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Tentando reinventar a política

Num cenário de terra arrasada, como é a atual política brasileira, abrem-se várias portas para aventureiros. Vale lembrar o que aconteceu nos anos 1980, a chamada “década perdida”: a situação social e econômica era tão caótica, com a inflação rondando os 80% ao mês (e você não leu errado: 80%!!!), que a primeira eleição presidencial pós-ditadura, em 1989, expeliu da cena figuras tradicionais – Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mario Covas – e levou ao segundo turno dois novatos: Fernando Collor e Lula. O que sobreveio é História.

Hoje, não temos mais aquela inflação, mas o desemprego – que na época não era quantificado – e a falência de empresas provocam caos parecido com o de 30 anos atrás. E quase todos os políticos estão desmoralizados. Para quem não se conforma com essa realidade, e teme pelo pior em 2018, é indispensável repensar seus conceitos sobre como escolher os candidatos. Valho-me aqui de um interessante artigo do consultor Rodrigo Tavares, publicado semanas atrás na revista Época, sob o título “A Reinvenção da Política”. 

Tavares acha que as coisas só mudarão no Brasil se houver mais engajamento das pessoas, reduzindo a distância que hoje separa os políticos dos eleitores. Estes têm que ser mais responsáveis ao votar, e isso obriga todos a se informar melhor antes das eleições, para depois cobrar dos eleitos aquilo que foi dito em campanha. Temos o hábito de votar como “obrigação”, na crença de que nada vai mudar. Mas, como diz o consultor, a tecnologia hoje propicia novas formas de participação política – e não estou falando apenas de posts no Facebook ou no Twitter.

Infelizmente, talvez, os partidos políticos continuam sendo a única forma de organizar essas ações num regime democrático. Sim, eles nos roubam o tempo todo, mas há, por exemplo, um projeto de lei para acabar com o Fundo Partidário, que é o que os sustenta (detalhes aqui). O artigo de Tavares descreve algumas das medidas que deveríamos apoiar, e que transcrevo abaixo, para controlar mais de perto os atos dos políticos e dos governantes:

“Por que não usar a tecnologia em nome da causa pública? Cidadãos terão acesso imediato à informação isenta e rigorosa, diminuindo o papel intermediador da mídia, e poderão participar diretamente na tomada de decisões, diminuindo o papel de partidos políticos.

“A tecnologia conhecida como civic tech (tecnologia cívica) transformará eleitores em cidadãos engajados. São plataformas e aplicativos voltados para a transparência e a prestação de contas dos governos, o combate à corrupção e o acesso dos cidadãos à atividade política e a serviços públicos de qualidade.

“Na Islândia, após a crise de 2008-2009, o governo criou uma ferramenta gratuita pela qual todas as pessoas podem, por meio de um aplicativo no celular, propor e discutir políticas. As propostas mais apoiadas pela população são avaliadas pela administração, que mantém os cidadãos informados sobre os resultados do processo. Centenas de iniciativas populares já foram implementadas.

“Hoje, a maioria das pessoas gosta de se diferenciar por raças, religiões, nacionalidades ou outros interesses. Mas a tecnologia ajuda a perfurar essas muralhas psicológicas e a encontrar pontos em comum. Seres humanos têm medo da diferença. Máquinas, não. Em Taiwan, a plataforma pol.is – que tem projetos em cerca de dez países – recebeu crédito por ter ajudado na resolução de um conflito entre estudantes e o governo nacional em 2014.

“No final de 2016, começaram a ser organizados encontros no Vale do Silício, na Califórnia, liderados por empreendedores seriais, sobre a criação de um novo tipo de partido político, fundado em redes sociais, Big Data e machine learning.

Utopia? Pode ser. Mas vale sempre lembrar a frase do grande escritor inglês Arnold Toynbee: “O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados por aqueles que se interessam”.

Igrejas, partidos, sindicatos e privilégios

Corre há dias na internet: no Brasil de hoje, quem deseja ganhar dinheiro deve criar uma igreja, montar um sindicato ou fundar um partido político. Conta-se como piada, mas caberia bem na definição do impagável José Simão: piada pronta, típica da mistura de oportunismo, impunidade e ignorância que domina o país.

As três instituições – igreja, sindicato, partido – se equivalem num privilégio: não pagam impostos. Sempre contaram com a benevolência geral, sendo que, na aberração brasileira, sindicalistas e políticos ainda recebem dinheiro público. Significa que a sociedade paga para alguém representá-la e lutar por suas causas. No mínimo, o retorno que recebe é duvidoso. 

Esta semana, caiu o Imposto Sindical, herança dos tempos do Estado Novo (anos 1930) pela qual 1% do salário de cada trabalhador é recolhido – a palavra correta talvez fosse “confiscado”, já que ao assalariado não é dada alternativa – para distribuição entre os sindicatos. Ainda teremos de ver como se dará na prática essa importante alteração na lei, mas é fato que, além do Imposto Sindical, essas entidades conseguiram ao longo da história, graças a seus lobbies, uma série de privilégios fixados em lei.

Importante aqui registrar que sindicatos não existem apenas para representar grupos de trabalhadores. Muitos congregam empresas, ou entidades de empresas, que os sustentam à custa de arranjos políticos nem sempre transparentes. O caso mais estridente é o do chamado Sistema S (SESI, SENAI, SENAC etc.), financiado por uma taxação obrigatória sobre as empresas (nunca lhes é perguntado se desejam continuar pagando).

Já os partidos se mantêm basicamente com os recursos do Fundo Partidário, criado em 1995 (governo FHC) e que só em 2017 está lhes dando cerca de R$ 800 milhões; deverá ser muito mais em 2018, ano eleições – e, de novo, a população estará pagando. Todos os partidos registrados no Superior Tribunal Eleitoral recebem, proporcionalmente ao número de votos obtidos a cada eleição. Até anos atrás, existia a chamada “cláusula de barreira”: somente os partidos que atingiam 5% dos votos mantinham o registro. Em 2005, o Supremo Tribunal Federal decidiu acabar com esse limite, abrindo a possibilidade para o surgimento de mais partidos. Hoje, são 35 registrados. O argumento usado na época foi que isso era importante para preservar os pequenos partidos, ainda que estes não tenham (ou tenham poucos) eleitores.

Quanto às igrejas, é difícil tocar no assunto sem esbarrar em valores como fé e religiosidade, que são comumente explorados pelos que se intitulam “donos” dos templos. Na prática, qualquer pessoa pode tomar essa iniciativa; existem até sites especializados em orientar a abertura de uma igreja ou local de culto, de qualquer religião. E, ao contrário de um partido político ou sindicato, uma pessoa pode frequentar a igreja de sua escolha sem ser obrigado a pagar. Porém, não é isso que acontece, e denúncias de irregularidades surgem a toda hora. 

Sabe-se que esses locais são isentos de Imposto de Renda e IOF, embora alguns movimentem milhões em dinheiro vivo. Também não têm, como qualquer empresa comum, de pagar IPTU ou ISS. Suas multas são perdoadas por prefeitos de olho nos votos dos fiéis. Nos últimos anos, o “negócio” religioso prosperou expressivamente, com centenas de estabelecimentos espalhados pelo país, alguns deles organizados em forma de redes. Sinal de que o abuso compensa!

Enfim, aí temos três das principais distorções que fazem o Brasil caminhar para trás. Se a sociedade quiser mesmo corrigi-las, é bom começar a pensar nisso agora para, quem sabe, mudar alguma coisa a partir das eleições de 2018.

Diretas já, em 2018!!!

Temos eleições daqui a 15 meses e a maioria da população está farta dos políticos. Só que, sem eles, nada feito. Pela enésima vez, teremos que escolher os menos piores, num cenário cada vez mais tenebroso. Como confiar em pessoas que vivem da mentira, jamais assumem seus erros, encontram-se com bandidos furtivamente nas madrugadas e são capazes de acusar até os mortos?

Bem, ouço dizer que não haverá eleição porque “as elites não deixarão que Lula volte”. Em geral, são as mesmas pessoas que culpam “a Globo” por todos os males do país. É um pensamento típico de quem não entende o mundo atual. Ou finge não entender, o que dá na mesma. Depois de tudo que vimos nos últimos anos, propor que sejam retomadas aquelas mesmas políticas que levaram à maior crise da história é de uma atroz insanidade.

