava curioso para assistir a alguns dos debates programados.

Das grandes operadoras, somente a Sky não participa – a empresa não gostou da posição assumida pela ABTA em relação ao projeto-de-lei 116 (ex-PL29), que abre o mercado para as teles e institui cotas para conteúdos nacionais nas grades de programação. Na verdade, a entidade – que representa cerca de 80 operadoras e/ou programadoras, grandes e pequenas – chegou à conclusão de que não valia mais a pena brigar contra o projeto, que está praticamente aprovado por pressão dos produtores de cinema e vídeo, cujo lobby é forte no Congresso.

Luiz Eduardo Baptista, o “Bap”, presidente da Sky, também não gostou da reação tímida contra a ideia da Anatel de abrir novas licenças para TV por assinatura sem cobrar quase nada dos interessados. Ele é um dos que acham a medida injusta, já que as atuais operadoras tiveram que pagar caro para entrar nesse mercado. Queria que estas fossem mais duras contra o governo.

Enfim, é uma longa discussão, que deve estar fervendo lá no Transamerica Expo Center, onde acontece o evento. Veja aqui algumas das novidades que estão sendo apresentadas.

A IFA e a vida no futuro

No próximo dia 3 de setembro, começa a edição 2010 da IFA, em Berlim. Este ano será especial, porque o evento comemora seu 50° aniversário. Aumentou de tamanho e está prometendo muita novidade. Vamos ver. Soube que estão adiantados os estudos sobre TV 3D sem óculos, e essa será com certeza uma das atrações.

Um detalhe interessante sobre a IFA é o apoio do governo alemão, não apenas um apoio institucional, mas com dinheiro mesmo. No ano passado, com a recessão, o evento só aconteceu porque os principais fabricantes foram “convencidos” com alguns benefícios fiscais. Este ano, parece, isso não será necessário: a Alemanha foi o primeiro país europeu que saiu da crise e está até financiando a recuperação de outros, como a pobre Grécia. Sem falar que continuam investindo pesado na restauração da antiga Alemanha Oriental, que foi à falência na época do comunismo.

O governo alemão pretende usar a IFA para demonstrar a força da recuperação econômica do País, com grandes estandes montados pelos fabricantes locais. Ao contrário da CES, por exemplo, esse é um evento aberto ao público, que poderá ver protótipos de aparelhos enquadrados nas novas regras de consumo de energia determinadas pelo Ministério de Economia e Tecnologia (sim, lá as duas áreas são interligadas, o que por si só explica a importância que se dá à inovação tecnológica – quase igual aqui, não?).

Por influência do governo, desde o ano passado os fabricantes alemães de eletrodomésticos aderiram em peso à IFA, tentando seduzir os consumidores com novidades como máquinas de lavar roupa com painéis touchscreen e geladeiras com displays de acesso à internet. Pode não ter nada a ver com a nossa praia, mas o fato é que as vendas desse tipo de aparelho aumentaram no último Natal – e olhem que o alemão está longe de ser consumista como o americano!

Mas o que estou mais curioso para ver na IFA 2010 é o pavilhão chamado TecWatch, com 2.500 metros quadrados de puro futurismo. Ainda há muitos segredos, mas descobri que vão montar estandes onde o público poderá, digamos, “experimentar o futuro”. TVs 3D (sem óculos) e videowalls touchscreen estarão por todo o espaço, prometem os organizadores. Tomara.

A mina de ouro da banda larga

Cada vez fica mais evidente que um grupo dentro do governo descobriu o mapa da mina da banda larga. Uma mina dourada. Em evento na semana passada, o presidente da Telebrás, Rogerio Santanna, apresentou detalhado diagnóstico sobre o setor, acusando frontalmente as operadoras. Li no site Pay-TV, pela enésima vez, a frase: “A banda larga brasileira é lenta, cara e concentrada”. Algo que dezenas de especialistas já disseram, muito tempo atrás. Agora, quem diz é Santanna, escolhido “criteriosamente” pelo presidente Lula para presidir a empresa que irá tocar o Plano Nacional de Banda Larga.

Santanna repassou dados mais do que conhecidos, do tipo: mesmo descontando os impostos, as tarifas cobradas pelas operadoras brasileiras são as mais altas do mundo; ou 33% das conexões oferecem apenas velocidade de até 256Kbps; ou ainda: as operadoras não investem como deviam em banda larga, porque as margens de lucro nos serviços de voz são muito mais altas.

