About Orlando Barrozo

Author Archive | Orlando Barrozo

TV paga, com cara de novela

Ainda está para ser explicado por que a Anatel decidiu, quase que de repente, acabar com as licitações para novas operações de TV por assinatura, conforme comentamos recentemente. Se foi ou não uma boa medida, só o tempo dirá. Mas já está provocando reações, algumas iradas, que devem crescer mais ainda até meados de agosto, quando acontece o congresso da ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura), em São Paulo.

Nesta terça-feira, a TV Bandeirantes levou ao ar extensa reportagem questionando o fato de que as novas outorgas de TV paga serão concedidas praticamente sem custo aos interessados (na verdade, o custo será de R$ 9 mil). A emissora alega que isso foi feito apenas para beneficiar as operadoras telefônicas, loucas para entrar no negócio de televisão. Os números apresentados de fato são espantosos: com as outorgas já existentes, que datam do final dos anos 90, a Anatel faturou R$ 932 milhões (sem correção); com as novas, serão apenas R$ 9 milhões, a se confirmar o número de aproximadamente 1.000 pedidos de outorga. A Band classifica isso de “golpe contra o contribuinte” (assista aqui ao vídeo).

Embora só a Band tenha veiculado o assunto, tem-se a impressão de que essa é a posição de todas as emissoras, pois a Abert (que as representa) endossa as críticas à Anatel. Já foi acionado um esquema político de pressão, através do senador ACM Neto, que também é dono de uma operadora, a Bahiasat. Ele e outros senadores enviaram documento à Agência questionando a medida, que pode ainda ser contestada na Justiça, que ameaça virar mais uma novela do setor – como, aliás, ilustra bem este artigo.

Diante de toda a polêmica, a Anatel distribuiu comunicado – a famosa “nota de esclarecimento” – em que não contesta os números da Band. Diz apenas que a intenção é “ampliar a competição”. E cita os benefícios que viriam: geração de empregos, redução de desigualdades regionais, desenvolvimento tecnológico, suporte à banda larga e aumento da receita de tributos. Ótimo. Deveriam só explicar por que, após mais de dez anos, só agora decidiram se preocupar com esses detalhes.

Não é estranho?

Quem quer um emprego desses?

Deve ser coincidência. Duas das maiores corporações do setor de tecnologia – a americana IBM e a finlandesa Nokia – estão à procura de um CEO. Coisa pouca, algo aí em torno de 1 milhão de dólares por mês. Os dois atuais – respectivamente, Samuel Palmisano e Olli-Pekka Kallasvuo – estão de saída. Sem dúvida, é constrangedor. Mas, como é comum nesse nível de executivo, as perdas são fáceis de esquecer. Cada um leva compensações da ordem das dezenas de milhões, e vão ficar felizes em alguma praia deserta.

Só para recapitular: CEO (Chief Executive Officer), nas grandes empresas, é quem manda prender e manda soltar. Escolhido pelos acionistas, é o homem encarregado de dirigir os outros executivos, definir as estratégias de longo prazo e garantir bons resultados. E, claro, responde também quando os números não são os esperados. No caso da IBM, baseio-me no que diz o The Wall Street Journal: Palmisano não está oficialmente deixando o cargo, mas os números de vendas não estão agradando. Quatro novos vice-presidentes foram nomeados esta semana, e em Wall Street o comentário é de que um deles irá herdar o cargo de chefão.

Já a situação da Nokia é bem diferente. Maior fabricante de celulares do mundo, a empresa patina numa área que é crucial, a inovação. E aí é preciso entender como funciona essa máquina diabólica que engole empresas e executivos, chamada mercado. Com 40% das vendas mundiais, a Nokia teria tudo para dormir tranqüila. Mas não é o que ocorre quando se tem concorrentes como Apple e Google, duas das empresas mais inovadoras e agressivas de todos os tempos. Vejam estes números, também tirados do WSJ: no último trimestre de 2009, a Nokia vendeu 108,5 milhões de celulares, enquanto a Apple vendeu 7,4 milhões. No entanto, nos mesmos três meses, a empresa da maçã teve lucro de US$ 1,6 bilhão, enquanto a finlandesa ficou com “apenas” US$ 1,1 bi. Apenas!!!

É isso. A Nokia vende mais aparelhos de baixo custo e, sem inovar, corre o risco de perder mercado nos próximos anos. Por isso é que o sr. Kallasvuo está ameaçado. Alguém se candidata?