Sim, teremos que votar em 2018. E quem preza a liberdade e a democracia não vai poder fugir. Será escolhido um novo Presidente (e atenção: também seu vice, que fará parte da mesma chapa, ou seja, o mesmo grupo político), além de governadores, senadores e deputados. E, num país com quase 40 partidos,  ninguém poderá reclamar de falta de opções. As pesquisas atuais, que indicam um segundo turno com Lula vs Bolsonaro, não passam de retratos do momento, como são todas as pesquisas.

O que parece claro é que os principais partidos (PMDB, PT e PSDB) estão caindo de podres. Embora tenham vencido amplamente as eleições municipais de 2016, os tucanos dificilmente repetirão o feito após se unirem a Temer e serem pegos na mesma Lava Jato que derrubou o PT. Teriam que encontrar uma “cara nova”. Mas sua maior promessa é Dória, odiado dentro do próprio partido.

Cabe então procurar alternativas. O senador paranaense Álvaro Dias foi lançado pelo Podemos, versão modernizada do PTN, historicamente um partido de centro-direita que acabou caindo nas mãos de Collor e agora busca limpar sua imagem. Traz celebridades como Romário e bate na tecla do combate à corrupção, que certamente será um dos temas centrais da próxima campanha. Mas o grupo não apresenta mais do que isso, pelo menos até agora.

Há também um “Partido Novo”, formado por empresários que dizem não precisar do fundo partidário nem do tempo na TV. Prometem fazer uma campanha totalmente digital. Será interessante conferir se as redes sociais já são suficientemente fortes para substituir as tradicionais máquinas partidárias. 

À esquerda, até agora tudo costumava convergir para o PT. Mas é duvidoso se partidos como PSB e PPS continuarão em sua rota de conveniência, em troca de alguns cargos? PDT, de Ciro Gomes, PSOL e os partidos comunistas às vezes fazem barulho, mas eleitoralmente são inexpressivos. E temos a eterna interrogação chamada Rede, de Marina Silva.  Aliás, por onde anda Marina?

Fato é que não há tempo a perder. Os 14 milhões de desempregados têm urgência, assim como os milhares de empresários quebrados. Procuram-se candidatos com ideias exequíveis e a máxima transparência. Links aqui, por favor. Em tempo: ficha limpa é apenas uma condição, necessária porém não suficiente.

De olho nos podres poderes

O desfecho do julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral joga o pano que faltava sobre a credibilidade do Poder Judiciário brasileiro. Pode-se agora afirmar que nossos três poderes estão podres, variando apenas o grau de podridão. Caberá à população vigiá-los cada vez mais de perto.

A razão invocada pelo presidente do TSE, Gilmar Mendes, de que era preciso acima de tudo preservar a “estabilidade” do país, não se sustenta, pelo fato óbvio dos crimes cometidos, e com excesso de provas. Estaria o presidente da República isento de cumprir a lei como todos os cidadãos? O sempre lúcido Fernando Gabeira questionou brilhantemente o argumento em recente artigo. Vejam este trecho: 

“Estranha estabilidade a que nos oferecem os defensores da presença de Temer. Nos tribunais as provas não valem. Durante as investigações também pouco importam: em vez de se defenderem, os acusados passam a atacar os investigadores. A máquina do Estado volta-se contra as instituições que realmente estão trabalhando com seriedade, desvelando o esquema continental de corrupção”.

Se há instabilidade, e há mesmo, o maior responsável hoje é o presidente, com suas amizades suspeitas. A lista de amigos e colaboradores investigados, alguns já presos, é de tirar o fôlego. Neste sábado, o próprio Temer, anunciando que irá processar o ex-amigo dono da JBS, confirmou o conteúdo da famosa conversa noturna gravada – gravação esta que seus advogados até agora desmereciam alegando ter sido manipulada! De fato, estranha estabilidade…

Curioso que um ano atrás tornou-se consenso que Dilma era ingovernável e, portanto, insustentável. Ela e seu sucessor somam-se a um rol de mandatários que insistem em intimidades com bandidos, incluídos os cinco últimos presidentes (salvo, talvez, Itamar Franco) e muitos dos atuais governadores e prefeitos. O problema deles é que sociedade já não admite mais essas práticas.

Mas a praga se alastra perigosamente para o Poder Judiciário, como vimos na célebre sessão do TSE. Foi patético, para dizer o mínimo, o desfile de excelências rechaçando as provas fartamente coletadas e descritas pelo relator Herman Benjamin. O baixo nível desses magistrados, alguns sem conseguir construir uma só frase sensata em seus longos discursos, justifica o repúdio que se seguiu.

Nesse aspecto, tristemente, o Judiciário acaba se equiparando aos outros dois poderes. Só que os políticos serão julgados nas próximas eleições. Já certos juízes, e como terão chegado a seus postos (que, aliás, são vitalícios), talvez mereçam uma outra Lava Jato.

Educação, igualdade e oportunidade

Talvez não seja coincidência: duas entrevistas publicadas nos últimos dias, em veículos diferentes, tratam da educação no Brasil. Foram concedidas por dois especialistas que, se o país valorizasse seus melhores cérebros, estariam em posições de comando: os economistas, professores e escritores Eduardo GianettiRicardo Paes de Barros. Infelizmente, suas palavras quase caem no vazio porque, definitivamente, educação não é prioridade para a maioria dos brasileiros. Mesmo assim, cliquem nos nomes e leiam com atenção.

Falando para a Folha de São Paulo, Barros – que foi um dos responsáveis pela implantação do Bolsa Família, ainda no governo Lula – defende que a escola estimule mais a curiosidade e o pensamento crítico dos alunos, especialmente as crianças, em lugar de apenas ensinar (mal) o básico de português e matemática. Ideia polêmica, sem dúvida, mas que remete a avanços já praticados em países como Coreia do Sul e Finlândia, segundo o entrevistado. “Se você estimular a criatividade, o pensamento crítico, a curiosidade, pode dar um salto, porque o cara com essas características quase aprende sozinho”, afirma.

E mais: “Não só temos pouca escolaridade, mas a escolaridade que temos é completamente dependente do ambiente familiar, o que é um absurdo… Se a escola ensina para o aluno que o mundo é diverso e flexível e que ele precisa ter autoconfiança e persistir, ela elimina o impacto do ambiente familiar”, acrescenta. “O ensino de habilidades socioemocionais na base  curricular é uma aposta de que isso poderá nos fazer ganhar uma década”.

Já o prof. Gianetti, que é também filósofo e tem uma dezena de livros a respeito, acaba de lançar “Trópicos Utópicos”, obra em que avança nas possibilidades que enxerga para o país sair da armadilha de ser o eterno “país do futuro”. Em entrevista ao site da Livraria Cultura, Gianetti reflete sobre os alarmantes déficits educacionais brasileiros, tanto no ensino fundamental quanto no médio e no superior. “As pessoas acham que têm ensino fundamental completo, ensino médio completo, superior completo e, na verdade, essas credenciais não têm realidade, são diplomas vazios”, comenta.

Como tantos outros pensadores, o economista, que também dá aulas há 30 anos, considera a educação o maior desafio do Brasil na rota para se tornar um país “civilizado”. Mas adverte que as questões emergenciais – como a atual crise de representação política – acabam se sobrepondo. “Os alunos brasileiros são treinados desde o início a reproduzir nas provas o que aprenderam em aula”, analisa. “Mas não são estimulados a pensar por conta própria, a buscar o conhecimento, a ter um pensamento lógico, a fazer perguntas. Se você perguntar em prova o que foi dado em aula e o que está no manual, ele é um excelente aluno. Mas, se você sair um pouquinho do que foi dado em aula, ele fica completamente perdido”.

Bem, recomendo entusiasticamente a leitura das duas entrevistas, além de várias outras que ambos vêm concedendo nos últimos anos, como cabeças privilegiadas que são. Para quem tiver preguiça de ler, uma boa alternativa é assistir às entrevistas de Ricardo PB e Eduardo Gianetti no Roda Viva, da TV Cultura.

Spotlight e o massacre da mídia brasileira

Há pelo menos quatro anos vivemos no Brasil sob intenso massacre noticioso. Somando-se ao turbilhão das notícias internacionais, que a cada minuto pipocam em nossas telas, a crise brasileira não dá sossego. Olhando com viés otimista, é um ótimo sinal de que a democracia institucional, oficialmente instaurada com a Constituição de 1988, está firme e forte. Nunca tantos brasileiros se informaram tanto sobre política e economia, temas que ganharam até as mesas de boteco, frequentemente deixando o futebol em segundo plano. Pode-se mesmo apostar que, hoje, é possível saber tudo (vá lá, quase tudo…) o que está acontecendo de relevante no país, bastando alguns cliques.

