Como o Google quer mudar as telecomunicações

Por Brad Reed

A Google afirma que não quer ser provedor de internet. Na verdade, quer fazer com que seu provedor atual se comporte mais como… o próprio Google. É por isso que, nos últimos anos, a gigante das buscas na web tem usado sua força financeira e de marca para fazer incursões regulares pela indústria de telecomunicações.

Quando faz lobby por uma legislação de neutralidade na rede, desenvolve seu próprio celular e sistema operacional e cria uma rede de banda larga experimental de alta velocidade, o Google mostra que não dá espaço à timidez quando quer jogar seu peso sobre as operadoras. E o que a Google quer com isso?

Essencialmente, quer dizer que as operadoras devem controlar menos o que podem ou não fazer com suas redes. Um dos objetivos da plataforma Android, por exemplo, é tornar as operadoras menos restritivas a aplicativos e conteúdos que podem ou não funcionar em suas redes sem fio. Ao mesmo tempo, a neutralidade na rede impediria que operadoras dessem prioridade a seus próprios conteúdos, em relação aos de provedores rivais e de outras empresas da internet.

Conheça as três principais iniciativas do Google em telecomunicações, seus objetivos e o nível de sucesso que cada uma atingiu.

Iniciativa 1: neutralidade na rede
Objetivo: o Google não está lutando nesta batalha sozinho. Diversas empresas de internet e grupos de defesa do consumidor têm defendido regras de neutralidade na rede há pelo menos cinco anos.

O pontapé inicial pela neutralidade ocorreu em 2005, quando operadoras de telecomunicações dos EUA promoveram um lobby bem-sucedido na Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês) para revogar normas comuns que as obrigavam a vender largura de banda a terceiros, como o provedor EarthLink, a preços menores.

Tanto as empresas web como os grupos de defesa do consumidor sentiram que isso poderia levar à consolidação do acesso à internet em um pequeno grupo de grandes provedores, o que lhes daria poder para retardar ou degradar o tráfego dos competidores.

Como disse o vice-presidente do grupo de defesa de abertura na mídia Media Acess Project, Harold Feld, no ano passado, “antes de 2005 não precisávamos da neutralidade na rede porque tínhamos uma regra de separação, sob a qual as operadoras tinham de vender o acesso a suas redes de infraestrutura. A AT&T e a Verizon nunca tiveram permissão para tocar na operação de DSL da EarthLink”.

Assim, sob o pretexto de reinstalar regras comuns para teles e operadoras de cabo, as empresas da web começaram a pressionar pela regulamentação da neutralidade da rede como a melhor solução. Resumidamente, a neutralidade é o princípio que defende que provedores de acesso não podem bloquear ou degradar o tráfego de internet de seus concorrentes, para acelerar seu próprio serviço.

As grandes empresas de telecomunicações têm se oposto à neutralidade. Argumentam que tal intervenção governamental poderia retirar os incentivos dos provedores para atualizar suas redes, e com isso frear o próprio desenvolvimento da internet de banda larga.

Resultado: para a Google, está tudo bem. Em outubro de 2009, o presidente da FCC, Julius Genachowski, propôs duas novas regras para proibir as operadoras de bloquear ou degradar tráfego na web, e que as forçaria a serem mais abertas sobre suas práticas de gerenciamento de tráfego.

Mas a batalha está longe de terminar. Tanto a Verizon quanto a AT&T têm lutado ativamente contra a aprovação final das duas regras. As operadoras argumentam que, com a restrição do favorecimento a certos conteúdos e da criação de serviços combinados, elas não teriam incentivos financeiros para investir em atualizações de rede. Além disso, as operadoras têm feito lobby bem-sucedido com diversos políticos, incluindo o senador John McCain, para tentar bloquear as regras de neutralidade da FCC antes mesmo que elas sejam votadas pela comissão.

Iniciativa 2: Android e Google Nexus One
Objetivo: O sistema operacional Android e o smartphone Nexus One são parte da visão da Google de ter aparelhos wireless que não sejam amarrados a nenhuma rede em particular. Em outras palavras, a Google quer que os usuários sejam capazes de levar consigo seus celulares preferidos de uma operadora a outra, sem ter de comprar um novo aparelho.