Mesmo com todos esses dados, o presidente da Telebrás insiste que a banda larga pode dar lucro e incentivou representantes das pequenas operadoras, presentes ao evento, a apoiar o PNBL. É quase como querer acreditar em duendes. Quer dizer então que teremos banda larga rápida, barata e ainda por cima lucrativa? Alguém acredita?

Desconfio que esse pessoal andou fazendo uma conta bem peculiar. Posso estar enganado, mas os 5 a 7 bilhões de reais que, pelo discurso oficial, serão injetados pelo governo na Telebrás (via BNDES) cobrem com sobras o custo de reativação das redes de fibra óptica existentes. A empresa promete cobrar das pequenas operadoras o valor de R$ 230 para cada link de 1Mbps, deixando a elas a tarefa de levar a conexão até a casa do assinante (a chamada “última milha”). Para trabalhar com 1Gbps, por exemplo, cada operadora desembolsaria então R$ 230 mil. Se tivermos 500 operadoras regionais (há mais de mil pedidos na Anatel), a Telebrás fatura mais de R$ 100 milhões.

Agora o lado do consumidor. A promessa é vender conexões de 512Kbps por R$ 35. Com 1Gbps, atende-se dessa forma cerca de 2.000 domicílios, perfeitamente aceitável para um município de, digamos, 50 mil habitantes (ou 10 mil residências). Se cada assinante pagar R$ 35, a operadora receberá a cada mês em torno de R$ 70 mil. Em alguns meses estará quebrada, pedindo ajuda à própria Telebrás. Que poderá tomar posse da “última milha” e fazer com ela o que bem entender – inclusive vender para as grandes operadoras.

Será que fiz a conta certa?

GPS pendurado na cabeça

Dizem algumas pesquisas que está aumentando o número de pessoas dependentes da internet (aquelas que varam a noite navegando…) Já não é mais novidade também que um dos males detectados pela medicina neste início de século é a dependência do celular. Já vi, com meus próprios olhos, gente andando com dois ou três aparelhos; alguns são tão habilidosos que conseguem falar ao mesmo tempo em dois telefones – em três, nunca vi (ainda). Ah! Sim, tem também o “GPS-dependente”, aquele que ficou tão deslumbrado com o aparelhinho no painel do carro (deve ser a voz da mocinha sensualmente dizendo “vire à esquerda”, “dobre à direita”) que usa o brinquedo até para ir trabalhar.

Não se assustem, essas dependências são café pequeno, se comparadas a algo que acaba de ser exibido – adivinhe onde – no Japão. O evento Wireless Japan 2010, realizado no mês passado, mostrou o protótipo do primeiro óculos com GPS, como se pode conferir neste vídeo. O brinquedo ganhou o sugestivo apelido de WPNS (Wearable Personal Navigation System). Segundo os técnicos da Universidade de Eletrocomunicações de Nakajima, os tais óculos são equipados com minúsculos leds na parte interna da haste, que atuam sobre o campo de visão periférico do usuário. Os leds estão acoplados a um conjunto óptico-magnético que inclui um sensor de direção. Ao sair de casa, você “diz” a seu óculos – exatamente como alguns fazem hoje com seus carros – aonde deseja ir, e o tal sensor irá orientar seu caminho. E você nem precisará olhar em tela nenhuma: é só ficar atento às luzinhas dentro do óculos.

Gostei da demonstração. Só não ficou claro o que acontece o distinto cavalheiro estiver, ao mesmo tempo, usando um óculos desses e falando em dois celulares. Acho que, nesse caso, seria melhor deixar programados os tais leds para levar o cidadão ao hospício mais próximo.

“Vai estudar, seu sacana!”

Leandro parece ser um menino pobre da periferia do Rio de Janeiro. Mais um, como milhões. Estuda e tenta ajudar a família. Gosta de jogar tênis, mas onde mora não há quadras abertas à população. Gostaria também de fazer natação, mas as piscinas públicas do bairro vivem fechadas. Na semana passada, Leandro ganhou um belo presente. Numa cena única, foi ofendido conjuntamente pelo presidente da República e pelo governador do Estado. Alguém gravou tudo, e o vídeo está no UOL. Assista aqui.

Vale a pena ver para entender um pouco melhor do que é feita a mente dos políticos que mandam no Brasil. Para Lula, o menino não deveria jogar tênis, que é “esporte da burguesia”. Sem saber que estava sendo gravado, o presidente irrita-se com o garoto. E, ao descobrir que nem natação Leandro pode praticar, irrita-se mais ainda com o governador e assessores, chamando atenção para o “custo político” da notícia, caso chegasse à imprensa. O governador, por sua vez, agride verbalmente o menino indefeso.