Será mesmo? OK, a fragmentação das mídias significa que, a princípio, ninguém mais é “dono” da informação. Acusa-se a grande imprensa (Globo, Folha, Estadão, Editora Abril) de manipular as notícias que chegavam ao distinto público, em sinistra cooperação com os governos e “as elites”. Mas tal afirmação atualmente não resiste a qualquer análise séria: por mais que tentasse, a mídia não possui mais o poder de influência que detinha, por exemplo, no período pós-ditadura. Hoje, todo mundo produz notícia o tempo todo. Nesse aspecto, é ilustrativo observar a queda nas receitas de quase todos os grupos de comunicação. 

Uma crise como a desta semana é oportunidade para observar como se dá na prática essa transição – da informação regulada por uma mídia influente ao crescente poder das redes sociais. Aturdidos, jornais e revistas (e seus respectivos sites e blogs) limitam-se a reverberar os sons que vêm dos centros de poder, notadamente governo, partidos políticos e órgãos de investigação. Não existe mais apuração; trabalha-se com notas oficiais, discursos, relatórios, sentenças, depoimentos oficiais, tudo registrado em texto, áudio e vídeo. E tudo monotonamente igual, em todos os veículos.

“A polícia revelou”, “o ministro comentou”, “o presidente se reuniu”… O que antes era uma obsessão de todo jornalista, o “furo”, parece ter sido esmagado pelo denuncismo e pela preguiça de pensar. Mais vale uma nota oficial na mão do que uma investigação detalhada, que exige esforço e empenho. O último ‘grande furo’ – este do caso JBS – não passou da transcrição de uma gravação (suspeita) liberada pelo STF! E, quando se busca o furo a qualquer custo, como no caso do jornalista Ricardo Noblat, o risco é cair de barriga nas colunas de humor.

Tem sido assim com frequência maior do que seria de esperar. Repórteres e colunistas (aí incluídos os comentaristas de TV), e portanto os veículos que representam, acabam atuando mais como porta-vozes de alguém que quer vazar alguma informação. Costuma ficar claro quem é o alvo do vazamento, às vezes de forma contundente, mas nem sempre ficam claras as motivações de quem vazou. Cabe ao leitor a tarefa de descobrir por sua conta.

Por que, afinal, o empresário influente decidiu delatar? Que vantagens exatamente irá auferir da delação? Por que a Justiça divulga certas gravações autorizadas e mantém outras em sigilo? Por que alguns processos demoram tanto, enquanto outros correm céleres? Como um(a) presidente(a) da República aceita conversar com alguém que é alvo de diversos processos? Aliás, como um presidente ou governador nomeia para cargos relevantes pessoas igualmente suspeitas e/ou sob inquérito? Como a Justiça Eleitoral aprova as contas dos partidos? O que há por trás dos discursos oficiais? 

Raramente as respostas aparecem na cobertura. É uma espécie de avesso de Spotlight, o grande filme sobre a equipe do jornal Boston Globe que desvendou um tenebroso escândalo de pedofilia na cidade. Ali, colocavam-se em dúvida todas as informações oficiais. Prelados, empresários, membros do governo, policiais, todos são averiguados. No Brasil, infelizmente, procedimentos de checagem, se é que existem, ainda são frágeis e pouco transparentes. O que impera é a chamada “imprensa oficialista”, como cunhou certa vez o jornalista Caco Barcellos.

Enfim, todos saem perdendo, especialmente a sociedade, que precisa da mídia ágil, solerte e a salvo dos poderosos, estejam eles onde estiverem. 

Quem deu golpe em quem?

Num país assolado pela falta de memória, o que para algumas pessoas é conveniente, há sempre a chance de voltar a cometer erros passados. Ou crimes. A piada é do humorista americano Emo Philips: “Queria pedir a Deus uma bicicleta. Mas, como sei que Deus não trabalha dessa forma, roubei uma bicicleta e depois fui pedir perdão a ele”. 

De certa maneira, é uma boa definição para essa mania bem brasileira, de fingir que nada tem a ver com o que está acontecendo, por exemplo, na política. Agora mesmo, muitos esquecem que, um ano atrás, o país era presidido por Dilma Roussef. Bem, “presidido”, como se sabe, é mera expressão de linguagem; era um trem desgovernado transportando milhões de passageiros e, no caminho, jogando alguns deles pela janela.

O (des)governo Temer tentou, aos solavancos, mexer com alguns mantras tipicamente brasileiros, como aposentadorias criminosamente infladas, máfias sindicais e subsídios que não param em pé. Conseguiu fazer cair a inflação, ainda que por força da recessão e do desemprego (que, aliás, começaram em 2013). Neste exato momento, ninguém sabe o que será daqui para frente. O processo de lavagem tem que continuar.

De todo modo, recuperar a memória é exercício necessário, e contínuo, sob pena de se achar que o país não precisa de reforma nenhuma e que tudo estava “sob controle”, como dizia Dilma na campanha de 2014. Fuçando em escritos e links do começo do século – sim, este mesmo, o 21 – encontro detalhes que me levam a uma, digamos, cronologia do impeachment, o processo que alguns chamam de golpe. Pelos dados disponíveis, a história, para ser bem contada, deve começar não em 2015, mas dez anos antes. Acompanhem, por favor:

2005 – O deputado Roberto Jefferson, do PTB, denuncia em entrevista o esquema que seria chamado “mensalão”, chefiado pelo chefe da Casa Civil, José Dirceu.

2006 – Em busca da reeleição, o presidente Lula organiza um novo esquema de apoio político. O eixo de financiamento da campanha passa para a Petrobrás, presidida pelo petista Sergio Gabrielli e com Dilma Roussef na presidência do Conselho. No final do ano, Lula se reelege derrotando no segundo turno o candidato tucano, Geraldo Alckmin.

2007 – Lula começa a planejar sua sucessão, atraindo o PMDB, maior partido da oposição. No auge da popularidade, muda a política econômica para aumentar os investimentos sociais. Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES são forçados a investir nas empresas “campeãs”, que puxariam o crescimento: Gerdau, Positivo, OAS, Oi/Telemar, Itaipava, Odebrecht e JBS/Friboi, entre outras. Estas duas últimas se tornaram as maiores financiadoras de campanhas políticas da história brasileira.

2008 – Lula dá um golpe de mestre ao reivindicar (e obter) os direitos de sediar a Copa do Mundo da Fifa, em 2014, e a Olimpíada, em 2016. Na euforia, o país começa a ser preparado para o “grande salto”, com ares de China, enquanto o mundo se debate com a maior crise econômica do pós-guerra.

2009 – Lula escolhe para sucedê-lo uma neófita em política, Dilma Roussef, ministra-chefe da Casa Civil e ex-comandante da Petrobrás. Odiada nos bastidores, inclusive dentro do PT, ela tinha o grande mérito de ser a primeira mulher presidente(a). Atrai o PMDB para uma partilha de poder imbatível nas urnas. E ganha um aliado chamado Michel Temer.

2010 – Dilma vence o tucano José Serra herdando a popularidade de Lula, com estatais e bancos públicos despejando dinheiro na economia e atraindo investidores estrangeiros. Foi a campanha mais cara da história, capitaneada pelo marqueteiro João Santana, discípulo de Duda Mendonça.

2013 – Pipocam as primeiras denúncias sobre um esquema de corrupção da Petrobrás, cuja diretoria havia sido nomeada por Lula (ou Dilma) a partir de indicações do PT, PMDB e outros partidos da base governista. Em junho, milhões de pessoas vão às ruas para protestar contra a corrupção.

2014 – Dilma atropela o PT e impõe sua candidatura à reeleição, contra a vontade de Lula, mantendo a aliança com o PMDB de Temer e fortemente apoiada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros. De novo, uma campanha bilionária, ancorada nos financiamentos das empresas “campeãs”. A candidata insistia que não havia crise, com ameaças de que tudo se perderia caso fosse derrotada. Mas foi uma vitória apertada: 54% dos votos válidos, contra 47% do tucano Aécio Neves. Logo após a reeleição, Dilma dá uma virada da política econômica, decisão que muitos consideraram “estelionato eleitoral”.

