Como a tecnologia irá mudar a medicina em 2012

Por John Constine

“No futuro, não vamos mais receitar remédios; vamos receitar aplicativos”, me diz Daniel Kraft, diretor do FutureMed, departamento da Singularity University dedicado ao uso da tecnologia em aplicações médicas. Durante o congresso Practice Fusion, em dezembro de 2011, conversamos sobre as principais tendências do mercado que é conhecido como HealthTec. Tendências como inteligência artificial, armazenamento de dados na nuvem, impressão 3D, redes sociais de saúde e outras que permitirão a todos desfrutar de melhores cuidados médicos.

Kraft acredita que, analisando essas tendências, poderemos reinventar a medicina e construir novos modelos de negócio para o setor. Formado em Stanford e com residência médica em Harvard, ele é o fundador da StemCore e inventor do MarrowMiner, aparelho que permite analisar as estruturas ósseas com um mínimo de invasão sobre o corpo. Aqui, organizamos suas ideias em seis capítulos:

Inteligência Artificial (A.I.)

As tecnologias Siri (da Apple) e Watson (da IBM) estão começando a ser aplicadas à medicina. Serão úteis tanto para os médicos quanto para os pacientes, nos diagnósticos e na tomada de decisões. Pela nuvem, qualquer aparelho poderá acessar recursos médicos de A.I. Exemplos: uma máquina de Raio-X na África pode enviar imagens à nuvem, para um especialista analisá-la via inteligência artificial aumentada. Testes de mamografia já podem ser lidos via métodos de reconhecimento artificial.

Essa tecnologia tem potencial para descomplicar certos campos da medicina, como a dermatologia, que é baseada em padrões fixos de imagem – eu olho para a pele e sei o que é aquilo. Em breve, todo atendente de pronto-socorro terá um aplicativo em seu celular que poderá enviar fotos para a nuvem. As imagens serão analisadas via A.I. e alguém poderá dizer se ali está um melanoma ou não. Portanto, o padrão de referências para o dermatologista irá mudar totalmente.

Do lado do consumidor, já existe apps como SkinScan, que custa 5 dólares e permite tirar uma foto de um ferimento e enviá-la à nuvem, para que um médico identifique se é algo perigoso. Se for, o mesmo app pode ajudar o médico a obter mais informações a respeito. Muitos campos da medicina serão beneficiados por essas inovações.

Armazenamento de dados

Estamos conseguindo juntar mais e mais dados a custo cada vez mais baixo. O exemplo clássico é o estudo do genoma humano e seu sequenciamento. Dez anos atrás, custou mais de 1 bilhão de dólares montar uma sequência humana completa. No entanto, o custo e a velocidade para obter esses dados vem caindo mais rapidamente do que previa a Lei de Moore, a ponto de hoje ser possível fazer o pedido do sequenciamento online, por menos de US$ 5 mil. O site 23andMe, por exemplo, oferece um programa-piloto para isso, cobrando US$ 999 por um exame completo.

Talvez 10 mil pacientes tenham sido sequenciados no ano passado; no ano que vem, será 100 mil e logo mais serão milhões… Um sequenciamento de genoma poderá em breve custar o que hoje custa um exame de sangue comum. Quando esse tipo de informação se torna acessível através da busca online, via nuvem e redes sociais, fica mais fácil antecipar os diagnósticos. Pode-se assim tomar as prevenções necessárias e obter mais imagens.

Essa evolução já nos permite também fazer com mais rapidez as análises proteômicas (quantidades e tipos de proteínas no sangue). O desafio é entender esses dados e torná-los disponíveis sem deixar o médico (e o paciente) maluco! Acho que precisamos crair paineis de análises como aqueles usados em aviões. Seria possível coletar dados de vários sensores, inclusive alguns do tipo Kinect, que medem atividades dentro de uma casa, por exemplo. O sensor poderia indicar se tal pessoa está com algum problema físico e automaticamente pedir ajuda, ou pelo menos ajudá-la a procurar o tratamento adequado.