Não há o que comentar sobre a opinião do presidente sobre o esporte. É mais uma de suas inúmeras abobrinhas que só servem para torná-lo ainda mais ridículo; a propósito, é perfeito o comentário do ex-tenista Fernando Meligeni: “Depois, quando os burgueses vencem torneios, eles (os políticos) querem sair na foto”. Agora, quanto ao tratamento dado às crianças, o vídeo confirma que, apesar dos discursos oficiais, chegamos ao fundo do poço em matéria de sensibilidade social. A única esperança é que garotos como Leandro consigam crescer como pessoas de bem, pratiquem o esporte que quiserem e aprendam a tratar os políticos como eles merecem: como todo o desprezo possível.

Jornada de trabalho zero!

Estou sempre aprendendo com o professor José Pastore, provavelmente a maior autoridade brasileira em leis trabalhistas. Seu último artigo no Estadão trata de mais um “título” conquistado pelo Brasil: o de campeão mundial em processos trabalhistas. Segundo ele, são mais de 2 milhões tramitando atualmente nos diversos tribunais – e o que não falta neste país é tribunal, acrescento eu.

E por que esses processos não andam? Os juízes, mesmo que tivessem a maior boa vontade (e muitos certamente têm), não conseguiriam destrinchar uma legislação que parece ter sido feita de propósito para complicar. Diz o prof. Pastore: no Brasil, existem na área trabalhista 67 artigos constitucionais, 922 artigos da CLT, 295 súmulas e 28 orientações do TST (Tribunal Superior do Trabalho), 145 do STF (Supremo Tribunal Federal), 119 normas, 193 artigos do Código Civil, mais milhares de decretos, portarias etc. O artigo 73 da CLT, por exemplo, chega a ser ridículo: diz que a hora noturna não tem 60 minutos, mas 52 minutos e 30 segundos!!!

Pior: os projetos que correm no Congresso (são mais de 1.000) tratam exatamente de aumentar a quantidade de leis, inclusive prometendo ao trabalhador coisas impossíveis. O prof. Pastore acha que faz parte da cultura do brasileiro acreditar que, quando algo é colocado na lei, está garantido o seu cumprimento. “Se assim fosse, não teríamos 50% dos brasileiros trabalhando na informalidade, sem nenhuma proteção trabalhista ou previdenciária”, diz ele.

Pois é. E os políticos aproveitam, especialmente em época de eleição, como agora, para caprichar na demagogia, criando projetos que eles mesmos sabem serem inviáveis, só para agradar os ingênuos eleitores. Um desses projetos é o que reduz a jornada semanal de trabalho para 40 horas, sob o argumento de que isso geraria 2 milhões de novos empregos. As centrais sindicais tiram esses números da cartola, sem qualquer base. Pesquisando o assunto em mais de 20 países, o prof. Pastore descobriu que em nenhum lugar onde houve redução na jornada conseguiu-se mais empregos.

Aliás, brilhantemente, ele lembra que se fossem aprovadas todas as propostas que circulam no Congresso com a pretensa intenção de defender o trabalhador, chegaríamos à jornada de trabalho zero e à remuneração infinita.

TV paga em discussão

E então, vamos ou não ter novas operadoras de TV a cabo? Empresas que adquiriram as licenças atualmente em vigor são totalmente contra o projeto da Anatel de acabar com as licitações, o que na prática significaria entregar de graça as novas licenças. O assunto chegou ao Congresso Nacional, onde há vários donos de emissoras e operadoras, e todos prometem barrar as intenções da Anatel. Esta, mais uma vez, revela total falta de sintonia com o mercado – ou com parte dele.

Na próxima semana, vamos ter oportunidade de ouvir todos os envolvidos, durante o Congresso da ABTA, que acontece entre os dias 10 e 12 em São Paulo. Será muito importante saber melhor o que pensa, por exemplo, o conselheiro João Rezende, que dentro da Anatel defende há muito tempo a abertura de novas licenças. Rezende afirmou ao site Tela Viva que existem atualmente apenas 262 operações de cabo, e que a maioria delas nada custou às operadoras. Ou seja, não há do que reclamar. Será mesmo?

Rezende fará uma palestra seguida de debate a respeito do tema.

Por sinal, essa edição da ABTA coincide com uma série de novidades acontecendo no setor de TV por assinatura. A intenção da Embratel de comprar a Net, por exemplo, muda completamente o mercado. Com certeza será tema de discussões. Outro será a proposta da Anatel (sempre ela) de destinar apenas 70MHz do espectro para as operadoras de MMDS, dando assim prioridade às operadoras de celular. Há quem suspeite de favorecimento aí.