2015 – A crise se acentua, com queda nos investimentos, inflação em alta e desemprego. Surgem no Congresso vários pedidos de impeachment da presidente. Nos bastidores, Lula tenta costurar um acordo com Temer, Renan e o novo presidente da Câmara, Eduardo Cunha. No final do ano, este aceita levar adiante o processo de impedimento, que aumenta a tensão política no país. Enquanto isso, aceleram-se as investigações sobre a Petrobrás, com a Operação Lava Jato trazendo revelações bombásticas, especialmente no campo do PT.

2016 – Dilma não consegue mais governar, sem apoio no Congresso, até que em maio é afastada pela Câmara, decisão confirmada em setembro pelo Senado. Assume seu vice, Michel Temer, em meio a enormes desconfianças e acusações de “golpe”. A Lava Jato agora atinge também integrantes do PMDB e boa parte dos empresários que financiaram as últimas campanhas eleitorais. Revela-se em detalhes a promiscuidade de grupos econômicos com os podres poderes Executivo e Legislativo.

Diante da presente interrogação para 2017, espero que tenha sido útil rememorar como chegamos até aqui. No mínimo, para evitar novas ilusões. Quem deu o tal golpe, se é que existiu? E quem dará os próximos? 

Moderadamente otimista

Paulo Francis por paffaro blog

A mineiríssima expressão acima cabe bem ao momento atual. Ouvi outro dia e me lembrei do grande jornalista Paulo Francis (ele mesmo, aí ao lado), cuja morte completa 20 anos no próximo dia 3. “O otimista não passa de um mal informado”, repetia ele a quem quisesse ouvir, realçando sua descrença na espécie humana. Ainda assim, acho que não devemos cair na tentação de maldizer “tudo isso que está aí”, mas nos concentrarmos nos sinais animadores.

No momento em que o maior país do mundo tem em seu comando um demagogo e/ou irresponsável de fazer inveja aos latino-americanos de décadas passadas, não deixa de ser positivo ver o Brasil mexendo em suas entranhas. Discute-se desde a igualdade de gênero até o direito ou não de se pixar muros. Racistas, traficantes e donos de alvos colarinhos resistem, mas no fundo estão com medo.

De certa forma, a Operação Lava Jato eleva-se como símbolo de uma nova atitude. A maior parte da sociedade, tantas vezes enganada e alienada, apoia. Depois da ditadura militar e da impunidade que reinou nos últimos 30 anos, é saudável constatar que hoje a palavra mais ouvida é a de juízes, não a de generais.

Não, juízes não são infalíveis, e ainda bem… Mas somente um judiciário cioso de cumprir a lei – que deve valer para todos – pode brecar os desvios da política. E só uma sociedade atenta é capaz de coibir os excessos dos juízes. Estamos testemunhando a primeira vez na história brasileira em que as pessoas são capazes de relacionar a corrupção a tragédias como as dos presídios e do atendimento médico, para ficar só em dois exemplos do noticiário recente. Os servidores públicos do Rio de Janeiro, ao ver imagens de seus ex-governadores presos, com certeza percebem que os atrasos em seus salários têm a ver com os desmandos dos últimos anos. E, por todo o país, os desempregados e os falidos hão de notar que sua situação está diretamente relacionada às políticas governamentais.

Nada acontece por acaso. Aqueles que votaram em Lula e Dilma devem ter consciência de tudo que resultou de sua enganação. Idem para quem elegeu os governadores dos vários partidos (quase todos, afinal) que agora pedem socorro como se fossem inocentes. E os eleitores que rejeitaram o PT em outubro último precisam saber como fiscalizar os novos prefeitos. Assim caminha a democracia.

Prisões como as de Sergio Cabral, Eduardo Cunha, Marcelo Odebrecht e Eike Batista (esta ainda não consumada, no momento em que escrevo) ilustram, para os governantes atuais, algo que pode vir a ser o seu (deles) futuro, se não abrirem os olhos. Os sinais de que a economia brasileira começa a sair do buraco ainda são fluidos, sutis, e portanto é preciso atenção e paciência. Um rombo do tamanho que fizeram não poderá ser corrigido em dois ou três anos. Teremos ainda que trabalhar dura e longamente para ver, quem sabe, nossos filhos resgatando um país mais digno.

Bem, um ano atrás isso era uma miragem. Agora, podemos ser pelo menos levemente otimistas. Desde que bem informados.

Em tempo: a ilustração acima é do grande artista Paffaro e foi produzida para a primeira edição do Almanaque do Fantástico. 

Três notícias que têm tudo a ver

Divulgadas quase no mesmo dia, três notícias do Brasil atual que parecem – mas só parecem – não ter nada a ver entre si:

Estudantes de ensino médio sabem hoje menos matemática do que sabiam em 2009, e estagnaram em Ciências e Leitura. Com isso, o Brasil caiu no ranking mundial da educação.

Saiu a lista dos dez vídeos mais assistidos do YouTube em 2016. Ali está o resumo dos conteúdos mais apreciados pelos internautas (na maioria, jovens) brasileiros.

Como foi o acordo entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para manter na presidência do Senado um réu chamado Renan Calheiros.

Comunicação de mentirinha

Já sabemos que as redes sociais, especialmente o Facebook e o WhatsApp (ambos do mesmo dono), são terra fértil para notícias falsas. O fenômeno que os estudiosos estão chamando fake news desabrochou de vez com a campanha presidencial americana, mas olhando um pouco para trás veremos que nessa o Brasil foi pioneiro: nossas eleições de 2014 foram, de longe, as mais mentirosas de todos os tempos.

O problema é que, para a maioria, isso parece soar cada vez mais natural. Os fofoqueiros se digitalizaram. Perdoem a comparação. Chamavam-se “fofoqueiros” os colunistas sociais e personagens da boemia que viviam falando da vida alheia, mas esses raramente saíam do campo das frivolidades. Seu assunto preferido era a vida de artistas que, aliás, adoravam ser citados mesmo quando as notícias não eram exatamente verdadeiras. Mas aí vieram os marqueteiros políticos. E hoje está tudo dominado.

Anos atrás, anúncios de uma marca brasileira de sorvetes contavam a história da empresa, cujas saborosas receitas incluíam ingredientes refinadíssimos, todos importados, seguindo uma tradição do fundador, um simpático camponês italiano do início do século passado. Até que, meio sem querer, o atual dono revelou a uma jornalista que era tudo fake – a história fora inventada por um famoso publicitário para “dar um charme” ao produto.

Não sei se os apreciadores dos tais sorvetes deram importância à fraude, mas esta, quando muito, deve ter deixado gosto amargo na boca de alguns. Terrivelmente mais danosas são as notícias “criadas” para eleger um político sem escrúpulos, denegrir a imagem de uma empresa ou pessoa, encobrir falcatruas de empresários poderosos ou acobertar crimes. Já escrevi (aqui, por exemplo) que ninguém é obrigado a acreditar no que lê; ao contrário, deve desconfiar e, sempre que possível, confrontar as fontes.

Por mais que seja divertido repassar aos amigos as novidades, principalmente quando se pode adicionar pitadas de opinião (ou suposição) pessoal, basta assistir a um telejornal ou ver um site de notícias para perceber que esse esporte hoje é muito perigoso. Tomo a liberdade de reproduzir abaixo trechos de uma reportagem do The Wall Street Journal, publicada nesta quinta-feira, sob o título “Notícias falsas são financiadas pelas grandes marcas”.

Começa com esta pérola: “Yoko Ono diz que nos anos 70 teve um caso com Hillary Clinton”. A informação saiu meses atrás num site chamado World News Daily Report. Ganhou manchete. Junto, um grande anúncio da Fiat Chrysler, de olho nos milhões de pageviews que a “notícia” certamente ira produzir. O jornal cita esse entre vários exemplos de fake news produzidos pela assessoria do candidato Donald Trump, cujo marketing foi quase todo baseado no “falem mal, mas falem de mim”. Trump ganhou espaço em todas as mídias com suas frases grosseiras, acusações descabidas, exibições de preconceito, machismo e um enorme etc. Eram falsidades bem pensadas.

Tornaram-se usuais anúncios de empresas respeitadas colados a informações inventadas, graças aos malfadados algoritmos: a empresa compra o espaço sem saber exatamente quando nem como sua mensagem irá aparecer. As agências de publicidade revelam não ter como interferir no processo, comandado pelos dois gigantes atuais da mídia: Google e Facebook. Ambos anunciaram na semana passada que estão desenvolvendo meios de bloquear anúncios em sites mentirosos ou que distorcem informações. Mas, quem acredita?