Impressão 3D

Essa é uma tecnologia que já conhecemos há algum tempo, mas que agora está sendo aplicada na medicina. Por exemplo, se uma pessoa perdeu a perna num acidente, é preciso escanear sua outra perna para construir uma prótese do mesmo tamanho e com o tipo de pele apropriado. A impressão 3D está se integrando ao mundo das células tronco e da medicina regenerativa; a tinta 3D é substituída pelas células. No futuro, provavelmente usaremos a impressão 3D para montar “bibliotecas” de partes do corpo que podem ser substituídas. Começará com simples tecidos, e depois evoluirá para órgãos internos.
Redes sociais de saúde

As redes sociais têm a capacidade de mudar nosso comportamento. Quando você diz a seus amigos que está perdendo peso, eles te elogiam pela rede; muitos são pressionados quando não conseguem manter uma dieta. Mas as redes são poderosas também quando se trata de rastrear e até prever doenças. James Fowler, coautor do livro Connected, está trabalhando com o Facebook na análise de dados de saúde. Nós todos estamos mais abertos a compartilhar informações sobre o assunto. As pessoas vão compartilhar cada vez mais, através de serviços como PatientsLikeMe e CureTogether, onde pacientes como problemas semelhantes consolidam informações sobre saúde. E isso permitirá grandes melhorias nas análises clínicas.

Outro serviço do gênero é o Genomera, que está tentando ampliar a possibilidade de exames a baixo custo, em qualquer especialidade médica, através da internet. Pratice Fusion é outro capaz de coletar dados das redes para aumentar seu banco de informações sobre doenças e tratamentos. Dentro de um hospital, ou numa cidade, é possível reunir dados sobre diversos pacientes que têm problemas similares, para estudar tendências e tomar decisões que beneficiem a todos. Um exemplo: você pode ver no computador todos os que têm determinado gene e que estão tomando determinado remédio, e determinar se aquela droga é ou não eficaz.

Comunicação com os médicos

Novas plataformas, como Skype e FaceTime, vão permitir uma comunicação diferente entre os médicos, e entre estes e seus pacientes. O desafio não está propriamente na tecnologia, mas na legislação e nas políticas de reembolso e remuneração que precisam ser fixadas. Se você vai conversar com seu médico pelo iPhone, pode precisar fazer isso com privacidade; e o médico terá que ser pago por isso. Também não será prático o médico ter que coletar seus dados toda vez que você entrar em contato com ele. Terá de haver um sistema regulatório, para recompensar os médicos e os planos de convênio.

Mobilidade

A possibilidade de ter seu telefone conectado a um banco de dados, onde haja informações sobre seu histórico médico, terá inúmeras repercussões. Já existem aparelhos como o Alivecor Electrocardiogram, que pode monitorar o coração de uma pessoa em tempo real, e enviar os dados na hora para a nuvem, de tal modo que seu cardiologista possa examiná-los no mesmo momento. Outros transformam o telefone numa nova espécie de otoscópio ou medidor de glicose.

É o que se chama de aparelhos de autocuidado, que replicam em casa procedimentos que normalmente se tem num hospital. Os tratamentos são monitorados e os dados armazenados, o que é muito mais prático do que preencher um pedaço de papel com aquelas letras complicadas e ter que retornar ao médico meses mais tarde.

No futuro, esses aparelhos irão convergir a algo como o tricorder, de Jornada nas Estrelas, permitindo vários procedimentos médicos. Na África e na Índia, onde há poucos profissionais de saúde para tanta gente, está em curso um enorme esforço para adotar celulares na área de cuidados médicos. Já é possível, por exemplo, sintetizar microfluidos num chip – ao custo de centavos – capaz de acessar a internet para uma análise clínica. Infelizmente, o sistema regulatório da maioria dos países (incluindo os EUA) envolve inúmeros interesses que impedem a adoção rápida dessas novidades. Pior para os doentes.
(c) TECH CRUNCH

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