Quais são os melhores TVs

Num levantamento recente, pesquisamos as várias marcas de TVs disponíveis no mercado brasileiro e comparamos suas características. Como essa é uma pergunta que os leitores vivem fazendo, cabem aqui algumas considerações sobre esse que é, talvez, o lado mais visível da tecnologia atual.

Primeiro, uma constatação: ao contrário do que acontecia anos atrás, o consumidor brasileiro hoje tem acesso à tecnologia mais avançada, quase no mesmo momento em que o europeu ou o americano (o japonês e o coreano são outra história…) Uma comparação com lojas dos EUA mostra que a maior parte dos produtos à venda são os mesmos. A diferença está na variedade: enquanto lá existem dezenas de marcas, centenas de modelos, aqui o mercado é muito mais concentrado. O que, com certeza, contribui para termos também preços, digamos, menos convidativos.

Deixando de lado a questão dos preços (que têm a ver com outros fatores), vê-se que os modelos mais avançados na Europa e nos EUA são também os que se encontram nas lojas daqui. Exemplos:

* Plasma Panasonic NeoPDP de 58″, com 4 entradas HDMI e acesso para cartão de memória SD;

* LED-LCD Samsung de 55″, com freqüência de 120Hz e também 4 entradas HDMI;

* LED-LCD Sony de 60″, similar ao Samsung e acrescentando sensor de presença (o TV apaga a tela depois de alguns minutos sem ninguém na sala).

Há ainda o caso dos TVs Time Machine, da LG, que só são vendidos no Brasil porque, segundo a empresa, o consumidor daqui gosta mais de gravar. A Samsung também está lançando TVs com gravador embutido. Por enquanto, não foram lançados aqui modelos com freqüência de 240Hz (estão previstos para setembro), muito menos os de 480Hz, que realmente fazem diferença na qualidade de imagem. Nem o LED-LCD da Panasonic que tem entrada para iPod. Mas acho que é questão de tempo.

De qualquer maneira, aí estão alguns dos melhores TVs do mundo.

Para pensar com carinho

A propósito dos temas corrupção e eficiência, deixo aos leitores o link para um artigo reproduzido no blog de outro amigo, Moacir Japiassu, sob o título “Para Onde Vamos?” O autor do texto, que não conheço, chama-se Rangel Cavalcante e, como se costuma dizer, “pega na veia” ao analisar a questão do bolsa-família e demais bolsas similares. Vale uma boa reflexão.

Novo cerco aos piratas

Quase ao mesmo tempo em que o governo americano reforçava sua política de combate à pirataria, a polícia paulista prendeu ontem os responsáveis pelo site Brasil-Series, que fornecia seriados e filmes de TV pela internet. Segundo a APCM (Associação Antipirataria de Cinema e Música), o site tinha cerca de 800 mil usuários únicos por mês, visitanbtes que buscavam links para downloads de sucessos como House e Friends. O casal que administrava o negócio vinha sendo vigiado através do Orkut. Como o site tinha anúncios e pedia doações, significava um giro de dinheiro a partir de conteúdos não autorizados.

Também foi fechado hoje o site legendas.TV, especializado em fornecer legendas em português para quem baixa séries americanas da internet – outra prática ilegal. Os dois sites brasileiros estão entre os mais ativos do mundo nessa prática, que agora o governo Obama promete combater com mais rigor. A ação é internacional, e inclui pressionar os governos dos países onde a pirataria é maior para que ajudem no combate. O Brasil, é claro, terá que se posicionar. Infelizmente, nosso país está longe de ser um exemplo nesse campo. Além da pirataria de CDs e DVDs, que pode ser conferida em qualquer esquina, há uma enorme rede de venda ilegal de games, programas de computador e até ligações clandestinas de banda larga e TV a cabo.

Claro, não é um problema só de governo, muito menos só de polícia. Há uma questão cultural aí. O brasileiro em geral parece ter prazer em praticar ilegalidades, ainda que sob o disfarce de “informalidade”, o que vem a dar no mesmo. E quando tem a protegê-lo um governo como o atual, que também adora afrontar a lei, faz a festa. Lamentável.

Todo apoio à eficiência

O amigo Robert Dannenberg me envia convite para um evento que pode ser um marco: o lançamento do Movimento Brasil Eficiente, na próxima terça-feira, 20 de julho, em São Paulo. Várias entidades estão se unindo em torno da idéia de construir uma ação apartidária em defesa da redução dos impostos e de maior eficiência nos gastos públicos. Ou, em outras palavras, a defesa e o estímulo àqueles que sustentam o País, os que trabalham honestamente, geram empregos e contribuem para a sociedade como um todo.