Especialistas consultados pelo WSJ admitem que será difícil encontrar uma saída que agrade a todos. A própria complexidade da publicidade online já torna a missão ingrata. “Talvez os anunciantes nem saibam, ou talvez nem queiram saber”, resume Dan Greenberg, que dirige a agência de marketing digital Sharethrough. Ele é um dos que defendem iniciativas como boicotar sites baseados em fake news, ou que divulguem mensagens de ódio político, preconceito ou pornografia.

Só que, da forma como está estruturada hoje, a mídia online (leia-se: jornalismo, publicidade, RP e marketing) envolve uma vasta cadeia de participantes interdependentes. E, embora estejamos falando de “comunicação digital”, combater esses e outros desvios é algo que só pode ser executado por seres humanos, cada um com seus respectivos pré-conceitos.

Além do mais, como avalia John Lemp, da agência Revcontent, há muita gente ganhando dinheiro com esse tipo de conteúdo. “O sensacionalismo sempre fez parte do jornalismo”, resume.

Para ler o artigo original do WSJ, clique aqui.

Trump e a crise existencial da mídia

amanpour-horizontal-for-pressroomA jornalista inglesa Christiane Amanpour (foto) é uma das estrelas internacionais da CNN. Já foi correspondente de guerra, durante os conflitos da Bósnia nos anos 1990, e comanda um programa semanal de entrevistas que tem ótima reputação. Na semana passada, Christiane foi homenageada em Nova York com o prêmio Burton Benjamin, do Comitê para Proteção dos Jornalistas, uma ONG dedicada à defesa da liberdade de imprensa em todo o mundo. Vale a pena transcrever aqui os principais trechos de seu discurso de agradecimento, em que conta episódios recentes envolvendo perseguições a profissionais de comunicação, a atuação da imprensa durante a vitoriosa campanha de Donald Trump e as manifestações do presidente eleito sobre a mídia em geral (a íntegra do discurso, em inglês, pode ser conferida aqui).

“Nunca imaginei que um dia estaria num palco como este apelando em favor da liberdade de imprensa e pela segurança dos jornalistas americanos em seu próprio país.

“Fiquei chocada ao ler um post do presidente eleito no Twitter, condenando ‘manifestantes profissionais incitados pela mídia’. Ainda não chegamos lá, mas isso é exatamente o que acontece com ditadores como Sisi, Erdogan, Putin, Duterte, os Aiatolás etc. Primeiro, a mídia é acusada de incitar, depois simpatizar, depois se associar – até que os jornalistas são chamados terroristas ou subversivos. Acabam algemados, sentenciados, presos e sabe-se lá mais o quê.

“Uma grande América requer uma imprensa livre e segura. Portanto, este é um apelo que faço para proteção do próprio Jornalismo. Que todos os profissionais de mídia se dediquem a checar os fatos que relatam, sem medo nem favorecimento. Não aceitem ser chamados de vigaristas, mentirosos ou fracassados.

“Aprendi muitos anos atrás, durante a cobertura na Bósnia, que nunca se deve equiparar vítima e agressor, nem criar uma falsa moral. Porque, quando faz isso, você se torna cúmplice dos mais horrendos crimes. Acredito em ser fiel à verdade, não neutro. E acho que precisamos deixar de banalizar a verdade.

blame-the-media-trump-headlines-jpg-1476980483“Precisamos estar preparados para lutar mais ainda pela verdade, num mundo que o dicionário Oxford anunciou que a palavra do ano é ‘pós-verdade’. O candidato vencedor nos derrotou, conseguindo falar diretamente com as pessoas, combinando um tsunami de notícias falsas (ou seja, mentiras) com o fato incrível de que a maioria não podia, ou não queria, checar os fatos.

“Um dos principais autores dessas notícias falsas chegou a dizer que hoje as pessoas estão mais estúpidas, compartilhando esse tipo de relato sem checar. Será que a tecnologia acabou com nossa capacidade de discernimento? Com a palavra o Facebook. É hora dos anunciantes boicotarem sites que divulgam mentiras.

“Cito aqui palavras de Wael Ghonim, um dos pioneiros da chamada Primavera Árabe: ‘As redes sociais amplificam a tendência humana de procurar apenas os seus semelhantes. Tendem a reduzir complexos desafios sociais a meros slogans, que reverberam em verdadeiras câmaras de eco que são os grupos formados por pessoas com o mesmo pensamento, em vez de buscarem a persuasão, o diálogo e o consenso. Discursos de ódio e inverdades aparecem lado a lado com boas intenções'”.

“Acredito que estejamos enfrentando uma crise existencial, uma ameaça à relevância e à utilidade de nossa profissão. Hoje, mais do que nunca, precisamos nos comprometer com a busca da verdade no mundo real, onde Jornalismo e Democracia estão em perigo. Potências como a Rússia pagam para publicar notícias falsas, invadindo redes de comunicação democráticas, como já fizeram aqui nos EUA e, pelo que se diz, farão também nas próximas eleições na França e na Alemanha.

“Precisamos lutar também contra um mundo de ‘pós-valores’. Desde quando os valores americanos seriam elitistas? Não são valores de direita ou de esquerda. Não são valores de ricos nem de pobres. Como muitos estrangeiros, aprendi que são valores universais. Pertencem tanto aos mais humildes quanto aos mais poderosos. Sim, como muitos pelo mundo afora, também fiquei chocada ao ver nas eleições que tantos americanos ignoraram aquele balcão de linguagem vulgar, comportamento sexual predatório, insultos e misoginia. O governador Mario Cuomo disse que é possível fazer campanha em verso e governar em prosa. Talvez agora se prove o contrário.

“Um apresentador de rádio diz que a mídia é hostil aos valores tradicionais. Acho que é exatamente o contrário. Viram outro dia o grito de ‘Heil, Victory’ em Washington? Desde quando se aceita antisemitismo neste país?

“O que acontece nos EUA também é importante para outras nações. Gostemos ou não, esta é a única superpotência mundial. Inclusive culturalmente. Os exemplos políticos, e os exemplos de mídia fixados aqui, são rapidamente emulados pelo mundo afora. Nós, da mídia, podemos contribuir para um sistema mais funcional, ou então aprofundar as disfunções políticas. Qual desses sistemas queremos deixar para nossos filhos?

“Da mesma maneira, a política degenerou em divisões partidárias em que as divergências são criminalizadas. É um jogo de soma zero: para eu ganhar, preciso destruir você. Essa dinâmica também afeta os grandes grupos de mídia nos EUA, como já aconteceu no Egito, Turquia e Rússia. Jornalistas foram marginalizados, sob a acusação de serem inimigos do Estado. É preciso parar com isso. Temos muito trabalho pela frente, investigando os malfeitos, responsabilizando os poderosos, promovendo governos decentes, defendendo os direitos básicos e até mesmo descobrindo as forças nucleares que existem na Rússia, na Síria, Coreia do Norte etc.

“Será que não podemos manter nossas diferenças sem ter que nos matar uns aos outros? Na nossa profissão, devemos lutar por aquilo que é certo. Lutar por nossos valores. Muita coisa ruim acontece quando as pessoas ficam sem fazer nada. Vamos lutar para continuarmos sendo relevantes e úteis para a sociedade”.

 

Campeãs no tribunal

Em reportagem recente, o jornal O Estado de S.Paulo denunciou alguns desvios típicos do sistema de governo que vigora no Brasil. O foco era a ação das agências reguladoras e seus frequentes conflitos com o TCU (Tribunal de Contas da União). Diante da falta de transparência, ou em alguns casos o notório direcionamento de contratos em benefício de grupos econômicos, diz o texto, o TCU acabou tendo que “substituir” as agências para evitar prejuízos maiores (a quem se interessar, este é o link para a reportagem).

Lembrei do caso a propósito da notícia, divulgada na semana passada, de que a Anatel irá transformar as multas devidas pela operadora Oi em “investimento”. Pode ser difícil de acreditar, mas o Conselho Diretor da agência discutiu e votou, a sério, a proposta da empresa, enredada numa dívida que oficialmente chega a R$ 55 bilhões. Parte desse valor (cerca de R$ 3,2 bilhões) refere-se a multas aplicadas e não pagas, que a Anatel aplicou por não cumprimento de metas de atendimento e de qualidade.

Houve bate-boca entre os conselheiros, mas ao final acabou sendo aprovado um acordo em que a operadora se compromete a investir o valor das multas em redes de fibra óptica, estações-base de 3G, restauração de orelhões e ampliação de sua infraestrutura de rede até 110 municípios que ainda não foram atendidos (vejam os detalhes no site Convergência Digital).

