Celulares: à beira de uma epidemia

Por Fernando Reinach*
 
Existem mais de 400 vírus eletrônicos capazes de infectar telefones celulares, mas ainda não sofremos uma epidemia de vírus nesse tipo de aparelho. Para entender o motivo, um time interdisciplinar de engenheiros, físicos teóricos e epidemiologistas estudou como os vírus se espalham na população de telefones celulares.

Foi utilizada uma base de dados contendo informações de aproximadamente 6,2 milhões de telefones celulares de uma grande operadora dos Estados Unidos. Para cada telefone o banco de dados registrava as ligações feitas e recebidas, a duração de cada ligação e as posições exatas do telefone quando cada ligação foi iniciada e terminada. A localização do celular é conhecida porque cada aparelho está em contato permanente com diversas torres de rádio.

Com esses dados é possível determinar, por exemplo, que o celular de Maria estava a 20 metros do telefone de Paulo quando ela ligou para Vera, que estava do outro lado da cidade. É possível determinar que Paulo recebeu uma ligação e uma mensagem de texto nos 10 minutos que antecederam o momento em que ele cruzou com Maria na rua. É possível também descobrir que Paulo e Maria nunca se falaram no celular ou trocaram mensagens de texto.

Os dados também permitiram a construção de um modelo que descreve como cada telefone celular interagiu com cada um dos outros 6,2 milhões de aparelhos ao longo de uma semana. Este modelo foi utilizado para simular o que ocorre quando um vírus é colocado em um dos 6,2 milhões de celulares. Como e em quanto tempo ele se espalha pela cidade, pulando de celular em celular?

Propagação

Os vírus de celulares se propagam por meio de mensagens de texto (MMS) ou de conexões bluetooth (BT, um sinal de rádio que permite que os celulares se conectem aos fones de ouvido sem fio). Para se propagar utilizando MMS, os vírus detectam os números estocados na memória do celular (as ligações feitas e recebidas) e enviam uma cópia de si mesmos para todos estes números (Maria infecta Vera). Desta maneira, o vírus pode infectar celulares que estão fisicamente distantes entre si. Outro mecanismo utilizado pelos vírus são as conexões BT – e neste caso o vírus é enviado para qualquer celular que esteja em um raio de 30 metros, mesmo que os donos desses celulares nunca tenham se comunicado (Paulo infecta Maria).

O que o modelo demonstra é que um vírus capaz de utilizar MMS e o livro de endereço de um único celular infecta 100% dos 6,2 milhões celulares em menos de 20 minutos. No caso de um vírus que utiliza BT, a propagação é mais lenta, levando alguns dias. Mas porque isso ainda não ocorreu?

A razão é que na cidade utilizada como modelo somente 15% dos celulares são “smartphones” capazes de enviar e receber MMS e se conectar utilizando BT. Além disso, como os vírus só se propagam entre celulares que utilizam o mesmo sistema operacional, na prática só atacam uma pequena fração dos celulares. Devido a estes dois fatores, no máximo 3% do total de celulares na cidade estudada é suscetível a infecção por um determinado vírus. Isso faz com que os vírus não consigam infectar o número mínimo de celulares necessário para iniciar uma epidemia.

No passo seguinte, os cientistas simularam um aumento da porcentagem dos “smartphones” ou uma diminuição na diversidade dos sistemas operacionais nos celulares da cidade. O que eles descobriram é que basta aumentar o número de celulares inteligentes para 30% ou reduzir pela metade o número de sistemas operacionais para criar condições propícias para os vírus se espalharem em poucos minutos. Em outras palavras, as cidades modernas estão próximas do ponto de transição em que os vírus de celular podem se tornar um problema.

Um vírus capaz de infectar toda a população suscetível de celulares em menos de 20 minutos pode deixar inativo todo o sistema de comunicação. A velocidade de propagação é tão alta que é quase impossível desenvolver um antivírus a tempo de impedir a pandemia.
 
Publicado em O Estado de S.Paulo, em 28/05/2009
 
*O autor é biólogo

Deixe uma resposta