Enfim, teremos uma semana cheia. Mais detalhes aqui.

Os segredinhos do HDMI

O amigo Cristiano Mazza, da Discabos, é provavelmente a pessoa que mais entende de HDMI no Brasil. E, como essa conexão está se tornando onipresente, tudo que pudermos saber a respeito é importante. Sua empresa acaba de lançar o primeiro cabo HDMI brasileiro já dentro da nova norma High Speed 1.4, com canal de retorno de áudio. Esse provavelmente se tornará o padrão para equipamentos high-end em breve.

Mas, analisando o comportamento dos cabos HDMI convencionais, na prática, Cristiano vai descobrindo os segredos dessa tecnologia. Segundo ele, um problema relatado por muitos usuários de TVs é uma falha de imagem que se deve a erro de comunicação entre o display e a fonte de sinal (que pode ser um player ou um receptor de TV paga). Acontece, por exemplo, quando se liga um player Blu-ray a um receiver e este ao TV: a imagem sai distorcida, ou às vezes até some completamente; troca-se um dos aparelhos e o problema desaparece.

Segundo Cristiano, um dos pinos do conector HDMI tem a função de identificar as características do display (processamento de cores, freqüência, resolução etc). Se essa identificação não é precisa, surge a falha. Ainda não se conseguiu encontrar a causa, até porque já aconteceu com várias marcas diferentes de TVs e receivers. Diz o Cristiano que sua empresa continua pesquisando o assunto. Vamos esperar pelos resultados. O site da Discabos, aliás, traz vários tutoriais para quem quer se aprofundar nessa tecnologia.

Mais uma curiosidade: esta semana, Cristiano postou no site um vídeo que mostra a montagem de um cabo RF em tempo real. Vale a pena assistir.

Sony corre atrás do 3D

Depois de ver as coreanas Samsung e LG saírem na frente com os TVs 3D, a Sony tomou a decisão de recuperar o terreno perdido. As mudanças na estrutura de comando da matriz, a partir de Tóquio e com reflexos em vários países (caiu inclusive o presidente da divisão de consumo nos EUA), retardaram o processo de colocar em prática uma estratégia que o chefão Howard Stringer já havia anunciado um ano atrás, na IFA: 3D é prioridade absoluta para todo o grupo.

Esta semana, no evento PhotoImage, em São Paulo, pudemos ver de perto uma parte das novidades. As mais atraentes têm a ver justamente com essa prioridade. Os novos TVs de LED-LCD (na foto, um deles em demonstração), em tamanhos de 46″, 50″, 52″ e 60″, estão chegando às lojas ainda este mês, com alguns diferenciais em relação à concorrência. Um painel de sensores 3D logo abaixo da tela envia sinais aos óculos ativos, que têm dois polarizadores, permitindo que o usuário veja a mesma imagem quando se movimenta pela sala; ou que várias pessoas assistam juntas com a mesma qualidade de vídeo. Sem dúvida, uma vantagem sobre os modelos já lançados, em que notamos a mudança de referência do efeito 3D dependendo do ângulo de visão. De qualquer modo, estamos aguardando a chegada de um desses TVs, para fazermos o teste na prática.

Outra novidade da Sony nessa área é a linha de câmeras compactas que gravam em 3D. Segundo Lucio Pereira, diretor da empresa, é o que falta para o consumidor ter a percepção completa do benefício que essa tecnologia representa. O que isso quer dizer? Mesmo com a carência de filmes, que só deve se resolver no ano que vem, o próprio usuário já pode criar seus conteúdos em 3D e exibi-los num TV como esses. As câmeras são minúsculas e facílimas de operar.

Quanto aos filmes, o que se sabe é que a Sony Home Video programa alguns lançamentos para novembro. Antes disso, deve sair um Blu-ray especial da Fifa sobre a Copa do Mundo, aliás gravado com câmeras Sony. Fica faltando apenas a adesão das emissoras para levar ao ar conteúdo 3D de qualidade – o que vimos até agora, no caso da RedeTV, nem pode realmente ser chamado de 3D.

Briga no mundo dos chips

Mais um exemplo a ser olhado com carinho quando se trata de questões como monopólio, qualquer que seja o mercado. No Brasil, levam-se anos para dar um parecer sobre a fusão entre duas empresas que possa gerar danos à concorrência. É bom lembrar os casos Ambev (Brahma+Antártica), Sky+DirecTV e, mais recentemente, Sadia+Perdigão.