O problema é que, com sua dívida crescente, poucos especialistas acreditam que a Oi terá condições de cumprir essas promessas. Semanas atrás, a empresa anunciou a demissão de 2 mil funcionários, entre outras medidas para reduzir seu custo operacional. O próprio TCU já pediu para examinar o acordo antes da aprovação final.

Só para lembrar, anos atrás a Oi foi uma das “campeãs”, como ficaram conhecidos os grupos escolhidos pelo governo Lula para receber financiamento dos bancos públicos (especialmente do BNDES) em condições especiais. Comentamos o episódio algumas vezes, como aqui e aqui. Outros grupos agraciados foram JBS (Friboi), CSN e empreiteiras hoje investigadas na Operação Lava Jato.

Abaixo a ignorância!

Diante do quadro político e econômico brasileiro atual, merecem reflexão algumas frases do presidente Barack Obama durante discurso que proferiu recentemente perante os formandos da Universidade Rutgers, nos EUA. Alguns sites comentaram, e o vídeo está na internet, mas a tradução foi truncada. A fala foi apresentada apenas como uma crítica ao candidato Donald Trump, mas no fundo Obama quis ir mais longe. Por isso, reproduzo aqui:

“Na política, como na vida, a ignorância não é uma virtude. Não é legal quando você não sabe o que está dizendo. Qualidades como bondade, compaixão, honestidade e capacidade de trabalho são mais importantes do que habilidades técnicas. Mas, quando nossos líderes expressam desprezo pelos fatos, e quando não são responsabilizados por repetirem mentiras e inventarem coisas, enquanto os verdadeiros especialistas são descartados como ‘elitistas’, isso é grave.”

“Quando uma pessoa fica doente, quer saber se o médico está mesmo preparado para cuidar da doença, se estudou e entende do assunto. Quem entra num avião quer saber se o piloto realmente sabe o que está fazendo. E, no entanto, em nossa vida, frequentemente dizemos que não queremos alguém com experiência, alguém que já exercido aquela atividade. Rejeitar os fatos e a razão é o caminho para a decadência.”

“Cuidado quando ouvirem alguém dizendo que tem saudades dos bons tempos. Na verdade, esses bons tempos nunca existiram. Na História do mundo, sempre houve dificuldades, e os momentos de bonança foram esporádicos. Podem acreditar que o mundo hoje é muito melhor do que 50 anos atrás.”

“O mundo é cada vez mais interconectado, e as mudanças acontecem numa velocidade cada vez maior. Construir muros não irá impedir isso. Os últimos vinte anos provaram que não iremos conseguir resolver nossos problemas com isolamento. A melhor maneira de melhorarmos é ajudando a melhorar a vida dos outros.”

“Compreendo as pessoas que se preocupam com a perda de empregos por causa da globalização. Mas a resposta a isso não é parar de negociar com os outros países, nem criar barreiras ao comércio. Devemos ajudar as outras nações a melhorarem seus salários e suas condições de trabalho, pois assim iremos melhorar também esses índices aqui nos EUA.”

“Fatos, evidências, racionalidade, lógica, bom entendimento da ciência, tudo isso é o que se deve procurar nos políticos e cultivar em nós mesmos como cidadãos. Os fundadores da América vinham do iluminismo, fugiam das superstições, do sectarismo, do tribalismo. Eles acreditavam no pensamento racional e na experimentação. Acreditavam na capacidade dos cidadãos bem informados de orientar seu próprio destino.”

“Hoje, temos num smartphone acesso a mais informação do que em toda a História da humanidade. E, ainda assim, isso nos torna mais confortáveis em nossa ignorância. Assumimos tudo que está na internet como verdadeiro. Buscamos sites e opiniões que apenas reforçam nossas predisposições. Mas vocês, jovens, precisam participar mais da política. As coisas não são melhores do que vocês gostariam porque vocês não votaram nos políticos que representem suas visões de mundo. Políticos adoram se eleger. E adoram mais ainda se reeleger. Mas as mudanças só acontecem se você participa. Se você cruzar os braços, eles vão fazer a política que quiserem.”

“Precisamos restaurar a ideia de que o trabalho duro vale a pena. Foi assim que nossos antepassados construíram a democracia. E não foi do dia para a noite. Isso custou muitos anos de debates e negociações. Na democracia, você defende o seu ponto de vista mas também tem que ouvir as opiniões contrárias. Se alguém discorda de você, chame-o para conversar e faça-lhe perguntas duras. Se suas opiniões forem ofensivas, confronte-as, não tenha medo de discutir. Use sua lógica e sua razão, e fazendo isso você estará fortalecendo sua própria posição. Talvez descubra alguma coisa que não havia percebido. Ou seja, de uma forma ou de outra você sai ganhando.”

Vamos parar de roubar!

O título acima é mais ou menos o resumo de um artigo publicado recentemente pelo site da revista inglesa The Economist, uma das mais prestigiadas no ramo dos negócios. O texto se refere à América Latina, com ênfase na situação atual do Brasil. A ideia central é que os problemas políticos tão comuns na região só têm chance de ser resolvidos pela iniciativa da própria população de cada país, sempre tão leniente em relação à corrupção. “Parem de roubar”, parece gritar o articulista (o texto não é assinado), refletindo sobre a relação direta entre os desvios dos políticos e governantes e a situação econômica aparentemente sem saída.

Reafirmando uma ideia que já comentamos aqui, a publicação inglesa comenta que as redes sociais estão tornando os cidadãos mais ativos politicamente, já que facilitam as mobilizações, o que acaba resultando num amadurecimento progressivos da nação. Transcrevo aqui alguns trechos do excelente texto (o original pode ser lido neste link):

“A corrupção é endêmica na América Latina. Os eleitores sempre toleraram os políticos que ‘roubam, mas fazem’ (epíteto que foi aplicado pela primeira vez a um governador de São Paulo nos anos 1940 – N.R.: referência a Ademar de Barros). Em sociedades desiguais, com serviços públicos rudimentares, os pobres eram gratos a governantes que os ajudavam. O boom das commodities nos anos 2000 trouxe riqueza a alguns desses políticos; parte dessa riqueza foi roubada.

“Muitos fatores estão por trás da crescente intolerância à corrupção. Existe uma classe média maior, que exige mais responsabilidade dos governantes e melhor qualidade nos serviços públicos. As redes sociais tornaram mais fácil a mobilização, e a sociedade civil está amadurecendo. Muitos países assinaram tratados internacionais de combate à corrupção e a favor de governos mais abertos. Além disso, surgiram leis internas de acesso à informação e penas mais duras contra os corruptos; no Brasil, sob o governo Dilma, juízes e procuradores ganharam mais independência e se tornaram mais profissionais, além de poderem contar com o reforço das delações premiadas.

“É fundamental que as atuais mobilizações contra a corrupção se traduzam em leis mais eficazes e instituições mais fortes. Dalton Dallagnol, jovem procurador brasileiro que estudou em Harvard e comanda a força-tarefa que investiga a Petrobrás, disse ao jornal argentino La Nación que o objetivo é ‘construir a cidadania, especialmente entre as pessoas de menor poder aquisitivo, para que entendam que o dinheiro roubado via corrupção deveria ser usado pelo Estado para atender às necessidades delas’.

Um outro país (ou: tentando ser otimista)

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Neste 2016, combinam-se três fenômenos que levam à mudança: um desejo sincero da maioria dos brasileiros de poder tocar a vida honestamente; uma nova estrutura judicial que facilita flagrar o(s) assalto(s) ao Estado, sitiado por grupos políticos; e uma rede de comunicação que estimula o monitoramento da sociedade sobre esses grupos.

Sejam quais forem os instrumentos de análise, o ano está nos trazendo uma série de datas históricas. 13 de março, 17 de abril e 11 de maio estarão nos futuros livros de História como momentos em que o país parou para fazer uma autocrítica. Lamentável que não o tenha feito em eleições, de resto devoradas pela mentira marqueteira.

Mas isso agora é passado. O governo que esfacelou o país sob uma teia de crime e corrupção está, enfim, saindo de cena. A população, tantos anos inerte, finalmente reagiu (vejam este exemplo). E os políticos, cuja maior especialidade é o senso de sobrevivência, demonstram – pelo menos boa parte deles – ter entendido o recado.

Não é coincidência que a política tenha substituído o futebol como assunto nas rodas de botequim e nos almoços de família. Nas últimas semanas, os brasileiros puderam ver – ao vivo – a face dos políticos declarando suas crenças e descrenças, como fazemos todos os mortais. As TVs ficaram ligadas até de madrugada, e os celulares replicando as mensagens vindas de Brasilia. Bem-vindos ao mundo da política conectada.

