Como aprofundar (ainda mais) a recessão

Por Gary Shapiro*

A recente série de pacotes de ajuda do governo às empresas americanas ameaça acabar com um dos elementos mais importantes que se pode ter numa economia de mercado: o fracasso. No setor de tecnologia, o fracasso tem sido uma força propulsora para o avanço. Tecnologias são descartadas sempre que surgem outras para atender às necessidades dos consumidores e de nossa sociedade. O videocassete deu lugar ao DVD, que por sua vez está sendo desafiado pelo Blu-ray e pela internet. Os beneficiários desses “fracassos” são os consumidores e, por extensão, a própria economia em si.

O economista Joseph Schumpeter descreveu esse processo de inovação como “destruição criativa”. Para a indústria de tecnologia, a destruição criativa obriga até mesmo as empresas mais poderosas a se adaptar às mudanças do mercado, caso não queiram correr o risco de desaparecer. A economia e os consumidores americanos historicamente vêm sendo beneficiados por esse ciclo perene de avanços. As inovações tornam-se melhores, mais rápidas e menos caras. Enquanto isso, mais empregos são criados para dar espaço a novas oportunidades e fazer crescer o consumo.

O ciclo de inovação é mais ou menos como a própria vida – as melhores lições vêm do fracasso, e não do sucesso. Em Washington, nossos legisladores parecem ter esquecido essa importante regra. Ao se apressar em aprovar pacotes de ajuda para bancos falidos, seguradoras e montadoras de veículos, o Congresso optou por um sistema de mercado em que não existe a opção do fracasso.

Agora, comenta-se que o governo pensa em abrir os pacotes de ajuda oferecidos aos bancos, no valor de US$ 700 bilhões, para pequenas empresas. Das 2.000 empresas de tecnologia representadas por minha entidade, cerca de 80% são pequenas. Muitas estão sofrendo em meio às dificuldades econômicas atuais, e certamente algumas irão desaparecer. É incrível a tentação de criar políticas para proteger grandes e pequenas organizações contra o perigo da falência e do desemprego.

A intervenção do governo soa reconfortante quando se está em dificuldades, mas esta não é uma estratégia nacional sustentável. Se continuarmos nesse processo de ajudar empresas falidas (e algumas delas faliram justamente porque não conseguiram se adaptar às inovações e às mudanças de mercado durante anos), faremos apenas aprofundar a recessão.

Com sua política atual, o governo irá criar um ambiente empresarial onde companhias sadias serão forçadas a competir contra concorrentes subsidiados pelo Estado. As boas idéias e as inovações irão demorar mais tempo para chegar ao mercado. Os preços continuarão mais altos. E os EUA poderão perfeitamente perder sua competitividade diante de outras nações.

Em vez disso, precisamos permitir que o mercado funcione de maneira apropriada e dar aos empreendedores o espaço de que precisam para crescer. Para que os empresários sintam-se estimulados a criar empregos e oportunidades, é necessário deixar falir as empresas… falidas.

O Congresso tem um importante papel a cumprir na recuperação econômica dos EUA, mas antes os legisladores precisam ter mais fé no sistema de livre mercado e na capacidade de inovação. É necessária uma ação política, sim, para fortalecer a economia, criar empregos e garantir o crescimento de longo prazo. Devemos eliminar barreiras alfandegárias para que as empresas americanas exportem mais. Devemos rever a legislação sobre vistos para que os melhores e mais brilhantes imigrantes educados nas escolas americanas permaneçam trabalhando aqui. E devemos recompensar o investimento em novas tecnologias, encorajando particularmente o uso de energias alternativas e a banda larga.

O medo do fracasso irá destruir o futuro da economia. Para a indústria de tecnologia, como nos ensinou Schumpeter, o fracasso é parte do ciclo de inovação. Para o governo dos EUA, permitir o fracasso – e até mesmo esperar por ele – pode ser parte do plano. É isso o que abre caminho para novas tecnologias, novos modelos de negócios e novas empresas.

Embora isso não seja imediatamente percebido, o fracasso deve ser parte da força que faz a economia se recuperar. Sem ele, ficamos estagnados; e, se estamos estagnados, acabamos ficando para trás.

*Gary Shapiro é presidente e CEO da Consumer Electronics Association (CEA), que representa mais de 2.000 empresas de tecnologia e organiza atualmente a Consumer Electronics Show (CES), o maior evento de tecnologia de consumo do mundo. O artigo acima foi publicado no CBSNews.com, em 23/07/09.

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