Neste ano de eleições, em que os principais candidatos evitam se comprometer com o tema, é importante esse tipo de iniciativa. O site do movimento já coleta uma série de idéias e dados estatísticos, mas certamente é apenas um primeiro passo. Mais importante é que as pessoas percebam que estão sendo roubadas diariamente e se unam para enfrentar os ladrões. É um direito, e também um dever.

Coreia: lição de gerenciamento

Dizem que o Brasil poderia ser a Coréia, se tivesse feito suas lições de casa entre os anos 60 e 70. Ou poderia ter sido, agora não dá mais. Lembrei desse comentário ao ler outro dia trechos de um relatório mostrando o que seriam os quatro fundamentos da fantástica evolução desse pequeno país asiático nas últimas décadas. A análise, da Consultoria McKinsey, mostra que estamos mesmo a anos-luz deles. Vejam:

1. Investir em tecnologias em que o país pudesse atingir nível de Primeiro Mundo;

2. Manter sob controle as fontes de investimento, para direcioná-los aos setores que mais interessam ao país, evitando a mera especulação financeira;

3. Acelerar a cooperação com a China, vizinho e grande parceiro comercial (além de ser o maior mercado do mundo);

4. Aproximar-se da velha inimiga Coréia do Norte, oferecendo investimentos para torná-la também um bom mercado comprador.

Em vários pontos do relatório, é usada a expressão “investir em pesquisa e desenvolvimento” (R&D, em inglês), quase como uma obsessão. Nem preciso me estender muito. Todo mundo sabe onde está hoje a Coréia. Curiosamente, caiu em minhas mãos outro dia, por acaso, um link da revista Newsweek sobre o mesmo assunto, intitulado “Coréia do Sul sobrevive à recessão com tática de CEO”. Você provavelmente – como eu – não sabia que o presidente do país chama-se Lee Myung-bak; nem que trata-se de um executivo de carreira, ex-CEO da Hyundai, um dos maiores grupos industriais do mundo. Nos anos 80, quando dirigia a empresa, ele investiu agressivamente na conquista de novos mercados, apesar de ser desaconselhado diante da grave recessão que ameaçava o mundo. Quando assumiu a presidência do país, o sr. Lee teve exatamente a mesma atitude. E o que se vê agora é que a Coréia é uma das poucas nações ricas que não está sofrendo tanto com a crise de 2008.

“Esta crise pode pode ser nossa oportunidade de nos tornarmos um país de primeira classe”, disse ele a um grupo de empresários em janeiro de 2009, no auge do pessimismo mundial. Uma parte de seu plano foi aumentar o investimento do governo coreano em… isso mesmo: pesquisa e desenvolvimento (de 3,4% do PIB, o que já era bem alto, para 5%). Mais: reduzir a tributação sobre os investimentos das empresas em… R&D. Resultado: a Coréia foi o primeiro país desenvolvido a sair da crise, no final do ano. E caminha para ter em 2010 uma das taxas de crescimento mais altas do mundo.

Copa, empregos e tecnologia

Que tal um investimento de R$ 3,8 bilhões em tecnologia para um país que pretende organizar dois grandes eventos mundiais? Parece ótimo, não? Pois é o que o Ministério dos Esportes está divulgando. Seria o valor do que será gasto para a Copa de 2.014 somente nos setores de telecom e tecnologia da informação (suponho que esse valor já seja suficiente também para a Olimpíada de 2.016, mas é mera suposição). Segundo o Ministério, a quantia representa 12% do orçamento total previsto para obras de infraestrutura visando a Copa.

É impressionante a capacidade que certos órgãos do governo têm de inventar dados aleatórios. Ninguém, a esta altura, pode ter a menor base para calcular um investimento como esse. Pode ter sido para impressionar a Fifa, ou eventuais patrocinadores, mas não cola. Num momento em que se decide como tocar o Plano Nacional de Banda Larga e implantar um programa sério de inclusão digital, é insano pensar em quanto será investido para um evento que acontecerá daqui a quatro anos. Ainda mais diante de toda a polêmica sobre construção de estádios, estradas e aeroportos, a questão do Centro de Imprensa do Mundial (será em SP? RJ? Brasilia?)…

Como sabemos todos o que aconteceu no Pan-2007, é bom ficar atento. Uma boa providência nesse sentido vem do Tribunal de Contas da União, que criou o site www.fiscalizacopa2014.gov.br para facilitar o acompanhamento dos gastos com a Copa 2.014. O TCU já deu sinais de que não vai ficar assistindo de braços cruzados a gandaia com o dinheiro público, por mais que os cartolas em geral estejam acostumados a isso. Em relatório divulgado na semana passada, mostrou que todas as obras previstas estão atrasadas ou em situação irregular. No site, qualquer pessoa pode checar o andamento das obras, os custos, e até fazer denúncias a respeito.

