Desafios e oportunidades no mercado de TVs 4K

Por David Hsieh*

Todo fabricante de TV gosta de acrescentar novos recursos às especificações de seus produtos. Inovações estimulam o ciclo de troca dos aparelhos e aumentam a demanda. Nos últimos anos, tivemos o aumento da gama de cores dos painéis, as imagens 3D, os painéis de backlight de led, a redução da espessura dos gabinetes, o aumento da taxa de atualização (de 60 para até 480Hz), o tempo de resposta mais curto e a maior taxa de luminosidade. No entanto, nem sempre essas inovações agregam valor aos TVs.
Há várias razões para isso. A principal delas é que nem sempre o consumidor enxerga os benefícios, recusando-se a pagar mais por eles. Exemplo: a maioria não sente necessidade de maior gama de cores (color gamut) em seus TVs. Além de ser uma questão de gosto pessoal (as preferências quanto à saturação de cores variam muito), as emissoras e operadoras, responsáveis pela transmissão dos sinais, regulam a intensidade das cores de acordo com o conteúdo. Daí por que gama de cores mais ampla nem sempre se traduz em melhor imagem.
Alguns dos recursos que vêm sendo introduzidos pela indústria de fato são interessantes. Mas não propriamente indispensáveis. Nesses casos, o usuário prefere não pagar o custo adicional. Um bom exemplo está nos TVs 3D. Ver um filme 3D no cinema é uma experiência fantástica, mas assisti-lo em casa nem tanto. E a pouca oferta de títulos significa que, para a maioria das pessoas, a imagem 2D está de bom tamanho.
Por razões financeiras, muitos consumidores aceitam TVs com taxa de brilho mais baixa – mas não abrem mão de gabinetes ultrafinos, quando possível. Por tudo, os fabricantes hoje se perguntam quais recursos ou inovações podem representar, de fato, maior percepção de valor para os usuários, a ponto de motivá-los a trocar seu aparelho atual. As respostas são complexas.
Muitos acreditam que os aparelhos com resolução 3.840×2.160, popularmente conhecidos como 4K, conseguirão atrair os consumidores quando forem lançados. Esses números equivalem a quatro vezes a resolução disponível atualmente nos modelos Full-HD (1.920×1.080), e na realidade há indicações de que caminhamos nessa direção.
A evolução dos tablets e dos smartphones, por exemplo, prova que as pessoas adoram alta resolução de imagem – aliás, quanto mais alta, melhor. Tendo acesso a esse benefício em seus aparelhos portáteis, é natural que a maioria queira HD também em suas telas grandes. No uso diário, a percepção do benefício é natural, ao contrário de recursos como smart TV, 3D e backlight de led. E, quando a pessoa se acostuma com alta resolução, é muito difícil voltar à resolução baixa.
Com os TVs 4K, começa a fazer sentido assistir a mais conteúdos em 3D, porque o impacto da perda de resolução não é tão severo. A projeção tridimensional corta a resolução pela metade nos TVs LCD. Com uma imagem original 4K, mesmo após a redução o sinal exibido na tela ainda é Full-HD, caindo de 3.840×2.160 para 1.920×1.080. No caso de TVs gigantes, acima de 60 polegadas, os pixels são tão grandes que tornam-se visíveis em Full-HD. Por isso, existe a percepção da necessidade de imagens 4K em TVs maiores.
O maior obstáculo à popularização da tecnologia 4K está nas limitações de banda das emissoras. Ainda assim, cinco grandes fabricantes já estão desenvolvendo esse tipo de TVs: as coreanas LG e Samsung, a japonesa Sharp e as chinesas AUO e Chimei Innolux. A maioria trabalha com painéis a partir de 55″, visando o segmento top do mercado. A AUO foi a primeira a colocar um deles à venda, usado no TV Toshiba Regza 3D sem óculos, já lançado no Japão.
Apesar dos esforços dos fabricantes, persiste a questão do ecosistema 4K. Atualmente, a indústria de televisão se baseia na largura de banda para transmissão e distribuição do sinal. Para os provedores de conteúdo, será mais difícil atingir resolução mais alta, pois os custos de produção, pós-produção, armazenamento e transmissão serão maiores.
Já existem câmeras de vídeo profissionais capazes de gerar imagens 4K e até 8K. Mas são caríssimas. Sony e JVC são dois fabricantes que prometem oferecer modelos do tipo “consumer” em breve. Mesmo assim, estima-se que o custo de pós-produção em 4K seja de cinco a seis vezes mais alto do que em Full-HD.
Para armazenamento de conteúdos 4K, terão de ser usados discos Blu-ray de dupla camada, cuja capacidade é de 50GB (alguns chegam a 200GB, com os novos processos de compressão). Mesmo assim, será um desafio para os produtores: um filme de três horas em 4K equivale a 3 Terabytes de dados, exigindo nada menos do que 200 discos Blu-ray.

*Especialista da consultoria DisplaySearch – texto divulgado em 16/06/2012

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