Uma revolução tecnológica e comportamental marca este início de século. É preocupante, embora incontornável, o fato de que, além daqueles que simplesmente defendem suas regalias, propiciadas por um Estado viciado e paternalista, ainda existem muitos professando conceitos e atitudes desmoralizados pelo tempo. Lendo o que escrevem e ouvindo o que dizem, a sensação é que o Muro de Berlim não ruiu… um incrível dèja-vu político, que não cabe mais em nenhum enredo.

Oportunismo e ignorância resultaram, em alguns países da América Latina, no retorno fugaz do delírio socialista. Tristemente, foram esses fatores que regeram o Brasil na primeira década do século 21. Prometeu-se um maná suculento, que viria da mera boa vontade de políticos, sindicalistas e empresários com acesso privilegiado ao caixa das estatais e dos bancos públicos. Literalmente, destribuiu-se dinheiro alheio na compra de votos e de apoios.

Alheia à política, a maior parte da população não se deu conta do golpe assim armado. Um dos (depois confirmado) líderes da quadrilha chegou ao escárnio de exemplificar: o Programa Bolsa Família representa 40 milhões de votos! Mas a cadeia criminosa montada para sustentar o governo a partir de 2003 foi se revelando ao melhor estilo das máfias, que se destroem quando um ou dois integrantes, contrariados em seus interesses, decidem delatar os chefes. Ao entrarem em cena os órgãos de investigação, estimulados por uma sociedade farta dos abusos (e mais informada), nossa Cosa Nostra foi caindo em pedaços.

Vejo no metrô a propaganda do governo: “O Brasil não vai parar”. Alguém poderia acrescentar: “Agora é que não vai mesmo”. Nosso país, como o mundo, é outro em 2016. Quem quiser persistir nos delírios e nos assaltos não será bem recebido.

Sobre militantes e foras-da-lei

A palavra “militante” vem do verbo “militar” – do latim militare, derivado de militis, que é como os romanos chamavam seus soldados. Como estes, todo militante se define pela disciplina e obediência a um comandante. E quanto mais disciplinados e obedientes, maiores chances terão na carreira: medalhas, promoções, um emprego público aqui, uma mordomia ali…

Lênin, talvez o maior líder revolucionário da História, costumava chamar os operários e camponeses russos de “soldados”, para fazer contraposição ao sanguinário Exército do czar Nicolau II. Criou a primeira versão moderna de “milícia” (militia: em latim, “a arte da guerra”), grupos armados que já existiam na antiguidade, mas ao longo do século 20 ganharam o sentido de algo fora da lei.

Tudo isso para dizer que militantes político-partidários são aqueles que obedecem quase cegamente. Não importando as razões do chefe, estarão sempre ali, seguindo suas ordens. Citei Lênin de propósito, porque se atribui a ele a adaptação da famosa frase de Maquiavel – “Os fins justificam os meios” – na raiz dos movimentos que levaram à Revolução Russa de 1917. Valia tudo para derrubar o czar.

Não fosse por seus militantes, Lênin não teria chegado nem perto da Praça Vermelha, em Moscou. Como estrategista, não era grande coisa, mas teve o mérito de conquistar a massa literalmente “no grito”, por anos a fio, com voz firme e vibrante (e sem TV nem internet). Contou, claro, com a decadência do regime czarista, que ninguém aguentava mais. Talvez por falar tanto, e tão bem, não percebeu que um colaborador (Stálin) conspirava para tomar o poder, o que acabou se concretizando em 1922, quando Lênin caiu doente (sua morte, dois anos depois, até hoje rende suspeitas).

Mas é justo afirmar que, não fosse por Lênin, aqueles trabalhadores que fizeram a maior revolução do século 20 talvez não chegassem muito longe. É preciso que alguém fale pelos militantes, embora o líder, quase sempre, diga que fala “em nome do povo”. Como se sabe, militantes são apenas uma minoria, cega, embora barulhenta, que exerce o trabalho braçal: carregar cartazes, tomar chuva, repetir palavras de ordem (sempre as mesmas), pendurar retratos do líder nas paredes, essas coisas. Hoje, também ocupam as redes sociais.

Quem estuda a história dos últimos 100 anos percebe que todas as ditaduras tiveram seus militantes e/ou milícias, dispostos a tudo pelo chefe. Mao, Hitler, Franco, Perón, Getulio, Fidel, Khomeini, Chavez… há quem tenha saudade deles. Mas esses grupos não se formam apenas em regimes autoritários. No Brasil democrático, o exemplo mais vivo de militante é o dos petistas renitentes, aqueles que não debandaram após a vergonha que seu líder supremo os fez passar.

Custa a crer que alguém estudou durante anos, com inúmeras chances de compreender a História, e ainda se deixe levar assim, caninamente. Se camponeses e operários humildes costumam cair na conversa de um orador corrupto e inescrupuloso, não há desculpa para intelectuais que o fazem (outra do latim: intelectus, “inteligência”, “entendimento”). O educadíssimo povo alemão paga até hoje os dividendos afetivos de ter apoiado Hitler. E não vamos, por enquanto, falar de Donald Trump, na torcida para que esse seja apenas um hype de temporada.

Na prática, como vem sendo provado, líder e militante se merecem e se necessitam. Um não existiria sem o outro. O que os une não são ideias, mas a própria necessidade de mandar e de obedecer. Na inapetência para discutir e agir democraticamente, o líder dá ordens, entre palavrões, ameaças, mentiras e preconceitos; e os militantes cumprem, pois não conseguem pensar por conta própria.

Quando o líder se for, nada terão para colocar em seu lugar. Talvez não sobrem nem os retratos na parede.

Netflix no Palácio do Planalto

frank-underwood

 

 

As gravações contendo diálogos entre altas figuras do governo, inclusive a presidente, mostram que não estamos muito longe do ambiente de House of Cards. O diabólico Frank Underwood se materializa em personagens reais, talvez até mais maquiavélicos do que o próprio. Não é mera coincidência que a Netflix, para promover a recém-lançada 4a Temporada da série, venha usando teasers referentes ao noticiário político. Nesta quinta-feira, vimos mais um: o perfil da série no Twitter exibe Underwood “assistindo” sorridente à cobertura dos acontecimentos em Brasilia (vejam aqui).

Para não recorrer ao surrado “seria cômico se não fosse trágico”, lembro que algumas das trapalhadas do Planalto têm lá um quê de Brancaleone. Vejo amigos petistas constrangidos como nunca antes neste país, diante de tramoias como essa de arranjar um cargo para Lula no ministério tentando salvá-lo da prisão. E, pior, tentar pateticamente escondê-la!!!

Sim, é dramático, considerando o caos a que esse pessoal nos levou. Mas tenho esperanças de que, quando tudo passar e Dilma estiver bem longe de Brasilia, daremos boas gargalhadas, como fazemos hoje com nosso amigo Frank.

Para quem ainda não ouviu os citados diálogos gravados pela PF, aqui estão alguns deles.

Dia histórico para a democracia

Veterano da luta contra a ditadura militar e de eventos marcantes como o comício das Diretas Já (16 de abril de 1984, Praça da Sé, São Paulo), saí orgulhoso da Avenida Paulista neste domingo 13 de março de 2016. Passaram-se 32 anos até que a sociedade brasileira, enfim, se reencontrasse com um sentimento de revolta que é fundamental para a democracia de qualquer nação.

O que aconteceu nessas três décadas se assemelha a uma espécie curiosa de letargia. Voltamos, sim, a ter eleições diretas para presidente da República, mas elegeu-se em 1989 um dos maiores mentirosos da história. Na sequência, conseguiu-se conter o monstro da inflação (1994), o que foi saudado por quase todo mundo; e, no entanto, a estabilidade momentânea da moeda gerou certa euforia, que foi captada por um líder sindical midiático para, associado a fortíssimos setores da elite política tradicional, chegar ao comando do país (2002).

O resultado está sintetizado na crise dos últimos meses: governo e partidos políticos totalmente desacreditados, com as pessoas indo às ruas sem saber exatamente o que querem, mas manifestando vivamente aquilo que não querem. Pela primeira vez em 500 anos, os brasileiros conseguem fazer a ligação entre a corrupção e os dramas de sua rotina diária. Ficou dolorosamente claro que o dinheiro que some nos meandros de partidos, órgãos estatais e grandes empresas é o mesmo que falta em escolas, hospitais e na vergonhosa estrutura de serviços públicos.