Que assim seja!

O novo embrulho da Oi

Falando em operadoras telefônicas, o competente Renato Cruz, do Estadão, também deu um furo hoje, ao apurar que houve na semana passada uma reunião entre os acionistas da Oi e o presidente Lula. Motivo: o medo de que a Oi seja adquirida pela Portugal Telecom, caso esta tenha mesmo que vender a Vivo para a Telefônica. Renato dá informação fornecida pela consultoria Economática: desde abril de 2008, quando se juntou à Telemar, a operadora teve desvalorização de 46% em suas ações. O valor da empresa caiu de R$ 23,3 bilhões para R$ 12,6 bilhões!!!

Só para rememorar: os grupos Andrade Gutierrez e La Fonte (Jereissati), dois dos maiores financiadores das campanhas do PT nos últimos anos, têm juntos 38,6% de participação na Oi; o restante é compartilhado entre o BNDES e os fundos de pensão do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, ou seja, dinheiro estatal. A fusão com a Telemar foi praticamente imposta pelo governo, que queria uma empresa forte no setor para competir com as multinacionais Telefônica, Tim e Telmex (Embratel e Claro). Na época, até comentamos aqui que foram jogados nesse negócio extremamente suspeito mais de R$ 6 bilhões.

O problema é que, embora seja a maior operadora de telefonia do País em área de abrangência, a Oi não consegue decolar e não tem mais dinheiro para investir; ao contrário, tem a maior dívida do setor, o equivalente a 2,3 vezes o seu lucro. E, entre as quatro grandes, é a que menos cresce. Assim, como costuma acontecer com empresas geradas “por decreto”, está de novo pedindo socorro a seu pai protetor.

Voltamos então àquela velha moral da história: melhor uma empresa privada problemática do que uma estatal. Se não fosse a intervenção do governo, a Oi poderia simplesmente ser vendida a um grupo interessado e, se bem administrada, sair dessa situação. Pelo jeito, não é o o que vai acontecer.

iPad no Brasil em outubro?

O furo foi dado hoje pelo Portal Exame: o iPad chega oficialmente ao mercado brasileiro no último trimestre do ano, ou seja, a partir de outubro. A informação é do presidente da Claro, João Cox, garantindo que não haverá exclusividade para nenhuma operadora. Todas irão colocar o produto no mercado ao mesmo tempo – isto é, todas as que se acertarem com a Apple, que não costuma brincar com essas coisas. Já se sabia que a empresa americana estava negociando com as grandes operadoras brasileiras, algumas delas querendo exclusividade. Mas isso não interessa à Apple, que prefere uma política menos fechada, até para poder explorar o enorme potencial do mercado brasileiro. Outra promessa (e esta acho mais difícil de cumprir) é lançar até setembro o iPhone 4, que saiu no mês passado nos EUA. Como comentamos anteriormente, o aparelho está sofrendo uma forte campanha negativa devido a problemas na conexão telefônica. A Apple terá que resolver isso antes de lançá-lo em outros mercados.

Uma derrota para a Apple

Já tinha escrito o comentário anterior quando li a notícia de que uma das publicações mais respeitadas do mundo na área de defesa do consumidor – a americana Consumer Reports – detonou a nova versão do iPhone. As falhas de recepção do novo smartphone da Apple, que vêm sendo apontadas por praticamente todos os especialistas nas últimas semanas, levaram a equipe da revista a publicar, com todas as letras, que “não pode recomendar a compra do produto”. Nos EUA, esse tipo de conselho é levado muito a sério.

A Apple apressou-se a informar que está reavaliando o produto e até prometeu uma atualização para contornar o problema. Mas a essa altura o estrago parece que já está feito. Milhões de pessoas já adquiriram o iPhone 4 e estão se queixando de não conseguir completar as ligações. Como diz o The Wall Street Journal, esse é o pior tipo de propaganda que uma empresa pode desejar. Curioso é que a própria Consumer Reports havia publicado um artigo, logo no lançamento do aparelho, elogiando sua performance. Mas, como convém a um veículo honesto e responsável, os editores pegaram três exemplares para testes mais detalhados, e um deles contou que simplesmente não conseguia completar nenhuma chamada (fizeram este vídeo para mostrar). Ironicamente, dizem que o problema só foi amenizado com o uso de uma fita adesiva sobre o display…

Agora, a bola está com a Apple. Como se vê, nem ela é infalível.