A primeira parte da implementação dessa visão veio em 2007, quando a Google revelou seu tão aguardado sistema operacional móvel Android. À época do lançamento da plataforma, a Google queria que o Android marcasse o início de um processo de inovação no desenvolvimento de aplicações móveis, que dariam aos usuários do celular a mesma experiência de web que eles têm atualmente em seus PCs.

Pouco mais de dois anos após seu surgimento, o Android chegou a diversos aparelhos de ponta, incluindo o Motorola Droid, o HTC myTouch 3G e o Samsung Moment. Agora que o Motorola Backflip estreou na rede da AT&T, todas as quatro grandes operadoras móveis dos Estados Unidos já oferecem aparelhos com Android.

Mas, embora tenham ocupado bastante espaço no noticiário, os celulares com Android têm sido amarrados a acordos de exclusividade que os tornam dependentes de operadoras específicas. Com isso em mente, a Google lançou no ano passado seu smartphone Nexus One, para funcionar nas redes da T-Mobile e da Verizon. Mas o Nexus One não significa que a Google queira se tornar um fornecedor de aparelhos. Na verdade, a empresa tem usado o Nexus One como demonstração para o potencial da plataforma Android, que roda num aparelho que tem a maior parte do hardware e software de última geração disponível no mercado.

Resultados: sob todos os aspectos, o Android tem sido até agora um grande sucesso. O número de aparelhos baseados em Android cresceu de forma rápida durante o último trimestre de 2009, e agora respondem por mais de 7% dos smartphones vendidos nos Estados Unidos. Quanto ao Nexus One, não poderemos ver seu total impacto até que ele faça sua estreia na rede da Verizon, este mês.

Iniciativa 3: a rede experimental de banda larga
Objetivos: Este poderá ser o mais audacioso projeto da Google até agora. Em fevereiro, a empresa anunciou a construção de uma rede experimental de fibra óptica que vai oferecer “velocidades de internet 100 vezes mais rápidas do que a maioria dos americanos tem acesso hoje, com conexões domésticas de fibra óptica de 1 gigabit por segundo”.

Para ser franco, esse projeto não deverá ameaçar os grandes provedores de acesso, já que os planos da Google incluem apenas “um pequeno número de localidades”, para servir entre 50 mil e 500 mil pessoas.

Tal como seus esforços com o Android e o Nexus One, o plano da Google de montar uma rede de fibra óptica de alta velocidade tem menos a ver com competir diretamente com as operadoras de telecomunicações e mais sobre como forçar essas mesmas companhias a mudar a forma como trabalham.

Colocado de outra forma, a Google está tentando pressionar as operadoras a mostrar suas cartas e apressarem-se em montar redes de alta velocidade.

Diante da oferta, nos EUA, de velocidades típicas inferiores às de países como Coreia do Sul e Japão, a Google está tentando chacoalhar as operadoras americanas, dizendo: “Se nós podemos construir uma rede tão rápida que serve a tantas pessoas, você também pode”.

E mais: a rede Google terá livre compartilhamento, o que significa que outros provedores de serviço serão capazes de usá-la para oferecer internet a seus clientes. Deste modo, a Google tenta ressuscitar a proposta de regras comuns às operadoras, mostrando que é possível ter uma rede de fibra óptica forte e bem-sucedida, que os provedores poderiam usar para revender serviços de acesso.

Resultados: o escopo limitado da rede de testes significa que ela poderia facilmente ser interpretada como um factóide interessante, um modelo não realístico para uma rede nacional de fibra de alta velocidade. Mesmo assim, o simples fato de que a marca Google está por trás dessa rede – e de que outras iniciativas em telecomunicações da Google têm dado certo até agora – significa que o desenvolvimento da rede e sua implementação não irá passar despercebidos pela indústria.

* Publicado originalmente pela agência Network World, dos EUA, em 04/04/2010, e traduzido no Brasil pelo IDG Now.

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