Se houve ilusão na época em que um real equivalia a um dólar, artificialismo símbolo dos anos FHC, e quando do infeliz “espetáculo do crescimento” (Lula, 2006-2010), o amadurecimento da sociedade brasileira não deixa mais espaço a falsos milagres. O que se viu nas ruas no já célebre 17/03 foi não apenas um “basta” à corrupção, mãe de todos os descalabros perpetrados em nome do povo, mas um sonoro “xô” para práticas políticas que, desgraçadamente, nos acompanham há décadas, séculos.

Lula, Dilma e seus asseclas estão desmoralizados e talvez nem sobrevivam para disputar as eleições de 2018, mas isso não é suficiente para a maioria dos que participaram das manifestações de hoje. Quem ocupar o malcheiroso espaço deixado por eles terá de se comportar de modo muito diferente. Conchavos, que certamente continuarão existindo, estarão agora sob o olhar clínico e implacável da comunicação online. Mensagens instantâneas, compartilhamentos, selfies e até memes na prática neutralizam a ação dos políticos tradicionais. E a mídia, também ela acossada pelas novas tecnologias, já percebeu que só sobreviverá se souber se adaptar a esse mundo de pernas menos curtas.

Não, a internet não está imune à demagogia e à empulhação. Mas escancara essas práticas à enésima potência, desnudando supostos carismas e segundas intenções. Posso estar sofrendo de otimismo excessivo, e espero não ter de corrigir este comentário em futuros posts. Mas o grito das ruas agora reverbera em frequências digitais. E esse é um ótimo motivo para ter esperança.

Big data da corrupção brasileira

“Podemos seguir, de vazamento em vazamento, como se tivéssemos nas mãos um controle remoto de TV ou uma tecla do computador. E dormir, em seguida, como fazemos todas as noites. A visão é, ao mesmo tempo, um privilégio ou uma armadilha. Depende da nossa escolha.”

O parágrafo encerra mais um brilhante artigo de Fernando Gabeira sobre a situação do país. Claro que não pedi autorização a ele, mas mesmo assim reproduzo a íntegra abaixo. Vale como reflexão. Gabeira, jornalista de profissão e eterno militante político, sempre dá o que pensar – embora eu particularmente não concorde com muitas de suas posições, nem goste de seu programa de TV. No caso, a reflexão é: o que estamos fazendo nós, diante das denúncias que não param?

Há um big data dos trambiques, que precisa ser decifrado pelos brasileiros. Como pano de fundo, amizades de décadas já foram desfeitas pelo clima de rancor e preconceito que parece ter tomado conta da sociedade. Ofensas se tornaram rotina nas redes sociais, como as placas de “aluga-se” ou “vende-se” em casas e edifícios. A crise é econômica (ainda que amplificada pela mídia) e também moral (no sentido de que acusar e mentir, repetidamente, virou o esporte mais praticado no país). Já temos tanta violência, e pessoas decentes se apequenam a ponto de propor mais violência ainda!!!

Fico me perguntando o que será menos defensável, do ponto de vista ético: participar de um delito, depois se arrepender e denunciá-lo? Ou não participar, mas compactuar e tentar encobri-lo? Quem quer ser o primeiro a responder?

Agora, com a palavra, Fernando Gabeira:

“O primo do ex-deputado pernambucano Pedro Correia foi visitá-lo na prisão em Curitiba. O relato da visita, numa entrevista ao programa “Geraldo Freire”, é interessante. Clóvis Correia, o primo, é também juiz de direito. Ele sempre aconselhou Pedro a fazer delação premiada. Os advogados não queriam. O primo constatou, com alegria, que Pedro, finalmente, decidiu fazer uma delação premiada, contando tudo o que sabe, desde o período Sarney.
“Segundo o visitante da cadeia de Curitiba, os policiais e procuradores trabalham sem parar porque há uma fila de delatores, inclusive alguns que virão de outros escândalos, como o publicitário Marcos Valério. Ainda não houve tempo para ouvir as histórias de Pedro. O primo Clóvis afirma que, apesar das barbaridades do PT, seria interessante ele contar tudo para se traçar um panorama da corrupção desde a retomada da democracia.
“Um dia, Pedro falará e ficaremos sabendo, aos pouquinhos ou de uma vez só, tudo o que ele fez e conseguiu ver ao longo dos anos em que esteve perto do poder. A entrevista do primo de Pedro me faz voltar à suposição original de que já temos muitas informações sobre os escândalos no Brasil. Não só falta tempo para processá-las, cruzando atenciosamente os dados, como para completá-las, pois o fluxo não cessa com a fila de delatores e o desdobramento de suas confissões.
Nunca se soube tanto. Até as chances de alguém ter feito a fortuna que Eduardo Cunha declarou foram calculadas: uma em 257 septilhões. É possível demonstrar matematicamente que Eduardo Cunha é mentiroso. Jamais me daria a esse trabalho.
“Para quem ouviu falar no Big Data, este oceano de informações que o mundo digital proporciona, fica sempre o temor de que a atração do jogo de dados acabe ofuscando os objetivos. Pode-se trabalhar indefinidamente, com números, conexões, novas hipóteses. Mas as grandes empresas são pragmáticas. Toda vez que ligo o computador aparecem na timeline anúncios de produtos que pesquisei como comprador.
“É inegável que trabalhar com uma grande quantidade de números e relações entre eles pode sempre levar a novas descobertas. Mas é preciso não se perder na floresta. Os dados da Lava-Jato nos chegam aos pedaços. O PT usa isso para afirmar que são vazamentos seletivos. Mas, em termos de partidos, eles já alcançaram quase todos os grandes, inclusive o PSDB. Não se passa um dia sem que algo seja acrescido. As informações se bifurcam, se entrelaçam, iluminam com sua pequena centelha outros cantos escuros da sala.
“Temo que tenham se tornado uma distração. Tenho vontade de perguntar aos procuradores: se as chances da fortuna de Cunha forem apenas uma em 300 septilhões, vocês o prenderiam? É preciso um número redondo para fechar a conta? Para que servem os dados se não levam às consequências? No caso mais amplo do Petrolão é fantástico supor uma quadrilha organizada apenas por José Dirceu.
Acossado pelo processo do Mensalão, preso durante algum tempo na Papuda, é preciso imaginar um vilão de história em quadrinhos para supor que José Dirceu coordenou sozinho o assalto à Petrobras. Onde estão os outros? Onde está Lula, onde está Dilma, onde está o restante da cúpula do PT?
“Um dos grandes problemas do acúmulo de dados é a maneira de associá-los, de buscar as conexões corretas para responder aos enigmas. O computador não resolve sozinho. Se Janot precisa demonstrar que as chances de Cunha não ser bandido são uma em 257 septilhões, quanto septilhões precisaremos para enquadrar Dilma e Lula?
“Sérgio Moro, que não é suspeito de partidarismo como Janot, já disse que não há nada contra Lula, embora os vazamentos, aqui e ali, indicam que há quase tudo contra ele, desde a escolha dos dirigentes da Petrobras à própria montagem do esquema de rapina. O último vazamento foi a delação de Cerveró. Uma cópia, segundo as notícias, teria sido encontrada na gaveta de Delcídio Amaral.
“Não só as delações premiadas como o avanço na tecnologia nos enchem de dados novos. Em tese, posso concluir através deles que, em 22 % dos contratos os corruptos celebraram tomando o vinho Angelica Zapata ou que suas mensagens eletrônicas cresciam 46 % no horário noturno. E daí? Se não tentamos responder às perguntas certas vamos mergulhar nos dados com a mesma alegria com que o velho time do América tramava seus ataques diante do gol. Lindas e complexas jogadas. Ninguém chutava para marcar.
“Isso vale para todos nós. Muitos divulgaram que Cerveró denunciou Wagner por ter financiado sua campanha construindo um prédio da Petrobras em Salvador. Ninguém foi lá saber que empreiteira construiu o prédio, se é correta a indicação de Cerveró. Um novo vazamento ofuscou o primeiro. Agora é um negócio entre Wagner, OAS e fundo de pensão dos funcionários da Caixa.
“Podemos seguir, de vazamento em vazamento, como se tivéssemos nas mãos um controle remoto de TV ou uma tecla do computador. E dormir, em seguida, como fazemos todas as noites. A visão é, ao mesmo tempo, um privilégio ou uma armadilha. Depende da nossa escolha.”