Nos EUA, a Federal Trade Commission – equivalente ao nosso CADE – abriu inquérito em dezembro contra a Intel, acusada de práticas monopolísticas contra as concorrentes AMD, Via Technologies e NVidia. A FTC investigou o caso e descobriu provas de que a empresa realmente tentara forçar clientes de porte (Dell, HP, IBM e Acer) a comprar seus chips; no caso da Dell, houve até um suborno de US$ 100 milhões! Nesta quarta-feira, menos de oito meses depois, saiu o veredicto: a Intel deve parar imediatamente com essas práticas, caso contrário pagará multa de US$ 16 mil para cada denúncia que a FTC receber. E deverá liberar seus concorrentes para fabricarem microprocessadores compatíveis com seus chips.

Antes dessa decisão, a Intel já havia concordado em pagar US$ 1,25 bilhão de indenização à AMD, além de mais US$ 1,45 bilhão à União Europeia, que também a havia processado. Falta ainda um acordo com a NVidia, mas agora este é tido como certo. O principal já foi conseguido: “Tínhamos que garantir um ambiente propício à competição”, disse o presidente da FTC, Jon Leibowitz. Veja aqui a íntegra da sentença, conforme está no próprio site da Intel.

Embratel deve comprar a Net

O movimento anda intenso entre os executivos do setor de telecom no mundo inteiro. E o Brasil está no centro de quase todas as conversas. Todo mundo está enxergando o enorme potencial do mercado brasileiro. A francesa Vivendi comprou a GVT e prepara grandes investimentos em banda larga e TV paga. A espanhola Telefonica fez de tudo para comprar a Vivo, isto é, a parte que pertencia à Portugal Telecom. Esta, por sua vez, resolveu o problema do governo brasileiro ao adquirir a Oi. Hoje, saiu a notícia de que a britânica Vodafone, segunda maior operadora do mundo, fará uma grande oferta pela Tim Brasil. E o mexicano Carlos Slim, apontado como o homem mais rico do mundo atualmente, bateu o martelo para que a sua Telmex (dona da Embratel) compre 100% das ações da Net. A oferta, de R$ 4,57 bilhões, é praticamente irrecusável pela Globo, dona da maior parte da operadora.

Esse último negócio ainda depende da aprovação do projeto 116, que está em fase final de discussão no Congresso, e que libera a participação das teles no mercado de TV paga. Mas, com tantos interesses em jogo, dificilmente deixará de ser aprovado. Na teoria, é bom para todo mundo: teremos vários grandes grupos competindo, em condições de investir para melhorar o serviço, e a Globo volta a ser apenas fornecedora de conteúdo.

Mas vamos ver se a história segue mesmo esse roteiro.

Em defesa da TV Cultura

Mais um endereço para você anotar com carinho: o blog do jornalista Daniel Castro, especializado nos bastidores da televisão brasileira. Castro comandou na Folha de São Paulo, durante anos, uma coluna que cansou de dar furos sobre o assunto. E, em seu blog, acaba de dar mais um: a Fundação Padre Anchieta, que dirige a TV Cultura-SP, prepara um plano de redução de custos que inclui a demissão de centenas de funcionários. Fala-se em cortar 1.400 dos atuais 1.800, o que a emissora desmente.

O presidente da Fundação, João Sayad, era secretário de Cultura e “decidiu” assumir o cargo com as bênçãos do então governador José Serra; já foi também secretário do Ministério da Fazenda, na época de Sarney, e co-autor do fatídico Plano Cruzado, nos anos 80; depois, foi secretário da ex-prefeita Marta Suplicy. Na época de sua escolha para dirigir a Fundação, demonstrou boas intenções. Mas agora parece mostrar sua verdadeira face. Soltou um comunicado dizendo que a Cultura é uma emissora que “perdeu qualidade, audiência, tornou-se cara e ineficiente”. OK, até aí nenhuma novidade, mas qual é o interesse em divulgar isso em nota oficial? Seria “queimar” os atuais funcionários para justificar futuras demissões? Se for, além de desrespeito, é uma tática administrativa fascista.

Que a Cultura não é mais a mesma, todo mundo sabe. Mas que tornou-se cara e ineficiente, é questionável. Caberia a um administrador competente resolver isso escolhendo pessoas preparadas, como se faz em qualquer empresa. Não espalhando terrorismo. Está na hora de se criar em São Paulo um movimento do tipo “Salvemos a TV Cultura”, um patrimônio da população. Que não pode ser confundido com patrimônio “do Estado”.